Immortals: O Livro da Magia

2 Revelações e Despedidas


― Max. – Maxine terminou de fechar a mala e olhou para a Irmã Lydia, na porta do quarto – A Madre Superiora quer dar uma palavra com você. – Max se levantou do chão, pronta para seguir as ordens – Leve a peste com você.

Max suspirou, e obedecendo a irmã Lydia, pegou seu gato resmungão e saiu do quarto.

Infelizmente, Nyx, o gato preto que era sua nova família, era proibido de ficar solto no orfanato, era obrigada a trancar ele no quarto ou leva-lo com ela, para que não machucasse as outras crianças. Algo desnecessário, afinal, Nyx era o gato mais dócil que ela já vira na vida, ele não gostava muito de ser tocado e agarrado, mas não arranhava nem mordia ninguém, mesmo que puxassem sua orelha ou seu rabo, ele lançava um olhar indignado, reclamava e ia para longe.

Desde que voltou do Beco Diagonal com o gato no colo, o gato era alvejado pela Irmã Lydia.

O dia em que Maxine foi para o Beco Diagonal foi o mais feliz de sua vida até aquele momento. A Prof. Minerva chegou pontualmente às oito, e levou uma Max radiantemente feliz, que não se importava em andar, pelas ruas de Londres. As duas entraram juntas em um bar velho, Caldeirão Furado, onde a professora a apresentou a algumas das pessoas por ali e ao dono do bar, que foi muito cordial.

As duas então foram felizes por todo o Beco, onde ela se encantou com tudo. Minerva a levou para comprar suas roupas, seus livros, e não hesitou em deixar que comprasse uns livros a mais para sua diversão, mesmo que fosse tudo de segunda mão. Ela ganhou um belo sorvete de cinco bolas que não caíam, dos sabores mais incríveis, e na hora de escolher um animal de estimação para levar à escola, a garota relutou dizendo que a Madre não deixaria. Contudo, a Prof. Minerva disse que era essencial e que ela deveria apenas dizer que foi um presente da vice-diretora, o que acabou por ser.

A Prof. Minerva apresentou as vantagens de cada animal, disse que sapos estavam fora de moda e eram irritantes, que corujas eram fieis, boas para quem queria se corresponder com amigos e família, e gatos eram companheiros leais e astutos. Como não tinha interesse em sapos, muito menos uma família para se corresponder, Maxine escolheu o felino ainda de poucos meses de vida; um belo gato com a pelagem cor de ébano, com orelhas selvagens pontudas, um rabo longo e muito peludo, e rodeando seu pescoço havia um círculo cinzento, que mais parecia uma gola bufante.

Os dois se deram bem imediatamente, Max encontrou os olhos verdes do gato e se identificou, sentindo um estalo. Quis pegá-lo ao mesmo tempo em que o felino fazia força para se soltar da cuidadora e pular no seu colo. Minerva afirmou que era um tipo de laço entre bruxo e familiar muito importante, e que era um ótimo sinal que ela houvesse encontrado um parceiro tão bom. Maxine prontamente o chamou de Nyx, recebendo um olhar curioso da professora.

Tão rápido quanto o dia começou, ela se foi, e Maxine foi entregue de volta ao orfanato no fim da tarde, sob orientações de como chegar à plataforma 9 e meia. O mês se passou o mais rápido que já vira na vida, ela teve a impressão que só em piscar os olhos já havia chegado no dia 31 de agosto, e estava arrumando sua mala com os livros preferidos, materiais e roupas, sob os olhares atentos das colegas, tão animadas quanto ela.

Maxine desceu as escadas até o escritório da Madre Thaís, e a porta já aberta, mostrou que a Irmã a esperava sentada em sua cadeira, com um sorriso calmo e imutável.

― Entre Max, feche a porta.

Maxine obedeceu, fechando a porta atrás de si e com Nyx no colo, sentou-se na cadeira de frente à Madre. A senhora que possuía poucas rugas, apesar de sua idade avançada, cruzou as mãos em cima da mesa e olhou para Max com atenção e o mesmo carinho que sempre oferecia à suas internas.

