Immortal
19 Aquelas Mesmas Velhas Cicatrizes Que Ainda Se Abrem...
Notas iniciais
Uma sensação exclusa de tempo e espaço acometeu Eve após presenciar a morte de Stryker, doada ao homem por suas próprias mãos funestas. Um sentimento que ela conhecia muito bem se fazia crescer em seu íntimo perturbado, delatando o quanto era fraca no que se tratava a superar suas próprias injúrias internas. E acima de tudo a superar a si mesma, como a anomalia que via refletida no espelho.
Distanciou-se do homem já sem vida prostrado no chão, experimentando uma culpa antiga e melancólica, despontando em sua mente como uma navalha senescente, porém afiada, cortante, vil. E foi como se o ácido em seu estômago entrasse em ebulição dentro de si, criando uma queimação em suas vísceras que apenas prometia aumentar e aumentar, até lavar todo o mal que cabia ali, ou até fazê-la definhar ante a própria culpa.
– Você o matou! – Logan acusou-a, destilando olhares ora para o corpo desfalecido, ora para a mulher que o acompanhava, seu timbre seguindo o mesmo teor incrédulo de seus olhos. Foi quando Eve se deu conta de que, até então, o homem não conhecia aquela parte sombria do poder que detinha. E agora ela o revelara, colocando sobre a mesa a única carta que durante toda a vida tentara esconder sob a manga.
Wolverine a ouviu escolher o codinome Hela quando retornaram ao Instituto, mas sem nunca entender o porquê. Até aquele maldito momento. Até o instante em que seus olhos ficaram negros e revelaram a atrocidade e catástrofe dentro de seu interior...
...O olhar que predizia apenas destruição e ruína inclusas naquele tom enegrecido, que mais parecia um ponto tirado do próprio universo, tamanha a profundidade infinita que parecia existir dentro das letais íris.
Ao matar o cientista, Eve deixou à mostra a verdadeira aberração que sempre soube ser. Salientou uma parte de si que parecia quebrada em cacos, expondo-a como ela verdadeiramente era, deixando-a completamente nua e ferida diante do olhar fatigado e intolerante de seu companheiro de viagem...
Sim! Eu o matei, mas quem vi morrer foi minha mãe... – Ela pensou cheia de horror, incapaz de suportar aquela denúncia vinda de Logan. Não dele! Não daquele que se provara capaz de fazê-la esquecer-se momentaneamente da dor que sempre experimentou com aquele passado que, a toda vida, tentou manter trancado a sete chaves, um passado até então desconhecido para o homem. Não aturaria testemunhar nele o sentimento de repulsa que a sua mutação inspirava até mesmo aos mutantes.
– Temos que ir! – ela limitou-se a dizer sem encará-lo, ciente de que a confusão dentro de si devia transparecer em seu atormentado semblante, como se fosse refletido pela água límpida de um rio a qualquer um que quisesse ver. Fitou o ambiente ao redor, percebendo pela primeira vez que o casal estava só. – Cadê o nosso guia? – perguntou baixo, franzindo o cenho ao não encontrar o homem desfigurado pelo fogo que a própria Hela conjurara – Cão de Caça? – chamou, assoviando.
– Era tudo o que precisávamos! – rugiu, aquilo parecendo somar-se à sua raiva incontida – Ele fugiu! – concluiu o óbvio ao não perceber qualquer sinal do homem que os levara até a GlobalGen, sua única companhia extra resumindo-se ao cadáver que observava o nada, o único dinamismo relacionado ao corpo inerte e espaçoso limitando-se à poça de sangue que apenas se alargava.
– Não importa. Nós não precisamos mais dele!
– Não precisávamos enquanto tínhamos Stryker na mão! – Logan corrigiu, espetando-a com aquelas palavras, novamente jogando a culpa da morte de seu criador na mulher que tinha como acompanhante.
