I'll be waiting by the bleachers
2 Capítulo II
Notas iniciais
— Oi — disse uma voz atrás de Clarke, fazendo a garota se assustar.
Ela olhou para trás e viu Lexa com um sorriso meio culpado. Passava das quatro da tarde e Clarke estava no estúdio de artes da Arkadia High terminando uma de suas pinturas. Ser filha da vice-diretora Griffin tinha seus altos e baixos. Poder ficar ali até mais tarde fazendo o que ela mais gostava era uma vantagem.
Clarke acenou com a cabeça para que Lexa entrasse na sala. A garota ainda estava triste pelo empate do domingo e descontara um pouco de sua raiva em Clarke — algo que nunca acontecera antes. Clarke não era de perdoar fácil, mas entendia a pressão que a namorada estava. Além disso, se aquele gol de Roan tivesse acontecido contra seu time, ela também não estaria muito feliz.
Era quarta-feira e Lexa tinha treino de futebol mais cedo, provavelmente a razão para ela ter parado em Arkadia antes de ir para casa. Não que Clarke tivesse falado onde estava. Ela podia entender o que Lexa passava, mas ainda estava um pouco emburrada com tudo o que acontecera.
— Uau — elogiou Lexa, se aproximando de Clarke. Ela observava a pintura, impressionada. — Essa sou eu?
— Bom... — Clarke deu de ombros; suas bochechas estavam vermelhas — talvez.
— Porque eu estou com essa graxa nos olhos?
Clarke revirou os olhos e deu um empurrão de leve na namorada.
— É uma reimaginação! — ela exclamou, irritada. — Como se você fosse comandante de um povo todo.
Lexa fez uma careta. Clarke sabia que a namorada gostava da posição de capitã do time de futebol. Lexa nascera para liderar qualquer grupo que entrava. Ela era inteligente, esperta, astuta e todas as outras qualidades que todo mundo procura em um líder. Ela não duvidava que Lexa talvez até pensasse em concorrer à presidência do país um dia.
— É para alguma galeria? — indagou Lexa, pegando um banquinho e se sentando ao lado de Clarke.
— Na verdade, é sim — respondeu a outra, sem tirar os olhos da pintura. — Minha mãe conhece alguém em Washington e eles ficaram interessados no que eu posso fazer.
— E quem não ficaria? — disse Lexa em um murmúrio quase inaudível. Clarke parou de pintar e a olhou de soslaio. A garota se atrapalhou. — Hm, digo, suas pinturas são maravilhosas. Elas merecem estar expostas em algo além de uma sala de aula.
— Se esse é o seu jeito de pedir desculpas pelo comportamento de domingo, então você está no caminho certo.
Lexa riu e sacudiu a cabeça, como se não pudesse acreditar no que ouvia. Clarke abriu um meio sorriso e puxou a namorada para um beijo impulsivo. Ela não gostava de brigar com Lexa, não quando ela tinha aqueles grandes olhos que pareciam de um filhotinho perdido.
— Também vim pedir para que você jante comigo — disse Lexa assim que o beijo terminou. — Meus pais voltaram de viagem.
O coração de Clarke parou por um segundo. Apesar de namorarem por quase um ano, ela nunca passara mais de cinco minutos com os pais de Lexa. Eles eram CEO's de uma empresa multinacional e mais viajavam do que ficavam em casa. Os dois não se incomodavam com as festas que Lexa dava em sua ausência e também não pareciam muito ligados na sexualidade da filha. Jantar com eles era um passo e tanto na relação das duas.
— Clarke, não faça essa cara — pediu Lexa, fazendo biquinho. — Meus tios e Anya estarão lá também!
Clarke grunhiu. Anya não era exatamente a melhor prima do mundo, pelo menos não do seu ponto de vista. Clarke tinha certeza que a prima de Lexa não gostava dela, por algum motivo que jamais descobrira. Talvez fosse a rivalidade entre as duas escolas (Anya também estudara na Trikru High) ou talvez ela fosse a prima ciumenta que fazia o papel de irmã mais velha. De qualquer maneira, ela não era a melhor companhia de todas.
— Eu posso fingir que fiquei intoxicada pela tinta da minha pintura e não pude ir. — Clarke sorriu com a própria ideia.
Lexa rolou os olhos.
— Serão três horas no máximo. — Lexa entrelaçou sua mão na de Clarke para tentar acalmá-la. — O que pode dar ruim em três horas?