Max era feliz no orfanato, mesmo com todos as marcas que havia conseguido ali. Haviam irmãs rígidas, outras que não se importavam muito com elas, não tinham nada nem ninguém, mas ninguém jamais poderia dizer que não foram bem cuidadas ali, que não foram amadas pela Madre Thaís, principalmente Max, que sabia como o amor da irmã Nora e da madre havia sido responsável por salvá-la anos antes.

― Max, sei que amanhã estará partindo para sua nova escola, estou muito feliz por você, espero que encontre uma casa lá. – Max assentiu para a fala da Madre, sorrindo involuntariamente – Contudo, não quero que se esqueça de que tem um lar aqui, e sempre terá.

― Não esquecerei, Madre Thaís.

Estava sendo sincera. Não importava quem fosse, todas as garotas que saiam do Princesa Cordelia sempre podiam retornar quando quisessem, fosse para visitas ou em busca de abrigo. Quantas vezes havia visto as mais velhas se mudarem para as faculdades e sempre voltarem para as festas? Ou aquelas que não conseguiam continuar os estudos, que por lei deveriam ser expulsas tão logo atingissem a maioridade, mas a Madre continuava a abriga-las, a cuidar delas até que estivessem prontas para saírem do ninho.

Ela poderia não ter pais, mas tinha uma família ali, e a Madre Thaís era a mãe de todas elas.

― Dito isso, gostaria de conversar com você sobre um assunto importante, que creio, ser a hora para que saiba. – Madre Thaís abriu uma gaveta ao falar, retirando dois envelopes dali de dentro e os estendia para Max – Há dez anos você foi deixada em nossa porta, como bem sabe. – Maxine assentiu, o olhar preso nos pergaminhos – Há dez anos, eu e a Irmã Nora acolhemos você com todo cuidado, e lemos essa carta deixada por cima de seus cobertores.

Maxine aceitou a carta, inquieta.

― Ela é...

― De sua mãe, sim. – Madre Thaís a encarava com carinho nos olhos castanhos bondosos – Fomos obrigadas a ler, e assim que a vimos, decidimos guardá-la em segredo, até que completasse a idade e o marco descrito aí. Também havia uma foto dentro da carta, uma foto que se move. – Maxine olhou intrigada para a Madre, que estendia a fotografia – Aparentemente, é algo comum nesse mundo, e quando a professora de sua escola apareceu, ela explicou o máximo que pôde. Pegue.

Maxine apanhou a fotografia relutante, mas tão logo pôs os olhos nela, sentiu-se hipnotizada.

Estampada na foto estava, uma mulher gloriosamente bela. Com o cabelo meio claro balançando-se ao vento, ela caminhava a plenos sorrisos com um bebê no colo na praia, intercalando olhares para ele e para a pessoa por detrás da câmera. Se passava rápido, ela apenas andava alguns metros e rodava o corpo devagar, olhando para a criança nos braços nessa hora.

Com o coração acelerado, Maxine prestou atenção nos detalhes, nos seus olhos castanhos cheios, os fios ondulados no mesmo tom castanho-claro que Max tinha, às linhas do rosto que se assemelhavam, e ao sorriso encantador, verdadeiro, amoroso.

Maxine virou o verso da folha.

Marlene e Max em seu primeiro verão, 1980.

PS: Almofadinhas não sabe tirar fotos. Não se preocupe Marls, nunca mais deixarei que ele cometa essa atrocidade. Ass.: Lírio.

Atrocidade? Os olhos de Maxine se encheram de lágrimas, ela olhou para a foto mais uma vez, seguindo o olhar da mãe para ela, o olhar de uma mãe feliz, que a amava, que cuidava dela. Ela foi amada, muito amada pelo que via. Mas quem era Almofadinhas? Quem era Lírio? Ávida por respostas, por saber mais da mãe, Maxine abriu a carta no colo, sem largar a fotografia. Seus dedos tremiam, não sabia se era de animação ou nervosismo, mas tão logo enxergou as primeiras letras, ela soltou o ar que não percebeu estar prendendo.

“Maxine,

Minha doce filha, você está prestes a começar seus estudos em Hogwarts, e eu gostaria que não estivesse lendo essa carta agora, pois só existe uma possibilidade para que possa lê-la. Para que esteja lendo isso, algo aconteceu a mim e a seu pai, e você está com seus avós ou seus padrinhos. Eu não quero pensar em uma ideia aterrorizante como essa, mas preciso encarar a verdade.

