Impenetrável
6 COMEMORAÇÃO
A Sala Precisa não era mais uma sala; naquela noite, ela se transformara em um labirinto de luzes neon, batidas pulsantes que faziam as paredes de pedra vibrar e um céu enfeitiçado que projetava constelações em movimento. Planejada há dois meses por James e Alvo — uma rara trégua diplomática entre as casas para celebrar o maior clássico da escola —, a festa era um segredo compartilhado por sussurros e galeões de ouro.
O ar era uma mistura inebriante: o amargor do uísque de fogo, o doce metálico da cerveja amanteigada e o rastro hipnótico do Narciso. A fumaça azulada da erva bruxa serpenteava entre os corpos, relaxando os nervos e dilatando as pupilas de quem buscava esquecer, por uma noite, as regras do Ministério.
As apostas, que começaram no café da manhã, agora eram o motor da festa. Grupos de alunos se amontoavam com pergaminhos e galeões.
— Dez galeões que a Rose não dá nem boa noite para o Malfoy! — gritava um terceiranista da Corvinal.
— Pago vinte que o James e o Alvo terminam a noite num duelo de feitiços! — rebatia outro.
No centro desse caos, o primeiro grande choque da noite aconteceu.
Atrás de uma tapeçaria pesada que retratava a queda de um reino esquecido, o segredo mais bem guardado do sétimo ano foi exposto.
Dominique Weasley estava prensada contra a parede de pedra fria, mas ela parecia estar em chamas. Ela vestia um conjunto de renda azul-noite que realçava cada curva de sua herança Veela, exalando um perfume de jasmim e perigo. Suas mãos, as mesmas que cuidavam de feridas com precisão cirúrgica na enfermaria, estavam enterradas com possessividade nos cabelos ruivos e rebeldes de James Potter.
James a segurava pela cintura com uma força que denunciava os três meses de desejo reprimido. O beijo era faminto, uma colisão de línguas e dentes que parou o tempo para quem passava por ali. Quando se afastaram, ofegantes, um fio de saliva prateado brilhou sob as luzes neon.
— Você joga o jogo mais perigoso da escola, Potter — Dominique sussurrou, a voz rouca, os lábios inchados e vermelhos.
— Eu sou um apanhador, Domi — James rebateu com um sorriso predatório, limpando o canto da boca. — Eu nunca entro em campo se não for para capturar o prêmio máximo.
Ele ergueu uma caneca de prata em um brinde silencioso para os curiosos que assistiam, oficializando o escândalo com o sangue frio de um rei.
Mas o burburinho mudou de tom quando a verdadeira rainha da noite apareceu.
Rose Weasley não entrou apenas na sala; ela tomou posse dela. Ela estava deslumbrante em um vestido preto de seda que terminava perigosamente no meio das coxas, com as costas inteiramente nuas, revelando a pele perfeita que o sol do Quadribol não havia tocado. Seus cabelos ruivos, longos e brilhantes, pareciam uma cascata de lava sobre o tecido escuro. Ela cheirava a vitória e a uma fragrância cara de sândalo.
— Rose! Você está... por Merlin! — Roxanne se aproximou, estonteante em suas trancinhas enfeitadas com fios de ouro e um top que mostrava seu abdômen definido, ela usava calças de couro e botas de saltos — As apostas subiram para cinquenta galeões só para ver quem consegue o primeiro beijo seu hoje.
Rose soltou uma risada cristalina, aceitando uma taça de cristal que um elfo doméstico (provavelmente subornado por Alvo) lhe ofereceu.
— Eles podem guardar o ouro, Roxy. Hoje eu só quero sentir o chão tremer sob os meus pés.
— Então venha — Roxanne a puxou para o centro da pista. — Vamos mostrar por que a Grifinória é a dona desta noite.
Elas dançavam em uma sincronia hipnótica. Rose se movia com uma liberdade que nunca tivera enquanto namorava Scorpius. Ela era gentil com todos, oferecendo sorrisos educados aos que tentavam uma aproximação, mas seus olhos nunca paravam em ninguém por muito tempo. Ela estava completa sozinha.
