​A travessia a cavalo do Norte até o Porto do Sul fora um verdadeiro martírio. Minha inexperiência sobre o selim cobrou um preço alto a cada légua percorrida: as pernas assadas, a coluna travada em dor e o cansaço acumulado por tentar acompanhar o ritmo implacável dos soldados. Fazer essa viagem completamente sozinha — sem um único aliado ou ombro amigo ao qual recorrer nas pausas — transformou a jornada em uma tortura física e mental.

​Mas se eu esperava algum alívio ao chegar ao oceano, a verdadeira metamorfose do mundo começou em alto-mar.

​Nos primeiros dias a bordo do navio de guerra, o frio gélido de onde viemos ainda parecia impregnado na minha pele. O vento salgado trazia uma secura que gelava o peito, e o balanço contínuo do casco de madeira sobre as ondas escuras fazia meu estômago dar nós violentos. Eu me sentia pesada, deslocada e moída, carregando as dores da cavalgada junto com um enjoo que parecia vir dos próprios ossos.

​Contudo, a pior dor não era física; era o abismo da minha própria mente e a sentença invisível de isolamento que caiu sobre mim.

​Com a perda repentina das memórias do livro — daquela visão privilegiada que eu tinha do enredo —, eu estava completamente no escuro. Eu não sabia o que nos aguardava naquelas terras distantes, não conhecia os perigos do deserto. Mil perguntas queimavam na minha garganta: Para onde exatamente estamos indo? Qual é o plano de Sasuke? Mas eu sabia, com uma clareza amarga, que ninguém ali se daria ao trabalho de me responder.

​Eu lembrava dos nomes dos oficiais — Shikamaru, Neji, Kiba, Kakashi —, afinal, ouvira cada um deles ser apresentado durante a reunião do Conselho de Guerra. Mas o modo como me encaravam agora destruíra qualquer ilusão de proximidade.

​Desde a minha transferência para a ala comum e a conversa no quarto, uma ordem implícita parecia ter sido selada a bordo. Eu não era apenas ignorada; eu fora transformada em uma ameaça. Quando eu subia ao convés para respirar, o silêncio caía sobre a tropa. Neji me acompanhava com um olhar gélido e vigilante de canto de olho, a mão sempre próxima do punho da lâmina. Kiba puxava as correntes dos lobos para longe do meu caminho, encarando-me com uma desconfiança aberta. Para Shikamaru eu era invisível. E, pela forma como a Guarda de Ferro me evitava, ficou claro: para eles, o afastamento promovido pelo Imperador me rebaixara à condição de uma espiã sob custódia. Uma potencial traidora cujo único valor era a marca gravada no pulso.

​Em momentos de desespero, a lembrança da Sakura me assombrava. Eu aceitara carregar o peso do destino dela, o preço do seu resgate e as consequências de sua linhagem ancestral, mas pagar essa conta no isolamento absoluto de um navio como inimiga parecia um suplício cruel.

​E Sasuke sustentava essa ilusão de traição com uma maestria gélida.

​Ele permanecia na proa do navio na maior parte do tempo, a postura firme de quem governava um império de pedra e ferro. Ele não checava o meu estado, não oferecia abrigo e não me dirigia o olhar. Ao me dar as costas diante de toda a sua guarda, ele autorizara cada olhar de desprezo que me perfurava a pele.

O único ponto de humanidade naquele convés gélido vinha de Kakashi.

​O Comandante não me encarava com a hostilidade velada de Neji ou com a desconfiança aberta de Kiba. Havia nos seus gestos uma empatia serena. Era ele quem garantia que minhas refeições chegassem à cabine sem que eu precisasse enfrentar o olhar acusador dos soldados na copa, quem me entregava a água sem cara feia e quem tentava amenizar o rigor das ordens de Sasuke com uma presença calma.

​Numa das noites em que o mar parecia engolir a embarcação, ele se aproximou enquanto eu me segurava na balaustrada, lutando contra o cansaço dos músculos e o vento morno da navegação.

​Ele me estendeu o cantil. Encarei o objeto de couro e depois o único olho visível do Comandante, sem conseguir conter a dúvida que me corroía por dentro.

​— Por que o senhor ainda me trata bem, Comandante? — perguntei, a voz saindo baixa, quase engolida pelo som das ondas batendo no casco. — O Imperador deixou claro para toda a tropa o que eu sou... Uma ameaça sob custódia. Uma peça tática. Não precisa fingir gentileza comigo.

