Immortal
18 Entre Mutantes, Homens, Aberrações E Afins – Parte II
Notas iniciais
O agudo assovio do vento era o único som presente ao longo das ruas puídas pelo abandono. O rufar gélido que vinha junto ao musical silvo tornava o ambiente ainda mais denegrido aos olhos daqueles visitantes.
Sem saber exatamente o que esperar da cidade deserta, o casal prosseguiu em silêncio, acatando as orientações do homem que os levara até a erma urbe, tão calada que chegava a causar uma terrível impressão de mal agouro até mesmo aos olhos de Hela e Wolverine, que jamais ousariam admitir tal sentimento nem mesmo à própria consciência.
Por fim, Logan freou o veículo, ainda mantendo o motor ligado como se visse naquele gesto uma possível rota de fuga a qualquer ameaça repentina, parecendo mais tranquilo apenas por sentir o tremor suave do automóvel.
O externo do prédio era muito mais simplório do que Eve fantasiara quando soube da existência da GlobalGen, e nele não havia qualquer fachada que remetesse ao nome da empresa, ou mesmo à sua logomarca. Em suma, parecia um simples e abandonado recinto, como tudo naquela cidade cinza e solitária.
– É este o lugar? – Logan perguntou, áspero e cético, ao homem cujo rosto estava completamente destruído pelas queimaduras, seu tom rude demonstrando que não o questionaria uma segunda vez. Ao menos não com a cortesia de fazê-lo por meio de meras palavras.
– É aqui. – afirmou, sem conseguir desviar os olhos da sede em momento algum – Não somos uma empresa que visa propaganda. Quanto menos chamarmos atenção, melhor.
– É bom que seja aqui mesmo – o mutante resmungou, finalmente desligando o motor ao virar a chave na ignição, e um terrível silêncio recaiu sobre eles assim que até mesmo o ronco do motor esmoreceu. Eve fitou o mutante com alguma curiosidade, vendo-o absorto demais naquele encarar que destinava ao obsoleto prédio.
Logan sentiu um frio atravessar sua espinha, uma apreensão que chegava a soar esdrúxula ao seu entendimento. Buscou por aquilo durante cada minuto da vida que se lembrava, cada ano gasto em tentar desvendar suas próprias incógnitas tão bem ocultas... E agora, que afinal estava perto o suficiente de cada uma das respostas que tanto almejou, ameaçava vacilar em todas aquelas pretensões que o moveram por décadas, a apreensão daquele momento suplantando a vontade de prosseguir.
– Quantos funcionários estão trabalhando neste turno? – Hela virou-se para encarar o homem que fora feito refém, contudo ele desviou o olhar assim que percebeu a intenção da mulher, sabendo que provavelmente não suportaria o embate que aqueles olhos criavam em si.
– Nenhum... – avisou com mais pressa do que pretendia, evidenciando o quanto a mutante o afetava depois do incidente na pousada – Não temos vigias, simplesmente porque este lugar é desabitado e nisso reside nossa maior segurança. E mesmo que algum curioso eventualmente apareça, não conseguirá entrar nas instalações sem possuir a identificação da empresa.
– Ninguém? – ela repetiu, estreitando os olhos cheios de desconfiança – Isso me parece bem oportuno. Por acaso é alguma emboscada? Espero que você lembre bem o que te aconteceu na última! – preveniu numa clara ameaça, notando-o tremer de leve e satisfazendo-se com a reação temerosa. Por enquanto, ele parecia não representar grandes problemas a julgar pela forma com que agia, mas ainda assim, Eve não se permitiria baixar a guarda.
– Você mencionou uma identificação... – Logan pronunciou-se, ainda taciturno o bastante até mesmo para a própria compreensão – Onde está a sua?
– No porta luvas. É uma espécie de crachá, que serve para dar acesso aos locais privados... – instruiu, e Eve rapidamente o encontrou em meio à desorganização dentro do porta luvas. Ela e Logan se encararam por alguns instantes, quase capazes de ler o pensamento um do outro. E esse pensamento era que não podiam mais procrastinar o inevitável...
