Immortal
21 Os Dois Lados De Uma Mesma Moeda
Notas iniciais
Eve e Logan, ambos absortos e imersos dentro da leitura que faziam, pendiam-se ligeiramente encurvados sobre a pilha de infindáveis papéis que se dispunham à sua frente sobre a evidente madeira podre do bar. Seus corpos, ainda irrigados pela intervenção de Hela, sequer notando o frio que se intensificou junto à roupa molhada que apenas fazia aumentar os calafrios ao invés de despistá-los.
Cada par de olhos analisava um documento diferente, e tudo o que se ouvia era o eventual ruído de uma respiração concentrada, quase pesada ante a solenidade daquele momento que se alastrava como uma pequena fração de eternidade, criando um inusitado paradoxo entre a finitude e a sensação perene que tal situação criara.
Vários segredos da GlobalGen agora ao alcance do casal, os documentos contando-lhes os segredos mais vis com uma naturalidade espantosamente medonha, detalhando com minúcia cuidadosa cada experimento e tratando cada mutante como um número que, ao final, seria indubitavelmente descartado.
O maior genocídio da história mutante, camuflado por uma cidade deserta e a proteção de um governo de tendências fascistas.
– É muito pior do que pensávamos... – Eve sussurrou, quase sem voz, a garganta ameaçando fechar com a desagradável surpresa provocada por sua recém-descoberta. Leu uma segunda vez o título do projeto, e o nojo subiu à sua garganta com o gosto amargo da bile.
– Os progressos por aqui também não foram dos melhores, guria... – Wolverine avisou, ainda mantendo o enfoque em alguns artigos sobre as consequências de se administrar doses cavalares de radiação na gestação de um feto mutante, a primeira tentativa efetiva de cura à mutação testada pela GlobalGen. Porém o resultado limitou-se a contínuos abortos e, quando o feto sobrevivia por mais tempo do que o habitual, relatou-se o aparecimento de anomalias que, de tão monstruosas, mostraram-se incompatíveis com a vida. Este único projeto, Logan veio a descobrir ao ler as conclusões, matou milhares de mutantes, tanto os fetos quanto as mães gestantes, nenhum dos casos diferindo deste padrão.
– Dá uma olhada nisso... – Hela empurrou a pasta que antes lia para o alcance visual de Logan, e de repente seu estômago se embrulhou de tal forma que sabia que mutação alguma poderia curar. O mau agouro que sentiu a fez estremecer, e Logan percebeu seus verdes olhos dominados por um genuíno medo, dando-lhe a curiosa aparência de uma menina assustada, algo tão discrepante às expressões que normalmente estavam estampadas em seu confiante rosto, e apenas aquela visão foi capaz de inquietá-lo por dentro, ciente de que a conhecia suficientemente bem para saber que não era da natureza de Eve demonstrar seus medos, por mais que fosse capaz de senti-los tão bem quanto qualquer pessoa normal.
Só após estudar com muito cuidado a expressão de Eve, Logan deixou que seus olhos se atraíssem ao documento mencionado, e bastaram algumas linhas lidas para que ele não só compreendesse o visível temor da companheira como também o compartilhasse dentro de seus intensos e brilhantes olhos castanhos.
Haveria uma guerra em curso, em relação a isso não restava a menor dúvida.

Uma forte lufada de ar fez com que a brisa quase estagnada de Centralia ganhasse um turbilhonamento pouco habitual para aquela cidade em nada dinâmica. E, conforme a nave notadamente pertencente aos X-Men pousava com cuidado na rua deserta, o ar continuava descrevendo trajetórias de modo a acompanhar o movimento da aeronave, poeiras sendo impelidas para além do chão até que novamente se assentassem com o pouso delicado.
– O senhor tem certeza que eles estão aqui, professor? – Tempestade por um instante duvidou, não entendendo que tipo de correlação poderia existir entre aquela cidade e o passado que Logan e Eve buscavam.
