A Ala Hospitalar de Hogwarts, com suas paredes de pedra branca e o cheiro perene de poção desinfetante e lavanda, parecia um tribunal sob a luz fria da lua que entrava pelas janelas altas. Madame Pomfrey se movia como uma general, mas era Dominique quem roubava a cena.

A loira havia despido as vestes escolares, revelando uma blusa de seda azul-celeste que contrastava com a rigidez de sua postura. Ela não era mais a prima fútil que se preocupava com o shopping como a irmã; era a herdeira do conhecimento de Fleur Delacour. Seus dedos longos e firmes seguravam o braço de Rose com uma precisão cirúrgica enquanto ela aplicava uma compressa embebida em essência de arruda e lágrimas de fênix sintetizadas.

— Estanque a borda, Dominique! — ordenou Pomfrey. — O veneno de Serperiz é fotossensível. Se a luz tocar o centro da ferida antes da neutralização, a paralisia se torna permanente.

Dominique nem piscou. Seus olhos azuis, normalmente gélidos, estavam focados na reação química que fazia a pele de Rose chiar.


— A pulsação está estabilizando — Dominique murmurou, sua voz de "passarinho" agora assumindo um tom baixo e autoritário. — O Serperiz está recuando. Mas as marcas das unhas... elas são profundas. A toxina penetrou na corrente sanguínea.

Perto dali, o clima era de guerra. James Potter, uma figura imponente que parecia ter saído de um cartaz de recrutamento de Aurores, andava de um lado para o outro. Seus cabelos ruivos, herdados da avó Lílian e da mãe, Gina, estavam bagunçados pelo hábito nervoso de passar as mãos neles. Ele era alto, de ombros largos devido aos anos como apanhador da Grifinória, e seus olhos verdes — idênticos aos do pai — brilhavam com uma fúria contida.

— Ele não apenas terminou com ela — James sibilou para Roxanne, que estava sentada ao pé da cama de Rose. — Ele a envenenou no meio do Salão Principal. Todo mundo viu, meu pai poderia prender aquele bostinha por tentativa de assassinato.

Roxanne, a batedora da Grifinória, era a imagem da paciência estratégica. Suas trancinhas longas e escuras estavam presas em um rabo de cavalo alto, revelando seu rosto de traços finos e atléticos. Ela usava o uniforme de treino, suado e sujo de grama, mas sua calma era o que impedia o teto de cair.

— James, gritar não vai fechar os cortes dela — Roxanne disse, a voz baixa e firme. Ela se inclinou para Rose, pegando a mão ilesa da prima. — Rose, olhe para mim. Por que Scorp faria isso? Vocês estavam planejando o futuro há cinco minutos. O que aconteceu naquelas férias na Mansão Malfoy que nós não vimos?

Rose soltou um suspiro de lixa, os olhos finalmente focando no rosto de Roxanne.

— Eu não sei, Roxy... Ele estava diferente. Mais silencioso. Eu achei que era o peso dos N.O.M.s... achei que ele só precisava de espaço. — Ela fechou os olhos, uma lágrima solitária escapando. — Ele me chamou de irritante. De feia. Mas o que doeu... o que realmente doeu foi o jeito que ele me segurou. Como se eu fosse algo que ele precisasse esmagar.

Um estrondo de metal contra pedra ecoou. Hugo Weasley, que passava por um surto de crescimento que o deixara quase da altura de James, mas com uma massa muscular de batedor que assustava, havia chutado um suporte de bacias. Seus olhos castanhos estavam injetados.

— Eu vou matar ele — Hugo declarou, a voz falhando pelo ódio. — Eu vou descer até as masmorras e vou arrancar cada dente daquela boca de doninha.

Ele tentou avançar em direção à porta, mas um braço magro e forte o barrou. Alvo Potter estava lá. Diferente de James, Alvo era a cópia fiel de Harry: cabelos pretos rebeldes, óculos circulares e olhos verdes penetrantes. O uniforme verde e prata da Sonserina estava impecável, o que tornava a cena ainda mais tensa.

