Imortal
11 Recuperação
O dia amanheceu um pouco estranho. Havia um solzinho amarelo e tímido que hesitava em sair ou não de trás das densas nuvens que ocupavam quase todo o céu azul. Talvez aquela monotonia do tempo fosse consequência do temporal da noite anterior que deixou folhas espalhadas pelas ruas molhadas.
Não acordamos cedo. Na verdade Stephan se levantou antes de mim e preferiu não me acordar. Ele temia que o tempo que eu havia descansado não tivesse sido suficiente para me fazer recuperar as energias; e talvez tivesse mesmo razão sobre isso. Tudo que aconteceu tinha sugado minhas forças e eu precisava recarregá-las ou não conseguiria sequer raciocinar direito.
Jason não havia dado sinal de vida, o que fez Stephan estranhar. Porém, essa ausência tinha um motivo especial para o jovem bruxo: a fuga da paixão repentina por mim, que insistia em se manter acesa.
Os ponteiros do relógio caminhavam rapidamente, procurando indicar o meio dia, mas o tempo parecia não querer passar de maneira alguma. Eu sentia que já era a hora de me levantar e encarar meus problemas, mas adorava a ideia de me esconder deles debaixo dos meus edredons reconfortantes.
Stephan havia descido para providenciar algo decente para comermos. Com certeza algo que íamos precisar fazer eram compras. O garoto vasculhou toda a cozinha a fim de encontrar algo legal para fazer e logo deu um jeito de fazer um almoço saudável, afinal, eu precisava de uma boa recuperação.
Quando eu acordei, não pensei em levantar imediatamente; muito pelo contrário, permaneci deitada. Com o primeiro movimento que fiz embrenhando-me nas cobertas, Pim levantou a cabeça dentro de sua casinha e correu em direção à cama, pulando em mim e chorando baixinho.
_ Que saudades de você, minha pequena bolinha de pelos! – Sussurrei.
Ela continuou em cima de minha barriga, abanando o rabinho igual um espanador.
Tirei a minha atenção de minha cachorra para olhar para o teto e refletir um pouco. Eu precisava de muitas explicações, e esperava que elas fossem um pouco produtivas e clareassem os meus pensamentos e intuições, que não estavam muito positivos.
Sentei na beirada da cama e soltei Pim que logo deu um jeito de deitar no meio do emaranhado de vários edredons. Meus pés não tocavam o chão naturalmente, por isso eu precisava esticar as pernas para tentar encontrar meu par de chinelos, ou minhas pantufas. Frustradamente saí andando apenas de meias. Fui até o banheiro, apoiei na pia e então me olhei no espelho. Minha aparência não era uma das melhores; minhas olheiras estavam escuras e meus olhos inchados. Meu rosto estava tão terrivelmente pálido que eu até assustei.
Liguei a torneira, fiz uma conchinha com as mãos e peguei a maior quantidade de água gelada que consegui, jogando-a em meu rosto logo em seguida. Procurei uma escova para pentear meus cabelos que pareciam mais um ninho de passarinhos. Por fim, voltei ao quarto, olhei as horas e desci.
Meu namorado estava concentrado na cozinha, preparando algo que parecia estar uma delícia. Eu desci as escadas em silêncio, cheguei à cozinha e então envolvi Stephan pela cintura. Ele se assustou.
_ Bom dia! – Eu disse baixinho.
_ Ah que susto! – Stephan se virou para me encarar e me deu um beijo na testa. – Bom dia minha pequena! Se sente melhor?
Eu observei bem a carinha de preocupação que o garoto fez.
_ Bem, não estou uma beleza, mas me sinto um pouco melhor sim.
_ Menos mal! Estive tão preocupado contigo.
Dei um sorrisinho.
_ Você já terminou de fazer o que está fazendo?
_ Ainda não, por quê?
_ É que eu pretendo tomar um banhozinho... Não estou nas melhores condições né? Olha meu cabelo! Sem contar que estou toda suja de sangue e de poeira, e não sei mais o quê! Preciso tirar esse cheiro de “Carl” de mim urgentemente.
_ Pode ir tomar seu banho então, enquanto isso eu termino nosso almoço aqui.
_ Tudo bem! Amo-te. – Lhe dei um selinho e saí andando.