– Sim, eles estão aqui, Ororo, e bem perto. Posso sentir suas mentes como se pudesse vê-los bem à minha frente. – um timbre mais profundo saía melodioso em conjunto à voz hipnoticamente solene do cadeirante, e Tempestade intuiu que aquilo significava uma mal escondida excitação pela presença tão próxima de sua filha, mesmo que os termos daquele encontro não fossem os melhores. Os dois desceram da nave num caminhar ritmado em conjunto com suas respirações pensativas e compassadas, ambos contemplativos e ruminando suas próprias más impressões acerca daquelas abandoadas estradas.
– Mas o que pode haver nesse lugar que ajude Logan a descobrir seu passado? – a mutante insistiu na pergunta, sinceramente confusa, ainda buscando um sentido até então oculto para pousar na desértica e insalubre cidade, que ganhava sem grande esforço o mesmo teor macabro dos filmes de terror, agregando calafrios e tremores a qualquer visitante que ali ousasse pisar.
– Esta é uma questão que deverá esperar, minha querida – Charles comentou, sabendo que, no momento, era assombrado por preocupações maiores do que aquela. Qualquer outra poderia e necessitaria vir em segundo plano, tamanha a crise vigente que o incitara até um novo encontro com sua primogênita. – Eles estão ali... – Xavier apontou para o estabelecimento a poucos metros de distância que sabia abrigar sua filha e Logan, uma pequena e porca construção em madeira cuja entrada parecia reduzida à fuligem, irremediavelmente destruída. Algo que, pelo padrão focal de estrago limitado apenas àquele ponto, parecia ser obra de sua filha.
– O senhor acha que podemos dissuadi-la...?
– É nosso dever, Ororo. Se não pudermos sequer convencê-la, logo estaremos todos irremediavelmente perdidos. Só Eve pode lidar com a imprudência de Magneto agora... Nem mesmo ele detém o controle daquilo que começou, mesmo que tencionasse fazê-lo – encarou-a sugestiva e intensamente antes que a mulher de mechas prateadas abrisse caminho por entre as toras que impediriam a passagem da cadeira de rodas, seus orbes ganhando um peso de preocupação que lhe parecia muito conveniente à situação atual.
Afinal ultrapassaram o irreconhecível batente do recinto, tendo como única aliada a esperança de que tudo ainda fosse passível de conserto.
Logan e Eve logo arquearam os olhos rumo à entrada do bar, percebendo com um momentâneo sobressaltar que não mais estavam sós. Um rápido arrepio perpassou ambos os corpos, como que avisando que era provavelmente hora de adotar uma postura ofensiva. Contudo, a incerteza logo se transformou em confusão – e uma indisfarçada pontada de alívio – assim que foi possível reconhecer seus novos acompanhantes.
– Pai? – a voz de Hela, para o seu profundo desgosto, recriou uma porção do mesmo timbre de quando ainda não passava de uma ingênua garotinha ansiando por atenção de sua figura paterna, tão frágil quanto um botão de rosa exposto às rigorosas geadas invernais. Detestava aquele tipo de surpresa, em que não lhe davam tempo para recriar a máscara hostil que tanto portava em defesa própria, e sentia-se ainda mais exposta após a conversa com Logan, que lhe fez perceber que ela mesma queria recomeçar a relação tão conturbada que vinha tendo com seu progenitor. – O que faz aqui? – obrigou-se a endurecer um pouco mais seus sentimentos ao falar, buscando por migalhas da sua própria rigidez, mas parecia cada vez mais impensável ignorar a compaixão que vinha sentindo pela figura de Charles, pela primeira vez esse sentimento se sobrepondo ao forte rancor nutrido pelas tóxicas lembranças do passado.
– Precisamos conversar, mas temos pouquíssimo tempo a perder – avisou, suas palavras soando urgentes e deliberadas pela pressa – Eve, Logan... Vocês precisam voltar conosco agora mesmo.
– O que houve, professor? – Wolverine perguntou antes que Eve tivesse tempo de protestar e dar início a uma nova discussão entre os dois, como o mutante já sabidamente percebia que ela o faria mais cedo do que tarde. Seus dedos caminharam até as pernas da mulher por baixo da mesa, encontrando a mão feminina e apertando-a entre a sua, percebendo que o gesto a acalmara, ou pelo menos a fizera reconsiderar as palavras agressivas já prontas para jogar contra seu pai. Logan sorriu por dentro, orgulhoso por perceber o efeito que exercia sobre a mulher de belos olhos musgo.
