Imperatriz do Leste
26 Vigésimo quinto capítulo
Notas iniciais

Algumas semanas depois que descobri as intenções do Norte em exigir que me casasse com alguém de sua escolha para unir o reino, Gael me confrontou sobre isso e fiquei surpresa por ele saber de tal fato quando todos haviam prometido segredo.
— Por que não me contou tudo o que estava acontecendo? Será que depois de tudo que passamos...De todas as juras de amor que trocamos...Ainda não sou digno da sua confiança?! Ainda não consegui confiar em mim para confidenciar seus problemas?! — questionou me olhando com dor e decepção, fazendo lágrimas caírem dos meus olhos.
— Não é verdade, eu confio em você, Gael. Só não contei a verdade, porque estava preocupado com a sua saúde — comecei a explicar, mas ele me interrompeu sério.
— Posso até relevar, que todos estejam fazendo de tudo para me poupar por recomendações médicas, mas você era a única que não podia mentir para mim — apontou entre lágrimas enquanto meu coração se partia diante da sua dor — Como podemos construir uma vida juntos, se me deixa de fora dos problemas para não me preocupar?!
— Não queria que se preocupasse sem motivos, quando podia resolver tudo, sem atrapalhar a sua recuperação. — expliquei e ele gemeu de dor segurando seu ferimento, me deixando preocupada com o seu estado — Vamos conversar sobre isso depois, você não está em condições de se exaltar. — implorei desesperada vendo-o chorar de dor, enquanto todos vinham ampará-lo.
— É o melhor a se fazer, os dois estão nervosos e Gael não pode se exaltar. — Hortência começou a intervir preocupada caminhando em direção ao filho que a olhou sério, fazendo-a parar no meio do caminho.
— Não. Eu quero conversar sobre isso agora — exigiu severo para a mãe, voltando sua atenção para mim — Eu quero ter o direito de me preocupar, Virginia. Quero que os seus problemas, sejam os nossos problemas e que possamos encontrar a solução juntos. Não quero ser apenas o consorte, que senta ao seu lado durante as festas e reuniões da câmara sorrindo e concordando com tudo que você ordena, por mais que ache errado, ou que se deita com você, para lhe dar os herdeiros que tanto precisa para reconstruir sua casa, quero que sejamos parceiros, que possa dividir suas preocupações, anseios e temores comigo, da mesma forma que desejo fazer com você. Mas se continuar me afastando da forma que vem fazendo, não a amor que resista a solidão...Porque é dessa forma que me sinto, quando não confia em mim. — apontou com pesar e senti as lágrimas rolarem por minha face, sem ter forças para argumentar porque no fundo sabia que ele tinha razão.
— É muita inocência de todos aqui presentes, acharem que não desconfiaria do aumento da segurança, da limitação de pessoas que tem acesso aos meus aposentos, resumindo-se apenas a membros de confiança da comitiva do Sul, ou da minha mãe fazer questão em preparar todos os alimentos que irei ingerir?! Se não se lembram, ainda sou o General do Sul, apesar de estar confinado a essa cama e essas quatro paredes, não seriam pequenos detalhes que passariam despercebidos por mim — apontou severo voltando sua atenção para mim. — Saiba que a sua falta de confiança em mim, rainha do Leste, doeu mais do que ser atingido pelo falecido General do seu reino.
— Gael, por favor, me deixe...— pedi entre lágrimas e ele me interrompeu sério.
— Não, o tempo das explicações passaram, rainha do Leste. Me deixem sozinho, não quero ver nenhum de vocês. — ordenou sério desviando seu olhar para outra parte do cômodo, deixando claro que não queria mais continuar a falar sobre o assunto.
— Meu amor, só tente me entender. — comecei a dizer tentando fazê-lo compreender a razão da minha decisão, mas fui interrompida por Hortência.
— É melhor deixá-lo sozinho. Gael pode não se parecer fisicamente com o lado materno da família, mas seu gênio não nega em nada a família real do Sul — Hortência segredou carinhosa me abraçando pelos ombros. — Vamos deixá-lo esfriar a cabeça, antes que os dois digam algo do qual se arrependam e não possam mais voltar a trás.
E foi o que fiz, dei todo o espaço que ele precisava para entender que só estava tentando protegê-lo, mas devo admitir que foi a pior semana da minha vida. Ficar longe de Gael me deixava infeliz, não conseguia me concentrar nas minhas atividades diárias muito menos dormir adequadamente, o que estava despertando a preocupação de todos que temiam por minha saúde.
