Impenetrável

2 Conversando com mortos


Notas iniciais
oie! bem vindo!

— Quem está aí? — A voz da Murta-que-Geme ecoou pelas paredes úmidas, tão estridente quanto o rangido de uma porta velha.

Rose não respondeu. Ela simplesmente se jogou no primeiro box que encontrou, aquele com a descarga perpetuamente quebrada, e trancou a porta. O clique da tranca pareceu o ponto final de um capítulo que ela não estava pronta para encerrar.

A Murta atravessou a porta de madeira com a elegância de uma fumaça cinzenta e emburrada.

— Se for você de novo, Lysander, pode dar o fora! Já te aturei demais. Não é problema meu se você gasta suas tardes suspirando pela filha do Longbottom e não tem coragem de dizer um "oi". O banheiro é meu!

— Fica quieta, sua defunta esbranquiçada! — Rose rebateu. A voz saiu rouca, sufocada por um choro que ela tentava, inutilmente, engolir.

A Murta estancou no ar. Seus óculos translúcidos quase escorregaram do nariz inexistente. Ela nunca tinha visto Rose Weasley naquele estado. A Rose que ela conhecia era a garota que entrava ali para conferir o penteado antes dos encontros, a monitora que raramente perdia a compostura. Mas o tempo também mudara a Murta; a morte, ironicamente, a deixara mais ácida e menos disposta a dramas que não fossem os dela.

— É uma garota? — Murta flutuou para mais perto, o tom agora carregado de uma curiosidade mórbida. — Rose? O que aconteceu? Conte-me tudo. Adoro uma boa tragédia que não envolva basiliscos.

Rose soluçou, encostando a cabeça na parede fria. As memórias começaram a transbordar como a água das pias da Murta.

— Nós nunca nos demos bem, Murta. Nunca. No começo, eram azarações nos corredores e insultos nas masmorras. Mas aí veio o quinto ano... a monitoria. — Rose fechou os olhos, vendo o brilho das lanternas durante as rondas. — O primeiro beijo foi um erro de cálculo. Ou eu achei que fosse. Mas depois daquela noite, o sarcasmo dele mudou. Ele começou a elogiar minha defesa no Quadribol, disse que eu ficava "perturbadoramente bem" no uniforme novo que a Dominique me obrigou a usar.

Rose respirou fundo, o peito doendo.

— Três meses depois, ele pediu para namorar comigo. Minha família quase entrou em guerra civil. Teve nariz quebrado, apostas sobre quanto tempo duraria... mas eu não ligava. Eu o amava. Eu conheci a Mansão Malfoy; a mãe dele foi um doce, enquanto os homens da família se escondiam em escritórios discutindo galeões e política. Ele conheceu a Toca; a vovó o empanturrou até ele não conseguir mais subir as escadas. Até meu pai estava começando a aceitar que o "furãozinho" não era tão ruim assim.

A voz de Rose ficou mais firme, o orgulho de gênio vindo à tona.

— Tínhamos tudo planejado, Murta. Eu não deixo nada ao acaso. Seria um estágio no Ministério para mim e no St. Mungus para ele. Viagens para a França, depois Romênia para ver os dragões do tio Charlie... Um apartamento no subúrbio de Londres. Estava tudo escrito. O roteiro estava pronto!

— E do nada ele rasgou o roteiro na sua cara? — Murta perguntou, sentando-se no tampo do vaso com um ar pensativo.

— Sim. No meio do Salão Principal. Como se eu fosse... um rascunho descartável.

O silêncio que se seguiu foi pesado. O dia lá fora desbotou para um crepúsculo roxo, e as sombras no banheiro ficaram longas e frias. Rose perdeu a noção do tempo. Ela não sentia fome. Sentia apenas o vazio de quem viu o futuro ser desintegrado em cinco segundos de humilhação pública.

De repente, a Murta ergueu a cabeça, os olhos fixos na porta.

— Tem gente vindo.

— Vá! Não precisa me aturar mais. — Rose limpou o rosto, tentando desesperadamente recuperar a máscara de Weasley inabalável.

A porta do banheiro foi escancarada. Passos rápidos, hesitantes.

— Rose? Cupcake, você está aí? — Era a voz de passarinho de Dominique, carregada de uma ansiedade que não combinava com ela.

— Rose! Apareça logo! — Roxanne chamou, a voz firme mas tremida nas pontas. — Venha, Domi, me ajude a olhar nos boxes. Se ela não estiver aqui, vamos ter que chamar o corpo de Aurores para vasculhar a Floresta Proibida.

Rose ouviu as portas sendo abertas uma a uma. O som das dobradiças rangendo parecia uma contagem regressiva. Quando a porta do seu box foi escancarada, Dominique e Roxanne soltaram um suspiro de alívio que morreu no meio do caminho.

Primeiro, veio o alívio de encontrá-la. Depois, veio o choque ao ver o sangue.