Immortal
22 Siga Seu Coração Até Ele Sangrar
Notas iniciais
O jato dos X-Men, já sobrevoando a fatídica e rudimentar Centralia, levava agora dois passageiros a mais do que quando ali pousara. Ororo o guiava com um olhar que parecia vagar dentro de suas próprias conjecturas, Charles mantendo-se ao seu lado num sepulcral silêncio que indicava que ambos conversavam através da telepatia do idoso mutante.
A seriedade que pairava entre todos os integrantes seria pesada o suficiente para derrubar o dirigível caso se tratasse de um objeto material. O clima sufocante carregava o ambiente, este abalável, friável, imprevisível, como poucas vezes o professor presenciara.
Eve, no entanto, estava pouco interessada nos possíveis assuntos que assombravam o pai. No momento, tinha que lidar com seus próprios fantasmas... Fantasmas que também pertenciam a Logan, e que imediatamente se inseriram à ela por pura empatia.
— Tem muito sobre você aqui! – ela finalmente quebrou o intenso silêncio, e fazê-lo até lhe pareceu errado, tamanha a densidade que o estruturava – Aliás, parece ter tudo sobre você... Tem registros seus desde a infância até pouco tempo atrás... Pra alguém que não morre, parece muito, coroa! – sorriu zombeteiramente, numa referência capciosa à avançada idade que aqueles documentos denunciavam de seu parceiro.
Logan, caminhando pensativo pelo jato, foi para junto da mulher, fitando os papéis num relance desinteressado que Eve não compreendeu. O coração do mutante até chegou a retumbar um pouco mais forte dentro do peito ao compreender que o passado – desfavorecido em suas memórias – talvez estivesse revelado todo ali, registrado naqueles simples papéis que o tempo tornara obsoleto. Contudo, existia um assunto dentro de seus pensamentos que lhe tomavam toda a atenção. Jean...
— Vemos isso depois. – cortou-a com frieza, indo de encontro ao professor Xavier sem mais nada dizer.
— Depois? – Hela o seguiu, olhos confusos, dominados por dúvida e algum ressentimento pela pequena rejeição – Pensei que descobrir o seu passado fosse o motivo de toda essa viagem! – segurou-o pelo antebraço com uma intrigante mistura de firmeza e delicadeza, indignada pela reação indiferente do homem que antes parecia obcecado pelos próprios infortúnios – O que deu em você?
— Agora não. – Wolverine dispensou-a rudemente, distanciando-se da mulher com impaciência, não suportando mais protelar o verdadeiro assunto que vinha consumindo seu real interesse desde a aparição de Charles.
Eve observou o mutante se afastar, sem nada compreender, seus lábios boquiabertos tremendo levemente de modo a acompanhar a luminosidade incrédula de seus transfigurados olhos verdes. Entretanto, o infindável orgulho que existia dentro de si a fez recuar, voltando silenciosa à sua própria pesquisa e deixando o mutante de lado com seu repentino mau humor.
Logan, ao alcançar Charles, prostrou-se ao seu lado, cruzando os braços enquanto estudava a paisagem traçada durante o voo.
— Jean está realmente viva? – perguntou com algum traço de receio, ainda desacreditando de toda a mirabolante história.
— É uma pergunta que exige uma extensa reflexão na resposta... Sim, de um modo prático Jean vive, contudo quem existe não é mais a Jean das nossas lembranças, Logan. Seu poder mostrou-se grande demais até mesmo para ela conseguir controlar, e isso foi ao mesmo tempo sua salvação e sua perdição. Não espere encontrar a mesma mulher que você conhecia, pois ela não habita mais aquele corpo. – o professor abstraiu, passando distraidamente o polegar pelo controle da cadeira de rodas, melancolicamente pensativo, como se já tivesse passado por aquela reflexão muito mais vezes do que fosse capaz de contar.
— Ela não pode estar presa dentro dessa nova personalidade? – perguntou quase como se fizesse uma súplica, não aceitando perdê-la uma segunda vez.