— Sai da frente, Alvo! — rosnou Hugo. — Ele é seu melhor amigo, eu sei, mas se você proteger ele...

— Proteger ele? — Alvo deu um passo à frente, diminuindo a distância para o primo. — Hugo, olhe para o meu uniforme, a lealdade cega é coisa dos leões e não das cobras. Eu durmo no dormitório ao lado dele. Eu sei onde Scorpius guarda a varinha e sei exatamente qual é o feitiço que ele mais odeia.

Alvo colocou a mão no peito de Hugo, empurrando-o de volta.

— Você é um Grifinório. Você vai entrar lá, fazer barulho e ser expulso antes de tocar nele. Eu sou um Sonserino. Eu vou entrar naquele Salão Comunal hoje à noite, em silêncio, e quando ele menos esperar, eu vou fazer ele se arrepender de ter nascido. O Scorpius que eu conhecia morreu hoje naquele refeitório. O que sobrou é um mero inconveniente.

Rose observava a cena, sentindo a dormência do veneno ser substituída por um frio cortante. Ela olhou para os primos — James, o protetor; Roxanne, a mente; Alvo, a lâmina — e para o irmão Hugo, o coração ferido.

— Parem — a voz de Rose cortou o ar. Ela se sentou, ignorando o gemido de dor e o protesto de Dominique. — Ninguém vai socar ninguém hoje.

— Rose, você não pode estar falando sério! — James exclamou.

— Eu sou a pessoa mais inteligente desta escola, James. E vocês sabem disso. — Rose limpou o sangue seco do canto da boca com as costas da mão. — Se vocês baterem nele hoje, ele vira a vítima. O "pobre Malfoy atacado pelos Weasleys brutos". Eu não vou dar esse prazer a ele.

Ela olhou para Dominique.


— Domi, preciso daquela sua poção de brilho. James, meu uniforme de Quadribol. Quero cada dobra perfeitamente vincada. Roxy, prepare o time. Amanhã tem treino aberto no campo.


— O que você vai fazer? — perguntou Alvo, curioso.


Rose deu um sorriso que não chegou aos olhos. Era o sorriso de alguém que acabara de decidir que o luto havia acabado.


— Eu vou ser o que ele disse que eu não era. E vou fazer isso de um jeito que ele nunca vai conseguir esquecer. Ele acha que me paralisou? Ele não tem ideia da velocidade que eu consigo atingir.

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O silêncio na Sala Comunal da Sonserina era sufocante, interrompido apenas pelo estalar da lenha verde na lareira de chamas esmeralda. Scorpius Malfoy estava afundado na poltrona de couro negro, a mesma onde gerações de sua família se sentaram para planejar glórias e esconder ruínas. A garota da Lufa-Lufa que ele usara como escudo humano minutos antes já havia desaparecido, levando consigo o rastro de um perfume floral que o fazia querer vomitar. O olhar que ele dera a ela fora tão gélido que a menina nem sequer questionara; apenas fugira.

Ele olhou para as próprias mãos. Elas ainda formigavam, um efeito colateral do feitiço de pressão necessário para injetar a toxina de Serperiz. A sensação da pele de Rose sob suas unhas — o calor de Weasley que ele tanto amava — agora parecia uma queimadura fantasmagórica em seus dedos.

Deveria ter sido um momento de poder. O triunfo do herdeiro. Mas Scorpius sentia-se como um cadáver ambulante.

Sua mente o traiu, arrastando-o de volta para as férias de verão. Draco e Astoria estavam na Ásia, mergulhados em florestas úmidas em busca de ingredientes raros para as pesquisas alquímicas do pai. Scorpius ficara sozinho na Mansão Malfoy com os avós. E a solidão fora sua sentença de morte.

Lucius Malfoy não precisara de muito para destruir o mundo de Scorpius. Bastou uma coruja interceptada — uma carta de Rose, perfumada com pergaminho novo e cheia de planos para o futuro.

A briga que se seguiu fora homérica, mas não física. Lucius usara palavras como adagas, revirando séculos de história familiar no estômago do neto. Vergonha. Mácula. O fim de uma linhagem milenar por causa de uma garota que carrega o sangue daqueles que nos humilharam.