– Vamos? – ela perguntou numa voz baixa e condescendente, mal conseguindo imaginar o tipo de ansiedade que o invadia, embora julgasse que algo bem parecido àquilo a dominasse.
– Vamos – anuiu, adiantando-se em sair do carro num rápido gesto, parecendo despertar de uma forte hipnose que lhe roubava o controle dos membros. Caminhou até a entrada do prédio e estancou por um momento, esperando que os dois o acompanhassem. Seus olhos foram naturalmente atraídos para Eve à sua direita, e algo parecido com o pesar tingiu seu timbre – Eu não sei que tipo de coisas podemos encontrar aí dentro, guria... – antes que percebesse aquelas palavras já haviam saltado para além de seus lábios, e era como se seu olhar antecipasse algum pedido de desculpas. Hela quase não o reconheceu, contudo foi perfeitamente capaz de entender sua angústia.
– Então já está na hora de descobrir! – murmurou num tom gentil, entrelaçando a mão de Logan na sua e dedicando-lhe um sorriso encorajador, apertando com força os dedos sobre a pele do mutante numa tentativa de passar a ele um pouco da confiança que faltava a ela mesma – Pronto? – fitou-o com intensidade, ignorando tudo ao redor que pudesse desfocar ou vacilar no intuito que compartilhavam. Começaram aquela jornada juntos, e assim terminariam.
– Agora sim... – ele devolveu um sorriso grato, destinando ainda mais força aos dedos que mantinham emaranhados.
Seguiram à frente, o dono do Porsche acompanhando-os logo em seguida, e, assim que a porta foi ultrapassada, a entrada do prédio se mostrou tão decadente quanto o seu exterior. Tudo era coberto por uma camada considerável de pó, e até mesmo destroços de um passado distante contribuíam para a decoração bagunçada e, à primeira vista, abandonada. Rachaduras se estendiam longas, do teto até metade da parede, dando ao recinto um aspecto frágil e susceptível à demolição.
– Isso está às moscas... – Eve comentou num rosnado irritado, encarando o homem que os guiara até aquele fim de mundo com um olhar receoso e banhado nas mais cruéis ameaças e promessas.
– Faz parte de toda uma encenação. – ele replicou em resposta, tateando algo atrás de um balcão consumido pelas traças e especialmente pelo tempo – O que nos interessa não é o térreo, mas sim o que está abaixo dele; a GlobalGen. – afirmou, encontrando o que procurava. Passou o crachá na fenda de um leitor, que imediatamente fez soar um apito permissivo ao mesmo tempo em que uma forte luzinha verde se acendia e, o que antes era uma porção da degradada parede, abriu-se num elaborado elevador, porém sem opções de andares – Sugiro que entrem... – avisou, já tomando o seu lugar no estranho elevador que mais se assemelhava a um sistema de transporte pneumático humano, seu formato cilíndrico parecendo comportar pelo menos cerca de dez pessoas por viagem.
Logan e Eve entraram, cautelosos, e bastou meio segundo para que o sistema os fechasse ali, recriando a camuflagem da parede com a mesma perfeição de antes. Um pequeno e quadrangular pedaço de metal projetou-se à frente, expondo uma espécie de leitor em seu meio espelhado. O homem depositou o polegar ali, e um breve feixe vermelho de luz escaneou a digital, permitindo o novo acesso.
Uma gravação polida encheu o elevador com sua dicção perfeitamente audível:
“Para qual andar, senhor Paretta?”
– Primeiro subsolo. – respondeu prontamente, e foi o suficiente para dar início à rápida locomoção do trio. Eve e Logan pareceram repletos de surpresa ao testemunhar a velocidade com que eram lançados naquele tubo, chegando até mesmo a bater partes do corpo no metal antes de perceberem as barras de segurança que o homem, aparentemente chamado Paretta, segurava. Antes que pudessem imitá-lo, já haviam chegado, e a mesma voz eficiente voltou a falar quando a passagem se abriu:
“Primeiro subsolo. Tenha um excelente dia!”