– Não precisamos de nenhum dos dois! – insistiu com teimosia, finalmente lançando o verde irritadiço de seus olhos para o mutante, permitindo-se afinal ocupar a mesma posição defensiva que sempre delimitou a sua zona de conforto – Temos a GlobalGen. Que diferença faz os funcionários? – lançou, e diante daquele questionamento Logan apenas fitou-a, ainda resignado na própria raiva – Deve haver documentos o suficiente aqui para provar a existência e o tipo de atividades da empresa. – refletiu, dando início à procura por quaisquer evidências que fossem capacitadas de sustentar uma prova consistente da crueldade anônima da empresa – Podemos fazer isso sozinhos. – disse, repleta de tanto fervor que ficou evidente que não era Wolverine quem ela tentava persuadir com tais palavras.

Foram necessários cerca de três quartos de hora para convencê-los de que, ao menos naquela sala, nenhum documento fora guardado. Reviraram cada gaveta, armário, e até mesmo os cantos mais improváveis, até que por fim se deram por vencidos de que nada encontrariam ali. Um abissal silêncio dominava o local, inquebrável, todo o processo de busca e a tensão entre os dois era tão evidente e profunda quanto os olhares carregados que se cruzavam um de encontro ao outro.
Sem mais suportar a calada denúncia que percebia em Logan, Eve foi em direção ao robusto corpo do cientista, apalpando-o nos bolsos do casaco em busca do cartão de identificação que servia como chave de acesso às portas. Tateou o fino objeto quadrangular numa algibeira costurada internamente à vestimenta, e pegou-o para si, decidida a prosseguir naquele objetivo.
A identificação trazia gravada em si o nome William Stryker, junto a uma foto no canto esquerdo superior e algumas informações sobre sua elevada posição na empresa, além do convencional feixe de leitura que permitiria ao casal um amplo acesso a qualquer sala que almejassem investigar. Hela caminhou a passos decididos para além daquela sala, tentando se concentrar em algo menos desolador do que o nó que se firmava pesado em sua garganta.
Respirou fundo, disposta a manter-se focada na busca, lamentando internamente que aquela procura não fosse uma distração nem de longe suficiente.
– Eu vou checar outra sala... – Hela avisou com certa polidez na voz, evitando a todo custo permitir que seus olhos procurassem pelo mutante.
Sem qualquer palavra em resposta, Logan a seguiu em aquiescência, seu caminhar pesado soando como único replicar ao comentário de Eve, a apatia do mutante a afetando bem mais do que qualquer berro delator que ele pudesse usar para discriminá-la.
Saíram pela mesma porta de entrada, e mais uma vez se depararam com o hall circular em que se dispunham as portas enumeradas. Para a surpresa de ambos, não houve qualquer dificuldade em encontrar aquilo que procuravam. A porta de número ‘IV’ tinha a subscrição “Arquivos” logo abaixo do número romano, e por um derradeiro instante, Eve, que chegou a cogitar que toda aquela busca seria infrutífera e sem êxito, sentiu um suspiro de alívio ultrapassar seus lábios.
Sem mais delongas, a mulher tratou de inserir o cartão de Stryker na tranca da quarta porta, aguardando não mais do que um segundo para que a entrada fosse liberada sem qualquer restrição à passagem do casal.
Quando entraram no bagunçado cubículo quase faltou espaço para conseguirem caminhar por entre a passagem estreita, praticamente todo o ambiente sendo largamente ocupado por armários pesados de metal, as grossas gavetas insinuando o generoso volume que eram capazes de abrigar.
– Achamos... – Eve soltou um novo suspiro, analisando rapidamente os vários arquivos, aparentando serem intermináveis. Décadas de experimentos e projetos se concentravam naquela única sala apertada, organizados por ordem cronológica – Nós conseguimos! – sorriu brevemente, passeando os dedos por uma extensa fileira de pastas empoeiradas que ocupavam todo o espaço de estantes abertas, muitas das etiquetas que as identificavam aparentando estar corroídas pelo tempo.
