A semana em Hogwarts se transformou em um campo de batalha silencioso. Quarta, quinta e sexta-feira passaram sob uma tensão tão espessa que até os fantasmas evitavam os corredores principais.

Na aula de Poções, o Professor Slughorn, alheio ao drama (ou fingindo muito bem), propôs um desafio: a criação de um Antídoto para Venenos Incomuns em tempo recorde. Rose e Scorpius, os melhores da turma, foram colocados em bancadas opostas.

Scorpius trabalhava com as mãos trêmulas, o rosto mais pálido que o normal. Ele olhava para Rose, esperando ver o tremor do Serperiz nas mãos dela, esperando o sinal de que ela precisava dele, mas Pomfrey e Dominique eram excelentes em magia de cura.

Rose Weasley estava em seu elemento. Ela cortava os ingredientes com uma precisão cirúrgica, o movimento fluido e hipnótico. Quando ela terminou, dez minutos antes de todos, ela não olhou para Scorpius. Ela apenas limpou sua bancada, entregou o frasco perfeito e saiu da sala sem dedicar um segundo de sua atenção ao garoto que, no fundo, implorava por um olhar de ódio. O ódio seria melhor que o vácuo.


Nas masmorras, no dia seguinte, a máscara de Scorpius finalmente caiu. Alvo Potter não era de muitas palavras, mas quando falava, era com a precisão de uma flecha. No dormitório da Sonserina, Scorpius tentou justificar o que fizera, mencionando a "proteção" e o avô.

Alvo não esperou o fim da frase. O soco atingiu o maxilar de Scorpius com o peso de anos de amizade traída.

— "Proteção", Malfoy? — Alvo sibilou, enquanto Scorpius caía contra o pé da cama, limpando o sangue do lábio. — Você a humilhou. Você a envenenou. Você não a protegeu de nada, você só provou que é exatamente o que o meu pai sempre disse que o seu avô era: um covarde que se esconde atrás de um sobrenome. Não fale comigo. Não olhe para mim. No sábado, no campo, eu não sou seu amigo, sou apenas o apanhador da sonserina. E saiba que se a Grifinória achar de bom tom bater em você, eu estarei do lado deles.


Enquanto isso, naquela sexta-feira, na Torre da Grifinória, a atmosfera era o oposto. James, Hugo e Roxanne haviam montado um acampamento improvisado em frente à lareira. Dominique, que passava cada vez mais tempo lá e não rondando os corredores como monitora-chefe, servia canecas transbordando de chocolate quente com marshmallows que mudavam de cor.

— Você está bem, Rosie? — Hugo perguntou, encostando a cabeça no ombro da irmã. Ele ainda era o batedor feroz no campo, mas ali, ele era apenas o irmão caçula.

— Eu estou ótima, Hugo — Rose respondeu, e pela primeira vez na semana, o sorriso era real. — Eu percebi que passei onze meses tentando caber nos planos de outra pessoa. Amanhã, eu só vou jogar Quadribol.

Roxanne deu um tapinha no braço dela. — E nós vamos garantir que nenhum Malfoy chegue perto dos seus aros.


Naquela noite, Rose fazia sua ronda de monitora. No corredor do terceiro andar, ela o viu. Scorpius estava parado diante de uma armadura, parecendo uma alma penada. O lábio estava cortado e inchado — obra de um soco de Alvo, ela percebeu na hora.

Ele congelou ao vê-la. O corredor estava deserto. Era o momento perfeito para um confronto, para ele pedir perdão, para ela gritar. Scorpius deu um passo à frente, a voz falhando na garganta.

— Rose... eu...

Ela parou. Olhou para o lábio cortado dele, depois para os olhos vermelhos de quem não dormia há dias. Por um segundo, Scorpius achou que veria a Rose dele de volta, ela teria piedade, ele fez aquilo por amor!

Rose apenas ajustou o distintivo de monitora no peito, consultou o relógio de bolso e disse, com a voz mais burocrática possível:

— meia-noite em dez minutos, Malfoy. Sugiro que volte para o seu salão comunal antes que eu tenha que tirar pontos da sua casa por perambular fora de hora.

Ela passou por ele sem desacelerar. O cheiro dela — baunilha e canela — chicoteou o rosto de Scorpius, deixando-o sozinho na escuridão. Ele percebeu, com um pavor gélido, que a Rose prática era muito mais perigosa que a Rose apaixonada.

Hogwarts estava dividida. Literalmente. As apostas no Salão Principal atingiram níveis astronômicos: de um lado, os que acreditavam na queda da "Rainha Weasley"; do outro, os que apostavam que Scorpius Malfoy não sairia vivo do campo.

Quando os dois times entraram, o barulho foi ensurdecedor. O céu estava nublado, carregado de uma eletricidade que fazia os pelos do braço arrepiar, a escola inteira estava aqui para assistir a guerra.

Rose entrou por último. Ela estava magnífica. O uniforme da Grifinória parecia uma armadura carmesim. Ela não olhou para a torcida. Ela montou na vassoura e disparou para os aros, pairando lá no alto como uma divindade vingadora.


O apito soou e o caos começou. O jogo foi violento desde o primeiro segundo. Não era técnica, era pancadaria aérea.

Hugo e Roxanne não estavam jogando contra os balaços; eles estavam jogando os balaços contra os Sonserinos com uma fúria cega. Em dez minutos de jogo, dois artilheiros da Sonserina já haviam sido atingidos — um no ombro, outro na costela. O sangue começou a salpicar a grama. Scorpius Malfoy mal conseguia tocar na goles sem um balaço raspar sua cabeça.

