Impenetrável

3 Porto seguro


Notas iniciais
oie!

As Veelas são frequentemente reduzidas a rostos bonitos e cabelos de prata, mas o mundo bruxo ignora a fúria que ferve sob a pele perfeita. Elas são criaturas de extremos. O que poucos sabem é que essa intensidade as torna excepcionais sob pressão; há uma razão pela qual tantas descendentes de Veelas se tornaram medibruxas e parteiras de elite. Se parir uma criança é um ato de estresse absoluto, sobreviver a uma mãe em transe de dor exige um sangue frio que só quem carrega o fogo de uma Veela possui.

Dominique Weasley herdara cada grama desse sangue frio.

Desde os quatro anos, sua memória era uma biblioteca impecável e, por vezes, cruel. Ela se lembrava de cada choro de Louis, de cada discussão com Victoire e de cada lágrima escondida das primas. Era exaustivo. Enquanto os outros esqueciam as dores do passado, Dominique as colecionava. Ela se lembrava das reclamações de Fleur sobre o corpo transformado pela maternidade, sobre a casa bagunçada e a vida sexual interrompida; reclamações que vinham sempre acompanhadas de um amor tão violento que chegava a doer.

Mas o que realmente forjara o caráter de Dominique foram os partos. Ela vira a mãe, sempre tão requintada com suas unhas rosa-choque, suando em bicas e berrando em francês arcaico enquanto trazia vidas ao mundo. E vira o pior: quando o milagre falhava. As noites em que Fleur chorava no colo de Gui, sentindo-se incapaz, enquanto o pai acariciava seus cabelos loiros em um silêncio sagrado. Dominique sentia inveja daquela perfeição. Ela sabia que o mundo raramente oferecia homens como Gui Weasley.

Por isso, quando entrou no banheiro da Murta, Dominique não se assustou com o sangue. Ela já vira mulheres sangrarem até a morte; já vira de tudo nos banheiros de Hogwarts — desde o fumo de Narciso, a "maconha bruxa", até encontros clandestinos que deixavam marcas nas paredes. O sangue era apenas um fluido.

Até ela perceber que o fluido era de Rose.

Rose Weasley sempre fora o eixo da família. O porto seguro. Dominique tinha certeza de que até a durona Gina Potter se confessava com Rose. Ver Rose "desligada" foi como ver Hogwarts desmoronar. A pele, geralmente corada pelo vento do Quadribol, estava pálida como cera. Os cabelos, um ninho de gatos ruivo. Dos braços finos e fortes, o sangue escorria — cortes profundos feitos pela porcelana da privada que Rose quebrara no auge do desespero, sem sequer sentir. As pernas estavam retalhadas. Mas o que paralisou Dominique foram os olhos: vidrados, perdidos em um abismo que nem a mente brilhante de Rose conseguia processar. Era a imagem viva da desolação.

Roxanne, cujo instinto de preservação era mais aguçado, foi quem reagiu. Ela viu que Dominique estava prestes a quebrar o próprio recorde de frieza e que Rose estava morrendo por dentro. Roxanne saiu correndo para o corredor, a voz ecoando pelas pedras:

— Achamos ela!

O impacto foi imediato. James, Alvo e Hugo entraram no banheiro como uma tempestade. Para eles, era incompreensível. O que Scorpius Hyperion Malfoy — o garoto com quem dividiam risadas e detenções — tinha feito com a melhor goleira da escola? James e Alvo ainda tinham a imagem fresca na mente: haviam cruzado com o Malfoy minutos antes, agarrado a uma garota qualquer da Lufa-Lufa. Tinham lançado alguns feitiços de passagem, mas o foco era Rose.

Hugo foi o primeiro a agir. Ele tirou Dominique do caminho e pegou a irmã no colo. Rose era um peso morto. Ela não se agarrou ao pescoço dele como fazia quando quebrava o pé no campo; ela apenas estava lá, um corpo vazio sendo carregado.

— Ela não está piscando, James! Ela não está piscando! — Hugo gritava, correndo pelo corredor em direção à ala hospitalar.

A família formava uma procissão frenética, tentando limpar o rastro de sangue que Rose deixava. No meio da corrida, Hugo olhou para o braço da irmã que balançava inerte. Seu coração parou. Não eram apenas cortes de porcelana.

Havia quatro marcas de unhas masculinas cravadas na pele de Rose. O contorno era de um verde doentio e pulsante. Veneno. E dos fortes.

Hugo apertou a irmã contra o peito, os olhos ardendo de fúria. Independente de quem tivesse cravado os dedos nela, Hugo não descansaria até que o sangue de Scorpius Malfoy lavasse aquelas pedras.