Estou escrevendo essa carta com os olhos esporádicos em você, com dor no peito, mas a resolução de que preciso fazer isso.

Max, hoje é seu aniversário. Não sabe como estamos todos tão felizes aqui, como todos estiveram exultantes em comemorar seu primeiro ano de vida. Há exatamente um ano, você nasceu na noite mais longa, trazendo a luz para nossas vidas, esperança para toda a Ordem e uma nova razão para que eu e seu pai continuemos a lutar e superássemos dores que nos afligiam. E hoje está aqui, com suas lindas madeixas castanhas, tão grandes, correndo de um lado a outro atrás de Harry, que mal começou a engatinhar.

Desculpe-me o tom nostálgico, mas não pude evitar. Quero que saiba que estamos todos aqui felizes comemorando seu aniversário. Seu pai, eu, seus padrinhos, Rabicho e Aluado, uma festa pequena, em meio aos tempos em que vivemos não poderia ter mais, mas ainda assim, uma festa completa, com a nossa família. Digo isso porque quero que saiba que é amada, Maxine, todos nós te amamos, cada um de nós faria todo o impossível para protege-la.

Por isso escrevo. A guerra em que estamos não parece ter fim, estamos perdendo muitos companheiros, Lírio e Pontas estão se escondendo, enquanto eu e seu pai continuamos a lutar. Seus avós brigam e me perguntam o porquê de eu me arriscar dessa forma quando deveria estar cuidando de você, e eu respondo que luto por você.

Se está lendo essa carta é porque morremos lutando por um futuro em que esteja segura, um futuro em que poderá viver anos felizes e tranquilos em Hogwarts, fazendo amizades sinceras e sem distinções de origens, sem medo das trevas que nos ameaçam.

Ah Maxine, você será tão feliz nesses sete anos que te aguardam. Terá as mais incríveis aventuras, aprenderá tanto do mundo e eu espero solenemente que puxe a minha inteligência, com o bom humor e espírito de seu pai. Espero que vive ao menos metade das aventuras em que nós nos envolvemos. Viva, ria, se divirta, estude muito, mas não se esqueça que nem tudo na vida são livros; a amizade, o companheirismo estão muito acima.

Irrite o zelador, deixe seus professores de cabelo em pé, apronte muito, jogue quadribol, e faça incríveis amizades que ficarão ao seu lado não importa o que aconteça. Ame, se apaixone, beije muito, viva grandes amores e lembre-se que cada um deles deixará algo em você, uma lembrança feliz e uma lição importante.

Mas quando encontrar aquele a quem seu coração pertence, se entregue sem restrições, viva intensamente esse amor, pois de nada adianta vivermos sem amor, e o que é o amor senão uma grande aventura?

Terá tristezas, dores, terá o coração partido e terá que lutar pelo que acredita, mas não ceda ao medo que virá, tudo isso é parte das recompensas que virão depois. Como diria seu pai, o que é a vida sem riscos? Viva com medo sim, mas não deixe dominá-la, não deixe as sombras cercarem seu caminho, não deixe a dor sobrepujar a chance da felicidade. Não desista, continue sempre a lutar pelo quer que seja em seu caminho.

E saiba, que eu já me orgulho de quem você se tornou, pois sei que é a mais maravilhosa das garotas da sua idade, e estou te observando, com muita alegria. Saiba que eu te amo, e te amei até meu último suspiro.

Viva Max, viva com amor, com felicidade e com esperança.

Um novo raiar sempre virá, e mesmo na noite mais longa, a luz chegará.

De sua mãe, que te amou além dos limites do mundo.

21/12/1980”

Numa parte de escanteio da carta, estava um adendo em outra letra, e emocionada, Maxine leu:

“Max, acho que sua mãe disse tudo que eu poderia vir a dizer. Eu não gostaria de escrever isso, não quero pensar em um futuro em que não a vemos crescer, em que não estamos ao seu lado, prontos para leva-la a Hogwarts, mas aqui estou eu.

Eu amo você Mad Max. Você é perfeita, é uma joia rara nas minhas noites escuras, e sei, eu simplesmente sei que é a mais incrível das garotas de sua idade.