— É muito pouco provável. Minha esperança inicial era acreditar nessa possibilidade, mas o poder psíquico da Fênix me impede de entrar em sua mente e explorá-la... Não há como saber se Jean ainda está presente de alguma forma, subjugada por sua outra identidade, mas o meu principal palpite é o de que ela de fato não exista mais. A Fênix é sua nova identidade.
— Então o senhor desistiu de uma de suas alunas mais antigas? Que por toda a vida confiou no seu trabalho, que sempre te viu como um segundo pai? – soou indignado
— Minhas capacidades são extremamente limitadas frente ao poder da Fênix, Logan. Se Jean está lá, suas vontades estão reprimidas de tal modo que é como se nunca houvesse existido. Não há nada que eu possa fazer, ao menos não por ora... Infelizmente meus poderes não se estendem a tanto. – concluiu, visivelmente pesaroso com sua própria impotência, não escondendo que a acusação de Logan já o incomodava há algum tempo.
— Pro inferno com essa merda toda de auto piedade! – exaltou-se, atraindo um rápido olhar desaprovador de Ororo, próxima o suficiente para acompanhar a conversa – Temos que continuar tentando, professor! É a Jean!
— Eu entendo a sua comoção, Logan, eu mesmo já passei por ela... Mas não importa, é inútil! Você ainda vai ver por si mesmo.

As adjacências de Nova York, já à vista dos quatro mutantes que a sobrevoavam, pareciam aos olhos de Hela mais frias e distantes do que nunca. Sua mente ainda concentrada em Centralia parecia querer recusar-se a sair dos domínios da cidade abandonada, seu interesse ainda todo voltado aos portfólios que estudava a respeito da GlobalGen, agora lendo com detalhes o perfil interminável de Logan, sem se importar se o mutante poderia encarar aquilo como uma ofensiva invasão de privacidade.
A cada parágrafo, um novo brilho surpreso subia-lhe aos olhos, irremediavelmente presos às palavras que liam, cada vez mais estarrecida com os fatos acerca do passado de Logan.
"Céus... Isso está ficando mais macabro do que um Romance do Stephen King..."— pensou, aturdida, ainda devorando cada palavra que se punha à sua frente. E somente transcorridos alguns minutos após pousarem, Eve permitiu-se afastar das revelações despontadas ao longo do intrigante texto, surpreendendo-se com a rapidez com que chegaram.
— Filha, você não vem? – Charles a despertou de sua pesquisa, chamando-a com o curioso tom que resvalava entre o distante e o carinhoso, notoriamente temendo extrapolar qualquer um dos limites que a própria Eve estipulara na relação dos dois, mesmo que ela o fizesse sem consciência plena.
— Vou! – ela fechou com rapidez os registros que analisava, juntando tudo numa pilha desajeitada que teve de abraçar para carregar – Onde está Logan? – franziu de leve o cenho ao perceber-se a sós com o pai.
— Foi em busca de assuntos que julgou urgente resolver... – avisou, vago, certamente já percebendo o envolvimento dos dois, sem necessitar utilizar-se de seus poderes telepáticos para tal.
— Que lugar é este? – Eve sentiu certo espanto ao perceber, de súbito, que haviam pousado em meio ao que seria uma ampla floresta – Nem fodendo que isso aqui é Nova York! – fitou ensimesmada o ambiente verde que os rodeava, saindo do jato de forma lenta por conta da iminente hesitação que a dominou.
— Não, não estamos em Nova York. Fizemos um pequeno desvio, na verdade. – explicou enquanto ambos se locomoviam pela floresta de árvores esparsas – Este lugar tem sido a sede da Irmandade, o esconderijo de Magneto e sua trupe. Foi daqui que Erik deu início à maior loucura de todas que já fez, uma ousadia que todos ainda irão pagar com o preço da própria vida, caso não consigamos intervir a tempo.
— Teremos que discutir isso depois. Eu preciso falar com Logan! – disse de forma urgente ao perceber a clara intenção do pai de estender-se naquele assunto, ainda digerindo com certa dificuldade tudo o que leu sobre o mutante, e já imaginando como poderiam lidar com esse conhecimento.