Hela começou a juntar o maior número de pastas que foi capaz de segurar, e Wolverine logo dedicou-se ao mesmo serviço, até que estancou sua atenção em um dos materiais intitulado “Logan”. O mutante pareceu fazer um enorme esforço para resistir à tentação de analisar o conteúdo do documento ali mesmo, decidindo, por fim, preocupar-se em continuar juntando os materiais, talvez a pressa de sair daquele deplorável lugar sobrepondo-se à curiosidade.
Pegaram também documentos aleatórios de datas distintas, sem ao menos verificar o seu teor, apenas dispostos a levarem consigo o máximo que pudessem a respeito da GlobalGen e seus insultantes experimentos, que claramente desprezavam os conceitos mais básicos de ética.
Com os braços entupidos de papéis, caminharam com cuidado até a saída, com a promessa de que voltariam pelo restante dos documentos e, principalmente, pelos mutantes engaiolados servindo de cobaias a uma causa dotada dos mais cruéis princípios. Por ora abandonariam os mutantes ali, mas retornariam preparados para fornecer o auxílio de que tanto necessitavam.
Antes mesmo que se atrevessem a entrar no elevador por onde desceram, Eve fitou Logan com algum receio no olhar, não querendo ser ela a quebrar o silêncio denso que mais uma vez se instalara, mas ao mesmo tempo vendo uma necessidade vigente em fazê-lo.
– Precisamos da digital do Stryker para usarmos o elevador... – lembrou-o sugestivamente, recordando dos procedimentos requeridos quando desceram ao subsolo com Paretta, o homem agora fugitivo.
Ainda sem responder verbalmente, como se estivesse alheio a qualquer porção do mundo que não incluísse a si mesmo, Logan apenas concordou de forma quase imperceptível, mais indiferente do que qualquer ser inanimado.
Foi com alguma dificuldade que Eve passou o cartão pela fenda na tranca da porta ‘III’, onde Stryker fora morto, segurando desajeitadamente os documentos à medida que tomava cuidado para que folha alguma caísse do aperto de seus braços enquanto mantinha-se realizando o processo. Finalmente entraram, deparando-se com o corpo sanguinolento do cientista, e Eve podia jurar ter visto uma fagulha de raiva acender os olhos castanhos de Wolverine.
Logan, com um equilíbrio impecável, manteve firme num dos braços todos os documentos, como se não pesassem mais do que algumas folhas soltas. A mão livre expôs apenas uma das garras de adamantium e, com a rapidez de um piscar de olhos, o polegar direito de Stryker já estava solto de sua mão gorda.
Eve convocou a terra para junto de si, o que se comprovava facilmente pela nova coloração de seus olhos agora castanhos, e, num gesto de íntima rendição, incitou o elemento a levar o corpo do homem para as profundezas de seus domínios, engolindo-o com a voracidade dos vermes que logo mais o teriam como alimento. Piso calçado, terra e sangue se misturavam desordenadamente naquela porção do solo em que antes jazia o cadáver.
Partiram, no mesmo silêncio estarrecedor, em direção ao elevador, adentrando-o como se fossem completos estranhos obrigados a dividir o mesmo espaço. A porta do transporte se fechou, e não tardou para que o metal quadrangular se projetasse alguns centímetros à frente, aguardando para realizar a leitura da digital.
Wolverine levou o polegar de Stryker à pequena tela espelhada, exercendo uma pressão cuidadosa sobre o ponto de identificação. Assim que a leitura se fez, o pedaço de metal se retraiu à posição original e a voz gravada retumbou pelo metal que os circundava:
“Para qual andar, doutor Stryker?”
– Térreo! – Eve adiantou-se, mais do que tudo querendo livrar-se da atmosfera doentia daquele lugar, principalmente com o clima tão tenso que pairava entre Logan e Hela. Esperou que o elevador começasse a se mover, contudo, ao invés disso, a resposta que chegou da mesma gravação surpreendeu a ambos:
“Acesso negado! Comando de voz inválido! Acesso negado!” – o timbre soou enérgico ao estrondo de uma irritante sirene se propagando ao fundo – “Contagem de autodestruição ativada!”