— Tudo bem, tudo bem. — Clarke deu um selinho rápido na namorada. — Mas você terá que me ajudar com tudo isso. Não podemos sair sem que essa sala esteja a mais limpa da escola.
***
Muita coisa podia dar errado em três horas, Clarke agora tinha plena certeza disso. Os Woods foram bastante receptivos com ela, e isso animou tanto Clarke quanto Lexa. A garota parecia mais apreensiva do que deixara transparecer enquanto conversavam em Arkadia. Seus pais estavam tranquilos ao ver a filha com uma namorada, mas seus tios torceram o nariz.
— Nós nos vimos pela primeira vez em um dos jogos de futebol entre os nossos times — disse Lexa durante o jantar. Clarke implorara para que não sentasse do lado de Anya, mas a mãe de Lexa não estava a par disso. A garota acabou ficando entre a namorada e a prima, mal se atrevendo a tocar na comida em seu prato para que não pudesse encostar em Anya. — Eu criei coragem para finalmente falar com ela quando a encontrei em uma loja. A gente flertou secretamente por um tempo.
— Até que ela me deixou plantada no baile da Arkadia — falou Clarke com um sorriso amarelo. Anya pareceu gostar dessa parte da história. — Levou um verão inteiro para que eu a perdoasse.
Clarke podia sentir os olhares de desaprovação dos tios de Lexa. Ela tentou fixar sua atenção na refeição à sua frente, e ela não podia negar que era uma das melhores que já comera na vida. Lexa vivia contando que seu pai era o melhor cozinheiro do planeta (ela podia dar tais declarações, afinal já viajara o mundo inteiro com os pais).
— Que graça! — comentou a Sra. Woods, sorrindo para a filha. — E como vai o campeonato, Alexandra?
Lexa torceu o nariz ao ouvir seu nome inteiro. Ela só deixava sua família a chamar daquele jeito porque, bem, havia sido eles que tinham escolhido o nome e eles a viam pouco. Lexa agia um pouco violentamente quando qualquer outra pessoa a chamava de tal maneira.
— Nós estamos bem — respondeu Lexa, fitando seu prato. Suas bochechas estavam vermelhas. — Estamos em primeiro lugar no grupo A. Mais duas partidas e vamos para as quartas.
— Olha só, hein? — O pai de Lexa apontou o garfo para seu irmão. O tio de Lexa estava impassível. Clarke sentiu a temperatura da sala diminuir dez graus. — Minha Alexandra está melhor que a gente, não é?
— Ai, Deus — murmurou Lexa.
Clarke franziu o cenho. Não entendia o que estava acontecendo ali e, para ser sincera, preferia continuar não sabendo. Não queria se meter em drama de família. Já estava envolvida demais com os Blake e sua mãe e Kane para que se enfiasse em outra família problemática.
— Ganhamos dois campeonatos enquanto estávamos na escola, irmão — disse o tio de Lexa com uma frieza incomparável.
— Futebol é meio que uma coisa séria na minha família — disse Anya para uma surpresa Clarke. — Meu pai nunca me perdoou por não entrar no time. Meu tio sempre usa a Lexa contra ele. — Ela ergueu a cabeça para Lexa. — Porque você a trouxe aqui quando a briga é sempre a mesma?!
— Eu não sei! — murmurou Lexa em resposta. A garota pigarreou e falou para os pais: — Eu, Clarke e Anya já vamos. O jantar estava maravilhoso, pai.
Clarke se levantou automaticamente. Ela acenou com a cabeça para os pais de Lexa e temeu olhar para seus tios. Lexa pegou sua mão em um ato atrevido e a levou para seu quarto no segundo andar, com Anya em seu encalço. Assim que fecharam a porta, Clarke soltou um suspiro aliviado. Ela pode ouvir uma discussão acalorada vinda do andar de baixo.
— É sempre assim? — indagou Clarke, se virando para Lexa e Anya.
— Sim — responderam as duas ao mesmo tempo.
— Porque você não entrou para o time? — Clarke apontou para Anya.
— Não tive interesse — respondeu a garota, dando de ombros.
— Ela faz Ciências Políticas agora — completou Lexa, em tom de deboche.
Anya revirou os olhos.
— É um ótimo curso, se ainda estiver indecisa — Anya disse, olhando para Clarke.