Foi então que o silêncio começou a se espalhar a partir da porta, como uma mancha de óleo na água.
Scorpius Malfoy estava lá. Ele parecia um pária. Vestia o uniforme da Sonserina desleixado, o colarinho aberto e o rosto marcado pela derrota e pela falta de sono. Ele era o contraste sombrio de toda aquela luz. Onde antes ele era o "Príncipe da Prata", agora ele era apenas um garoto que todos evitavam.
Ele atravessou a multidão, ignorando os risinhos e os comentários maldosos. Seu objetivo era o vestido preto no centro da pista.
— Rose... — ele chamou.
Roxanne se empertigou, pronta para sacar a varinha, mas Rose colocou a mão no braço da prima. Ela se virou devagar. O olhar de Rose para Scorpius foi como uma sentença de morte: educado, distante e absolutamente desprovido de dor.
— Malfoy. Você parece ter se perdido no caminho para o dormitório ou… Veio aproveitar a festa? — Rose disse, a voz suave carregada de uma ironia cortante.
Ela se virou devagar, o rosto iluminado por um flash de luz mágica. Ela não se armou, não chamou os primos, nem sequer perdeu o sorriso gentil que dedicava aos estranhos.
— Eu só... eu precisava te ver. — Scorpius olhou em volta, vendo as pessoas sussurrando, vendo James e Dominique agora assumidos, vendo o clã Weasley-Potter mais forte do que nunca. — Eu sinto muito, Rose. Eu achei que...
— Você achou que eu era frágil, Scorpius. — Rose deu um passo à frente, e ele sentiu o cheiro de vitória e liberdade que emanava dela. — Você achou que o seu "sacrifício" me salvaria, mas a única coisa que você salvou foi o meu tempo. Olhe para mim hoje.
Ela abriu os braços, indicando a festa, os amigos, a própria força.
— Você está maravilhosa, Rose — ele sussurrou, a voz carregada de uma aceitação dolorosa.
— Eu sei — ela respondeu,
Scorpius olhou para ela e, no fundo daquela mente que Lucius tentara corromper, ele finalmente entendeu a verdade mais amarga. Rose Weasley não precisava dele para brilhar; na verdade, o brilho dela era tão intenso que ele, com suas sombras e medos, era apenas um eclipse que ela acabara de superar.
— Eu não consigo... eu não consigo respirar sabendo que você está assim — ele gesticulou para ela, para a festa, para a vida que ela exalava. — Rose, por favor. O que eu fiz... o meu avô... eu tive medo.
Rose deu um passo à frente. O cheiro de Narciso ao redor deles parecia intensificar a cena.
— Medo, Scorpius? O medo é para os que não têm nada a perder. Eu perdi você, e olhe para mim — ela girou lentamente, fazendo a seda preta brilhar. — Eu nunca estive tão leve. Você não me salvou de nada; você só me libertou da mediocridade de um amor covarde.
— Você não entende — ele implorou, tentando tocar a mão dela.
Rose recuou o braço com a elegância de uma cobra.
— Eu entendo de Aritmância, de Quadribol e de Poções, Scorpius. E as contas não fecham mais para você. Você é o passado. E o passado, como você sabe, é apenas uma lição que eu já aprendi. — Agora, se me dá licença, minha música favorita começou e eu não pretendo perder nem um segundo dela olhando para o passado.
Ela olhou para Alvo, que observava tudo de longe com um copo na mão e um aceno de cabeça. Rose sorriu para o primo e depois voltou-se para Scorpius uma última vez.
— Rose, eu fiz por você... — ele começou, a voz trêmula. — Para o meu avô não te machucar, para ele não ir atrás da sua família...
Rose deu um passo à frente. Ela não era mais a garota que dançava. Ela era a herdeira da inteligência de Hermione e da coragem de Rony, e seu olhar cortou Scorpius como uma lâmina de gelo.