Max, tenha certeza de quando levantar a voz, todos a escutarão sem hesitar. Não se cale perante injustiças, não se cale perante preconceitos e ao que machuca os outros, pois quando o fazemos, somos tão culpados quanto quem cometeu. Se o caminho na sua frente estiver muito fácil, é porque ele é o errado; As coisas que mais valem a pena e que são as certas, são aquelas pelas quais temos que lutar.

Um sábio homem nos disse uma vez: Chegará o dia em que terá que escolher entre o que é certo e o que é fácil. Não hesite em escolher o certo, sempre. Não tenho dúvidas de que fará isso.

E quando amar, como sua mãe disse, tenha certeza de que o homem ou a mulher a quem está entregando seu coração, é alguém que a merece, pois o seu parceiro pode estar escondido, e nunca será alguém que a machucará. Caso um pentelho ouse te ferir, não se preocupe minha diabinha, eu voltarei dos mortos apenas para aterrorizar esse ser desprezível.

Cuide de você mesma, de seus amigos, e de seu coração.

Eu te amo Mad Max, sei que me deixará orgulhoso.”

Max ergueu o rosto molhado para a Madre, que a observava com compaixão.

― Eles estão mortos. – Disse em um tom embargado pela dor.

― Sim.

Max soltou todo o ar de seus pulmões, o choque dessa notícia tendo apertado seu coração. Ela sabia, claro que sabia disso. Vivia no orfanato exatamente por esse motivo. Ainda assim... o eco distante da morte dos pais era totalmente diferente da certeza de estar completamente sozinha no mundo.

― Ela diz que eu tenho avós, que eu tenho padrinhos. Onde eles estão?

A Madre olhou para Max com pena, e estendeu o que parecia ser a última evidência.

― Eu não gostaria de te dar isso, mas Irmã Nora me convenceu do contrário. Não sabemos o que acontece nesse mundo em que você irá, mas ela acha importante que você tenha todas as informações necessárias.

Max pegou o papel e já o leu, apreensiva:

“Peço que abriguem essa criança. Maxine não tem mais ninguém, seus avós morreram, seus tios morreram, toda sua família se foi. Ela está em perigo. Não compartilhe isso com ninguém, não importa quem apareça procurando-a, ela deve crescer como uma de vocês, até o dia em que estará segura dentro dos muros de Hogwarts, a escola bruxa em que ela irá quando fizer onze anos. Consegui uma quantia necessária a ela, e peço que o guardem até o dia de sua entrada.

Consegui resgatar essa carta e essa foto, gostaria de ter mais, de ter feito mais, sinto muito”

Max leu e releu o bilhete, tentando encontrar as palavras tão claramente escondidas ali dentro.

― Quem deixou isso?

― Não sabemos.

― Porquê estou em perigo?

― Não sabemos.

Madre Thaís não parou de sorrir um só minuto, e Maxine soltou um suspiro, encarando-a.

― Você não mostrou isso à Prof. McGonagall, não é mesmo?

― Não. Caso queira, está livre para mostrar, embora eu não recomende até que tenha todas as informações que precisa.

Maxine assentiu, os olhos cheios de lágrimas que rolavam por seu rosto, enfim sentido o peso do que havia lido, daquele pergaminho que era a prova de que havia tido pais que a amavam, que não era indesejada ou uma monstruosidade odiosa como havia escutado tantas vezes antes. Era uma prova que era amada por ser quem era.

― Eles me amavam.

― Sim, Max, eles te amavam.

Madre Thaís esticou-se e deu tapinhas carinhosos e reconfortantes no dorso da mão de Max, enquanto ela continuava a chorar, de tristeza e alegria.

― Obrigada Madre. – conseguiu dizer após minutos de choro silencioso, oferecendo um sorriso em troca à senhora – Obrigada mesmo.

― Não precisa agradecer, Max. Estive aguardando ansiosamente por esse dia. – A madre olhou para o relógio e soltou um arquejo – Hora de dormir, querida. Irmã Nora a levará amanhã e terá uma longa despedida a fazer.

Maxine sorriu entre as lágrimas e se levantou com a carta e a foto na mão, Nyx na outra.

― Nos vemos no próximo verão, Max.

― Até o próximo verão, Madre.

Maxine saiu dali renovada.

Daria o máximo de si para cumprir os desejos dos pais. Ela seria feliz em sua nova escola.

