​Antes mesmo que a ordem de dispersão pudesse ser gritada por Kakashi, mais três projéteis cruzaram o céu incandescente, caindo em arco perfeito ao redor do nosso perímetro. A névoa violácea espalhou-se com uma rapidez sobrenatural, pesada e viscosa, rastejando sobre a areia jade e a água rasa. O cheiro era avassalador: um aroma adocicado e denso, de ervas queimadas e minerais cáusticos.

​— Cobrir os rostos! — a voz de Kakashi cortou o ar, abafada pela máscara enquanto ele sacava uma espada e se posicionava à frente da formação. — É fumaça paralisante!

​Os soldados da Guarda de Ferro cobriram as bocas com as mangas das fardas pesadas, mas o contra-ataque do deserto estava apenas começando.

​Um segundo apito, mais grave e prolongado, ecoou do topo das dunas. Em resposta ao sinal, o vento morno da costa mudou de direção bruscamente. Não era um sopro natural da brisa marinha; era uma rajada violenta e direcionada, nascida do comando invisível dos guerreiros ocultos na crista do relevo.

​O ar uivou com uma força ensurdecedora. Uma parede colossal de poeira dourada ergueu-se das dunas, cobrindo o céu azul e engolindo o sol num eclipse repentino de areia.

​A tempestade provada por eles caiu sobre a praia como uma besta faminta. Grãos afiados de areia começaram a chover sobre nós a uma velocidade assustadora, chicoteando a pele exposta, cegando a visão da tropa e misturando-se à fumaça roxa. O que antes era uma costa aberta e cristalina transformou-se, em questão de segundos, num turbilhão caótico de escuridão terracota, poeira sufocante e fumaça envenenada.

​O Norte não tinha defesas contra o domínio que aquele povo exercia sobre o próprio solo.

​Apesar da tempestade repentina e da densa névoa violácea que engolia a praia, o que mais me paralisou não foi o ataque inimigo — foi a reação da tropa do Norte.

​Qualquer pessoa normal estaria em pânico absoluto, acuada entre a fumaça e a fúria do vento. Mas a Guarda de Ferro não deu um único passo em falso. Não houve gritos, correria ou hesitação. A disciplina deles diante de dezenas de arqueiros e guerreiros invisíveis era assustadora.

​Ao menor sinal da emboscada, Neji dera um passo à frente. Observei as veias ao redor dos olhos dele se projetarem sob a pele de forma bizarra e intimidadora, enquanto seu olhar perpassava a fumaça como se a névoa não passasse de vidro transparente.

​— São dezenas deles no topo da duna, cercando todo o perímetro! — alertou Neji, a voz plana, sem qualquer traço de medo. — Estão usando o relevo a favor deles para nos encurralar na margem.

​— Se nos movermos em formação de impacto, romperemos essa linha em dois minutos — rosnou Kiba, segurando os lobos com pulso de ferro.

​— E cairemos exatamente onde eles querem, exaustos antes de pisarmos na capital — contrapôs o General Shikamaru. Ele sequer sacara a lâmina. Tinha uma das mãos no rosto sob o nariz e a outra no bolso do manto. Avaliava as sombras no cume com um suspiro entediado. — Lutar contra a tempestade deles aqui é um desperdício de energia. Deixar que nos levem economiza nosso tempo e nos coloca direto dentro do palácio.

​Minha respiração travou. Eles estavam cercados, em desvantagem no território inimigo, e discutiam a rendição como se estivessem escolhendo o caminho mais conveniente para uma caminhada.

​Foi então que Sasuke deu um passo à frente, e o silêncio caiu sobre a praia como um machado.

​A aura do Imperador cortava a tempestade. Mesmo com a poeira e a fumaça roxa girando ao seu redor, ele permanecia imperturbável, a mão esquerda repousada com firmeza sobre o pomo da espada. Ele não olhou para as dunas, nem para as sombras que nos cercavam; seus olhos negros varreram a Guarda de Ferro e depois pousaram sobre mim, avaliando em um segundo o fato de que eu não demonstrava sinais de envenenamento pelo gás.