Lá no alto, o duelo que todos esperavam começou.

Scorpius Malfoy pegou a goles. Ele voava com um desespero sombrio, os olhos fixos nos aros de Rose. Ele precisava marcar. Ele precisava de um sinal de que ainda tinha algum poder sobre ela, ou de que ela ainda se importava o suficiente para vacilar.

Ele mergulhou. A velocidade era suicida. Ele fintou para a esquerda, girou a vassoura e lançou a goles com toda a força em direção ao aro superior.

Rose não apenas defendeu; ela deixou seu profissionalismo claro. Ela se lançou da vassoura, segurando-se apenas com a ponta dos dedos no cabo, e rebateu a bola com um soco que a mandou direto para o outro lado do campo.

— Hoje você não vai conseguir nada aí, Malfoy! — Hugo gritou lá de baixo, enviando um balaço que passou raspando na orelha de Scorpius.

O jogo seguiu num ritmo frenético. Rose estava deixando alguns gols passarem de outros artilheiros para manter o placar equilibrado e o jogo longo — ela queria o cansaço dele. Mas quando a goles caía nas mãos de Scorpius, Rose se transformava.

Ela antecipava cada movimento dele. Era como se estivesse dentro da cabeça de Scorpius, desfazendo cada estratégia antes mesmo dele executá-la.

Na décima tentativa de Scorpius, ele parou a vassoura no ar, ofegante, o suor escorrendo pelo rosto pálido. Ele estava destruído. Rose pairava na frente dele, imóvel, o rosto sereno sob o capacete de couro.

— Desista, Scorpius — ela disse, a voz audível apenas para ele em meio ao vento. — Você não entra mais aqui. Em lugar nenhum.

Scorpius tentou um último lance desesperado, um arremesso de longa distância. Rose apenas estendeu a mão e pegou a goles com a facilidade de quem pega uma maçã. Ela então olhou para ele, soltou a bola e, com um sorriso de lado, fez o sinal de "tchau" com os dedos.


Lá no alto, onde o vento cortava como navalha, o jogo havia se tornado um assunto de família. James Sirius e Alvo Severo orbitavam o estádio como dois satélites em rota de colisão. A rivalidade entre os dois era alimentada por anos de jantares de Natal onde o Quadribol era o único assunto e pela sombra monumental de um pai que era uma lenda viva.

James, no seu sétimo ano, voava com a arrogância técnica de quem já tinha o destino traçado. Ele era o "Apanhador de Ouro", o veterano que dominava a vassoura como se fosse uma extensão do próprio corpo. Já Alvo, o buscador da Sonserina, voava com uma precisão silenciosa e calculista, determinado a provar que a casa das serpentes não o tornava menos "Potter" que o irmão.

De repente, um lampejo dourado surgiu perto dos aros da Grifinória.

Os dois mergulharam ao mesmo tempo. A arquibancada prendeu o fôlego. Era uma queda livre vertical de tirar o fôlego. Ombro a ombro, as vassouras rangiam com a pressão. James olhava fixamente para o Pomo, o rosto transformado em uma máscara de determinação absoluta. Alvo, por sua vez, estava a centímetros da liderança, seus reflexos mais jovens dando a ele uma vantagem milimétrica.

Foi então que aconteceu.

Ao passarem pelo nível dos aros, o campo de visão de Alvo capturou Scorpius. Seu melhor amigo parecia um náufrago no ar, estático após ter mais um gol defendido por Rose. O rosto de Scorpius estava desfigurado pela culpa e pela derrota, e o soco que Alvo lhe dera na noite anterior pareceu pesar uma tonelada no braço do apanhador. Por uma fração de segundo — o tempo de uma batida de coração — Alvo hesitou.

Ele pensou na amizade destruída, no peso do sobrenome Malfoy e no vazio que aquele jogo estava deixando.

James não hesitou. James não tinha tempo para crises existenciais a duzentos quilômetros por hora, ele tinha um objetivo.

Ao sentir o vacilo do irmão, James Potter deu o golpe final. Ele inclinou o corpo para frente, quase saindo da vassoura, e executou uma manobra de rolagem perigosa que o fez passar por baixo da cauda da vassoura de Alvo. Ele esticou os dedos longos e capturou o Pomo de Ouro no exato momento em que precisou puxar o cabo da vassoura para cima, raspando nas tábuas da arquibancada da Sonserina em um arco que desafiava a gravidade.

O apito final cortou o ar. Grifinória vence: 320 a 110.

James pairou no ar, o Pomo vibrando em seu punho erguido, os olhos verdes brilhando com o triunfo do predador. Ele olhou para o irmão mais novo, que ainda estava com a mão estendida para o nada.

— No campo não há amigos, Alvo — James disse, a voz rouca pela adrenalina, mas com um traço de respeito. — E, definitivamente, não há espaço para piedade. Você olhou para ele, não foi?

Alvo não respondeu. Ele apenas observou James descer para ser engolido pela multidão. O irmão mais velho havia garantido a taça, mas Alvo havia aprendido a lição mais amarga de todas: na dinastia Potter, a excelência não aceitava distrações.

O campo foi invadido. A torcida rugia. Hugo e Roxanne carregaram Rose nos ombros. Ela ria, vibrante, o rosto sujo de poeira e suor, parecendo mais viva do que nunca.

Scorpius pousou sozinho no canto oposto do campo. Ninguém foi comemorar com ele. Nem mesmo os Sonserinos. Alvo passou por ele, guardou a vassoura e disse apenas uma frase antes de seguir a família:

— Ela te avisou que você perdeu tudo, Malfoy. Só faltava você ver com os próprios olhos.