Imaginary Love
4 Capítulo 03.
Notas iniciais
Oliver
"Eu estarei esperando, tudo que faremos é correr. Você será o príncipe e eu serei a princesa. Esta é uma história de amor, querido, apenas diga sim."
– Olie, melhor amigo meu, quem é mais bonita do que eu? — Felicity rodopiou com um vestido florido nas mãos e eu sorri maravilhado para ela.
– Ninguém, coisinha.
Felicity suspirou e então deixou o vestido em cima da cama, sentando-se ao meu lado. Ela me encarou com as bochechas coradas e eu arquei uma sobrancelha, estranhando sua reação adorável. Felicity tinha perdido um pouco de sua mania de corar, mas ainda me surpreendia a frequência que isso acontecia comigo.
– Oliver, você é uma anjo certo? Um anjo da guarda...
Eu assenti para ela, esperando.
– O meu anjo da guarda? — perguntou novamente, ainda com as bochechas rosadas. Eu assenti mais uma vez. — Por quê?
Eu pisquei, encarando-a surpreso. — Acho que talvez, eu estivesse destinado a ser seu guardião, coisinha. — Felicity abaixou os olhos e eu me aproximei, tocando seu queixo suavemente e encarando seus olhos. — E eu fico feliz por isso, não há mais ninguém que eu gostaria de passar vinte e quatro horas vigiando. — Eu sorri, divertido.
– Mas Olie... Eu não entendo. — Ela balançou a cabeça, ainda fitando-me muito séria. — Olie... Você... Eu queria tanto que... — Felicity suspirou, desistindo de formular a frase.
Franzi as sobrancelhas em confusão. Ela geralmente se enrolava muito em todas as coisas que dizia, mas ultimamente vinha acontecendo com muito mais frequência.
– O que foi, coisinha?
Felicity pisca e então ergue os olhos novamente, encarando-me tão profundamente que apesar de todas as suas rebeldias, eu pude ver que ela ainda era a minha garota.
– Eu quero que seja real, Oliver. Eu quero que me proteja, mas quero que as pessoas saibam disso. Por favor, vire real.
Eu suspirei, mais uma vez. Um sentimento de perda e desolação tomando-me por completo, vê-la tão triste e tão magoada por algo que estava tão impossível ao meu alcance. Era uma coisa que dilacerava-me.
– Eu gostaria de ser, coisinha. — Respondi mais uma vez, acariciando com seu rosto com suavidade. — Por você, eu gostaria. — Murmurei a ela e Felicity fungou, só então dei-me conta de que ela estava chorando. Suspirei mais uma vez, aconchegando-a em um abraço carinhoso.
– Eu sei. — Foi sua resposta. Felicity agarrou-se a mim e aquela foi a última conversa gentil — ou o máximo disso — que tivemos.
Durante a adolescência de Felicity, nossa relação foi regada de muitas brigas e muitos desentendimentos. Eu não aprovava a maioria das coisas que ela fazia e ainda assim, Felicity sempre fazia com a intenção de irritar-me. Eu voltara a me tornar mais presente em sua vida e ela sempre se dirigia a mim como se eu fosse o seu segurança intragável. Suas atitudes me magoavam, obviamente. Eu havia visto cada pequeno momento da coisinha e então, quando ela completou dezoito anos, observar uma mudança tão brusca assim foi... Decepcionante.
Mas havia os momentos em que Felicity era só... bem, Felicity. Falando muito, rindo e agindo como se eu ainda fosse seu melhor amigo. E esses momentos me faziam aguentar todos os outros onde ela era terrivelmente petulante.
Os cabelos ainda estavam tingidos de preto e ela ainda carregava respostas ácidas na ponta da língua, mas era a coisinha, afinal. Ainda que ela me irritasse profundamente, eu não poderia me importar menos com ela, isso porém, não queria dizer que as coisas eram mais fáceis.
Fel nunca foi uma garota namoradeira, mas quando atingiu os dezoito anos, me parecia que qualquer garoto — sendo ele bom ou não — que aparecesse em sua frente, lhe era interessante. O ato me irritava profundamente e Felicity parecia gostar de me contrariar, especialmente. Donna não se importava o bastante para colocar regras na filha e eu já não me via mais agindo como o irmão mais velho de Felicity.
Certa noite, após uma breve discussão sobre Connor — um dos garotos que eram uma péssima influência com quem Felicity estava envolvida — ela resolvera agir como se eu de fato, não existisse. Agindo e falando consigo mesma como se fosse uma esquizofrênica. Era irritante e infantil, e minha paciência aos poucos ia se esgotando, mas eu ainda tentava me manter gentil diante de suas mal-criações.
– Felicity... — Eu tentei mais uma vez, estávamos em seu quarto e ela fuçava o guarda-roupa em busca de uma lingerie para sua noite especial, como ela mesma decidira chamar. Eu sabia que provavelmente a noite seria um fracasso, mas não havia o que eu pudesse fazer, as escolhas eram de Felicity e ela as tomara sozinha.
– Você é um fruto da minha mente, Oliver. — Declarou petulante. — Então fique aí e finja que não existe.
Eu arqueei uma sobrancelha e Felicity rapidamente abriu os lábios, chocada com a própria frase.
– Eu... Desculpe, Olie. — Murmurou parecendo envergonhada e magoada.
Suspirei e me aproximei, colocando as mãos em seus ombros e virando-a para me encarar. Felicity estava mais alta, mas ainda era quase dois palmos mais baixa que eu, ela ergueu os olhos, encarando-me ainda envergonhada.
