Imaginaerum
2 If I was your vampire
Notas iniciais
Sábado à noite, festa de halloween de uns caras lá do colégio. Minha mãe não tinha me deixado ir, mas como nunca gostei de regras eu sempre dava minhas escapadas para fazer o que queria.
Me arrumei ansiosa, vesti meu vestido preto e comprido que tinha uma abertura grande na perna, modelava a cintura e tinha as mangas largas e compridas nos braços, coloquei uma sandália preta e peguei meus kits de maquiagem, a parte mais importante do meu figurino. Dentro de alguns minutos havia terminado tudo: pele clara, boca num tom de vinho escuro, olhos num preto não tão exagerado e cílios postiços.
Eram onze e meia da noite, ouvi a buzina de Jason do lado de fora e olhei pela janela procurando alguém que me veria saindo escondida, mas não vi ninguém. A noite estava um pouco fria, o céu estava limpo, mas sem estrelas, a lua brilhava forte e soberana.
Saí do meu quarto cuidando para não acordar minha mãe e alguns segundos depois me vi sentando no jeep aberto e dando um beijo daqueles em Jason. Ele era meu namorado.
– Hmm... Uma vampira? — Perguntou acelerando o jeep.
– Óbvio e você é o Jason, Jason? É até estranho falar — Rimos.
– Decidi combinar com o nome, gata, gostou? — Dei de ombros e ri ao ver sua careta.
Meia hora depois chegamos ao lugar onde era a festa. O local era bem afastado da cidade, era numa clareira de uma floresta. No centro da clareira havia uma grande fogueira, nos arredores haviam caixas e mais caixas de bebida, e as músicas vinham de um dos carros ali perto.
Um arrepio percorreu meu corpo, eu estava distraída, olhando para a fogueira e vendo Jason conversando com seus amigos logo mais à frente, mas havia alguma coisa diferente naquele lugar.
Fui pegar uma bebida e depois sentei-me num tronco derrubado ali. Jason havia sumido com seus amigos e nenhuma das minhas amigas que tinham dito que viriam de fato apareceram. Aquela festa estava fadada ao fracasso, pelo menos no meu ponto de vista, pois eu não faria nada de produtivo.
O tempo passou e logo eu vi os amigos de Jason numa roda, mas ele não estava mais nela e em nenhum outro lugar ali da clareira.
– Hey — Caminhei até a roda deles — Viram para onde o Jason foi?
– Por ali, mademoiselle — Curtis, já bêbado, apontou para a floresta atrás deles.
– Obrigada.
Adentrei a floresta e prestei atenção em qualquer ruído além da música que ia sumindo aos poucos, até que ouvi uma voz feminina.
– J, esse lugar me assusta, vamos voltar... — Me escondi atrás de uma árvore para ouvir a conversa.
– Não, gata — Era a voz de Jason — Eu vou te proteger — Terminou de falar e beijou a loira encurralada em uma árvore.
– Seu filho da puta, vagabundo! — Saí de onde estava e joguei a cerveja que segurava, nele. A loira saiu correndo e Jason se virou furioso para mim — Me traindo com aquela noj... — Senti meu rosto ficar dormente e logo em seguida estava no chão. Minha bochecha ardia e eu sentia o gosto de sangue em minha boca.
– Sua vadia, quem você acha que é para fazer isso? — Sentia o cheiro forte de vodka saindo de sua boca, ele provavelmente estava bêbado, e consequentemente, agressivo além do normal — Intrometida! — Senti outro tapa forte, e assim seguiu, apanhei até apagar, nunca pensei que algo do tipo aconteceria comigo...
xxx ~Música~
Acordei tonta e dolorida ainda no meio da floresta, ainda estava bem escuro, deveria ser por volta das três ou quatro da manhã. Olhei para meu vestido, ele estava rasgado em vários pontos e havia sangue em vários lugares no meu corpo, principalmente no rosto.
– Aquele filho da puta devia pensar que eu estava morta — Falei com raiva sentindo o gosto de sangue em minha boca, me levantando aos poucos.