“Dez...” – a invisível voz deu início à contagem regressiva, tão tranquilamente como se apenas desejasse aos visitantes um bom dia e um breve retorno.
– Merda! – Eve rugiu, apalpando o forte metal na esperança de encontrar uma rota de fuga que sabia não existir – E agora?
“Nove...”
– Temos que sair daqui! – Logan decretou, parecendo preocupado – Não podemos perder os documentos!
“Oito...” – a voz avisou, impassível, antes mesmo que Logan conseguisse terminar a frase.
– Faça um buraco no elevador! Eu cuido do resto!
“Sete...”
No mesmo instante, uma tríade de garras se libertou, e Wolverine começou a rasgar uma entrada improvisada no resistente metal, a adrenalina pulsando em seu corpo e o deixando no mais completo alerta.
“Seis...”
Ele continuou dilacerando o elevador, grunhidos escapando de seus lábios conforme a pressa o obrigava a agir mais rapidamente. O desenho irregular de uma passagem já estava formado, porém o metal ainda estava firme na posição vertical.
“Cinco...”
Logan enfiou as garras num dos rasgos, utilizando o adamantium nelas como uma alavanca para empurrar o metal para dentro e revelar a passagem...
“Quatro...”
A porta caiu num baque ensurdecedor, e Eve mais uma vez clamou pela terra, sentindo o poder daquele elemento que os circundava fluir por cada poro e átomo de seu corpo.
“Três...”
– Prenda a respiração e não solte o meu braço! – Hela avisou com urgência, segurando o antebraço de Logan firmemente e sentindo-o fazer o mesmo com o dela.
“Dois...”
A gavinha de uma raiz veio de imediato ao comando da mulher que a clamava, enroscando-se ao redor de suas axilas, acima do peito da mulher e logo abaixo do pescoço, como uma serpente tentando esganar sua presa, dando várias voltas em torno de sua pele, ásperas ao tato.
“Um...”
Houve um forte impulso propulsionado pela raiz, levando-os para fora dali e abrigando-os submersos dentro de várias camadas de solo terroso. Avançaram cerca de dois metros antes de sentirem a explosão tremer o solo naquele elaborado elevador, e por mais que estivessem próximos o suficiente da detonação, a umidade da terra os protegeu melhor do que Eve poderia imaginar.
Ainda soterrados e sendo puxados pela forte raiz, os olhos protetoramente fechados, Hela sentiu o braço de Wolverine escorregando pelo seu e perdendo um precioso espaço. Percebeu, pela velocidade com que eram carregados, que não demoraria a perder de vez o contato com o mutante no ritmo em que suas peles se afastavam. Unindo mais uma porção de sua força, incitou a gavinha que a prendia a avançar na direção do parceiro, envolvendo-o da mesma forma. Sentiu, através da manifestação de seu poder, o momento em que Logan estava seguro pela raiz que a obedecia, o mesmo momento em que perdeu de vez o contato físico com seu braço quando eles se perderam.
Atravessaram mais alguns metros do solo até finalmente alcançarem a superfície. Pela disposição em que estavam, Eve foi a primeira a se libertar daquela situação extremamente desagradável, sendo logo seguida por Wolverine, ambos cobertos de terra dos pés à cabeça, tão imundos quanto irreconhecíveis. Hela, num lapso de humor, agradeceu por aquela ser uma cidade desabitada. Imaginou a confusão que não seria se algum morador caminhasse por ali e entrasse em pânico ao ver duas pessoas saindo de debaixo do solo, como se testemunhasse o início de um apocalipse zumbi.
De olhos ainda bem fechados, Eve tirou o excesso de terra do rosto, recuperando o fôlego perdido naquela breve e peculiar viagem. Foi então que encarou Logan, sua expressão carrancuda e reservada por trás da crosta de sujeira impregnada ainda indicando que não estavam nada bem um com o outro. Ela apenas suspirou, cansada.
