Imaginary Friends
2 Memories
Hospital St. Louis
23/06/2013
3:08 AM
Acordei assustada no meio da noite. Tenho certeza de que ouvi alguém me chamando, mas olhei em volta e não havia nenhum enfermeiro
.-Helena! Helena!!
A pessoa parecia estar perto do meu quarto, ou até dentro dele. Podia sentir o tom de desespero em sua voz. A voz estava meio abafada então eu não pude distinguir se era um homem ou uma mulher.
-Quem… Quem tá aí?
Eu juntei toda a minha coragem e me levantei. Andei pelo quarto vazio e fui em direção à porta, hesitando em abri-la.
Respirei fundo várias vezes, contei até três e abri a porta de uma vez.
E tudo o que eu pude ver naquele momento era…
Fogo.
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-Bom dia! Dormiu bem? -Richard veio todo sorridente, me trazendo uma bandeja com café da manhã.
-Na verdade não muito. Tive um sonho ruim. O que você tem aí? -Eu estava com muita fome, não havia comido nada desde a torta de ontem.
-Eu sei que comida de hospital é horrível então eu tomei a liberdade de preparar um café da manhã decente pra você. Eu trouxe panquecas, vitamina de frutas e morangos com chocolate.
-Oh! Que legal. Obrigada. -Ele me entregou a bandeja e eu ataquei a comida. E estava muito boa mesmo!
-Mas… Me fale sobre o seu sonho. -Ele se sentou ao meu lado.
-Eu sonhei que eu acordava no meio da noite e o hospital estava em chamas. E só eu estava lá.
-Hm… Ah! Deve ser por causa do incêndio de 12 anos atrás… O que mais aconteceu no sonho?
-Tinha alguém chamando por mim, mas eu não reconheci a voz.
-Pense mais um pouco. Talvez esse sonho possa te ajudar a lembrar de alguma coisa.
-É, verdade. Falando nisso, você ligou para aquela senhora?
Eu falei de boca cheia e ele riu de mim.
-Eu passei horas procurando mas não consegui achar nada sobre ela. É como se ela nunca tivesse vindo aqui, mas eu tenho certeza de que a vi!
-Merda… Eu tenho que achar essa mulher a qualquer custo.
-Você não acha que é melhor ir na polícia primeiro? Talvez eles tenham alguma informação útil.
-Talvez. Acho que o mais importante agora é eu sair daqui, depois eu decido o que eu faço. Mas eu esqueci de te perguntar uma coisa… Como era essa mulher que veio me visitar?
-Eu não sei, ela usava um pano cobrindo quase todo o rosto, então não pude ver muito bem.
-Ótimo.
Suspirei tentando manter a calma. Ele não estava sendo muito útil. E o pior de tudo é que se eu não conseguir achá-la eu terei que ficar na casa dele. Maravilhoso.
-Eu já disse que você pode ficar na minha casa se quiser. Pelo menos até você achar a tal mulher.
Ele deu um grande sorriso, parecia mais feliz do que uma criança que acabou de ganhar um doce.
-Por que você tá fazendo isso?
-Fazendo o que?
-Me ajudando, você é só um enfermeiro, não tem que fazer isso.
-Meu trabalho é cuidar de você… Não é? E eu levo o meu trabalho muito a sério.
Ficamos em silêncio por um tempo, enquanto ele me olhava fixamente.
-Por… Por que você tá me olhando?! Pare com isso!
-Desculpa…
Ele olhou para o chão, envergonhado.
Richard parece gostar muito de mim, mas eu não tenho tempo pra isso. E mais, eu o conheci ontem, seria impossível pra mim gostar dele. Eu não tenho tempo pra garotos. Preciso descobrir quem eu sou.
-Senhorita… Helena Miller? -Uma mulher veio em nossa direção com uma prancheta na mão.
-Sim?
-Você já pode sair se quiser. Aparentemente você está bem, então já pode ir.
A mulher estava praticamente me expulsando do hospital! Ela parecia bem séria e eu pude sentir a arrogância saindo pela sua boca. Que rude.
-Ah… Ok então… Eu preciso de algumas roupas. -Olhei para Richard- Está chovendo lá fora e eu definitivamente não posso sair com essa roupa de paciente.
-Eu vou providenciar alguma coisa.
A mulher respondeu antes que Richard pudesse falar alguma coisa. Ela realmente queria que eu saísse de lá logo! Mas eu também queria sair logo do hospital, estou feliz que já fui liberada, achei que ia ter que ficar aqui por mais uma semana.
Minha mente ainda está muito confusa, e ficar sentada aqui não vai ajudar em nada. Vou ficar alguns dias na casa de Richard, pelo menos até eu conseguir descobrir alguma coisa.
Confesso que estou feliz por ter Richard para me ajudar. Já que eu não tenho nenhum dinheiro e no momento não tenho ninguém que possa me ajudar, fico feliz por ele estar aqui.
-Ah. A Dra. Monstra está voltando com as minhas roupas. -Eu e ele rimos juntos.