Comecei a andar devagar pela floresta, precisava chegar pelo menos à estrada. Eu andava me apoiando nas árvores, sentia os galhos arranhando meus braços, ia para qualquer direção, tudo parecia igual, tão igual que eu já tinha a sensação de estar andando em círculos. Tudo o que eu ouvia era o barulho de uma coruja e as folhas se quebrando quando eu pisava nela, mas apesar de parecer uma floresta completamente normal, algo muito estranho me causava arrepios e medo. Eu me sentia observada, seguida, por várias vezes olhei ao me redor quando ouvia algum ruído diferente, mas não via nada. De repente ouvi uma risada um pouco maligna, como aquela de filmes de terror.
– Quem está ai? Isso não tem graça! — Arrisquei, não tinha mais nada à perder, afinal, já estava perdida em meio à todas aquelas árvores.
Continuei a andar num ritmo mais rápido e senti meu corpo doer por conta do esforço. Alguns metros depois tropecei na raiz de uma grande árvore e desisti de tudo, não conseguiria sair dali viva. Permaneci deitada e fechei meus olhos por alguns segundos, aquilo era um pesadelo, ou pelo menos eu torcia para ser. Quando já estava pegando no sono novamente, senti alguém acariciando meus cabelos e abri meus olhos assustada.
– Não vou te machucar — Um homem falou com sua voz grave e se levantou, aquele com certeza era o dono da risada que eu tinha ouvido antes. Tinha algo de muito estranho naquele cara, sua pele era naturalmente pálida, seus olhos eram um verde azulado, tinha a barba desenhada, cabelos escuros e compridos que passavam da altura do ombro, era maravilhosamente lindo, porém, assustador. Ele sorriu sem mostrar os dentes e estendeu a mão para que eu levantasse — Não deveria andar sozinha à essa hora da noite — Ele tinha um sotaque antigo, talvez europeu.
– Olhe para o meu estado e veja se eu continuo ligando para alguma coisa — O sorriso dele se alargou, como se estivesse ficado feliz com o que tinha acabado de dizer — Quem é você?
– Sou Alec — Fiquei encarando-o, por um momento me distraí novamente, temendo o que aconteceria comigo dali para frente — Jill, já falei que não vou te machucar, por que ainda está com medo?
– Como sabe meu nome? E como sabe se estou com medo ou não? — Novamente aquela risada soou em meus ouvidos, era ele.
– Eu sei de tudo.
– Bom pra você, agora pode ter a bondade de me tirar daqui? — Falei impaciente. Ele não respondeu, apenas aproximou-se de mim, me pegou no colo e começou a andar tão naturalmente quanto se estivesse apenas segurando uma pena.
– Eu tenho duas pernas e dois pés, sei andar — Resmunguei grossa.
– Não me trate assim, garota, eu estou lhe fazendo um favor.
– Qual? Não te conheço! Quem me dá a garantia de que você não vai me estuprar, me matar, me mutilar, ou...
– Cale a boca, vai me agradecer depois.
Depois de alguns minutos andando chegamos à uma mansão antiga, era imensa, provavelmente de uns quatro séculos atrás. Por fora ela parecia abandonada, mas assim que Alec abriu a grande porta de madeira vi que ela estava muito bem cuidada, a entrada principal tinha o chão de mármore, um grande tapete vermelho seguia desde à porta até as duas escadas, uma em cada lateral. As paredes eram numa cor de creme, haviam alguns quadros aqui e ali, bem no centro do salão havia sofás luxuosos e enormes na cor roxa, e logo acima, no teto, havia um belo lustre de cristais.
Tinha até me esquecido de que estava sendo carregada, quando percebi que estávamos subindo à escadaria da esquerda. Alec seguiu pelo longo corredor e entrou num grande quarto, provavelmente a suíte master da mansão, tinha um grande tapete em tons de vermelho e dourado, que assim como no resto do quarto, tinham essas cores predominando.