Os três deixaram o peculiar elevador e o casal prestou máxima atenção a tudo que seus olhos captavam, imaginando que tipo de informações poderiam ser relevantes para a posteridade. Estavam num tipo de hall circular, com várias portas dispostas na parede de formato redondo. Cada uma dessas portas era identificada, em sequência, pelo número romano correspondente à sua posição, e todas dispunham de trancas magnéticas ao lado das maçanetas, no mesmo estilo daquela que revelara o elevador.
– O que significa cada uma dessas portas? – Logan questionou, quase frustrado por mais aquela pequena barreira que o separava de sua história.
– São diferentes modelos experimentais. Cada uma dessas portas guarda um tipo diferente de experiência, ou mesmo os registros delas. Tudo o que descobrimos em todos os anos de pesquisa sobre os mutantes está atrás dessas portas.
– E qual delas tem relação comigo?
– Todas... – Paretta replicou num tom quase sombrio, passando o seu cartão pela tranca da porta de número “I” e aguardando não mais do que meio segundo até que o acesso fosse permitido. Um clique indicou que a passagem estava agora livre, e os três adentraram o interior do recinto, ainda escuro, iluminando-se aos poucos assim que o sensor de movimento fez com que as lâmpadas se acendessem.
E assim que o ambiente revelou-se, permitiu com que a luz que agora o clareava tornasse aquela visão sombria em contradição à limpidez que banhava cada canto atroz daquele lugar. O casal tornou-se dono de um olhar nauseado conforme vislumbravam o teor daquela sala em questão, quase desacreditando que pudesse haver qualquer credibilidade naquilo que seus olhos lhes mostravam.
Nos mais diferentes estágios de desenvolvimento, encontravam-se vários fetos de diversos tamanhos e complexidades ocupando todos os espaços disponíveis das prateleiras que ali se dispunham, todos embebidos em formol até a tampa, cada um ocupando o espaço de um pote bem fechado e aparentemente resistente. Alguns desses potes continham apenas órgãos, alguns dissecados e outros inteiros, e pelo tamanho e rudimento das vísceras, também sugeria tratar-se da mesma proveniência fetal.
Todos os embriões, principalmente aqueles em seus estágios mais iniciais, possuíam uma cabeça grande, angulosa e nitidamente desproporcional em relação ao resto do corpo, este encolhido em posição fetal mesmo depois de morto.
– Que... O que diabos significa isso?
– Nossos experimentos pioneiros na área da mutação do gene X – o homem explicou sem demonstrar abalar-se diante da grotesca visão, parecendo perfeitamente habituado a ela – Da época que nossos cientistas buscavam por indícios de reconhecimento mutante ainda na fase gestacional.
– Vocês sacrificaram essas vidas só para procurarem por indícios mutantes? E a troco do quê? – Eve sentiu-se arrepiar àquela visão, sem saber ao certo se, na guerra que se travava em seu interior, o que predominava era a repulsa ou o intenso ódio.
– Nenhuma pesquisa científica que tenha o intuito de rápidos avanços tem um histórico muito agradável – pareceu replicar na defensiva, sem chegar a encará-la diretamente – Queríamos ter certeza se os sinais da mutação apareceriam na fase inicial da vida, mas infelizmente não obtivemos as respostas esperadas nessa teoria. Posteriormente descobrimos que a mutação de fato só se manifesta na adolescência, e antes disso é impossível prever se a criança será mutante ou não. A não ser, é claro, que tanto o pai quanto a mãe também sejam, já que esta é uma característica hereditária recessiva.
– E que tipo de utilidade essa informação trouxe? – Hela perguntou, ainda indignada. Paretta permaneceu calado por vários instantes, sabendo que a resposta não agradaria a mulher.