– Vamos até a nave, e no caminho a Nova York eu explico tudo o que têm ocorrido. – o professor propôs, sentindo-se tolo até mesmo por tentar aquele tipo de abordagem com sua filha. Ele soube que aquele pedido seria desconsiderado antes mesmo que pudesse terminar a frase, a única forma daquela súplica funcionar com a filha seria no caso de Charles tirar-lhe o livre arbítrio através de seu poder mental. E essa não era, nem de longe, uma opção.
– Não me espanta que vocês não saibam. Aqui, neste fim de mundo, separados de uma crise por esta bolha de cidade... – Ororo comentou, tão impaciente para retornar à realidade quanto Xavier.
– Nós não estamos exatamente numa colônia de férias aqui, Trovoada. – Hela disparou, trocando o codinome de Tempestade por pura confusão causada por sua baixíssima familiaridade com a mulher, a filha de Xavier invariavelmente enraivecida pelas imposições que ambos já chegaram decretando – Temos assuntos provavelmente até mais importantes do que os seus para tratar, por que largaríamos tudo sem que vocês ao menos expliquem em que merda estão atolados dessa vez?
– Magneto passou de todos os limites, Eve, e agora todos correm perigo, tanto humanos quanto mutantes. Um perigo que, eu temo, apenas você seja capaz de lidar. – Charles explicou, mais sucintamente do que Eve gostaria, porém já era um começo.
– O que aquele maluco fez dessa vez? – ela perguntou, um tanto entediada, querendo mais do que tudo voltar à sua interrompida leitura sobre a GlobalGen. Irritava-lhe profundamente essa rixa entre o pai e o padrinho, que em alguns momentos mais pareciam duas crianças mimadas disputando o mesmo brinquedo.
Charles Xavier suspirou, já sabendo (desde que ali chegara) que teria de contar a história completa se quisesse convencê-la a vir consigo, e mais tempo seria perdido, aumentando ainda mais a vigente desvantagem de sua posição na injusta luta que travava contra o relógio.
– Vocês conhecem a abrangência do poder de Magneto? – o professor usou seu melhor tom equilibrado, porém Tempestade não possuía a mesma destreza na arte de esconder a própria impaciência, e um bufar alto e desgostoso atravessou sua garganta quando a mulher se deu por vencida e sentou-se numa das cadeiras repletas de poeira, aceitando à contragosto o tempo extra que teriam de passar naquela desagradável cidade. Somente diante deste movimento de Ororo, Eve percebeu que a pele da mulher, antes tão jovem e altiva no seu belo tom mulato, agora parecia opaca, dona de algumas rugas que Hela não se lembrava de ver. Notou que seu pai parecia também mais velho do que devia, e cogitou levar o assunto um pouco mais a sério.
– Ele controla todos os tipos de metais... – respondeu categoricamente, dando de ombros, como se tentasse imaginar aonde essa conversa os levaria.
– Essencialmente, sim. Mas o poder de Magneto compreende muito além do controle de metais. Existe outra face de sua mutação que agora tem se mostrado um problema maior do que nossa resiliência é capaz de driblar. Magneto não só domina todos os tipos de metais, mas também tem o poder de controlar campos magnéticos.
– E que tipo de problema ele criou? – Wolverine se manifestou, preocupando-se com os abatidos traços do professor e conhecendo o suficiente de Magneto para saber que lhe faltavam todos os tipos de limites em sua arrogância.
– Ele mexeu com coisas grandes demais... – Charles encarou Logan com um pesar tão denso que parecia sufocar. O professou gastou algum tempo contemplando nada em específico, apenas ainda desacostumado à irremediável tolice do amigo – Cego pela incessante obsessão de destruir a raça humana, Erik interferiu no campo magnético da Terra.
– Ele o quê? – os olhos de Eve se arregalaram, incrédulos. A expressão de Logan adquiriu exatamente o mesmo espanto, e ambos pareciam duvidar se aquilo era algum tipo de brincadeira ou se havia a mais remota possibilidade de se tratar de um assunto sério.