Tudo que o reino não precisava agora era que sua monarca também ficasse de cama, isso demonstraria toda a fragilidade que a casa real do Leste estava passando: sua reorganização administrativa, a crise financeira do reino, o estado de saúde delicado do futuro consorte, o adiamento do meu casamento em respeito ao período de luto que o reino natal do meu noivo passava, a falta de um sucessor para o trono e a crise com o Norte, que impedia a nossa unificação.
Problemas que tentava suavizar para os meus súditos, temendo que rebeliões se instaurassem por todo o reino na tentativa de evitar que sucumbíssemos, como tantos outros reinos já haviam passado por isso.
— Vossa majestade, tem certeza disso? — Agnes questionou colocando o último estojo de joias, contendo um conjunto composto por tiara, brincos e colar ornamento por diamantes comuns e o raro diamante rosa em cima da mesa. Uma coleção que havia sido presente do meu bisavô a sua esposa, em agradecimento por ela ter lhe dado um primogênito do sexo masculino.

— Sim, Agnes, só irei ficar com os quatro estojos que separei os demais podem ser entregues para o penhor do reino. — expliquei e ela me olhou surpresa, como se não acreditasse no meu pedido.
— Minha rainha, as joias que ficaram em seu poder são inferiores se comparadas as que está enviando para o penhor, exceto as coroas reais do Leste e a tiara que ganhou de presente de aniversário do príncipe do Sul — Agnes disse com pesar olhando para a mesa repleta de joias da coroa, retiradas do cofre real para serem levadas ao penhor do reino —Todas essas joias fazem parte da história da sua família, cada uma delas pertenceu a um antepassado de vossa majestade, elas deveriam continuar com a senhora e serem passadas para a próxima geração da casa do Leste e assim por diante.
—Sei disso, Agnes, mas não posso fechar os olhos para as necessidades que meu povo está passando. Do que me adianta um cofre cheio de joias valiosas, se o meu povo está começando a passar fome e frio nas ruas, por que o reino está sem caixa?! Nem mesmo com a devolução dos valores que retirei, foi capaz de suprir essa necessidade, mas essas joias serão. Elas nos darão folego até que possamos nos equilibrar — expliquei suave e ela suspirou resignada, enquanto me lembrava de algo — Agnes, vamos separar alguns vestidos também, sei de muitas nobres que dariam a vida para usar um modelo feito exclusivamente para a rainha.
— Majestade, a senhora irá se vestir com trapos agora?! — questionou chocada e sorri negando.
— Não é para tanto, Agnes, mas não me sinto confortável em usar roupas luxuosas em tempos de necessidade, você sabe que nunca gostei de chamar atenção só fazia isso porque o falecido General do Leste exigia que enaltecesse meus predicados, fazendo jus ao título de magnifica que tanto odiava — disse dando de ombros e ela balançou a cabeça concordando — Agora me tragam todos os vestidos que tenho, vamos separar alguns e enviá-los junto com as joias reais.
Com a boa soma adquirida com a venda das joias e das roupas, consegui que meu reino tivesse um pouco de respiro financeiro, enquanto marcava reuniões com os principais produtores em busca de soluções para que os produtos alimentícios fossem vendidos a um custo mais baixo a população me comprometendo pagar a diferença, possibilitando que os súditos tivessem o que comer durante esse período de crise que enfrentávamos.
— Fiquei sabendo o que fez, foi uma atitude e tanto — a voz de Hortência soou pela sala do trono e abri os olhos para vê-la caminhando em minha direção — Por que não me pediu ajuda? Sabe que para se casar com você, meu filho tem que pagar um generoso dote ao seu reino, já que sua noiva é uma soberana.
— Estou ciente disso, rainha mãe Hortência. Mas nem sei se o nosso casamento irá acontecer, depois da briga feia que tivemos dias atrás. — disse cansada me mantendo sentada no meu trono, sem forças para me levantar como se todos os problemas do mundo me prendessem naquela cadeira.
— Está desistindo do meu filho, por causa de uma briga?! — questionou surpresa por minha atitude — Esperava mais de você, rainha do Leste.
— E o que espera que eu faça, rainha mãe Hortência?! Que continue insistindo e o obrigue a se casar comigo, para ter ao meu lado o homem que amo, mas que me odeia em troca?!