– Se pudéssemos arranjar um modo de prever a existência da mutação logo na gestação, haveria a possibilidade do aborto caso os pais não quisessem um filho mutante. E principalmente, poderíamos começar a recrutar mutantes desde o berço, garantindo as futuras gerações da GlobalGen. Poderes são sempre bem vindos aqui...
– E o que isso tem a ver comigo? – Logan rugiu, seu tom tão enojado quanto o de Hela, e pelo breve tempo em que ficou sem resposta, temeu-a.
– Você não se resume a um simples experimento, Logan. Você era um dos nossos... Na verdade, um dos melhores! Todo o departamento sentiu os efeitos do seu afastamento da GlobalGen. – Wolverine estancou ao ouvir aquelas palavras. Seus lábios boquiabertos indicavam que ele queria dizer algo, contudo parecia incapaz de verbalizar o que ficou atravessado em sua garganta, e som algum saiu, assim como nenhuma reação – Mas a sua contribuição aqui de fato não teve muita influência nessa fase da pesquisa. Não é esta sala que nos interessa.
Ao dizê-lo, deram continuidade ao rápido tour feito na empresa, saindo pela mesma porta que entraram e agora focando-se na entrada marcada com o número “II”. Paretta repetiu o mesmo procedimento para abri-la, e não tardou a vislumbrarem algo ainda mais cruel quando mudaram para aquele ambiente não tão iluminado quanto o anterior.
Dezenas de mutantes estavam presos em gaiolas gigantes, tendo como única regalia um prato contendo água e nada além de um chão duro para dormir. A maioria esquivou-se em direção às penumbras da cela ao perceber pessoas entrando, e eram poucos os que se atreviam a encarar abertamente o grupo que viam como possível ameaça, provavelmente temendo servirem de cobaia a novos experimentos. Eve e Logan trocaram um olhar desacreditado, a raiva perdendo espaço em ambos para a indignação. O grupo de cobaias, em penúria, lamentou-se de algo indiscernível e encolheu-se sobre o próprio corpo, as poucas porções visíveis de cada semblante implorando por uma misericórdia que desconheciam.
– Isso é...
– Um biotério humano. Mutante, na verdade... – corrigiu-se ao interrompê-la, sua apatia demonstrando que nenhuma daquelas deploráveis condições à própria espécie o incomodava sob qualquer aspecto, por mais cruel que fosse. Parecia inclusive muito à vontade e satisfeito por retornar ao ambiente de trabalho – Nossos maiores avanços científicos ocorrem por causa da existência desta sala. É a partir daqui que os mais brilhantes cientistas do país desvendam os principais segredos da mutação.
– Como é possível que vocês consigam se manter anônimos com tantas barbáries nas mãos? – ela fitou com pesar cada rosto subjugado pelas várias grades que os detinham, e tentou gravar na memória a feição de cada um. Trataria de se vingar por aqueles rostos, cada um deles!
– Não é um trabalho muito difícil. Não depois que a cidade foi evacuada pelo governo e nós pudemos trabalhar com privacidade, longe de olhares curiosos.
– E vocês estão envolvidos nisso também? – Logan perguntou, referindo-se ao vazio demográfico em que se inseria a sede da GlobalGen, vendo que certamente deveria haver uma forte correlação entre aquelas variáveis.
– O que houve a Centralia foi um acidente. Um acidente patrocinado pela GlobalGen e encoberto pelo governo dos Estados Unidos. Não foi difícil tornar este lugar uma cidade fantasma, nós tínhamos o queijo e a faca na mão para fazer deste lugar o que bem quiséssemos. Até meados dos anos 60, a principal fonte de renda da cidade era a atividade na mina de carvão. A GlobalGen já existia há alguns anos, e essa mina de carvão foi o álibi perfeito para sustentar a privacidade da qual nossa sede tanto necessitava, e a partir dela criamos toda uma farsa que se estende até os dias de hoje. Provocamos a explosão de um aterro sanitário de modo que tudo parecesse acidental, e isso causou um enorme incêndio na mina de carvão, incêndio este que se propagou com facilidade pela cidade, já que a mina se estendia por todo o subsolo de Centralia. Isso culminou na evacuação completa e instantânea de Centralia, alegando-se que a habitação aqui se tornara inviável pela liberação de gases tóxicos que resultariam em sérios problemas respiratórios. O governo realocou os habitantes, e desde então temos usado o abandono da cidade a nosso favor.