— Eve, esse não é o melhor momento... Venha comigo ao encontro de Magneto e me ajude a tentar resolver esse problema de forma civilizada, depois você e Logan estarão livres para confabular sobre o que for.
— É um assunto que não pode esperar. – avisou, mais civilizada do que imaginou ser capaz, conseguindo manter a compostura com o pai durante toda a conversa e não deixando de se surpreender por isso – A sua nova crise com o meu padrinho terá que ficar pra mais tarde, antes de qualquer coisa eu preciso ter uma conversa não muito fácil com Logan... Onde eu posso encontrar o bichano nesse fim de mundo?
Xavier suspirou, mais uma vez cedendo à violenta teimosia da filha, sem na realidade ter outra escolha frente à personalidade de sua primogênita.
— Logan foi procurar por um passado que não existe mais, eu temo. Como uma perita nos elementos da natureza, tenho certeza de que você não terá dificuldade alguma de rastreá-lo. – doou-lhe um sorriso sincero e amoroso, porém não ousou esperar ser correspondido neste quesito, limitando-se a virar a cadeira de rodas para o lado oposto e tomar um caminho diferente do da filha.
Hela respirou fundo, já criando em sua mente mil e uma maneiras de abordar tudo o que acabara de descobrir acerca do tumultuado passado de seu parceiro. Portar todas as informações que agora detinha era uma enorme responsabilidade, Eve precisava apenas dividi-la com o maior interessado naquele assunto.
Começou a andar a passos comedidos e cuidadosos pela floresta, perguntando-se por que Logan agia tão estranhamente desde que entraram naquela maldita nave dos X-Men. Bastou Charles chegar ao encontro dos dois e Logan havia mudado toda a postura, chegando até mesmo a demonstrar desinteresse por tudo que tanto procuraram, desmerecendo todo o trabalho que tiveram para encontrar aquele conhecimento...
Eve balançou de leve a cabeça, decidindo por despistar os inquietantes pensamentos que certamente a perturbariam caso lhes desse voz. Optou apenas por rastreá-lo, decidindo resolver um problema por vez.
Respirou profundamente, convocando o elemento terra para o seu lado, acolhendo com prazer o típico frescor umidificado que invadia seus poros à medida que o castanho preenchia suas íris antes verdes. Concentrou-se intensamente em Logan, buscando recriar o trajeto feito pelo mutante a partir do que o elemento lhe contava em segredo, apenas dentro de sua mente, a terra obedecendo sem nenhum hesitar ao comando daquela que por direito a dominava.
De olhos fechados, deixou-se guiar pelo caminho que lhe era mostrado nitidamente por detrás de suas pálpebras, e sem qualquer receio o seguiu, não temendo em momento algum o fato de não abrir os olhos para desbravar a desconhecida floresta. Tudo lhe era mostrado pela força que fluía da terra através de sua mutação. E Hela, cegamente e acima de tudo, confiava.
Como um vulto caminhando à sua frente e mostrando o caminho, Eve seguia aquele que seria o espectro passado de Logan, dona de uma desenvoltura invejável, detendo completa sintonia com o elemento que de bom grado a conduzia.
Alguns galhos roçavam de leve por seu braço, não formando mais do que um pequeno e superficial arranhão por onde passavam, mas Eve sequer os sentia. Nas raras ocasiões em que se ligava de forma tão íntima ao seu próprio poder, sentia-se inebriar pela mais genuína sensação de êxtase. E, de certa forma, o arrebatamento causado por estas ocasiões chegava a assustá-la. Era nestes momentos em que Eve tinha uma maior consciência do quanto seu poder era grandioso, muito maior do que ela mesma.
Muito maior do que sua capacidade de controlá-lo caso sua mutação se mostrasse tão indomável quanto prometia sua capacidade.
Continuou vencendo distância, ainda seguindo de olhos fechados o vulto de Wolverine que lhe guiava com precisão pela floresta. Respirou mais uma vez profundamente, já intuindo que logo chegaria ao ponto em que finalmente se encontraria com Logan.