– É melhor irmos andando... Temos que estar bem longe desse lugar quando virem a bagunça que fizemos lá dentro! – a mutante arriscou-se a dizer, sem compreender perfeitamente por que se esforçava tanto para tentar normalizar o clima que pesava entre eles. Isso não deveria ser tão importante assim..., pensou, amarga e irritada pela percepção de que o envolvimento entre os dois ameaçava se aprofundar dentro dela.
Sem esperar por uma resposta – por saber que provavelmente ela não viria –, Hela começou a caminhar para o mais longe que pudesse, sua maior ambição no momento a de se distanciar ao máximo daquele covil de tortura.
Contudo, antes que tivesse tempo de dar um novo passo, a mão firme de Logan fechou-se em torno de seu braço, apertando-o com vigor de modo a obrigar Eve a se virar para encará-lo, forçando-a ao confronto que ela menos queria no momento.
– Por que você o matou? – Wolverine perguntou sem dispensar a rispidez, e a mutante estava certa de que caso se permitisse fechar os olhos, reviveria a morte de sua mãe com a mesma nitidez que sempre a assombrava. O momento em que percebeu o brilho abandonar os olhos de Stryker foi como ser transportada ao passado e presenciar o mesmo processo doloroso com Dana, sua família, que morrera pelas mãos amaldiçoadas de Eve, mãos que carregavam o presságio de morte ao menor desejo da mutante – Eu ainda tinha perguntas! Ainda podia descobrir mais sobre o meu passado.
– Você o feriu para matar! – Hela empurrou o mutante, desprendendo-se do aperto desferido em seu braço com a mesma violência de sua indignação – Não pense que eu vou ficar consertando suas merdas, entendeu? Se você fazia tanta questão assim de manter o cientista vivo, que não enfiasse suas garras nas tripas dele.
– Eu perdi o controle! – assumiu, porém sem abandonar em momento algum o porte acusador – Mas você podia salvá-lo. Podia trazê-lo de volta, e ao invés disso descartou a melhor chance que tive de tirar minha história a limpo em todos os anos dessa busca.
De súbito, a profunda tristeza que dominava Eve deu espaço a um tipo de ira tão violenta que sua essência arrebatadora chegou a parecer palpável. Ela piscou longamente, e quando tornou a levantar as pálpebras, suas íris se mostraram descoradas, o intenso verde perdido em meio ao branco gélido que dominava o olhar da mulher. O ar claramente agitou-se ao redor de seu esguio corpo após ser conjurado, e Logan foi atirado para longe, descrevendo a forma de uma espiral à medida que experimentava a fúria do poder da mutante, descrevendo uma parábola em pleno ar.
Wolverine foi lançado por vários metros, o corpo musculoso girando com violência. Ao cair, seu corpo tatuou uma trilha na terra ao ser arrastado sobre ela, até que finalmente parasse. Sua feição se transformou, parecendo atordoado pela inesperada atitude da mulher.
A voz que se propagou a seguir estava repleta de vários sentimentos, sendo alguns indiscerníveis para o mutante.
– O que você imaginou que aconteceria se mantivéssemos o homem vivo? Que realmente ele nos deixaria recusar sua oferta de fazer parte da GlobalGen e nós iríamos embora como se fôssemos bons e velhos amigos? – falou de modo exaltado, aproximando-se de Logan, levada até ele por passadas rápidas, talvez preconizadas pela urgência de fazer-se entender. Não compreendia com exatidão o motivo, mas sentia uma enorme necessidade de que Logan fosse capaz de enxergar o significado de suas razões, assim como perceber a profunda angústia que a ação de matar aquele desprezível cientista desencadeara dentro da mulher de marejados olhos verdes – Nós seríamos usados como cobaia para os experimentos dessa empresa, e nunca mais veríamos a saída de novo.
– Eu podia lidar com ele... – Wolverine rebateu, novamente ereto e trajando no rosto a mesma expressão soberba, porém sem ousar um novo contato físico com Hela após presenciar uma porção de sua fúria incontida acerca do delicado assunto – Nós podíamos lidar com ele, fazer com que falasse tudo o que sabe sobre mim e essa empresa.