Subi as escadas tentando controlar meus pensamentos que não pareciam querer desligar, e que precisavam ser organizados. Era realmente difícil enfrentar aqueles acontecimentos, principalmente porque não tinham pé nem cabeça para mim.
Cheguei no quarto de Steph, que agora era meu, e fui logo caçar alguma roupa adequada para o dia. O inverno ainda estava presente, porém naquele momento, pela primeira vez, não estava tão rigoroso. Peguei uma blusa de moletom extremamente fofa e quentinha. Era branca com pequenas cerejinhas estampadas.
_ Uau! Nem sabia que tinha trago essa blusa.
Procurei uma calça jeans confortável. Não queria nada que fosse me apertar demais porque o que eu mais queria era relaxar. Minha toalha já estava no banheiro à minha espera. Dessa vez Pim nem sequer mexeu.
Tranquei a porta do banheiro e então coloquei minha roupa em cima da pia, sem deixar que elas se molhassem. Antes de me despir, olhei novamente a minha figura no espelho. Tentei esboçar um sorriso, mas o gesto que fiz passou longe de se parecer com um. Meus olhos estavam distantes, e já não se via sombras de esperança neles.
Deixei de me olhar e voltei a me concentrar no banho. Eu havia dormido do mesmo jeito que tinha saído de casa: com meu vestido do baile. Ah meu vestido... Era tão lindo! E era um presente. Mas agora estava sujo, rasgado e manchado de sangue.
Abri o zíper do vestido que não era nas costas, mas sim na lateral esquerda da roupa. Comecei a puxar calmamente o corpete, deixando à mostra, primeiramente, meus seios nus. Assustei-me com o que vi: a ferida estava lá. Era horrível olhar para aquele buraco cercado de sangue. Todo o meu busto estava tingido da cor rubi, fruto do meu líquido corpóreo.
Parei de olhar para aquela marca e terminei de tirar minha roupa. Liguei o chuveiro e esperei que esquentasse bastante. Eu tinha medo de que quando a água caísse sobre o machucado, a dor surgisse. Mas mesmo assim entrei debaixo da água e fechei a porta do box. As gotas quentes caiam e penetravam entre os meus fios de cabelo, escorrendo pela nuca e pelo pescoço, até que chegaram ao ponto de dor. Ardeu tanto que comecei a chorar desesperadamente.
A dor se misturou com o desespero e com todas as minhas preocupações. Chorei muito até não ter mais lágrimas para expulsar. Por fim, tentei terminar o banho rapidamente. Lavei os cabelos, esfreguei todo o meu corpo para tirar aquela sujeira, aquele cheiro insuportável que me lembrava Carl. Desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha. Quando saí do box morri de frio, por isso dei logo um jeito de me secar e colocar minha roupa confortável.
Ao sair do banheiro, observei Pim levantar a cabeça e me olhar, e logo depois voltar a dormir. Desci para ver se o almoço já estava pronto... E sim, estava.
_ Hummm, parece delicioso! – Eu assustei Steph.
_ Espero que esteja mesmo! – Ele riu. — Vamos comer então?
_ Claro, estou morta de fome! – Eu também ri.
Sentamos na cozinha para comer, e eu praticamente devorei o que estava no prato. Realmente estava muito bom.
Enquanto almoçávamos, eu tentava não me lembrar do que eu Ainda precisava enfrentar, mas foi repentinamente que me veio à mente a figura de meus pais. Eu ainda não os tinha visto, e para falar a verdade, eu não sabia nem se eles tinham mesmo voltado para cá, afinal, poderia ter mesmo sido armação de Carl.
_ Steph, estou preocupada! – Fiz uma cara séria.
_ Com o quê meu amor? – Ele não tinha me levado tão a sério até ver minha cara.
_ Cadê meus pais?
Steph não disse nada, apenas levantou os ombros e braços com um sinal de “não sei responder”.
_ Será que eles estão bem? Será que estão em casa? – Na minha cabeça ainda havia um zilhão de “serás?” querendo encontrar alguma resposta.
_ Bom, eu não tenho a mínima ideia, e o que podemos fazer é ir até sua casa e conferir se eles estão lá.
_ Sabe... É isso que eu vou fazer. – Eu disse enquanto me levantava e retirava meu prato e meu copo, seguindo em direção à pia e procurando uma esponja para lavar o que havia sujado.