– A Terra possui um campo magnético criado pelo dinamismo dos metais derretidos no centro do planeta. – principiou, disposto a ignorar a angústia que o assolava por mais aquele tempo que se perdia – O movimento desses metais liquefeitos leva ao surgimento de correntes elétricas, culminando no magnetismo. Esse campo não é só responsável pelas orientações referentes a bússolas, como também impede que soframos o efeito nocivo das radiações e raios cósmicos em geral. – suspirou durante uma pausa calculada de seu discurso, fitando-os com aqueles seus olhos focados que tanto podiam intimidar, tamanha a intensidade – Erik usou seus poderes para enfraquecer o campo magnético com o intuito de que ele se extinguisse, mas em seu plano desconsiderou que até mesmo os mutantes têm suas limitações... – suspirou uma segunda vez, de fato exausto.
– Mas qual o objetivo disso? Matar homens e mutantes?
– Um pouco mais complexo do que isso... Sem um campo magnético, ou, como é o nosso caso, com um campo enfraquecido o bastante, os seres vivos ficam expostos aos raios cósmicos de tal forma, que eles incidem sobre o planeta com intensidade capaz de penetrar o DNA e causar danos irreversíveis... Percebem? Essas radiações danificam o material genético e induzem diversas mutações.
– Então... Magneto quer que todos sejam mutantes? – Logan ainda parecia tentar processar a estranha e preocupante notícia, o vinco entre suas sobrancelhas traduzindo o grau de sua confusão.
– Não exatamente. Essas radiações causam mutações num âmbito geral, não mutações específicas como as nossas, embora elas também possam se manifestar num quadro generalizado. Magneto quer transformar a todos em mutantes, é verdade, porém sem os poderes. E essas mutações causadas pela imprudência de Erik fizeram com que o mundo entre num surto de câncer, tanto homens quanto mutantes.
– Ele quer acabar com a vida na Terra, é isso?
– Ele quer livrar a Terra dos humanos e dos mutantes que não se aliaram à sua causa. A Irmandade está protegida pelo próprio poder de Erik em criar um campo magnético em volta daqueles que o apoiam. Todos estão condenados, exceto a Irmandade.
– Isso é ridículo. Então ele pretende destruir um mundo inteiro e deixar que apenas meia dúzia sobreviva?
– Você ficaria surpresa com o número de aliados que se uniram à causa dele. Meia dúzia somos nós, a resistência mutante, somada a totalidade dos humanos. Mas sim, o planeta inteiro irá morrer, com exceção daqueles poucos que estão diretamente ao lado de Erik.
– E por que vocês acham que eu posso ajudar? Eu sei lidar com isso tão bem quanto qualquer um de vocês dois...
– A imprudência de Magneto cobrou um preço caro, Eve. Seus atos o levaram a definhar, consumiram suas forças rapidamente e ele quase pagou por esta tolice com a própria vida, e nem mesmo Erik saberia como voltar atrás. Mas as coisas mudaram de uns tempos pra cá. Ficaram muito piores... – houve uma pausa reflexiva, e Charles retomou a palavra – Magneto quase morreu, e por um tempo essa foi a nossa esperança de que tudo se normalizaria com a sua morte. Contudo, nas suas últimas reservas de força, uma aliada surgiu e tomou o seu lugar. Uma aliada que detém poderes além da imaginação e que não será parada pelas mesmas limitações que ameaçaram frear Erik. Sua capacidade é ilimitada, e desde que ela tomou o seu lugar, as mutações vêm avançando com uma velocidade espantosa, os surtos e mortes apenas têm aumentado sem controle tanto na comunidade humana quanto mutante. Eu acredito que você é a única que pode detê-la, Eve. O seu poder agora é a nossa melhor e única chance.
– Quem é essa aliada, professor? – Logan questionou por pura e simples curiosidade acerca do relato de seu poder, porém o olhar que Charles lhe direcionou parecia dos mais feridos.
– Ela denomina a si mesma de Fênix, Logan. Mas, outrora, já foi chamada por nós de Jean Grey.
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