— Não, os dois merecem ser felizes e sei que só serão juntos. Só peço que não desista do meu filho, Gael te ama de verdade, a prova disso foi que ele recebeu um golpe praticamente fatal para protegê-la.
— É muito irônico, me dizer isso depois de ter deixado bem claro quando nos conhecemos que seu filho é um homem, que já teve algumas aventuras amorosas e não um jovem, para perder a cabeça com a primeira mulher bonita que vê. — lembrei severa fazendo-a suspirar resignada.
— Peço perdão por ter dito isso, estava nervosa e apavorada com a possibilidade do meu filho me deixar semanas depois que o seu pai se foi. Foi cruel da minha parte, prometo que não repetirei tais palavras.
— Está tudo bem, rainha Hortência, vamos esquecer tudo isso. Por favor, me deixe a sós, estou repleta de problemas do reino e só queria um minuto de tranquilidade para a minha mente, antes de começar outra reunião com os lordes da câmara. — pedi e ela concordou me deixando a sós, enquanto olhava para a cadeira vazia ao meu lado, local destinado ao meu consorte, e sorri sem humor.
Porque só agora percebi o quanto Gael estava certo em desejar que dividisse minhas preocupações com ele, porque eram problemas demais para uma só pessoa suportar. E desejei poder ter o meu consorte ao meu lado naquele momento, para que pudesse desabafar todas as minhas preocupações e inseguranças, segurando a minha mão deixando claro que estava ali para me ouvir, quando me sentisse a vontade para falar.
Havia sido a primeira vez que brigamos ou melhor a segunda, se contar a discussão que tivemos quando descobri toda a verdade. Lembrar de toda mágoa que vi em seus olhos, por acreditar que não confiava nele o suficiente para dividir meus problemas ainda me machucava profundamente mesmo após dias, essa recordação sempre me fazia chorar e dessa vez não seria diferente.
Até que em uma noite, após me deixar ciente sobre o estado de seu senhor, como pedi no dia seguinte a minha discussão com Gael, Henrik informou que o príncipe do Sul solicitava minha presença em seus aposentos, isso se fosse do meu desejo.
— Aconteceu alguma coisa com o príncipe do Sul, Henrik? — questionei preocupada temendo que nosso desentendimento houvesse prejudicado sua recuperação.
—Não minha senhora, como lhe relatei antes, o médico real assegura que o príncipe está se recuperando de forma espantosa diante da gravidade que foi o seu ferimento — assegurou tentando me tranquilizar — Devo informá-lo, de que a rainha declinou do seu convite?
Ponderei por alguns instantes, ciente de que deveria recusar seu convite depois de tudo que ouvi de Gael, sinalizando assim que estava reconsiderando o nosso acordo de casamento, mas meu coração pedia outra coisa.
Eu o amava e se ele havia dado o primeiro passo para uma possível reconciliação, em nome de tudo que sentíamos pelo outro iria ao seu encontro.
— Não Henrik, diga ao seu senhor que irei vê-lo. — informei e ele sorriu feliz com a minha resposta, fazendo uma reverência deixando meus aposentos enquanto pedia para Agnes me ajudar a escolher um vestido, entre as opções que havia me restado.
Assim que entrei em seus aposentos na companhia de Agnes, pude ver em seus olhos que toda a tempestade havia passado, ficando em seu lugar a saudade e vergonha, por tudo que havia me dito dias atrás nesse mesmo lugar.
—Bem, já que a rainha do Leste chegou, é melhor deixarmos os dois conversarem a sós, se for da vontade de ambos. — Hortência sugeriu se levantando da cama do filho na qual estava sentada, enquanto os olhos de Gael permaneciam nos meus.
— Agradeço a gentileza, rainha mãe Hortência — disse educada voltando minha atenção para o homem deitado na cama — Isso se o príncipe do Sul, estiver de acordo. — apontei e os olhos de Gael se encheram de lágrimas, ao me ouvir me referindo a ele por seu título de nascença.
—Sim, vossa majestade. — disse com a voz tremula, como se tentasse controlar a dor que via em seus olhos.
— Tudo bem. Sei que não me pediram, mas vou lhes dar um concelho de alguém que já viveu mais do que os dois e já passou por alguns desentendimentos com o marido também. Se desarmem e escutem antes de julgarem, conversem até que encontrem uma solução para as divergências e se comprometam em não repetir os mesmos erros novamente. — rainha mãe Hortência aconselhou e agradecemos, antes dela nos deixar a sós nos aposentos de Gael.