​Kakashi apoiou os cotovelos na madeira da amurada, olhando para a imensidão escura do oceano. Ele soltou um suspiro lento antes de responder.

​— Eu conheço o Sasuke desde que ele era um garoto carregando uma espada pesada demais para os próprios ombros, Senhorita Haruno — disse ele num tom calmo e saudoso. — E, durante anos, a única coisa que vi naquele homem foi sombra, dever e o peso sufocante de uma coroa de gelo. Mas, há poucos dias, no palácio... eu o vi agir de um jeito que não via há muito, muito tempo.

​Senti meu peito dar um aperto doloroso. A memória do Sasuke vulnerável nas catacumbas veio à tona, logo acompanhada pelo choque da sua frieza atual.

​— Pois isso acabou — respondi, o tom tingido por uma amargura inevitável enquanto olhava para a proa, onde a silhueta distante do Imperador cortava a noite. — O homem que o senhor viu não existe mais. Ele deixou claro que aquilo foi um erro... Agora só sobrou o Imperador.

​Kakashi não contestou. Ele apenas deu um toque sutil com a cabeça, com aquele olhar sábio e cansado de quem já viu guerras demais.

​— Homens como o Sasuke aprendem a se trancar em armaduras quando o mundo exige demais deles — murmurou o Comandante, ajeitando a máscara. — Mas uma armadura só é necessária quando há algo muito valioso por baixo que precisa ser protegido. — continuou — Não confunda o silêncio dele com indiferença.

​Aquelas palavras me atingiram como um golpe físico no peito.

​Minha respiração travou na garganta, e fechei os dedos ao redor da madeira fria da balaustrada com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Senti um calor ardente subir pelo meu pescoço, uma mistura avassaladora de raiva, vergonha e um desespero covarde de querer acreditar naquela ilusão.

​Por um segundo, os meus olhos vacilaram em direção à proa, buscando a figura de Sasuke na penumbra. O coração martelou no peito, implorando para que aquilo fosse verdade — para que a distância dele fosse apenas proteção, e não a constatação de que eu me tornara insignificante. Mas o orgulho e a lembrança da postura altiva dele no conselho me puxaram de volta para a realidade com violência.

​Não, pensei, engolindo em seco e cravando as unhas na palma das mãos. Acreditar nisso é uma armadilha. Se eu me apegar a essa esperança agora, ela vai me destruir assim que pisarmos em terra firme.

​Forcei meu queixo a se manter ereto, desviando o olhar de Kakashi para esconder o brilho úmido que ameaçava surgir nos meus olhos. Tentei transparecer uma indiferença cética que eu passara longe de sentir, mas o nó na minha garganta tornava impossível formular qualquer resposta à altura. O silêncio que se seguiu entre nós dois foi denso, mas carregado de uma inquietação que ficou remoendo na minha mente pela noite inteira.


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​À medida que os dias no mar se acumulavam e o navio avançava para o sul, no entanto, algo mais profundo começou a acontecer. O ar ao nosso redor mudou... e, com ele, eu também.

​A alteração foi sutil no início. A náusea constante que me prendia à amurada começou a ceder. O mormaço que subia do oceano, gradualmente mais denso e aquecido, já não sufocava meus pulmões; pelo contrário, parecia descongelar uma rigidez antiga nos meus ombros e na minha coluna, amenizando a dor da cavalgada.

​Onde os oficiais viam um calor incômodo que os fazia suar e praguejar sob as fardas pesadas, eu sentia apenas um afago. Era como se a minha pele estivesse finalmente voltando a respirar, dando lugar a uma força quieta e reconfortante que começava a desabrochar no fundo do meu peito.

​Foi quando a névoa espessa do horizonte finalmente se rasgou, e o deserto se revelou em toda a sua grandiosidade monumental.

​Não era uma costa comum ou uma simples faixa de areia; era uma catedral viva e ancestral erguida pela força do vento e pela passagem do tempo.

​Dunas colossais de contornos esculpidos e perfeitos erguiam-se como montanhas douradas contra o céu limpo e cristalino, elevando-se majestosas diretamente das águas verde-esmeralda do oceano. O sol ardente do deserto dourava as cristas onduladas da areia, enquanto o vento soprava suavemente, levantando véus diáfanos de poeira luminosa que flutuavam no ar como fumaça de ouro refinado. Paredões gigantescos de arenito vermelho e terracota, moldados ao longo de milênios por tempestades esquecidas, erguiam-se ao longe como colunas reais e fortalezas esquecidas, refletindo nuances quentes de cobre, carmesim e bronze sob a luz incandescente.