​— Shikamaru tem razão — a voz de Sasuke ressoou grave e cortante, sobrepondo-se ao uivo do vento. Ele não levantou o tom, mas cada soldado se ergueu ainda mais ereto ao ouvi-lo. — O objetivo desta missão não é vencer uma escaramuça em uma praia deserta. Guardem as lâminas.

​A ordem era uma sentença. Em perfeito sincronismo, a Guarda de Ferro embainhou as espadas com um único estalo metálico. Sasuke assumiu a liderança da formação, colocando-se à frente como um escudo vivo, mantendo a postura soberana de quem não estava sendo capturado — mas sim marchando para onde bem entendia.


---


As sombras emergiram da tempestade como espectros moldados pela própria areia.

​Rápidos, silenciosos e perfeitamente coordenados, dezenas de homens deslizaram pelas inclinações das dunas. Vestes fluídas de tecido cor de terracota e cinza cobriam seus corpos, deixando visíveis apenas olhos alertas e firmes por cima das máscaras respiratórias. Traziam lanças longas de ponta dupla e lâminas curvas que reluziam em tons prateados sob a luz filtrada pela névoa violácea.

​Em questão de segundos, o círculo ao nosso redor fechou-se com uma precisão cirúrgica.

​As pontas afiadas das armas do deserto foram apontadas diretamente para a Guarda de Ferro. Mesmo com as espadas embainhadas por ordem do Imperador, a atitude dos soldados do Norte permanecia desafiadora. Kiba sustentava o olhar de um dos lanceiros com uma expressão debochada, enquanto Kakashi e Shikamaru permaneciam com uma calma quase insolente, analisando os padrões das armaduras e dos tecidos dos invasores.

​No entanto, à medida que os guerreiros avançavam para conter o perímetro, dois deles moveram-se abruptamente na minha direção, interpretando minha postura hesitante como o ponto fraco da formação.

​Antes que a lança do primeiro homem avançasse meio metro, uma presença escura e sufocante intersceptou o trajeto.

​Sasuke deu um único passo lateral, alinhando-se à minha frente de forma rígida e sem desviar os olhos do horizonte. Ele não se deu ao trabalho de me olhar, tampouco esboçou qualquer gesto de consolo ou urgência emocional. Apenas usou a própria estatura e o peso do seu cargo como uma barreira intransponível.

​O homem estancou o passo na areia, congelado pela aura mortífera que emanava do Imperador.

​— Vocês têm a nossa rendição tática nesta praia — disse Sasuke. Sua voz não passava de um sussurro calmo e gélido, mas carregava uma autoridade tão pesada que cortou o uivo do vento. Ele nem sequer se deu ao trabalho de olhar para o capitão inimigo à sua frente. — Mas se qualquer uma de suas lâminas se aproximar a um centímetro desta mulher sem a minha permissão, o acordo termina antes mesmo de começarmos.

​O aviso foi seco, profissional e desprovido de qualquer calor. Ele não estava agindo como um homem desesperado para me proteger; estava agindo como um governante impondo o limite absoluto do Império diante de termos estrangeiros.

​Senti o ar espremer meus pulmões. A distância gélida entre nós continuava lá, intocada e firme, mas a mensagem para o deserto fora dada: Sakura Haruno permanecia sob a jurisdição e o domínio exclusivo do Imperador do Norte.

​O silêncio tenso que se seguiu à ameaça de Sasuke foi quebrado apenas pelo chiado abafado da fumaça violácea e pelo uivo constante do vento nas dunas.

​Os guerreiros do deserto, treinados para subjugar invasores em questão de segundos com o veneno paralisante e o elemento terra, começaram a notar a anomalia no centro do cerco.

​Ao redor da Guarda de Ferro, os oficiais mantinham a respiração controlada e os rostos parcialmente cobertos, lutando contra o ardor na garganta e a secura extrema trazida pela névoa. Mas eu permanecia de pé, com o peito subindo e descendo numa respiração limpa e fluida, sem demonstrar a menor rigidez muscular ou sinal de sufocamento.

​Um dos líderes, cujas vestes ostentavam insígnias de cobre sobre o peito, deu dois passos lentos na nossa direção. Seus olhos, únicos visíveis acima do tecido denso que cobria seu rosto, estreitaram-se ao fixar-se em mim.

​— O gás do Lótus Roxa não a afeta... — murmurou.