— Você é um Malfoy, Scorpius — a voz de Lucius, arrastada e aristocrática, ainda ecoava nas paredes da Sala Comunal. — Nós não nos misturamos com sangues-ruins que fingem ser gênios. Nós as usamos e as descartamos antes que elas nos enfraqueçam. Ou você a destrói publicamente, para que não reste dúvida sobre sua lealdade, ou você será o último Malfoy a pôr os pés nesta casa. Escolha: o sobrenome ou a ruína.

Scorpius sabia que o avô não estava blefando. Lucius era capaz de deserdá-lo, ou pior, de garantir que a vida de Rose se tornasse um inferno burocrático e perigoso fora de Hogwarts.

A crueldade no Salão Principal fora um sacrifício.

A prova que Lucius Malfoy pediu para comprovar a fidelidade do neto.

O veneno de Serperiz, ensinado pelo avô durante uma tarde sombria no escritório, fora a garantia. Scorpius sabia que Rose, com seu intelecto brilhante e orgulho Weasley, nunca perdoaria um ataque físico e moral daquela magnitude. Ele a quebrara para salvá-la de algo pior: dele mesmo e de sua família.

“É melhor que ela me odeie do que morra por minha causa,” ele repetia mentalmente, um mantra desesperado para conter as lágrimas que um Malfoy nunca deveria derramar.

Ele pegou o frasco de uísque de fogo sobre a mesa de centro e virou um gole longo, sentindo o líquido queimar a garganta, tentando abafar o gosto de traição.

— Você é inteligente, Rose — ele sussurrou para as sombras verdes da sala, a voz quebrada. — Inteligente o suficiente para saber que eu sou o monstro da história. Por favor... seja inteligente o suficiente para não me procurar.

Ele fechou os olhos, mas tudo o que via era o rosto dela perdendo a cor. O veneno estava no braço dela, mas ele sentia que o seu próprio coração era o que estava apodrecendo. Ele era um fracasso. Um covarde mascarado de vilão.

Enquanto a escola dormia, o "príncipe da Sonserina" era apenas um garoto apavorado, bebendo sozinho e esperando que o amanhã nunca chegasse. Porque amanhã, ele teria que olhar para ela novamente. E ele não sabia se teria força para manter a máscara de gelo se visse o ódio — ou pior, a dor — naqueles olhos que um dia foram seu único lar.

*******

A manhã de terça-feira nasceu sob um céu de aço, frio e cortante. Na enfermaria, Rose Weasley não permitiu que o sol a encontrasse na cama. Madame Pomfrey quase teve um colapso quando a viu em pé, mas Dominique, com sua nova autoridade de medibruxa em formação, assumiu a responsabilidade.

— Se ela ficar presa naquela ala, a mente dela vai corroer o corpo — disse Dominique, enquanto forçava Rose a engolir duas poções de restauração que cheiravam a meia suja e pimenta. — Deixe-a voar.

Rose não apenas voou; ela desfilou.

O campo de Quadribol estava atipicamente cheio. A notícia do término no Salão Principal havia corrido mais rápido que um pomo, e os curiosos esperavam ver uma Rose Weasley em frangalhos. O que encontraram foi uma visão de guerra. Ela vestia o uniforme escarlate, as luvas de couro apertadas e o cabelo ruivo preso em uma trança tão firme que parecia esculpida. A poção de brilho de Dominique fazia cada fio reluzir como fogo sob a luz nublada.

Rose montou em sua vassoura e disparou para os aros.

Diferente de Rony, que era um goleiro de envergadura e nervos de aço (quando não estava nervoso), Rose era uma goleira de antecipação e agilidade física. Sendo menor que a média dos goleiros, ela não preenchia o aro com o corpo; ela o preenchia com velocidade. Ela era uma "goleira de reflexo", capaz de girar a vassoura no próprio eixo em milésimos de segundo. Era uma posição rara para mulheres, mas Rose a dominara transformando sua leveza em uma arma letal.