– Isso não se trata apenas de você! São vidas! Vidas mutantes que estão em jogo, definhando presas neste inferno, e nós dois somos a única esperança dessas pessoas, a única chance que elas têm de reconquistar a liberdade. Nós não podíamos colocar todos em risco por causa dessa obsessão que você tem pelo passado. Não dá pra mudar o que aconteceu com você, mas podemos interferir no futuro desses mutantes que estão presos à GlobalGen!
– Eve... – ele pronunciou o nome da mulher pela primeira vez desde que seus caminhos se cruzaram, e o modo brando e cheio de tristeza com que o fez criaram em Hela uma onda ininterrupta de arrepios, e algo quente e acolhedor demais para o seu gosto esquentou e despedaçou o peito da mulher com a mera menção de seu nome saindo daqueles lábios, em conjunto com os olhos amargurados que a fitavam – ...eu não faço ideia de quem eu sou. E nunca estive tão perto de descobrir. Se você acha que isso é egoísmo, então sim, eu sou a pessoa mais egoísta que você já conheceu. Só não me julgue por querer descobrir o tipo de monstro que eu já fui para aceitar fazer parte de tudo isso! Eu preciso saber, e você não tinha o direito de me tirar essa oportunidade.
– Você não entende que o que eu fiz, fiz para nos proteger! – um par de lágrimas desceu teimoso pelas maçãs de seu rosto, carregando um pouco da sujeira impregnada, sua face contorcida numa dor antiga que nunca tivera a fineza de abrandar. Pelo contrário, parecia uma ferida incapaz de cicatrizar, sempre inflamada e aberta como no dia em que fora violentamente feita ao matar sua própria mãe. E agora, após conjurar e usar os olhos negros da morte uma segunda vez, os espectros de seu cruel passado pareciam dispostos a fazê-la pagar um preço demasiado caro, trazendo-lhe com uma nitidez desconcertante a imagem do corpo mórbido e sem vida de Dana – Este lugar, esta situação... Tudo não passa de uma armadilha. A começar por Stryker. Como ele sabia que nós dois viríamos aqui justamente esta noite? E quem garante que o exército de mutantes dele também não saiba? Há muito tempo eu aprendi a não subestimar os Homo sapiens, e você deveria fazer o mesmo...
– Eu só queria a minha chance. Mas você preferiu brincar de encarnar a deusa da morte só porque se deu esse nome, e pôs tudo a perder. – delatou, cravando mais aquelas palavras em seu peito, incapaz de compreender o que a mulher já perdera por conta daquele poder. Se ele ao menos desconfiasse o quanto pesava aquele fardo...
– Faça tudo por conta própria a partir de agora então! – virou-se, caminhando com os punhos cerrados para longe de Logan, compreendendo diante daquela ruptura o quanto ele se tornara importante em sua rotina. Ele quebrara muito rapidamente a blindagem que Eve sempre carregava em sua própria defesa, e apenas naquele momento em que se afastava sem ousar olhar para trás, percebia um enorme vazio se alastrando dentro de si. Boa parte dela queria voltar, tentar se explicar novamente, fazê-lo entender...
Mas ao invés disso continuou caminhando, firme, enquanto Logan a observava se distanciar.
“I'm tired of being me
And I don't like what I see
I'm not who I appear to be
So I start off every day
Down on my knees I will pray
For a change in any way
But as the day goes by
I live through another lie
If it's any wonder why
Am I ever gonna change
Will I always stay the same
If I say one thing
Then I do the other
It's the same old song
That goes on forever
Am I ever gonna change
I'm the only one to blame
When I think I'm right
I wind up wrong
It's a futile fight
Gone on too long
Please tell me if it's true
Am I too old to start anew
Cause that's what I want to do
But time and time again
When I think I can
I fall short in the end
So why do I even try
Will it matter when I die
Can anyone hear my cry?
Am I ever gonna change
Take it day by day
My will is weak
And my flesh too strong
This peace I seek
Till thy kingdom comes”
(Am I Ever Gonna Change – Extreme)
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