​Mas o verdadeiro choque veio de baixo.

​Quando ele baixou o olhar para o chão da praia, buscando entender o motivo daquela imunidade, suas orbes se escancararam de puro espanto.

​A areia dourada e terracota que cercava as botas da Guarda de Ferro estava impregnada de névoa e poeira comum. No entanto, o raio de dois metros ao redor dos meus pés continuava pulsando numa tonalidade verde-jade cintilante. A poeira de luz ancestral que subira com o meu primeiro contato com a terra ainda dançava em círculos lentos e suaves em volta das minhas pernas, reativa à minha simples presença.

​O líder deu um passo involuntário para trás. A lâmina curva que segurava tremeu sutilmente em sua mão.

​— A'lam al-Zumarrod... — o sussurro escapou dos lábios cobertos do guerreiro, uma prece ou um título antigo no dialeto do deserto que fez os outros lanceiros abaixarem os braços instantaneamente.

​O murmúrio espalhou-se como fogo em palha seca entre as fileiras dos invasores. Os mesmos homens que há poucos segundos nos cercavam com hostilidade e armas em riste recolheram as lanças, curvando a cabeça em uma mesura profunda e solene, voltada não para o Imperador do Norte ou para a sua tropa lendária, mas exclusivamente para mim.

​Aos olhos deles, eu não era uma prisioneira do Império nem uma invasora indefesa. Eu era a encarnação viva de algo muito maior do que pensávamos.

​Ao meu lado, Kakashi e Shikamaru trocaram um olhar rápido e significativo, recalculando em silêncio o peso daquela reviravolta no tabuleiro. E, à minha frente, a linha rígida dos ombros de Sasuke tencionou-se ainda mais. O Imperador mantinha-se imóvel como uma estátua de gelo, mas eu podia sentir a densidade do seu silêncio — consciente de que a mulher que ele mantinha sob custódia acabara de se tornar o centro de todas as atenções das Terras do Deserto.


---


A travessia sob a custódia dos guerreiros do deserto ocorreu em um silêncio denso e apressado. Antes que o sol atingisse o seu ponto mais alto no céu incandescente, as pesadas portas de bronze batido do palácio escultural no meio das dunas se abriram para nós.

​Fomos conduzidos direto ao coração do poder daquele lugar.

​Ao cruzar o limiar do salão principal, a sensação foi de adentrar um mundo à parte. O luxo era ostensivo, quase sufocante. Pilares colossais de mármore branco tinham suas bases cravadas em veios de ouro puro que reluziam sob a luz natural filtrada pelas claraboias. O chão polido refletia o teto trabalhado em mosaicos de lápis-lazúli e madrepérola. Drapeados longos de seda pura em tons de carmesim, açafrão e esmeralda pendiam do alto, suavemente ondulados pela brisa fresca gerada por canais internos de água corrente que cortavam o salão em calhas de prata.

​Vasos esculpidos em pedras preciosas transbordavam incensos de âmbar e mirra, perfumando o ar denso com um aroma quente e magnético.

​A Guarda de Ferro marchava no centro do salão com passos pesados. Mesmo desarmados, Sasuke, Kakashi e Shikamaru não pareciam prisioneiros; a postura soberana deles recusava qualquer vestígio de submissão diante de toda aquela opulência. Sasuke mantinha-se um passo à minha esquerda, uma sombra gélida e firme que bloqueava parcialmente a visão que os guardas locais tentavam ter de mim.

​No fundo daquele salão suntuoso, sobre um pedestal de arenito folheado a ouro, estava o governante daquela vastidão pulsante arenosa.

Forcei minha memória. Com certeza seria alguém de quem eu me lembraria. Nada, novamente.

​Eu não fazia ideia de quem ele era ou de qual nome carregava naquele universo, mas sua presença preenchia o ambiente de uma forma que fez meu pulso falhar uma batida.

​O homem no topo do pedestal exalava uma segurança quase insolente. Sua pele salpicada pelo bronze pelo solar do deserto brilhava suavemente sob a luz que vinha do teto, destacando os contornos firmes do peito e dos ombros nus. Trajava apenas calças fluídas de seda escura, presas na cintura por um cinto largo trabalhado em rubis e pedras brutas. Adornos de ouro fino reluziam em seus braços torneados, e sobre os cabelos vermelho-carmesim vibrantes repousava um diadema delicado de ouro trançado, finamente incrustado com gemas escuras. Não portava nenhuma espada, ostentando uma confiança genuína como se não precisasse de nenhuma arma física.