X____X

― Oras, eu disse à Madre que essa plataforma não existia!

Irmã Nora resmungou audivelmente, com as mãos na cintura, atraindo olhares dos passageiros que corriam de um lado a outro. Max suspirou, deitando o rosto no carrinho de malas, e Nyx miou em reclamação. Estavam na plataforma nove há cinco minutos, sem saber o que fazer, afinal, depois na plataforma nove, havia a dez e nenhuma nove e meia, o que significava que ela sofreu uma pegadinha, e não tinha o que fazer.

― O que podemos fazer? Está quase na hora, faltam dez minutos para o trem partir!

― Irmã, podemos perguntar por aí...

― Max! Não ficou claro para você que não podemos perguntar?! – Max bufou revirando os olhos – Apenas eu e a Madre sabemos disso, porque precisamos manter segredo! Imagine se sai por aí perguntando de uma plataforma mágica!

― Eu sei, Irmã Nora.

A Irmã suspirou profundamente, voltou a olhar para as plataformas e raciocinar rapidamente. Max estava pronta para desistir, voltar para o orfanato e implorar por uma vaga em sua antiga escola quando viu um batalhão de crianças ruivas vindo em sua direção. Poderiam ser mais uma família comum – pelo que ela entendia de comum – mas algo entre eles fez com que prestasse mais atenção; Um deles carregava uma coruja, muitos carregavam malas como ela, e um menino da idade dela estava visivelmente nervoso.

Max se deixou levar pelo instinto e tão logo se aproximaram, ela se pronunciou:

― Bom dia! – A senhora da frente olhou para ela com curiosidade, e a Irmã Nora a fuzilou com o olhar – Eu sou Maxine Snow.

Max estendeu a mão e a senhora com rosto bondoso a apertou com ternura e um largo sorriso, enquanto os filhos a encaravam confusos.

― Bem... olá Maxine, sou Molly Weasley...

― A senhora sabe onde fica a plataforma nove e meia?

― Max! Isso é a educação que lhe demos, por acaso? Interrompendo os outros?! – Max revirou os olhos, a Irmã Nora marchou até ela ao falar, e a Sra. Weasley avaliou o hábito da freira, com curiosidade – Me desculpem pelos modos dela.

― Sem problemas. É seu primeiro ano, certo? – Max assentiu ante ao olhar carinhoso da Sra. Weasley – A plataforma é bem ali, só atravessar essa pilastra.

Maxine e a Irmã Nora olharam para trás, para a pilastra de pedra que a Sra. Weasley apontava. Como é?! Ela não escapou de uma queda feia no telhado do orfanato para bater de cara na rocha. Escutou risadinhas e lançou um olhar fulminante a dois garotos gêmeos que riam dela.

― Veja, Percy, vá primeiro.

O tal Percy, com uma coruja no carrinho, ergueu o queixo – prepotente e arrogante – e seguiu até a pilastra, atravessando-a e sumindo. Maxine abriu um grande sorriso e se preparou para segui-lo.

― Max! Max, espere!

― Obrigada! – Max gritou o agradecimento antes de correr até a pilastra.

Foi como uma grande mudança, como se ultrapassasse uma mera porta de lençóis, e logo estava de frente a um grande trem, uma plataforma recheada por crianças e pais, animados. Ela desbravou o caminho, excitada, sem saber o direito o que fazer, mas pronta para ver mais daquele mundo.

― Max! – Escutou a voz da Irmã Nora e se virou.

Atraindo atenções admiradas e encantadas por todos os lados, a freira vinha correndo até ela, os olhos chocolate apreensivos, os cabelos castanhos firmemente presos por um laço verde em um rabo baixo enquanto a luz do sol banhava sua pele branca leitosa. Max sabia que a freira era uma mulher bonita, sempre chamava atenção na rua quando saíam juntas. Era a freira mais nova do orfanato, recém chegada quando Max foi deixada lá, na época tinha apenas vinte anos, algo que sempre despertou a curiosidade de Maxine para saber porque havia desperdiçado a vida naquele lugar esquecido pelos deuses.