​Apoiei as mãos na amurada de madeira do navio, prendendo o fôlego enquanto meus olhos percorriam a imensidão dourada. O contraste entre a gélida rigidez do Norte e aquela imensidão ardente era avassalador.

​Ao meu redor, os soldados da Guarda de Ferro murmuravam entre si, ajeitando as armaduras de couro e metal com desconforto, temerosos diante de um território hostil. Eu, porém, sentia um arrepio involuntário percorrer minha espinha — não de medo, mas de uma estranha e inexplicável atração.

​O que viemos fazer neste lugar?, pensei, sentindo o vento quente acariciar meu rosto e bagunçar meus cabelos. Sasuke cruzou o oceano com sua guarda pessoal por um motivo. Será que ele busca uma aliança? Ou busca algo escondido sob essas areias? E o mais aterrorizante... qual é o meu verdadeiro papel nisso tudo quando pisarmos em terra firme?

​Sem as memórias do livro para me guiar, encarar aquela vastidão desconhecida parecia dar um salto no escuro. Era um cenário ao mesmo tempo impiedoso e divinal, saturado pelo aroma seco de mineral aquecido, terra ancestral e um toque sutil de especiarias trazidas pela brisa do interior. Uma vastidão dourada e infinita que parecia sussurrar segredos antigos a cada sopro do vento, pronta para cobrar seu preço de qualquer um que ousasse desbravá-la.

As âncoras foram lançadas sobre o fundo de pedras e areia com um ranger metálico de correntes pesadas que ecoou por toda a baía. O navio vacilou ao estancar na água rasa, e as pranchas de desembarque foram baixadas sobre a arrebentação morna.

​O vento do deserto nos atingiu em cheio assim que saímos da sombra das velas. Era um sopro denso, carregado do aroma seco de terra aquecida pelo sol. Vi os soldados arfarem, puxando o ar com dificuldade e franzindo o teto enquanto lutavam contra a secura repentina na garganta.

​Mas, em mim, o efeito foi o oposto.

​Ajustei as luvas de couro e dei os primeiros passos para descer a prancha de madeira. A cada metro que me aproximava do mar, a paisagem líquida se revelava de forma hipnotizante. A água que banhava aquela costa não tinha a rigidez azulada e fria do oceano do Norte; era de um tom esmeralda translúcido e fascinante, quase hipnótico, que reluzia sob a luz incandescente como uma gema lapidada. Onde as marés encontravam as raízes das dunas douradas, o mar assumia nuances de jade líquido, com pequenas ondas calmas e mornas arrebentando em espumas alvas sobre a areia terracota.

​A cada degrau, um calor suave, profundo e difuso começava a se espalhar pelas solas dos meus pés e pelas minhas mãos. Não era a quentura febril de uma insolação, mas um preenchimento vigoroso que há muito tempo eu não experimentava neste corpo.

​As dores musculares da cavalgada e o cansaço acumulado nas articulações simplesmente se dissiparam, como se a tensão do Norte estivesse sendo derretida por aquela força invisível. A opressão no meu peito deu lugar a uma respiração ampla, limpa e incrivelmente fluida. Era como se meus pulmões estivessem finalmente recebendo o ar para o qual haviam sido projetados.

​— Beba um pouco de água, Senhorita Haruno — a voz baixa e ponderada de Kakashi surgiu ao meu lado na prancha. Ele me estendeu o cantil de couro com um olhar manso, carregado daquela compaixão contida que o destacava do resto da tropa. — O sol dessa costa não costuma dar tréguas a quem já vem abatido. Não se exija demais antes da hora.

​Olhei para o Comandante, sentindo um sutil alívio no peito diante da gentileza dele.

​— Eu estou bem, Comandante — murmurei, aceitando o cantil e dando um gole pequeno. Ao tocar meu próprio pescoço, notei que minha pele, antes pálida e fria pelo inverno do Norte, parecia corada de vida. — Na verdade... acho que nunca me senti tão desperta.

​Kakashi observou-me por um segundo através do único olho visível. Havia uma nota de sincero espanto na sua expressão ao notar a facilidade com que eu mantinha a postura ereta e o rosto erguido, enquanto os oficiais mais experientes da Guarda de Ferro tropeçavam na água rasa e praguejavam contra o mormaço.

