Imortal

10 Uma carta e uma descoberta.


Ao chegarem ao carro de Jason que estava bem perto da entrada do “palácio” de Carl, Jas pegou meu corpo, esperou Stephan entrar e se sentar no banco de trás e então me pôs em seu colo.

_ Jason, o quê está acontecendo? – Steph insistia em perguntar.

_ Calma, não temos tempo. – Ele disse enquanto dava a volta e se sentava na cadeira do motorista, ligando o carro logo em seguida. – Precisamos sair daqui.

Stephan olhou para o meu rosto, e passou os dedos, ainda sujos de sangue, pelos meus lábios, subindo pelo nariz e parando em meus olhos, fechados. Mas uma vez ele teve uma vontade enorme de chorar, mas a engoliu e com um nó na garganta perguntou:

_ E então, agora que já saímos daquele inferno, você já pode me dizer o porquê desse seu desespero e o que estava escrito na carta de Anne?

_ Leia você mesmo. – Disse Jason enquanto pegava a carta, entregava para Steph e dirigia.

Stephan pegou a carta e a abriu cuidadosamente, tentando não sujá-la com meu sangue que decorava suas mãos e que já estava quase seco.

“Oi Stephy,

Imagino que a essa altura do campeonato você se sinta perdido, com dúvidas, sem saber o que fazer, como em um labirinto, não é? Parece ser o fim da linha para você, para Carol, e, ironicamente, até para mim, mas preciso confessar... Não é!

Eu já deveria ter lhe contado tudo que irei dizer, porém achei que deveria esperar pela chegada do momento certo, no qual você pudesse compreender melhor tudo... É confuso, estranho e anormal, mas, verdade.

Você nunca soube disso, mas meus pais eram bruxos. Minha mãe não queria que nenhum de seus filhos também fossem e por isso fez um feitiço onde nós dois teríamos um poder único, que mais ninguém no mundo o tivesse: o de juntar almas banidas ou em processo de morte. Bem, vocês sabem que quando minha alma se juntou com a de Carollyne, ela passou a ter esse poder. Bom, eu não tive oportunidade de te contar que como você está ligado à alma de Earl, você também tem esse poder.

Bem, como minha mãe sabia que provavelmente isso despertaria o obsessivo interesse de alguns bruxos, ela incluiu um feitiço de “imortalidade”. É, provavelmente isso não fez nenhum pouco de sentido, certo? Mas essa imortalidade não seria exatamente para mim e meu irmão. Ela funcionaria da seguinte maneira: Se algum dia nos sentíssemos ameaçados por alguém, poderíamos optar pela morte e a junção de almas em seguida, pois aquela pessoa que tivesse a nossa essência seria eterna; seria imortal.

Acredito que você já tenha entendido tudo que eu quis dizer, mas vou simplificar: Você e Carollyne são imortais. Caso algum de vocês “morra”, sempre acordará depois de um tempo. Porém algo que eu nunca soube foi se isso poderia mudar caso ocorresse muitas vezes. Quero dizer, talvez vocês tenham um limite; talvez não se possa enganar a morte para sempre. Não sei bem como explicar, mas não é difícil entender.

Espero que as coisas fiquem mais fáceis daqui para frente. E lembre-se: Carl não vai desistir, pois não sabe ainda dessa imortalidade. Tomem cuidado porque essa imortalidade pode falhar.

Beijos, Ann.”

Stephan terminou de ler e não pôde conter a mistura de surpresa e confusão que carregava. Aquela carta havia deixado muita coisa clara, porém enormes dúvidas, mas o que ele mais deu atenção no momento foi o fato de que eu não estava morta, e que a qualquer momento eu estaria ali, de volta.

_ Entendeu? – Jason quebrou o silêncio.

_ Mais ou menos.

_ Não é muito difícil compreender...

_ Eu sei, mas como é possível?

_ Stephan, existem coisas no mundo da magia que são inexplicáveis.

_ E por que ela não me disse antes?

_ Talvez para sua própria proteção.

_ Sabe a única coisa que faz mais sentido para mim agora? – Stephan franziu uma sobrancelha.

_ O que? – Jason continuava focado na estrada.

_ Aquela vez, no colégio, quando eu briguei com Carollyne e ela saiu com você para ir ao banheiro. Sabe?

_ Sei.

_ Então, ela se curou muito rápido. Agora faz sentido.

_ Realmente.

Os dois não trocaram mais palavras. Jason concentrado no caminho que percorria, cogitava sobre o que faria para não me amar como amava. E amava tanto que doía... Stephan ficou me olhando, passando os dedos pelos meus cabelos até cair em um sono, e quem sabe dessa vez fosse um descanso sincero, sem sentimento de culpa e com uma carga menor de preocupação, afinal, logo estaria tudo bem.