– O governo tem conhecimento da GlobalGen? – Eve perguntou com certa ingenuidade, incapaz de acreditar que os líderes de seu país tomavam parte naquilo de forma passiva.
– A GlobalGen só existe por causa do governo. Somos uma empresa sigilosa que trabalha para ele, idealizada pelos integrantes dos cargos mais altos, preconizada por ideais que vieram de cima.
– Quais os interesses dos governantes? – o mutante indagou, e Paretta gastou um segundo extra analisando-o, como se buscasse pelas palavras certas e não as encontrasse.
– Eu não sou o mais indicado para responder isso, talvez você devesse perguntar ao seu criador. Ele possui todas as respostas, e algumas não me cabem, embora suspeitas sempre existam.
Aquela resposta verdadeiramente incomodou Eve, assim como a postura mais relaxada e despreocupada que o homem vinha mostrando desde que chegaram àquele desprezível lugar. Estava notório que ele se sentia, de alguma forma, no controle da situação, e a repentina mudança comportamental não soava bem ao entendimento da mutante.
– Não estamos sozinhos aqui, estamos? – ela o encarou com crescente desagrado, farta de jogar aquele jogo. Algo no rumo daquela conversa não estava certo, e as desconfianças da mulher apenas aumentavam.
A resposta não foi direcionada a Eve, e sim a Logan.
– Talvez você queira conhecer o lugar em que foi criado, Logan. É na sala ao lado.
– E o que mais tem na sala ao lado? – ele o afrontou com ferocidade, parecendo ler os pensamentos de Hela como se partilhasse as desconfianças da mulher.
– Suas respostas. Todas elas, todas as respostas que possam existir às suas intermináveis dúvidas. Basta seguir-me, e permitir que seu passado venha à tona por si só! – fez o convite, tranquilo, as queimaduras parecendo não proporcionar o mesmo tormento de antes nas feições distorcidas daquele homem.

A porta de número “III” escancarou-se, não tão apressada quanto a curiosidade de Logan acerca de seu conteúdo. Antes de entrar, acreditou que absolutamente nada poderia equiparar-se ao sentimento repulsivo que sentira nos outros dois recintos, porém descobriu estar redondamente enganado assim que pousou os olhos no cenário em questão.
A qualquer outra pessoa, não haveria nada de extraordinário no ambiente, porém a Logan trouxe flashes de um tempo que, mesmo esquecido e dormente, ainda lhe acarretava dores e um gosto amargo ao fundo da garganta. A imagem de seu corpo submerso num tanque d’água, e o momento desolador em que várias agulhas (quase tão grossas quanto canetas) perfuravam sua pele, aflorou nos cantos mais desesperados de seu subconsciente, que mantinha aquela lembrança em especial mais vívida do que qualquer outra recordação que fizesse parte do pós-trauma, após perder a memória.
Uma inconveniente falta de ar o dominou ao reviver aquele momento, e tornou-se ainda mais forte ao encontrar o cruel par de olhos que tornara tudo aquilo possível.
– Você... – Logan apontou para o velho conhecido de seu subconsciente, o mesmo homem que fora projetado em sua mente por Charles antes de deixar o Instituto Xavier, e desenhado por Eve pouco tempo depois. Ele estava sentado a uma confortável cadeira de couro, apenas observando a cena com leve atenção naquele meio sorriso desinteressado que ostentava, e o brilho gélido de seus olhos azuis dava uma consistência macabra ao restante de seu rosto. Por um mísero segundo, Wolverine duvidou se deveria enchê-lo de perguntas ou de suas garras. Decidiu ater-se à primeira opção, ao menos por ora – Eu fui uma de suas cobaias. Por quê?