Atravessou, com total segurança de si e do seu poder, os vindouros e longos metros que a separavam de seu parceiro, de mostrar-lhe a verdade por mais nua e crua que fosse, de fornecer todo o suporte que pudesse dar ao curioso homem, que tão repentino apareceu em sua vida, e ainda mais imprevisivelmente fez crescer um dos poucos sentimentos bons que hoje nutria.
Abriu os olhos ainda castanhos, afoita, ao enfim se dar conta de que sua busca chegara ao fim. Logan estava finalmente próximo o suficiente de sua verdadeira visão, e por um momento, Eve apressou o passo com voracidade, o princípio de um espirituoso sorriso formando-se em seus lábios.
Contudo, a pressa em seus passos esmoreceu, assim como o leve sorriso recém-formado.
Escondeu-se parcialmente atrás de uma grossa e alta árvore ao notar que Logan falava com uma mulher de longos cabelos ruivos, sua voz saindo trêmula de inconformismo. Em contrapartida, a ruiva o fitava com um irritante ar superior, o sorriso pretensioso descreditando qualquer palavra vinda do mutante.
— Jean, não precisa ser assim...
— Jean, Jean, Jean... É só nisso que você sabe falar? Está começando a me lembrar aquele garoto insuportável, o tal do Scott. Também era seu único assunto antes que eu o calasse de vez... – ampliou um sorriso cruel, compatível com a expressão fria em seu rosto, diminuindo o tom de voz até que só se ouvisse um sussurro – Essa Jean não existe mais! – avisou, aproximando-se de Wolverine a passos sedutores – Quantas vezes eu preciso dizer?
— Existe sim! – rugiu, ainda suplicante, ao segurar o pescoço da mutante assim que se aproximaram o suficiente – As coisas podem estar confusas pra você agora, mas se deixar o professor te ajudar...
— Mais um pouco dessa conversa e eu vou realmente me irritar. – interrompeu-o, entediada – Sejamos francos, Logan. Não é da Jean que você faz questão – comentou, maliciosa, aproveitando a proximidade entre os dois para insinuar-se ao passar a ponta da língua por seu pescoço para em seguida sussurrar ao pé de seu ouvido – Desde quando a Jean te daria essa confiança? – segredou, desbravando com uma das mãos a trilha até seu membro viril, pressionando-o cheia de sede, ainda sorrindo com descaro ao homem de castanhos olhos irascíveis.
Numa resposta brutal, Logan a beijou, com tamanha cobiça que sequer chegou a notar que o contato, ao comando da própria Fênix, sorvia constantemente a energia vital do mutante, que imediatamente se curava em seguida.
Hela, ainda escondida atrás de uma volumosa sequoia, fitava com olhos mortos a cena que se desdobrava diante de si.
— Eve, você é mesmo uma estúpida – falou baixo apenas para si mesma ao entender as razões da repentina mudança no comportamento de Logan, e não vacilou em dar meia volta e sair daquela situação em que jamais deveria ter se colocado. Refez o mesmo trajeto com facilidade, passos apáticos levando-a para o ponto de partida, a expressão vazia apenas concentrando-se na pequena caminhada que ainda teria pela frente.
“Hey stranger or may I call you my own
I know I don't know you, but there's somewhere I've seen you before
Whatever your name is, whatever you do
There's nothing between us I'm willing to loose
Just call me if ever our paths may colide
I want you to call me under these darkened sky's
Whoever you love, whoever you kiss
The wandering between us I'm willing to miss
Now I'm drifting out over deep oceans
And the tide won't take me back in
And these desperate nights I'll call you again and again
There's a comfort, comfort in things we believe
Other than danger, wanting the things I can't see
Wherever you live now, wherever you walk
This distance between us I'm willing to cross
Now I'm drifting out over deep oceans
And the tide won't take me back in
And these desperate nights I'll call you again and again
Now I'm drifting out over deep oceans
And the tide won't take me back in
And these desperate nights I'll call you again and again
Hey stranger or may I call you my own
I know I don't know you, but there's somewhere I've seen you before.”
(Between Us – Peter Bradley Adams)
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