— Me perdoa — Gael implorou entre lágrimas sem desviar seus olhos dos meus assim que estávamos a sós — Não podia ter lhe acusado de não confiar em mim, quando tudo que estava fazendo foi evitar que meu estado se agravasse... Não consigo imaginar, toda a dor, medo e apreensão que deve ter passado, enquanto estava em estado grave e ao em vez de compreender sua atitude a acusei de forma covarde e cruel. — soluçou envergonhado com sua atitude e me sentei ao seu lado na cama, esperando pacientemente que se acalmasse da crise de choro que o atingiu.
— Você não pode se exaltar dessa forma, príncipe do Sul, ou acabará piorando seu estado. — disse oferecendo-lhe uma taça de água assim que parou de chorar e a forma pela qual me referi a Gael, usando seu título de nascença fez seus olhos se encherem de lágrimas novamente.
— Você está com raiva de mim? — questionou entre lágrimas e suspirei negando.
— Com raiva não, apenas triste em saber que o único homem que amei e para quem entreguei meu coração, não permitiu que me explicasse muito menos confiou que estava fazendo o melhor para ele — destaquei fazendo lágrimas caírem de seus olhos — Mas a culpa não foi inteiramente sua. Devia ter contado toda a situação ao em vez de escondê-la, foi um erro lamentável do qual tentarei não cometer mais. — assegurei deixando-o confuso com as minhas palavras.
— Isso quer dizer...— sussurrou com a taça de água em mãos temendo pelo rumo que a nossa conversa iria tomar, mas não poderia culpá-lo já que minhas palavras poderiam ser interpretadas como a comunicação de um rompimento do nosso compromisso, firmado a tantos anos atrás.
Em silêncio retirei a taça de água das suas mãos, colocando-a em cima da mesa que havia ao lado da cama, me inclinando em direção a ele ficando a centímetros do seu rosto com minhas mãos apoiadas ao lado da sua cabeça, evitando que o peso de meu corpo agravasse seu machucado.
— Isso quer dizer, príncipe Gael, a Fúria da noite, da casa real do Sul, irmão caçula do rei Liam, filho da rainha mãe Hortência e do falecido rei consorte Marco, General do exército do Sul e meu marido, rei consorte e futuro imperador consorte do Leste, que não irei mais esconder nada de você. Porque ficar longe de você nos últimos dias, foi a pior coisa que fui obrigada a fazer na vida e não quero mais que isso se repita — destaquei séria sem desviar seus olhos dos meus — Por isso, aceito o seu pedido de perdão. E você, me perdoa por ter escondido a verdade?
— Perdoo — disse sincero acariciando meu rosto com o seu polegar — Eu te amo, Virgínia, e senti muito a sua falta.
— Eu também te amo, Gael, e também senti muito a sua falta. — admiti sincera e Gael se inclinou em minha direção fazendo uma leve careta de dor, devido a sua movimentação brusca.
Ciente do desconforto que ele poderia estar sentindo por tentar se levantar sem ajuda, o empurrei com cuidado para se deitar novamente na cama, completando a distância que nos separava unindo nossos lábios em um beijo profundo, repleto de saudade, amor e promessas de que jamais nos separaríamos novamente.
Nos beijamos até que o ar se fez necessário e tivemos que nos separar a contragosto para recuperamos a respiração, Gael me puxou para o aconchego dos seus braços onde suspiramos de contentamento por finamente estarmos juntos depois de tanto tempo separados.
— Mamãe me contou que teve que vender as joias da coroa do Leste e outras coisas pessoais, para arcar com as despesas do reino — disse e suspirei resignada, não querendo tocar mais naquele assunto, mas havia prometido que dividiria meus problemas com ele — E que ela a lembrou do dote que o Sul deve lhe pagar, assim que casarmos. Porque não recorreu a ele, antes de se desfazer de tudo que era seu?
— Porque não era certo, Gael. Havíamos brigado feio, você deixou claro que não queria mais me ver e não era corretor exigir meu dote, quando nem sabia se o nosso casamento ia realmente se realizar depois disso — expliquei sincera enquanto ele acariciava meus cabelos — Não se preocupe, ainda mantive algumas joias e a tiara que me deu de presente está entre elas.