​Aos pés do seu trono, descansando sobre tapetes aveludados, duas panteras negras monumentais ergueram as cabeças. Os animais de pelagem reluzente como a noite rosnaram baixo ao notar nossa aproximação, os olhos amarelados e cortantes fixados em nós enquanto ele repousava a mão ornada de anéis pesados sobre a cabeça de uma delas, afagando-a com uma lentidão calculada e dominante.

​Sentia o calor subir pelo meu pescoço. Era impossível ignorar a força e a presença crua daquele homem no centro do salão.

​Seus olhos de um verde-azulado pálido, deixaram a pantera e varreram a Guarda de Ferro com um desdém refinado — até pararem bruscamente sobre mim.

​Quando nossos passos finalmente estancaram no centro do salão, o silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo e durou o tempo exato de uma respiração suspensa.

​O homem no topo do pedestal não se levantou. Permaneceu reclinado com elegância no trono de arenito e ouro, o braço apoiado no dorso da pantera negra que roncava baixo sob seus dedos ornados de anéis. Seu olhar verde-azulado, frio e cirúrgico, percorreu as marcas do Norte nas capas pesadas de Kakashi e Shikamaru antes de travar em Sasuke.

​— Um Imperador que entrega a própria guarda nas minhas praias sem disparar uma única flecha... — a voz dele soou grave, aveludada e arrastada, ecoando pelas paredes de mármore como um sussurro perigoso. — Ou o Norte perdeu a coragem durante o inverno, ou você pressupõe que minha hospitalidade é maior do que sua soberba, Sasuke.

​Sasuke nem sequer piscou. Sua postura ereta e implacável repelia qualquer insinuação de fraqueza.

​— Não confunda diplomacia pragmática com rendição, Regente — rebateu Sasuke. Sua voz, cortante como aço gelado, preenchil o salão sem precisar elevar o tom. — Se eu quisesse reduzir suas dunas a cinzas, não teria vindo num único navio. — completou — Viemos pelos acordos de fronteira. Mas vejo que o deserto prefere emboscadas de fumaça a uma mesa de negociação.

​Um sorriso tênue e enigmático desenhou-se nos lábios do governante, mas seus olhos continuavam desprovidos de qualquer calor.

​— Acordos de fronteira se negociam com embaixadores, não com o próprio monarca desembarcando com sua tropa de elite — disse ele, inclinando levemente a cabeça. — A menos, é claro, que o verdadeiro motivo da sua viagem não tenha sido escrito nos selos imperiais.

​Antes que Sasuke pudesse responder, o olhar do Regente desviou-se abruptamente dele.

​Aqueles olhos verde-azulados e marcados pousaram sobre mim. O ar no salão pareceu mudar de densidade no mesmo instante. A postura relaxada do monarca tencionou-se de forma quase imperceptível; seus dedos pararam o afago na cabeça da pantera, e o animal ergueu as orelhas na hora, reagindo à mudança na aura do dono.

​Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, a pele bronzeada brilhando sob os raios de sol da claraboia enquanto fixava seu olhar em mim como se tentasse enxergar através da minha alma.

​— Meus homens relataram um fenômeno peculiar na praia — continuou o Senhor daquelas dunas, a voz agora carregada de uma curiosidade afiada e quase predatória. — O gás do Lótus Roxa não a derrubou... E a areia... a areia sob os seus pés respondeu em tom de jade antes mesmo de você pisar no meu palácio.

​Senti um calafrio percorrer minha espinha. A intensidade do olhar dele era sufocante, uma pressão invisível que parecia pesar sobre meus ombros.

​— Quem é ela, Sasuke? — perguntou o homem, notadamente com pouca questão do uso dos títulos imperiais, sem desviar os olhos do meu rosto. As palavras seguintes saíram em um tom cortante e afiado — E por que o Norte carrega consigo o sangue ancestral que pertence ao meu deserto?