– Na época, você era único... – o homem de intensos olhos azuis respondeu ao mutante, sem qualquer sinal de resistência ou oposição à verdade que de bom grado diria, porém manteve-se encarando Eve, como se fosse um colecionador diante de uma cobiçada e rara obra de arte – Mas hoje, eu vejo que existem alternativas melhores. Mais completas... – lançou um sorriso sugestivo para a mutante, devorando-a com aquele olhar da mais pura gula, ambicionando mais do que qualquer coisa recrutar aquele poder para sua equipe.
– O que eu fui para a GlobalGen? – Wolverine aproximou-se do homem, sua paciência vacilando tanto quanto o seu autocontrole. Pela primeira vez desde que entrara naquela sala, as íris azuis foram direcionadas para si.
– É a verdade que você quer, Logan, nua e crua? Está certo disso?
– O que mais me traria até aqui? – lançou a pergunta retórica, irritado, ainda aguardando com impaciência pela resposta.
– Alguns fatos de nossa vida estão melhores quando ficam adormecidos em nós. Mas só nos damos conta disso quando já é tarde... – disse em tom despreocupado, parecendo apenas refletir sobre o assunto – Pois bem, eu lhe conto qual foi a sua jornada aqui, mas tente não se arrepender depois. Seu estômago não é mais tão forte quanto costumava ser...
– Começa a falar! – Wolverine rugiu, aborrecido pelo modo com que o homem parecia disposto a dobrá-lo.
– Antes de qualquer coisa, perdoe minha falta de educação. Às vezes me esqueço de que apenas em minha memória nós fomos apresentados... Meu nome é William Stryker, o cientista chefe do departamento de pesquisas da GlobalGen e, em resumo, seu criador. – fez uma pausa para alargar o sorriso dúbio em seu rosto, e logo retomou o discurso – Assim que esta empresa surgiu, começamos a recrutar mutantes em silêncio, tanto com o intuito de fazer pesquisas quanto o de usar seus poderes ao nosso dispêndio. Você foi o único que nos serviu de ambas as formas, fornecendo-nos bases experimentais com o seu conveniente poder de cura, e também servindo-nos com a destreza de suas habilidades. Você foi o nosso experimento de número 626, e um dos mais bem sucedidos...
– Experimento 626? – Hela riu, debochada, ao interrompê-lo – Então isso faz de você o Doutor Jumba? – questionou Stryker com uma porção do escárnio que jamais findava em si.
– ...seus serviços se baseavam na caça. – ele prosseguiu como se sequer houvesse existido interrupção em sua explicação – Você trazia até mim qualquer um que fosse ordenado, bastava dizer-lhe um nome, e não importava como, logo o mutante em questão estaria sob os domínios da GlobalGen. Você era realmente um subordinado promissor, Logan! Foi uma pena perdê-lo...
– E como eu acabei acordando nos subúrbios de Iowa sem qualquer lembrança disso? – lembrou-o, numa tentativa desesperada de fazer com que tudo o que ouvia fosse mentira.
– Infelizmente você começou a apresentar algumas... divergências... em relação à forma como conduzíamos as coisas por aqui. Quando nossos testes começaram a se focar na criação de uma cura à mutação, você deu a entender que se importava com princípios que até então nunca havia se preocupado em demonstrar.
– Vocês criaram a Cura? – Eve perguntou, dessa vez com seriedade.
– Sim. Nós fomos os responsáveis pela maior e mais relevante criação farmacêutica já existente, mas nosso nome jamais será relacionado a ela.
– E por que eu comecei a me recusar? O que mudou?