Ele fechou a porta e me colocou no chão.
– Sente-se na beirada da cama, vou cuidar dos seus ferimentos — Apenas obedeci, ainda me perguntando como poderia haver uma mansão daquelas no meio da floresta.
Alec puxou uma cadeira e sentou-se em minha frente e começou a limpar os meus machucados. Ele fazia tudo tão cuidadosamente e de uma maneira tão habilidosa, que supus uma possível experiência médica, mas essa não era a questão principal.
– Por que está cuidando de mim? — Perguntei e ele continuou limpando o corte em meu supercílio.
– Não podia largar uma humana ferida e sozinha numa floresta daquelas — Ele só falou assim que terminou tudo, levantou-se e guardou o que não tinha usado.
– Humana? Hoje à noite sou uma vampira, não está vendo a minha roupa? — Brinquei tentando arrancar-lhe uma risada, mas ele apenas me olhou com a mesma feição de antes, como se estivesse feliz com o que eu tinha acabado de dizer.
– Se tivesse a opção de realmente se tornar uma vampira, falaria com tanta certeza? — Senti um grande medo ao ouvir aquilo.
– Vampiros de verdade não existem — Novamente aquela risada.
– Você não respondeu minha pergunta — Ele se aproximou novamente e olhava fundo nos meus olhos.
– E se eu disser que sim, o que vai acontecer?
– Vai ter que arcar com as consequências — Em menos de um segundo senti minha pele do pescoço ser rasgada e uma dor intensa dominou meu corpo.
xxx
Acordei ainda naquela suíte master, usava um vestido vermelho, não sentia mais dor alguma e reparei que meus machucados haviam se curado. Me sentei e vi que Alec me observava em pé, encostado ao lado da porta. Ele sorria e observava a nova eu que ele tinha criado.
– Mas o que... — Me perguntei, aquilo só poderia ser uma mistura de sonho com pesadelo mais louco de todos.
– Feche os olhos e escute — Ele apareceu sentado atrás de mim. Fiz o que ele pediu e conseguia ouvir tudo, meu coração, seu coração, os animais na floresta à quilômetros dali, o vento batendo na folha das árvores — Agora, sinta — Senti ele passando levemente os seus dedos em meus cabelos, logo em seguida ele tocou em meus braços e beijou onde ele tinha mordido meu pescoço. Era tudo bem mais intenso do que antes, outro nível de sensibilidade — Em todos os meus anos de existência, você é a primeira humana que eu transformo...
– Por que? — Ele se sentou em minha frente novamente.
– Não foi uma coincidência termos nos encontrado, Jill, eu te observei por muito tempo, desde a primeira vez que te vi eu sabia que você seria a primeira — Ele sorriu.
– O que mais de "diferente" eu tenho agora? — Perguntei mudando de assunto.
– Muitas coisas você vai descobrir ao longo do tempo, mas eu acho que uma delas você vai descobrir apenas se eu disser um nome...
– E qual seria?
– Jason — Uma raiva enorme dominou meu corpo ao lembrar de tudo o que ele tinha feito comigo na noite anterior — Os seus sentimentos estão mais aguçados, amor, felicidade, raiva, ódio... — Apertei os lençóis da cama com os dedos — E é claro que ai entra uma parte, digamos, difícil em ser um vampiro, controlar a sede por sangue — Senti minha garganta queimando e junto com isso, a raiva de Jason crescia cada vez mais.
– Alec?
– Sim?
– Me leve até ele.
xxx
Parei em frente à casa de Jason, já era noite e a luz de seu quarto estava acessa. Eu podia ouvir a voz de outra garota junto com ele, duas respirações, dois corações batendo. Ao juntar tudo o que me tinha acontecido e o que estava acontecendo agora, senti minha parte humana desaparecer e algo me cegar.
Quando voltei ao meu estado "normal", deparei-me com o quarto de Jason todo ensanguentado, assim como o corpo dele e o de uma ruiva que estava com ele.
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