— Não, não — respondeu a garota, balançando a cabeça. — Eu sou artista. Vou fazer qualquer coisa relacionada a design ou arte. Talvez até História da Arte, se estiver animada.
Anya lançou um olhar de esguelha para Lexa. A garota voltou o olhar para Clarke, que não sabia muito bem o que estava acontecendo. Talvez fosse coisa entre primas. Sua mãe era filha única, assim como Clarke, e perdera contato com a família do pai depois que ele morrera, então nunca entendera essa proximidade. A pessoa mais próxima que ela ousaria chamar de irmã era Octavia. Em um dia bom, até Bellamy ganhava essa honra.
Clarke sentou na cadeira da escrivaninha de Lexa enquanto sua namorada deitava na cama e Anya andava pelo quarto se gabando das aulas de esgrima que tinha na universidade. Ela demonstrou alguns movimentos e provavelmente se sentiu tentada a usar Clarke como alvo, mas Lexa a parou com um olhar severo. Depois, as três embarcaram em uma conversa definitivamente mais tranquila do que a que ainda acontecia no andar de baixo.
Clarke descobriu que Anya era muito parecida com ela, de uma maneira muito irritante. As duas eram resilientes, um pouco teimosas e protegeriam Lexa de qualquer jeito. Anya contou que não era muito fã de Clarke porque Lexa ficara bem deprimida depois que a deixara plantada no baile.
— Tudo o que eu queria fazer era arrastar sua cabeleira loira para que vocês ficassem frente a frente e se desculpassem — disse Anya, fingindo atacar Clarke com uma espada invisível.
Lexa negou a conversa terminantemente, mesmo que Clarke soubesse que deveria haver um pouco de verdade ali. Ela não insistiria — Lexa era muito quieta quando o assunto envolvia seus sentimentos. Ter alguém como Anya contando o que ela sentia para sua namorada não deveria ser nada fácil.
Para a salvação de Lexa, Clarke mudou o assunto e nada que envolvesse a relação das duas antes do namoro foi mencionado de novo. Era realmente muito fácil conversar com Anya, e Clarke ficou triste quando os pais dela a chamaram para irem embora. Os tios de Lexa lançaram outros olhares desdenhosos para Clarke antes de fecharem a porta do quarto. Anya acenou para as duas e prometeu voltar quando tivesse outra folga da faculdade.
— Foi horrível — disse Clarke, olhando pela janela de Lexa e observando os tios da garota partirem. — Mas seus pais são legais.
— É, deveria ter pensado que o assunto futebol iria acontecer — falou Lexa, se aproximando de Clarke, abraçando-a por trás e colocando seu queixo no ombro da garota. — Foi mal.
— Pelo menos passei mais de cinco minutos com sua mãe. E agora a Anya não deve me odiar tanto.
Clarke se virou para a namorada e deu um selinho em seus lábios, sem poder evitar o sorriso. Ela puxou Lexa para mais perto e se deixou levar. Lexa a pressionou contra a janela fechada e aprofundou o beijo com ternura. A mão de Lexa estava em algum lugar dentro da camisa de Clarke quando uma batida na porta paralisou as duas por alguns segundos.
— Alexandra? — chamou a Sra. Woods, cautelosa.
Lexa pigarreou, se afastando de Clarke e tentando ajeitar sua blusa. Clarke, por outro lado, teve que morder o lábio para conter o sorriso. A mãe de Lexa entrou no quarto e as encontrou perto da janela com expressões culpadas. Ela entendeu o que aconteceu rapidamente e esboçou um sorriso.
— Clarke, se quiser dormir aqui, sinta-se à vontade — ela disse, piscando para as garotas. — Já está tarde. Aposto que a vice-diretora não iria querer a sua filha passeando por aí durante esse horário.
— Ah, claro, Sra. Woods, obrigada — respondeu Clarke, agora sorrindo abertamente. Ela entrelaçou a sua mão na de Lexa e a mãe da namorada soltou um suspiro. — Eu vou ligar para ela e explicar tudo.
— Alexandra, eu e seu pai sairemos às cinco da manhã — Sra. Woods disse de maneira mais séria para a filha. — Voltaremos na terça à noite. Você conhece as regras.
— Tudo bem — falou Lexa, anuindo a cabeça. — Conheço, sim.
— Boa viagem para os dois! — desejou Clarke antes que a Sra. Woods saísse do quarto.