Ela verbalizou o questionamento no que deveria ser uma simples tarde de verão, mas Max a passava acamada ainda em recuperação, escutando os gritos alegres das crianças felizes do lado de fora. Nora estava ao seu lado, lendo para ela, pela milésima vez, Anne de Green Gables enquanto fazia cafuné em sua cabeça raspada, a voz doce a aprisionava até que Max escutasse os sussurros próximos de que era o aniversário de Irmã Nora naquela noite.

“Porque está aqui?” Max perguntou, interrompendo a leitura da Irmã, que olhou para ela com as sobrancelhas arqueadas “Porque não tem uma vida? Se eu fosse você, se fosse livre, estaria lá fora, me divertindo, conhecendo o mundo, sendo feliz.”

“É mesmo?” A Irmã sussurrara divertida, trocando a página do livro sem dizer mais.

“Porque está aqui?” Max tornou a perguntar. Nora simplesmente olhou para ela com carinho, deu um leve aperto em seu ombro antes de voltar aos movimentos circulares em sua cabeça e respondeu com calma. “Porque não há outro lugar para mim. Porque é aqui que eu preciso estar”.

Mesmo depois de anos, ela não parecia arrependida da escolha, e mesmo que Max insistisse na pergunta todos os anos, Nora mantinha a mesma resposta, sorrindo docemente e fazendo o mesmo cafuné. Ela não entendia, achava que nunca entenderia, mas era agradecida ao que quer que tivesse levado Nora ao orfanato, pois graças a isso a tinha como a figura mais próxima de uma mãe que já havia conhecido.

Max sorriu para a freira, que se aproximava a passos rápidos.

­― Tudo bem, Irmã?

― Claro, claro. – Ela a alcançou e segurou sua mão entre as dela, os olhos castanhos fixos em seu rosto – Quero que tome cuidado, ouviu?

― Sim, Irmã.

― Arrume sua cama, escove os dentes, lave entre os dedos dos pés.

― Sim, irmã.

― Alimente-se bem, não deixe nada no prato para não ficar doente.

― Sim, irmã.

― Não durma muito tarde, boas noites de sono são importantes para uma boa educação.

― Sim, irmã.

A essa altura, Max já sorria, balançando-se animada. Ela não teve pais, mas encontrou uma família no Orfanato, a Irmã Nora e a Madre Thaís, sob toda a pose distante e brincalhona de Nora, ali estava toda a prova do quanto cuidava dela, o quanto gostava dela. A Irmã continuou, com os olhos marejados:

― Faça amigos verdadeiros e bons, seja forte e não abaixe a cabeça, mas respeite seus professores e os mais velhos.

― Sim, Irmã. – Irmã Nora derramou algumas lágrimas e fungou, e com o lenço estampado de rosários, enxugou os olhos.

― Eu não acredito que estou chorando por me livrar de uma peste como você.

Max riu e se jogou em um abraço, cercando o corpo da irmã com força.

― Também sentirei sua falta, Irmã.

― Sim – Nora alisou os fios revoltos na cabeça de Max, beijando o topo da sua cabeça – Cuide-se, Max. Agora vá, de uma vez, vá!

Max riu, e com uma última troca de olhares, foi até a porta de uma cabine e colocou suas coisas dentro, Nyx miava irritado por ainda estar preso. O trem apitou, e Max se trancou lá dentro, pondo a cabeça na janela para acenar em despedida para a Irmã chorosa, que era agora consolada pela Sra. Weasley, que lhe dava tapinhas de consolo. Conforme o trem passou a andar, e ela foi se distanciando da estação, o contorno da Irmã Nora foi desaparecendo, e com o último apito, ela se esparramou no banco enquanto Nyx esfregava carinhosamente o focinho em sua mão.

Max sentiu o embrulhar no estomago costumeiro, uma mistura de medo e excitação.

As palavras implicitas da Irmã rodavam sua cabeça; Não importava onde estivesse, ela não estaria sozinha.

Ela só precisaria encontrar um novo lar em Hogwarts. E também descobrir a verdade sobre sua família.

Sorrindo, Maxine relaxou.

Sem pressão não é mesmo?

Notas finais
Mil desculpas, mil desculpas! Prometi postar no sábado, mas tenho grandes motivos para não ter postado - entrei de férias em Ravka para entrar na dobra cofcof Espero que tenham gostado do capítulo, digam o que acharam aqui embaixo. No próximo temos Expresso de Hogwarts, Seleção e novos amigos! Beijos na bunda!