– Você não tem qualquer ideia do que a Cura representa, não é? Sequer compreende o que significa esta arma em posse do governo... – Stryker fez uma breve pausa, mas como o silêncio se alongou, voltou a falar, seu tom denotando algo que soava como prepotência – Extermínio. Uma medida preventiva para impedir que os mutantes representem um problema fora de controle aos humanos e, principalmente, criar uma garantia de que os humanos sempre serão a força maior. Ou você realmente acredita que ela se trata de algo voluntário? – ele riu em deboche – A GlobalGen recruta mutantes por várias razões, mas também precisamos aprender a detê-los.
– Não é interessante que meros civis detenham tanto poder... – Eve refletiu, aquela declaração do cientista apenas evidenciando o que a maioria dos mutantes já sabia, porém poucos se permitiam admitir por temer a significância e consequências daquela verdade.
– De fato não é! – Stryker a saudou com um sorriso satisfeito – Mas há uma contrapartida. De um lado da moeda, os mutantes representam uma enorme ameaça para os humanos mesmo sendo minoria, ainda mais aqueles que sabem o quanto isso é verdade e tiram proveito de sua vantagem, como o seu amigo Magneto. Mas como não usar todo esse poder a nosso favor? Seria até negligência não fazê-lo! E aí entra o governo com a outra face da moeda; recrutar aqueles mutantes que valham a pena e permitir que a balança penda em benefício de um bem maior.
– Bem maior? – as sobrancelhas de Hela se ergueram em incredulidade, desaprovando o tipo de apologia e raciocínio traçados por Stryker.
– Creio que poderíamos gastar horas a fio discursando sobre as pretensões que erguem estas paredes, e certamente não seríamos capazes de abranger todos os tópicos que devem ser levados em conta. O fato é que nós nos interessamos muito pelos serviços de vocês dois. A GlobalGen os quer na equipe. Até mesmo você, Logan, ainda que tenha criado enormes problemas a nós quando decidiu não mais cooperar.
– Até aonde eu fui por vocês? – Wolverine indagou, os castanhos olhos repletos de culpa e determinação exigindo uma resposta. Liberou as garras e, encarando o aspecto luminoso no periculoso e incomum metal, foi mais a fundo na questão – Até aonde vocês foram por mim?
– Você foi a todos os lugares que pedimos, Logan, até os mais escuros. Sem seus serviços, não teríamos sequer metade do acervo que você presenciou na sala dos fetos, e ouso dizer que esse número seria ainda menor em relação às cobaias do biotério para prover os nossos experimentos. Sem sua contribuição, a Cura seria apenas um projeto que ainda estaria preso no papel por carência de pesquisas mais profundas. Você foi longe por nós, rapaz, isso eu te garanto! Longe o bastante para não saber voltar atrás. Quanto a nós... Nós o aperfeiçoamos, apenas isso.
– Apenas isso? – Logan rugiu enfurecido, levando as pontas das garras rente à garganta do cientista, encurralando-o naquela mortal armadilha – E minha memória perdida, não foi obra de vocês?
– Talvez tenhamos alguma culpa nisso, de fato... – concordou com serenidade e alguma ironia – Quando você decidiu se afastar da GlobalGen, tivemos que tomar providências para nos resguardar. Um dos mutantes recrutados por nós tem um exímio talento de manipulação mental, e não foi difícil para ele apagar suas lembranças, e assim sendo, elas simplesmente deixaram de existir no seu cérebro. – Stryker alargou o sorriso – Por isso que o professor Xavier nunca conseguiu extrair qualquer recordação a respeito do seu duvidoso passado, tirando um clarão ou outro que fomos incapazes de apagar por conta da intensidade com que o marcou, como o dia em que você ganhou essas garras que agora usa para me ameaçar.
– Como você sabe sobre o professor?
– Nunca deixamos de observá-lo, Logan. Caso a sua memória acabasse voltando, por um erro do mutante que a apagou, teríamos de estar preparados para tomar as devidas providências.