-Aqui estão suas roupas, Srta. Miller. -Ela me entregou e saiu andando sem dizer mais uma palavra.
-Por que você acha que ela estava sendo tão impaciente?
-Ela está sempre assim, não ligue pra isso.
-É. Você...poderia me dar licença? Eu preciso me trocar.
Ele riu e olhou para mim.
-Você sabe que eu já te vi nua antes, não é? -Meus olhos se arregalaram, quase saltando para fora.
-Você é uma paciente em um hospital e eu sou seu enfermeiro, não é nada de horrível.
-Não interessa! Sai daqui AGORA!
-Tá bom! Calma…
-Calma? -Eu dei um tapa em sua cabeça.
-Você acha que eu fiz o que? Abusei sexualmente de você? Eu estava só cuidando de você, sua ingrata. E houveram outros enfermeiros e enfermeiras antes de mim, por que você não vai bater neles também?
-Richard… Você tem três segundos para sair daqui. 1...2…
-Eu já estou indo! Estarei esperando no corredor
Ele saiu do quarto e eu fui me trocar. As roupas eram largas demais, mas era melhor usar aquilo do que ter que sair com roupa de paciente de hospital.
Eu fico pensando… Eu cheguei neste hospital quando tinha apenas 7 anos. E é como se estes 12 anos nunca tivessem existido. Quer dizer… eu estava em coma. Eu não vivi esses 12 anos. Mas eu me sinto acostumada com o fato de que eu tenho 19 anos agora, sendo que eu nem passei pelas experiências de uma adolescente, eu era apenas uma criança. É como se na minha mente eu tivesse passado por tudo isso sem nenhum problema.
Como se eu tivesse vivido esses 12 anos como uma pessoa normal, mas não me lembro.
-Já se trocou? -Richard gritou do corredor.
-Já.
Ele entrou e me olhou de cima a baixo. Depois de alguns segundos de silêncio ele finalmente disse alguma coisa.
-Eu definitivamente irei comprar roupas novas para você depois, Helena.
-Que seja. Eu to indo embora.
-Espera! -Ele segurou meu braço- Como assim tá indo embora?
-Eu recebi alta, não recebi? Já posso sair daqui.
-Sim, mas você não pode ir sozinha.
-E você não pode vir comigo, tem que ficar aqui trabalhando.
-Ah, não se preocupe com isso, eles nem vão notar minha ausência. E de qualquer forma eu tenho que te levar na minha casa, já que você não conhece nada aqui na cidade. Vamos.
-Ok então.
Ele estava certo, eu não conheço nada nessa cidade, passei os últimos 12 anos naquele quarto. É melhor eu só fazer o que ele diz, assim evito complicações.
Saímos do hospital, e foi como se eu estivesse vendo o mundo pela primeira vez. Eu sentia que estava nascendo de novo. Era incrível.
Ainda estava chovendo um pouco, e o cheiro da chuva era maravilhoso, combinava com o cheiro das árvores que tinham por ali. Tudo parecia novo e incrível.
O dia estava nublado, mas ainda pude sentir a luz do sol batendo em mim. Meu cabelo balançando por conta do ventinho que estava soprando. Era uma sensação...indescritível.
Pessoas diferentes usando roupas diferentes, e carros passando um atrás do outro na rua.
Parecia surreal. Depois de 12 anos… Eu estou vivendo novamente.
-O que você acha? -Richard interrompeu meus pensamentos.
-Maravilhoso. Eu me sinto ótima estando fora daquele hospital.
-Eu sei. O que acha de irmos pra minha casa e depois eu te levo pra conversar com a polícia?
-Por mim tudo bem. Vamos.
Eu fui andando, mas Richard me segurou.
-Nós vamos de carro.
-Ah, você tem um carro?
-É claro! Ele está logo ali.
Ele apontou para o carro que estava estacionado do outro lado da rua. Era preto e parecia ter custado caro. Eu não sei nada sobre carros, mas só de olhar para aquele carro eu já sabia que era muito bom.
-Uau! Carro bonito.
-Obrigado, eu ganhei de presente.
-Sério? De quem?
-Meu pai.
Caminhamos em direção ao carro e ele abriu a porta para mim.
-Obrigada. -Eu e ele entramos no carro.
-Coloque o cinto, você vai precisar. -Estranhei o modo como ele falou isso, mas não disse nada, apenas coloquei o cinto.
-Sabe, meu pai tinha um carro parecido com o seu, ele costumava…
Eu e ele trocamos olhares espantados naquele momento.
-Como você se lembra disso?
-Eu não sei, as palavras apenas saíram pela minha boca.
Eu vi o carro e me lembrei de uma coisa.
Isso quer dizer que se eu ver mais coisas relacionadas ao meu passado eu posso me lembrar do que aconteceu.
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10/10/2001
-Papai?! Mamãe?!
-Helena! Helena!!
-Mamãe!
-Helena! Fique aí! Mamãe já está indo! Fique aí!
Helena abriu a porta de seu quarto, ignorando as palavras da mãe, e tudo o que ela podia ver naquele momento era…
Fogo.
Notas finais
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