— Amor, não estou perguntando por que queria saber se havia vendido ou não a tiara que lhe dei, Virgínia, ela foi um presente para você. Do qual poderia fazer o que bem entendesse, porque ela é sua, só quero que saiba que se precisar novamente de recursos posso ajudá-la além do meu dote. Meu falecido avô materno, podia não ser o homem mais amoroso comigo, mas deixou toda sua fortuna para mim quando morreu. Tesouros e bens que ganhou da minha avó, durante toda sua vida por ter lhe dado a herdeira que tanto queria, além das riquezas que recebeu do seu irmão mais velho por aceitar selar a paz entre o Sul e o Oeste, seu extinto reino natal. — explicou e levantei minha cabeça do seu peito para vê-lo.
— Oeste?! O reino extinto das águas das montanhas?!— questionei perdida em pensamentos e ele concordou, enquanto achava estranho o fato do meu marido descender de um reino que minha mãe havia citado na canção em meu sonho.
— Sim. Meu avô materno era o príncipe do meio da casa real do Oeste, ele foi obrigado a se casar com a minha avó para selar a paz entre os dois reinos, mas minha bisavó não cumpriu com a sua parte do acordo e destruiu o reino natal do genro — explicou triste pela ação dos seus antepassados — Isso destruiu qualquer chance que meus avôs teriam de nutrir algum tipo de afeto pelo outro ou terem uma convivência amigável. Como meus pais só se casaram depois que minha avó materna morreu, não tive a chance de conviver com ela, mas meu avô sempre se referia a falecida esposa, como uma mulher desprovida de sentimentos. Já a minha bisavó, ele a descrevia como a própria encarnação do mal.
— E eu achando que a minha família era problemática. — segredei e ele sorriu negando.
— Não, nesse aspecto acho que a minha família é a mais problemática — segredou me fazendo rir concordando sem desviar seus olhos dos meus — Agora que tal, se a minha princesa voltasse para os meus braços, porque ainda não matei a saudade que estou sentindo dela. — pediu sincero abrindo os braços, um convite claro para que voltasse para o local em que estava e fui sem reclamar, suspirando contente ao sentir seu cheiro de madeira silvestre.
— Sei que não justifica, mas, creio que seu avô era do jeito que era porque se via em você e temia que passasse por tudo que passou, por isso lhe deixou uma pequena fortuna. Para que pudesse escolher o seu próprio destino, se fosse obrigado a se casar para acalmar uma guerra poderia comprar sua liberdade com a herança que havia lhe deixado. — expliquei brincando com os botões da camisa branca que Gael usava, enquanto ele permanecia em silêncio provavelmente absorvendo tudo o que havia falado.
— Pensando por esse lado...— ele disse perdido em pensamentos, antes de sorrir sem humor me deixando surpresa por sua reação — Quem diria que o rabugento do meu avô materno, o príncipe Karan da casa do Oeste, gostava de mim do jeito torto e estranho dele?!
— Sim, talvez ele só não soubesse demonstrar, devido a tudo que passou ao lado da sua avó e por ter perdido toda a família por confiar que a sogra cumpriria o que prometeu. Mas se a sua bisavó materna dizimou toda a população do Oeste, por que deixou seu avô vivo na corte dela? Ela não temia uma retaliação da parte dele?
— Quem disse que ela não planejou matá-lo?! Ela só desistiu quando soube que sua filha estava grávida, minha avó implorou a mãe pela vida do marido para que seu filho pudesse ter a chance de conviver com o pai, mas isso não adiantou então ela a lembrou que ele havia feito o seu papel dando o próximo herdeiro para a coroa, por isso fazia parte da família real do Sul e devia ser protegido como tal. Graças a existência da minha mãe, meu avô escapou da morte certa.
— E como sua família se transformou de disfuncional, para pessoas que se amam e se preocupam com as outras?! Pelo menos é o que posso perceber através de você, da sua mãe e de Kiara.
— Meus pais — Gael disse com orgulho em sua voz — Eles se amaram profundamente, desde a primeira vez que se viram até o último dia em que meu pai fechou seus olhos...Eles conseguiram quebrar o ciclo de dor, sofrimento e desamor que existia na casa do Sul, por isso todos os súditos os amam e tem orgulho de seus antigos soberanos, assim como eu tenho de ser filho deles — disse com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas, provavelmente emocionando ao lembrar do seu pai e beijei a sua bochecha direita com carinho, assegurando que estava ao seu lado.
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