– Que seria me matar... – ele sussurrou com uma expressão perigosa, e o cientista limitou-se a manter o contato visual, dando uma confirmação mais sólida àquela constatação do que se de fato houvesse respondido com palavras.
– Ao contrário do que você pensa, não precisamos terminar em guerra, Logan. – finalmente posicionou-se, disposto a tentar amenizar os humores alterados – Podemos permanecer do mesmo lado, e eu espero que sim. Apenas os mutantes que estiverem comprometidos com a GlobalGen irão sobreviver a essa guerra, não existe outra forma de sair vivo do que está por vir. A Cura não será voluntária para além dessas paredes, meus amigos, guardem minhas palavras... Juntem-se a nós, e vocês estarão seguros.
– E te ajudar a exterminar nosso próprio povo? – ameaçou pressionar ainda mais o adamantium na pele frágil do homem, uma advertência que ia além de seu próprio controle.
– Você já o fez antes, por que se recusar agora? – Stryker replicou, e embora o tom de sua voz parecesse até mesmo amigável, o seu teor não poderia ser mais ofensivo.
Logan nem mesmo pensou quando rasgou a barriga do homem com o auxílio da tríade metálica que empunhava, o cinza tingindo-se de vermelho de um segundo a outro ao som de um rugido indomado daquele que fora o responsável pelo ferimento. O cientista caiu no mesmo instante, toda a sua dor traduzida na feição contorcida de seu rosto e o arfar surpreso que quebrou a pedância antes tão visível em seus olhos.
A profundidade do corte atingiu o intestino do homem, e um fétido odor imediatamente se instalou nas proximidades do cientista. Uma poça viscosa formava-se ao redor da barriga avantajada do homem, e este fitou Eve como sua última fonte de esperança.
– Ele não entende! Tornou-se um animal sem instinto de sobrevivência, mas você é diferente, Eve! Você pode mudar o curso do próprio destino, pode unir-se a nós e alçar expectativas de um futuro. Junte-se a mim. Aceite o que eu tenho a oferecer e resguarde a si mesma do holocausto mutante que promete chegar. – ele respirou com uma dificuldade a mais, e cuspe avermelhado foi expelido para além de seus lábios – Cure-me! Cure-me, e eu lhe darei a oportunidade de manter o seu poder a salvo! Cure-me! – implorou.
Eve caminhou até o corpo que jorrava sangue, e assim que chegou perto o suficiente, agachou-se ao lado do cientista. Suas intenções mantiveram-se tão impenetráveis quanto a expressão que trajava, mas ainda assim Stryker sorriu um sorriso vermelho para ela, certo de que aquela mulher seria mais sensata em aceitar sua proposta. Hela encarou a fundo os olhos do homem, e pôde perceber seus lábios se mexendo frouxamente em um novo apelo de “Cure-me” que não chegou a ser ouvido pela fraqueza com que foi dito.
– Não. – a mutante respondeu simplesmente, e antes que ela o tocasse, Stryker notou os olhos verdes da mulher ganharem um profundo tom negro, e o cientista soube que aquela seria sua última visão da vida que teve. Olhos tão negros e sombrios como o encarar da própria morte.
“I've been believing
In something so distant
As if I was human
And I've been denying
This feeling of hopelessness
In me, in me
All the promises I made
Just to let you down
You believed in me, but I'm broken
I have nothing left
And all I feel is this cruel wanting
We've been falling for all this time
And now I'm lost in paradise
As much as I'd like
The past not to exist
It still does
As much as I'd like
To feel like I belong here
I'm just as scared as you
I have nothing left
And all I feel is this cruel wanting
We've been falling for all this time
And now I'm lost in paradise
Run away, run away
One day we won't feel this pain anymore
Take it all away
Shadows of you
'Cause they won't let me go
Till I have nothing left
And all I feel is this cruel wanting
We've been falling for all this time
And now I'm lost in paradise
Alone and lost in paradise”
(Lost In Paradise – Evanescence)
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