​Ao meu lado, a linha dos ombros de Sasuke endureceu. O Imperador deu meio passo à frente, cortando parcialmente o ângulo de visão do Regente e tornando a se colocar como uma barreira entre nós.

​O movimento de Sasuke em se colocar como escudo à minha frente não intimidou o homem no trono. Pelo contrário: apenas atiçou a curiosidade perigosa do monarca.

​Com uma lentidão calculada e fluida, o Regente levantou-se do pedestal.

​As duas panteras negras ergueram-se no mesmo instante, os corpos musculosos tencionando-se como molas prestes a disparar. Os felinos monumentais desceram os degraus de arenito ao lado do seu dono, os passos aveludados contra o mármore polido e os olhos amarelos e cortantes fixados em nós. O Regente deu dois passos à frente, a pele bronzeada reluzindo sob o sol e os adornos de ouro tilintando suavemente contra o peito nu.

​— Não se esconda atrás do seu Imperador, mulher — a voz dele ressoou mais próxima, suave, aveludada. — O deserto reconhece o seu próprio sangue... por mais que o aço do Norte tente reivindicá-lo. Dê um passo à frente.

​— Ela não vai dar um único passo — a voz de Sasuke cortou o ar como um machado de gelo.

​O som metálico do cabo da espada de Sasuke deslizando alguns milímetros para fora da bainha ecoou pelo mármore. Kakashi e Neji ajustaram ligeiramente suas posições. O ar no salão ficou tão denso e gélido que a névoa da nossa própria respiração começou a se formar no ar. Os guardas do deserto ergueram suas lanças. Se uma única gota de sangue fosse derramada ali, o salão viraria um massacre.

​Eu sentia o peito arfar sob o manto. A rigidez mortífera de Sasuke e a provocação do governante estavam prestes a destruir qualquer chance de diplomacia. E... Sasuke deveria ter uma boa razão para ir até ali.

​Eu preciso parar isso.

​Antes que o aço do Norte saísse completamente da bainha, eu tomei a decisão. Com o coração martelando contra as costelas, dei um passo firme à frente, saindo da sombra protetora de Sasuke e me colocando no centro do salão.

​O movimento brusco fez o silêncio desabar sobre o recinto. Sasuke travou no lugar, seus olhos negros arregalando-se ligeiramente numa rara demonstração de choque diante da minha insubordinação.

​Ao me ver avançar, as duas panteras reagiram instantaneamente. Os felinos curvaram as costas, eriçando a pelagem negra e projetando as garras afiadas contra o chão polido. Elas assumiram uma postura de ataque imediato, soltando rosnados guturais que fizeram o chão vibrar. Sasuke avançou a mão para a empunhadura da espada, pronto para cortar a garganta do primeiro animal.

​Mas, ao projetar meu corpo para a frente, o movimento fez a manga da túnica deslizar pelo meu braço direito, expondo o bracelete e a esmeralda cravada no metal. No mesmo instante, a brisa que entrava pelas galerias soprou com força contra mim, soltando o capuz do meu manto.

​O tecido caiu para trás, e meus cabelos róseos salpicados da brisa marítima caíram livremente em ondas sobre meus ombros.

​Com a exposição do bracelete, o calor na pedra verde do meu pulso tornou-se intenso. A areia fina e dourada que decorava as calhas e vasos do salão ergueu-se sozinha, flutuando no ar em pequenos grãos luminosos que gravitavam ao redor do meu braço, como se a própria terra reconhecesse a joia ancestral.

​O rosnado das panteras cessou na hora.

​Os felinos congelaram. Suas garras recolheram-se e, farejando os grãos de areia que pairavam ao redor do bracelete, ambas dobraram as patas dianteiras, encostando os focinhos no chão de mármore em uma atitude de submissão instintiva e reverência absoluta.

​O riso provocativo nos lábios do Regente desfez-se por completo. Seus olhos verde-azulados dilataram-se ao ver o bracelete e a areia do seu próprio domínio responderem a ele.

​— Os guardiões do A'lam al-Zumarrod... — o murmúrio escapou dos lábios do governante do Sul, como se estivesse diante de uma lenda viva. — Uma Haruno...