_ Ei, Car, não precisa lavar! – O garoto se levantou e correu até onde eu estava para tomar das minhas mãos a esponja que eu havia custado a achar.
_ Mas...
_ Mas nada, você ainda está em processo de recuperação; não precisa se dar ao trabalho de lavar a louça! Eu faço isso por você!
_ Tem certeza? – Eu levantei uma sobrancelha.
_ Tenho... Absoluta! – Steph me deu um beijinho na testa.
_ Obrigada! – Esbocei um sorriso. – Mas nós vamos lá em casa agora?
_ Podemos... É o que você quer? Você se sente bem o suficiente para se expor?
_ Sim, me sinto bem melhor. Apesar de ainda sentir umas dorezinhas. — Apontei para o lugar onde a ferida estava.
_ Mas então não é melhor esperarmos...
_ Steph, são meus pais... – Eu coloquei a mão no seu braço interrompendo-o e olhando-o incisivamente. – Eu preciso deles.
_ Tudo bem... É que eu me preocupo com você. – Ele abaixou a cabeça, fitando o chão.
_ Ei, eu sei. Obrigada por se preocupar comigo. Mas eu preciso mesmo fazer isso; você me entende, né? – Eu levantei sua cabeça e olhei no fundo dos seus olhos.
Ele só balançou a cabeça e me deu um beijinho calmo.
_ Vamos lá então.
Saímos da cozinha em direção à sala e logo depois, em direção à porta da frente. Steph parou e me deixou passar na frente. Andei até a entrada, peguei as chaves dentro de um potinho em cima da mesa que ficava ao lado da porta e a abri.
Fiquei virada para rua, observando a minha cidade e os mínimos detalhes. As folhas caindo e rodopiando com o vento, os pássaros escondidos, os carros passando, as pessoas andando distraídas e focadas em suas próprias vidas estressantes. Parecia que eu nunca tinha parado para olhar aquele lugar; parecia que havia séculos que eu não passava por aquela rua... A rua que eu andei a vida toda.
Estávamos parados em frente à porta da casa de Stephan, e eu não sabia se queria mesmo prosseguir, ou só correr para o quarto, me esconder debaixo dos cobertores e esperar que toda a poeira se abaixasse e todos os problemas se resolvessem sozinhos; mas infelizmente minha intuição esperava impaciente para me conduzir até o fim da rua, entrar em minha casa e constatar a verdade.
Olhei para Stephan e então comecei a andar. Eu me sentia robotizada e fixada, pois não controlava meus movimentos, apenas andava em direção à minha casa. Não ouvia os sons que eram emitidos por ali, e via as coisas, mas não as enxergava.
_ Carol... Carol! Cuidad...
Antes que Steph terminasse de berrar a frase, um carro passou e buzinou freneticamente para mim. Eu me assustei e meu namorado saiu correndo para me alcançar.
_ Ei, você está bem?
_ Sim, acho que sim. – Disse com a mão sobre o peito, arfando.
_ O que aconteceu com você?
_ Não sei, senti algo como se fosse uma conexão. Será que eu estava hipnotizada?
_ Olha, não sei o que era, mas deu medo. – Ele fez uma cara estranha demais. – Bom, vamos juntos. – Ele me envolveu com o braço esquerdo, e voltamos a andar.
_ Steph...
_ Oi?
_ Eu quero que você me conte o que aconteceu nessas ultimas horas.
_ Tem certeza? – Ele fez um careta de reprovação.
_ Tenho sim. Acho que eu preciso mesmo me informar logo para saber como as coisas serão daqui para frente, você não acha?
_ Hum... Talvez você tenha razão sim, mas, logo agora?
_ Não é uma boa ideia, é?
_ Na verdade, não.
_ Ok, se você está dizendo que é melhor esperar, eu farei isso.
_ Tudo bem.
Continuamos andando até chegar em frente a minha casa. Pra ser bem sincera eu estava com medo... Muito medo. Quem poderia saber o que me aguardava ali dentro? E se fosse um desastre? Algo que estraçalhasse meu coração? Que não tivesse mais volta? Qualquer coisa podia ter acontecido, e como sempre, eu não possuía a melhor das sensações.
Bem, tentei engolir o medo que insistia em não descer garganta abaixo e disse parecendo confiante:
_ Vamos entrar.
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