O tempo pareceu devagar e tardamos a chegar em minha casa, mais especificadamente a casa de Stephan. A noite já havia chegado e a aparência do tempo não estava acolhedora, mas sim medonha.

Jason parou na parte menos iluminada que havia do outro lado da rua. Muitos postes estavam apagados, e outros fracamente acesos. O vento assoviava e soprava brutalmente, formando pequenos redemoinhos de folhas e poeira. Inúmeros raios desenhavam-se ao céu, iluminando-o por segundos ou talvez milésimos. Os trovões não demoravam a se pronunciar, provocando estrondos ensurdecedores. Aquele cenário estava sombriamente assustador, como se toda a crueldade de Carl estivesse se espalhado por ali, e os céus reclamassem pelo rumo em que as coisas haviam seguido.

Antes de acordar Stephan, Jason apenas tirou a chave da ignição e abaixou os olhos em direção às suas mãos. Piscou duas ou três vezes e então voltou a olhar para o pedaço de asfalto à sua frente. O garoto tentava fazer um resumo dos acontecimentos recentes. Tudo pareceu acontecer tão rápido que quase foi impossível captar detalhes. A única cena que lhe era clara era aquela q eu ele não fazia questão de recordar: minha morte. Jas se lembrava bem da dor que sentiu e principalmente de ter se sentido incapaz de cumprir o que havia me prometido. A situação parecia estar fora de suas mãos e suas pernas não pareciam querer se mover. Tudo que pedia era para apagar aquela memória para sempre.

Além daquelas lembranças, Jason não conseguia parar de pensar no quanto eu havia mudado sua vida, no sentimento que nutria por mim e no problema que isso causaria, e chegou à conclusão de que eu nunca o escolheria, pois ele já estivera do lado errado; já escolhera algum dia, a escuridão, as trevas e o ódio.

O garoto pensou também no que deveria fazer agora: ficar ou ir? Já que eu era imortal, não seria mais necessário manter proteção, pois agora eu poderia me defender sozinha... E tinha Stephan! A única coisa de que ele havia se esquecido foi que não sabíamos quantas vezes poderíamos enganar a morte.

Ignorando rapidamente todos os pensamentos que ocuparam sua mente por alguns demorados cinco minutos, Jason se virou para olhar os ocupantes dos assentos de trás: Stephan e eu. Fixou-se naquela cena e novamente quis estar no lugar de Steph, mas abolindo todos esses pensamentos antes que voltassem com mais força, Jas disse:

_ Stephan, acorda. Já chegamos!

_ Em? – Steph respondeu cheio de sono, abrindo vagarosamente seus olhos.

_ Chegamos em sua casa! Precisamos entrar logo, pois parece que por aí vem um temporal! – Jason alertou.

_ Hum, tudo bem. – Stephan espreguiçou. – Me ajude a carregá-la!

Jason apenas assentiu com a cabeça e se virou para frente para abrir a porta do carro. Desceu e retirou meu corpo do colo de Stephan, que saiu do carro e se esticou.

_ Ah que dor nas pernas! Foi muito tempo sentado!

_ Relaxa, logo você se acostuma.

Eu ainda estava nos braços de Jason, e o garoto não cogitou a possibilidade de deixar Stephan me carregar para dentro, então saiu andando em direção à porta antes que meu namorado pudesse dizer alguma coisa; e ele realmente não disse, apenas pegou as coisas que estavam dentro do carro, procurou a chave da casa e seguiu para abrir a porta e deixar Jason passar.

_ Coloque Car no sofá, por que podemos vigiá-la. – Ele ordenou.

_ Sem problemas.

Jas entrou e me deixou deitada no sofá, então ficou em pé apenas me admirando e imaginando a ideia de me ter. Esses tipos de pensamentos estavam começando a se tornar frequentes e isso não era nada bom, pois provavelmente seria difícil esconder esse sentimento tão sincero que começava a aparecer e isso causaria algum conflito serio.

_ Então, está com fome? – Stephan perguntou.

_ Um pouco.

_ Vou providenciar algo para comermos.

_ Não, fica aqui com Carol que eu faço algo para comermos. Inclusive para ela.

_ Certo.

Stephan se sentou e então colocou minha cabeça sobre seu colo. Ele pensou em ligar a televisão, mas a deixou no mudo. Só conseguia prestar atenção em mim e mais nada; quase não ouvia o que Jason estava dizendo, porém precisava tirar um nó que estava preso em sua garganta e por isso perguntou:

_ Ei, Jason... Você não acha que já se passou muito tempo desde que Carol... Hum... Morreu?