​Minha garganta secou por completo. Como ele sabia o meu sobrenome? Senti meus joelhos fraquejarem sob o peso do manto enquanto olhava atônita para as panteras deitadas aos meus pés e para os grãos de areia que flutuavam ao redor do meu pulso. Eu não fazia ideia do que aquele nome significava ou do motivo de aqueles animais estarem se curvando, mas o terror de ver todos aqueles olhos cravados em mim congelou meus lábios antes que eu pudesse articular qualquer palavra.

O silêncio no salão do trono era tão denso que o som da água corrente nos canais de prata parecia amplificado.

O Regente não avançou com fúria. Em vez disso, desceu os últimos degraus de arenito com passos lentos, os adornos de ouro em seus braços tilintando suavemente.

Seus olhos verde-azulados varreram minha figura da cabeça aos pés numa análise cirúrgica e atenta. Ele observou o tom inconfundível dos meus cabelos caindo sobre o manto, o bracelete ancestral reluzindo no pulso e, por fim, as roupas pesadas e austeras do Norte que eu vestia por baixo da capa de viagem — trajes simples, práticos, feitos para soldados e acompanhantes da corte, sem qualquer ornamento de nobreza.

Um sorriso lento, enigmático e carregado de um fascínio genuíno desenhou-se em seus lábios.

Ele parou a pouca distância de mim, ignorando completamente a presença mortal de Sasuke.

— Uma herdeira do A'lam al-Zumarrod... da lendária e esquecida casa Haruno — a voz do Regente soou aveludada, ressoando num tom quase solene. Seu olhar subiu da minha túnica simples para encontrar meus olhos. — É uma afronta ao próprio deserto ver o sangue mais nobre desta terra trajado como uma reles soldada de escolta do Norte.

Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação ou recuar, ele deu mais um passo e curvou-se com uma elegância impecável. A atmosfera de todos presentes, atônitos. Com movimentos deliberados e sem pressa, ele estendeu a mão bronzeada, ornada de anéis pesados, e tomou a minha mão direita — a mesma que carregava o bracelete.

Sentia a pele dele quente contra os meus dedos frios. O calor que emanava da pedra verde no meu pulso pareceu pulsar entre nós.

Inclinando a cabeça decorada pelo diadema de ouro, ele roçou os lábios com suavidade no dorso da minha mão, mantendo o olhar verde-azulado cravado no meu no instante em que se ergueu.

— Seja bem-vinda de volta ao seu verdadeiro lar, Lady Haruno — murmurou ele, a voz baixa, quente e perigosamente sedutora. — O deserto esperou gerações pelo seu retorno.

Eu ainda estava paralisada pelo toque, o peito arfando sob o manto, quando a trégua rompeu-se.

Com um movimento seco, firme e desprovido de qualquer paciência, a mão de Sasuke envolveu o meu pulso esquerdo. O impacto do seu toque foi gélido e repentino, puxando-me com violência contida para longe do alcance do Regente, fazendo nossos dedos se descolarem bruscamente.

O movimento me fez dar dois passos involuntários para trás, colidindo suavemente contra o peitoral firme do Imperador. Sua outra mão foi direto para a minha cintura, firmando-me atrás do seu corpo como uma barreira física e inexpugnável, enquanto a capa pesada do Norte nos cobria.

— Afaste suas mãos — a voz de Sasuke cortou o salão como uma lâmina de aço afiada, descendo para uma oitava mortalmente calma, mas impregnada de uma autoridade territorial que recusava qualquer contestação. — As vestes que ela usa, o ar que ela respira e a vida que ela carrega estão sob a jurisdição do Norte. Guarde pra si mesmo seus costumes e reverências.

O homem com cabelos avermelhados como fogo recolheu a mão devagar, erguendo o corpo com uma tranquilidade insolente. Um brilho de pura provocação acendeu-se em seus olhos verde-azulados ao ver a forma como o Imperador me mantinha presa contra si.

Ele me olhou por cima do ombro de Sasuke, mantendo o sorriso sutil e enigmático nos lábios.

— O Norte pode tentar reivindicá-la ... — o Regente desviou o olhar lentamente do Imperador para fixá-lo diretamente nos meus olhos, com um peso calmo e desafiador. — Mas, no fim das contas... será ela quem decidirá a quem pertence.