​Pisei na água esmeralda e morna que banhava a margem, vendo o reflexo verde-cristalino balançar ao redor das minhas botas. À minha frente, a imensidão dourada das dunas reluzia sob o céu azul e limpo, exalando uma imponência que não me amedrontava — me acolhia.

Caminhei pelas águas mornas, sentindo o mar verde-cristalino recuar lentamente sobre as minhas botas. À minha frente, a praia dourada estendia-se como um tapete aquecido pelo sol, ladeado pelas dunas majestosas que pareciam nos vigiar em silêncio.

​Sasuke tomou a frente, pisando na margem com a postura rígida e impecável de sempre, a mão pousada sobre o cabo da espada e os olhos negros varrendo a linha da costa em constante alerta.

​— Daqui em diante, avançamos a pé — ordenou ele, a voz firme e cortante ecoando sobre o barulho calmo das ondas. — Kakashi, estabeleça o perímetro com a vanguarda. Ninguém baixa a guarda.

​Dei o passo final, deixando o mar e a praia rasa para trás.

​O momento em que a sola da minha bota pressionou a primeira camada de areia seca e firme, a Terra respondeu de forma avassaladora.

​Um ruído estrondoso e cavernoso rasgou o ar da costa, como se as entranhas das dunas colossais e o leito de rocha do oceano estivessem se partindo ao meio. O som foi tão denso e grave que fez a caixa torácica de todos vibrar e os ouvidos dos oficiais da Guarda de Ferro estalarem pelo impacto da onda sonora.

​No segundo seguinte, o chão da praia ruiu num tremor violento. O relevo ao redor balançou numa oscilação ritmada, e a areia sob as minhas botas pareceu liquefazer, ondulando em círculos concêntricos perfeitos que se expandiam a partir do meu ponto de contato com o solo.

​Sob o tecido da minha túnica, a pele do meu pulso queimou de repente. O bracelete e o Selo Haruno acenderam num tom verde-esmeralda fulgurante, pulsações luminosas que acompanhavam as batidas aceleradas do meu coração.

​E então... a areia dourada sob os meus pés mudou por completo.

​À medida que a energia do Selo transbordava, os grãos de areia comum converteram-se numa poeira verde-jade cintilante — um pó vivo e luminoso de pura energia ancestral que subiu em torvelinhos em torno das minhas pernas, espalhando-se em veias brilhantes e ramificadas pela praia inteira. O contraste entre o mar esmeralda e a praia tomada pela areia jade transformou a costa num templo vivo e reluzente.

​Os lobos de Kiba ganiram em pavor, encolhendo-se contra as rochas e recusando-se a avançar. Neji e os outros guardas sacaram as lâminas, os rostos pálidos pelo choque enquanto mantinham o equilíbrio a custo durante o tremor.

​Na vanguarda, Sasuke virou-se de golpe.

​O Imperador do Norte, que passara dias mantendo uma distância fria e inatingível, tratando-me como nada mais do que uma prisioneira ou um recurso estratégico, congelou no lugar. A máscara gélida e inabalável que ele sustentava ruiu por completo. Seu maxilar travou com força, e os olhos negros dilataram-se num misto de choque, assombro e fascínio puro.

​Ele deu um meio passo involuntário na minha direção — o controle militar e a pose de indiferença falhando miseravelmente pela primeira vez —, fixo na poeira jade que dançava no ar e subia ao meu redor como um manto de luz. Ele nem sequer conseguiu formular uma ordem ou pronunciar uma palavra. Por um breve segundo, não havia Imperador, nem tática, nem a guarda ao redor. Havia apenas a quebra da sua armadura diante daquele estranho poder.

​Eu não sabia exatamente quem eu fora antes de perder a memória ou todas as tramas registradas naquele livro perdido, mas o deserto sabia exatamente quem eu representava. Ele não estava apenas nos recebendo; estava celebrando meu regresso com um rugido ancestral que reverberava do fundo da terra.

​Contudo, aquela demonstração de poder veio acompanhada de um preço imediato. A explosão de luz e a vibração na terra atuaram como um farol inconfundível na vastidão do território hostil, denunciando nossa posição.

​Do topo das dunas de terracota que cercavam a praia, um apito agudo e estridente cortou o ar agitado. No segundo seguinte, a primeira esfera de cerâmica cruzou o céu, colidindo contra a areia firme e libertando uma nuvem densa de gás roxo que começou a se espalhar rapidamente entre nós.

​Os donos daquele deserto tinham acabado de nos encontrar.