Jason desviou o olhar da comida e se virou para encarar Steph.

_ É, você tem razão... Mas nós não sabemos muito sobre essa história de imortalidade, então é impossível adivinharmos quanto tempo vai gastar para ela voltar.

O tempo lá fora ia ficando cada vez mais revoltoso, com ventos sombrios, trovões e ameaças constantes de chuva.

O recinto ficou em silêncio profundo... A televisão exibia apenas as imagens nítidas de pessoas desinteressantes e desconhecidas, que não eram importantes o suficiente para prender a atenção de Stephan. As luzes da sala estavam apagadas, e apenas algumas da cozinha se mantinham acesas com fraca intensidade para que Jason pudesse preparar alguma coisa comestível.

De repente as gotas de chuva despencaram com raiva e força, provocando barulhos insuportáveis, que estavam abafados do lado de fora da casa. Comecei a sentir... No começo, nada muito específico, mas depois de alguns segundos surgiu uma dor tão forte que me impedia de respirar; contorci-me e Stephan se assustou. Eu sentia litros de sangue engasgando-me... Era como se estivesse afogando no meu próprio líquido corporal. Quando tentei abrir os olhos, eles ardiam dolorosamente, e estavam tingidos de rubi, banhados de sangue. Não havia maneira alguma de enxergar; o que eu via era o preto, só o preto.

Comecei a tossir tentando expulsar os nós de sangue de minha garganta...

_ Jason, socorro! – Stephan gritou.

Jas não chegou a responder, apenas saiu correndo da cozinha e se ajoelhou em frente ao sofá onde estávamos.

Encolhi-me e comecei a chorar compulsivamente, tentando possuir alguma visão. Cuspi todo o sangue em algum lugar do chão, conseguindo gritar nas oportunidades que encontrava entre as pausas de minha respiração ofegante.

_ Stephan! – Eu realmente berrei.

_ Ei, estou aqui! – Steph me abraçou e Jason apenas se afastou, chateado.

_ E-eu estou com medo! – Minha voz estava completamente diferente do normal e as dores ainda não haviam cessado.

_ Não precisa ter medo... Estou bem aqui!

Eu não disse mais nada, apenas continuei chorando, encolhida nos braços de Stephan, que tentava controlar seu desespero e suas lágrimas geradas pela angustia de me ver naquela situação.

_ Jason, acho que ela precisa comer algo.

_ Vou terminar de preparar. – Jason disse friamente, contendo o tremor que tinha nas mãos e em todo o corpo.

_ Obrigado!

Aos poucos fui me acalmando, respirando melhor e me estabilizando. A dor ia reduzindo e eu podia sentir o sangue correr em minhas veias aceleradamente. Tentei abrir os olhos, ainda com medo do que poderia acontecer, mas a ardência foi bem menor e a única coisa que aconteceu foi o acúmulo de lágrimas que deixaram meus olhos marejados.

Virei a cabeça para fitar Stephan e só foi possível ver borrões, pois as lágrimas tiravam toda a nitidez que minha ótima visão possuía.

_O qu... – Abri a boca pálida e seca para fazer alguma pergunta, mas Stephan me calou com a mão.

_ Shhhh... Não fale nada; apenas deite e descanse.

O temporal parecia ter diminuído, e apenas uma chuva mansinha caía para molhar o asfalto.

Stephan subiu para o quarto para buscar cobertores e travesseiros. Eu não tinha força alguma para subir as escadas, então preferi ficar deitada no sofá, ainda encolhida e tentando eliminar a dor, o medo e o susto. Eu podia sentir a ferida que havia se formado em meu peito, e fiquei mais confusa do que já estava. As memórias fracas relutavam para vir à tona, mas se misturavam e embolavam no meio do caminho, por isso nada fazia sentido. Aliás... Nunca tivera sentido algum.

Muitas coisas estavam embaçadas em minha mente, mas o esforço que eu fazia para lembrar me presenteava com uma dor de cabeça forte. Acabei deixando isso de lado... Outra hora eu provavelmente lembraria.

_ Aqui estão seus cobertores!

Eu não respondi, apenas tentei olhar para Steph. Ele pegou os travesseiros e os colocou em baixo de minha cabeça, pegou os cobertores, um por um, e foi me cobrindo até eu aparentar estar bem quentinha.

_ Você está com fome?

_ Muita! – Eu disse baixinho.

_ Vou buscar algo para você.

_ Obrigada. – Sibilei.