— "Por mim", Scorpius? — Ela riu, um som seco e sem humor que atraiu a atenção dos que estavam perto. — Vamos falar sobre o que você realmente fez. Você usou um veneno de Serperiz em mim. Uma toxina de paralisia física e mental. Você me imobilizou para poder me insultar na frente de toda a escola sem que eu pudesse reagir.
Ela levantou o braço, puxando levemente a manga do vestido preto para revelar as marcas que Madame Pomfrey ainda não conseguira apagar totalmente.
— Você tentou me matar, Scorpius. Entende isso? — A voz dela agora era um sussurro letal. — No momento em que você injetou esse veneno em mim, você não estava me protegendo. Você estava se tornando exatamente o monstro que seu avô queria que você fosse. Você foi um covarde. Um homem medroso que escolheu o caminho da violência porque não teve culhões para enfrentar um velho de oitenta anos.
Scorpius cambaleou para trás, as palavras dela atingindo-o com mais força do que qualquer soco de Alvo.
— Eu... eu não tive escolha...
— Sempre há uma escolha! — Rose rebateu, sua voz agora cortando o salão. — Meu pai enfrentou Comensais da Morte aos dezessete anos. Minha mãe enfrentou Bellatrix Lestrange. E você? Você se ajoelhou para o Lucius e usou uma garota como saco de pancadas emocional para salvar a própria pele. Eu não sou "melhor" que você, Scorpius. Eu habito um universo de caráter que você nunca vai sequer conseguir enxergar.
O silêncio na sala era absoluto agora. Até a batida da música parecia ter recuado diante da fúria de Rose.
— Você acha que eu estou triste? — Ela continuou, com um desprezo profundo. — Eu estou aliviada. Aliviada de ter descoberto o lixo de homem que você é agora, e não daqui a dez anos. Você nunca mais vai me tocar. Você nunca mais vai falar comigo. Se chegar a menos de cinco metros de mim, eu não vou chamar os meus primos. Eu vou chamar os Aurores e garantir que você apodreça em Azkaban por uso de substâncias restritas em civis.
Scorpius sentiu o chão sumir. Ele olhou para Rose — deslumbrante, poderosa, cercada pela lealdade inabalável de James, Alvo e Hugo — e percebeu, com uma clareza devastadora, que ele acabara de assinar sua própria sentença de solidão.
Ele tivera a chance de ser feliz, de ser parte daquela luz, mas preferira as sombras e o medo.
— Aproveite a festa, Malfoy. Ouvi dizer que as apostas sobre quanto tempo você aguenta aqui sem chorar estão bem altas. Eu, pessoalmente, apostei que você sairia em cinco minutos. Não me faça perder dinheiro.
A música na Sala Precisa parecia ter atingido um ápice frenético, mas para Rose e Scorpius, o mundo havia se tornado um vácuo silencioso no centro da pista de dança. Scorpius tentava manter o que restava de sua dignidade, mas seus olhos imploravam por uma redenção que Rose não tinha a menor intenção de oferecer.
— Vá embora, Scorpius — Alvo disse se aproximando.. — Você já desperdiçou oxigênio demais neste lugar.
Scorpius Malfoy deu meia volta e saiu da Sala Precisa sob o olhar de centenas de pessoas que o viam agora não como um rival, mas como algo digno de pena. Ele atravessou o castelo, sabendo que a porta que Rose Weasley acabara de fechar nunca mais seria aberta. Ele havia perdido a única coisa brilhante de sua vida, e o pior de tudo: ele sabia que merecia.
Rose, no centro do salão, respirou fundo. Ela olhou para Roxanne e James, que a observavam com orgulho, e fez um sinal para a música recomeçar.
— Onde estávamos? — ela perguntou, o brilho voltando aos olhos. — Ah, sim. Comemorando a minha liberdade.
A música explodiu novamente, e Rose Weasley voltou a dançar, agora sem o peso de uma âncora que tentara afogá-la. Ela era Rose. Ela era gênio. E ela era, finalmente, livre de qualquer Malfoy.
FIM.
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