– Não faça isso, Felicity. Você vai se arrepender.
– E quem é que sabe? Eu posso gostar. — Ela empinou o nariz e então, afastou-se bruscamente das minhas mãos. — Eu vou usar a preta, fica bem em mim. — Comentou finalmente, jogando o cabela para trás das costas.
Eu me afastei lentamente, encarando-a decepcionado e triste, de fato. Me doía profundamente vê-la fazendo escolhas tão ruins, destruindo a si mesma desse modo. O relacionamento com Connor não era recente, se estendia por meses, ele a magoava e eu perdera as contas de quantas vezes a consolava e aconselhara. Mas Felicity insistia na mudança do garoto e em algo mais, que me era incompreensível. Eu não entendia as motivações por trás de suas ações, não mais.
Felicity se tornara irreconhecível para mim nos últimos meses. Connor destruíra a coisinha que eu amara por dezoito anos e colocara uma garota fútil e irresponsável em seu lugar.
– Sinto muito, Felicity. — Eu disse finalmente, deixando-a no quarto.
Estar longe de Felicity, era como não existir. Não estar em seu mundo para mim, era como estar à deriva, as coisas passavam por meus olhos como borrões, eu não as registrava com interesse. Tudo que havia para mim, era ela. E quando senti a sensação, o aperto profundo, eu soube que ela precisava de mim. As horas já haviam passado e eu a encontrei em seu quarto. Felicity chorava descontroladamente e eu estaquei, sem saber como reagir ou sem saber o que acontecera.
Ela não me chamara, mas ela precisava de mim. Eu sabia.
– Felicity? — Eu a chamei em voz baixa, o mais suave que consegui.
Felicity ergueu a cabeça do travesseiro, a maquiagem escorrendo e o nariz vermelho devido ao choro. Eu me sentei ao seu lado, esperando que ela disse alguma coisa.
– Eu... Você tinha toda a razão, Oliver. Connor é um idiota, mas... Eu sou mais. Estou ficando louca e fazendo coisas absurdas.
– Tudo bem, coisinha. — Murmurei em um tom doce.
– Não está. — Ela balançou a cabeça, com a voz chorosa. — Eu não quero ser a coisinha, Oliver. Não posso! Você não vê e eu sei que acha que eu sou só uma adolescente que não sabe de nada. Mas, eu sei! Eu sei das coisas e eu sei o que eu sinto! — Ela parou e eu esperei pacientemente por suas próximas palavras, Felicity se agitou mais uma vez, gesticulando nervosamente. — Você não vê mesmo, não é?
– Ver o que, Felicity?
– Que eu me apaixonei por você, Oliver! Há três anos atrás, quando eu tinha quinze anos e nem sequer sabia o que era amor ainda.
Eu me afastei, repentinamente como se houvesse levado um choque. Isso era absurdamente errado. — Você ainda não sabe. — Pontuei e minha voz sou mais fria do que eu gostaria. Mas isso seria bom, afinal. Felicity estava reagindo de maneira absurda.
– Eu sei sim! Sei que ninguém me deixa tão segura quanto você e sei que ninguém me faz mais feliz que você! E que te magoar com as coisas que faço e digo, me magoam também, Oliver! Eu não sou mais uma criança, porque você não pode ver isso?!
– Porque eu sou seu guardião, Felicity! — Eu praticamente rugi as palavras em sua direção. — Eu não sou seu amigo ou seu pretendente, eu sou seu guardião! Não está apaixonada por mim, acha que está, mas não está!
– Pare de achar que sabe o que eu sinto, Oliver! — Felicity gritou as palavras, apontando em minha direção. — Pare com isso! Você não me ama, também?
Eu encarei os olhos azuis de Felicity. — Não dessa forma, Felicity. — Balancei a cabeça, afastando a possibilidade. Definitivamente, não dessa forma. — Você é uma criança, é a minha criança. Eu a vi crescer, como pode pensar em algo assim?
– Então não está apaixonado por mim? Não pode se apaixonar por mim? Eu cresci! Não sou mais a sua criança, Oliver! Eu não sou nenhuma criança!
– Não posso, Felicity. — Eu dei as costas a ela, incapaz de ficar a continuar olhando-a. Tão magoada e tão ferida. E tudo por minha causa, era horrível demais pensar que a única pessoa que eu devia fazer sempre feliz, fora a que eu mais magoei.
Ouvi o soluço de Felicity seguido de um suspiro, então ela se sentou sobre a cama.
– Eu não posso conviver com isso. Eu queria tanto que você fosse real, Oliver. Eu poderia te mostrar, te fazer me amar... Mas, você não é! — Eu esperei suas próximas palavras, já sabendo quais seriam. — Não posso conviver com isso, essa dor de tê-lo a toque de distância e ainda assim, não ter... — Felicity balançou a cabeça mais uma vez e eu dei um passo em sua direção, ela ergueu os olhos, encarando-me cheia de dúvidas, eu inclinei a cabeça em um pedido mudo para que ela não dissesse as palavras. Mas seria melhor para ela, não é? Não seria melhor que eu realmente me tornasse invisível aos seus olhos? — Vá embora, Oliver. Não quero você mais aqui.
– Coisinha...
– Vá embora, Oliver. — Disse novamente, encarando-me com os olhos tristes.
Eu observei seu rosto decidido mais uma vez e então eu fui. Incapaz de continuar a observa-la como um ser inexiste, eu simplesmente fui embora.
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