Continuei deitada na mesma posição enquanto Stephan se dirigia em direção à cozinha.

_ Como ela está? – Foi a primeira pergunta que Jason fez quando viu Steph.

_ Não sei definir ao certo, mas creio que agora ela está melhor do que há alguns minutos atrás. Por que não vai lá falar com ela?

_ Você acha que eu deveria ir? – Jason olhou para baixo tentando esconder a tristeza e o receio que tinha.

_ Acho.

Stephan foi até a geladeira pegar algo bem gelado para beber; Jas deixou em cima da bancada a faca que usava para fazer uns sanduíches, lavou as mãos e as enxugou em uma toalhinha que estava pendurada próximo à janela. Saiu da cozinha e andou lentamente em direção ao sofá em que eu me encontrava. O garoto não queria chamar a minha atenção, por isso pisava tão suavemente no chão que parecia uma pluma.

Ao chegar ao sofá, Jas se agachou e ficou me olhando; com seu dedo indicador da mão direita tirou uma mecha de cabelo que cruzava sobre meu rosto. Eu já estava quase dormindo, pois a exaustão chegava quase ao seu ápice.

_ Ei... – Ele disse baixo.

Eu me virei devagar para procurar na escuridão o dono daquelas palavras... E encontrei aqueles grandes olhos castanhos me fitando fixadamente. Estavam carregados de tristeza, preocupação, e principalmente medo. Não foi difícil desvendá-los... Eu sabia quem era.

_ Oi! – Eu disse tão baixo que era quase impossível ter escutado; mas ele escutou.

_ Que saudade! Como você está?

_ Estou um pouco assustada, mas melhor.

_ Pensei ter perdido você. – Ele abaixou a cabeça, escondendo sua expressão facial de dor.

_ Eu estou tão confusa! Ainda não sei o que houve, nem como cheguei aqui. Onde está Carl?

_ Psiu, não vamos tocar nesse assunto agora, tudo bem? Deixa essa história para depois, quando você estiver boa, bem recuperada e descansada. Você tem muita coisa para ouvir, e vai precisar digerir tudo para conseguir entender.

Eu apertei os olhos tentando mostrar incompreensão, porque eu só ia ficando mais confusa há cada segundo que se passava.

_ Não se preocupe em entender, isso não é sua tarefa agora. Só faça de tudo para ficar bem!

_ Tudo bem.

_ Vou trazer uns sanduíches que eu acabei de fazer para você comer, ok?

Só assenti com a cabeça e fechei os olhos, perdendo-me na escuridão que surgiu em minha frente.

Jason voltou para a cozinha para buscar os sanduíches e levá-los para sala, mas foi pego de surpresa pela pergunta de Stephan:

_ Você a ama?

_ Quê?

_ Só me responde.

_ Não sei Stephan... Há muito tempo eu não sinto nada por ninguém, então não sei lhe explicar.

Stephan não disse mais nada, apenas ignorou e voltou a agir normalmente. Os dois dividiram o lanche, e cada um levou uma coisa. Tinha sanduíches naturais para todos, e refrigerante; mais especificadamente, coca cola.

_ Não acendam a luz, por favor! – Eu pedi.

_ Tudo bem. – Jas respondeu.

Stephan sentou no sofá de uma forma que eu pudesse encostar-me nele. Jason sentou em outro sofá, bem ao lado de onde eu me encontrava. Todos nós comemos em silêncio... Um silêncio constrangedor que provavelmente se fazia presente devido aos últimos acontecimentos, aqueles que deixaram todos pensativos e cheios de dúvidas.

Por fim, Jason decidiu não ficar ali, pois acreditava que era a hora de Stephan cuidar de mim. A pergunta do garoto também fez Jas raciocinar que seria melhor ir embora.

_ Bom, eu vou embora. Estarei em minha casa, qualquer coisa, me chamem.

_ Certo, tchau. – Disse Steph.

Jason levantou-se, abriu a porta e saiu na chuva preguiçosa que caía.

_ Vamos lá para cima meu amor.

Stephan disse, me pegou no colo, e subiu as escadas a procurando o quarto. Ele deixou o recinto o mais escuro possível, e então se deitou ao meu lado, abraçando-me de conchinha.

_ Eu te amo! – Eu sussurrei antes de ser capturada pela exaustão e cair no sono.

_ Eu também! – Ele respondeu.

Dormimos muito rápido, provavelmente uns cinco minutos depois de termos deitado. A noite foi tranquila, sem nenhuma interrupção. Pelo menos uma vez, depois de tanto tempo, eu consegui ter uma verdadeira noite de sono... Uma noite de paz.