— Vamos, Hugo! Roxanne! Não poupem os balaços! — Rose gritou lá do alto. — VAMOS THOMAS, PARE DE JOGAR ESSA GOLES COMO SE FOSSE UMA IDOSA! O MESMO SERVE PARA VOCÊ, LONGBOTTOM!

O treino foi um espetáculo de agressividade. Hugo e Roxanne, os batedores, pareciam estar descarregando toda a fúria da família nos balaços de ferro. O som do bastão batendo na bola ecoava como tiros de canhão. No alto, James Potter circulava como um falcão, seus olhos verdes mapeando o campo, mergulhando e subindo com uma elegância que fazia a arquibancada suspirar.

Rose era impenetrável. Ela defendeu dez, vinte, trinta lances. Ela se lançava da vassoura, segurando-se apenas com uma mão enquanto chutava a goles para longe com o pé. Ela estava suada, ofegante e absolutamente magnífica.

— Ela está tentando se matar ou provar que está viva? — sussurrou um aluno da Corvinal na arquibancada.

O treino estava chegando ao fim quando a sombra verde e prata surgiu no túnel. O time da Sonserina entrou em campo para o seu horário de treino. O silêncio caiu sobre o estádio como um manto de gelo.

À frente, Alvo Potter caminhava com a vassoura no ombro, o rosto fechado. Logo atrás dele, o artilheiro principal: Scorpius Malfoy.

O confronto era inevitável. Como Artilheiro, Scorpius era o inimigo direto de Rose. O trabalho dele era invadir o território dela; o trabalho dela era destruí-lo. Opostos perfeitos. A estratégia contra a agilidade.

James e Hugo pousaram imediatamente, as vassouras batendo no chão com força. Hugo já estava com os punhos cerrados, a veia do pescoço saltada.

— Mais um passo, Malfoy, e eu te mando para o St. Mungus sem precisar de vassoura — rosnou Hugo, bloqueando o caminho do ex-cunhado.

Scorpius não reagiu. Ele não levantou a voz, nem o olhar. Ele estava pálido, com olheiras profundas, mantendo os olhos fixos na grama, como se a luz do sol o machucasse. Ele parecia uma sombra do garoto que Rose amara.

— Saiam da frente — a voz de Rose ecoou, fria e límpida, enquanto ela pousava suavemente atrás dos irmãos.

Ela caminhou até ficar a centímetros de Scorpius. O time da Grifinória estava pronto para a pancadaria; os Sonserinos, liderados por Alvo (que olhava para Scorpius com um desprezo mortal), observavam em silêncio.

Uma cobra defende seu ninho, menos quando defender o irmão trará cinco ruivos imensos e com raiva para cima de você. O recado era claro: Foi Scorpius que errou com vocês, se acertem com ele e não com a gente.

Rose não gritou. Ela não chorou. Ela apenas o encarou por longos segundos. Scorpius finalmente levantou o olhar, e o que viu o destruiu: não havia ódio nos olhos de Rose. Havia indiferença.

— O campo é de vocês, Malfoy — ela disse, a voz sem emoção. — Tente marcar algum ponto hoje. Você parece precisar de uma vitória, já que claramente perdeu todo o resto.

Ela passou por ele, o ombro batendo de leve no dele, um toque que fez Scorpius vacilar por um segundo. Roxanne, percebendo o limite da tensão, colocou a mão no ombro de Rose e a guiou para o vestiário antes que Hugo perdesse o controle e voasse no pescoço do loiro.

— Segura a onda, Hugo — Alvo disse, passando pelo primo e dando um solavanco no ombro de Scorpius ao passar. — O jogo é no sábado. Guarde sua força para o campo. Lá, não existem regras de família.

Enquanto os Grifinorios saíam, Scorpius ficou parado no meio do campo, sentindo o perfume de Rose — o mesmo cheiro de pergaminho e restauração — ser levado pelo vento. Ele estava no seu território agora, mas nunca se sentira tão invasor.

Notas finais
esse capitulo é original hein, made in 2026 kkk