***
O aniversário de um ano de namoro de Lexa e Clarke coincidentemente seria no mesmo dia em que Arkadia High enfrentaria seu maior jogo da temporada: uma semifinal com Azgeda High no tudo ou nada. Clarke estava animada para o jogo, mesmo que tivesse com medo do que a Nação do Gelo poderia fazer com seus colegas de escola. Lexa, por outro lado, queria ter um momento a sós com a namorada depois do jogo, embora soubesse que isso seria quase impossível, não importasse se Arkadia ganhasse ou não.
De qualquer forma, Lexa tinha planejado um jantar em um dos restaurantes mais chiques da cidade e esperava que Arkadia ganhasse para que Clarke não ficasse tão emburrada durante o encontro. Lexa sabia que ainda teria a sua semifinal na semana seguinte e se ganhasse do time de Mount Weather, teria que enfrentar Arkadia dali duas semanas.
Ela não queria jogar contra Arkadia e ver Clarke ser um mártir na sua escola. Preferia enfrentar a Nação do Gelo pela terceira vez na final a isso. Mas, se acontecesse, ela não deixaria o povo de Clarke ganhar só para sua felicidade. Lexa daria tudo de si para conquistar o campeonato para Trikru High antes de se formar.
Graduar no colegial estava mais perto do que nunca e Lexa e Clarke ainda tinham com que se preocupar com dois bailes. Como capitã do time de futebol, Lexa tinha a obrigação de aparecer no baile de formatura da sua escola e Clarke, bem, ela era a filha da vice-diretora, não tinha jeito de não ir no baile de Arkadia. Era sorte que os bailes de formatura seriam feitos em dias diferentes.
Em abril, Lexa e Clarke estavam com suas universidades na mão. Lexa iria para a St. John’s e Clarke conseguiria entrar em Columbia, as duas com bolsas de estudo e em Nova York. Embora Lexa tivesse considerado Columbia, não queria que as coisas com Clarke ficassem embaraçosas se por acaso, num futuro distante, elas terminassem. Clarke estava feliz com sua escolha e ela também (o programa de esportes da St. John’s, especialmente para mulheres, era incrível), então não tinha muito com o que reclamar.
A semifinal entre o time de Arkadia e a Nação do Gelo foi no sábado à noite, em Azgeda High. Mesmo com o verão se aproximando, ainda era impossível ficar na arquibancada da escola sem usar duas blusas de frio. Lexa nunca entendeu como Azgeda era mais gelada que as outras escolas, mas agradecia mentalmente por não precisar mais jogar por lá.
Clarke estava abraçada a Lexa como se isso fosse lhe custar a vida enquanto o jogo não começava. O time de Arkadia estava se aquecendo perto das duas e Octavia acenou para elas antes de entrar no campo. Bellamy voltara a usar a faixa de capitão junto com a irmã e parecia mais determinado do que nunca.
Raven e Murphy treinavam alguns passes de bola mais ao canto. Todos estavam mais concentrados do que em qualquer outro jogo. Era a segunda vez que Arkadia chegava nas semifinais sob o comando dos Blake e, se ganhassem, seria a primeira a chegar na final.
— O que você acha? — indagou Clarke quando o juiz apitou o início do jogo. — Eles ganham a partida?
Lexa observou o chute inicial de Bellamy para Murphy, que já partiu para o campo adversário.
— Talvez... — ela respondeu. Clarke a olhou de soslaio. — Não tô torcendo para a Nação do Gelo se quer saber.
— Espero mesmo — disse a outra, mal-humorada. — Mesmo que, bem, o seu time tenha que enfrentar o meu daqui a pouco.
— Talvez. Nós nem jogamos a nossa semifinal. Pode muito bem ser Arkadia contra Mount Weather.
Clarke soltou um muxoxo de impaciência e se aconchegou mais em Lexa ao lhe dar um soco “amigável” na barriga. Lexa nem se incomodou em reclamar.
— Você não vai perder a semifinal. Não importa se você está com a vaga garantida em St. John’s, você ainda tem que ganhar.
— O campeonato? — indagou Lexa, abrindo um sorriso de lado.
Clarke desviou o olhar. Essa era a última chance de Bellamy e Murphy de ganhar o campeonato, Lexa sabia. Nenhuma delas era muito fã de Murphy, mas Clarke adorava os Blake. Talvez uma parte dela também estivesse torcendo não só pelo time de Arkadia, mas por Bellamy também.
— Eu te odeio — murmurou Clarke, enfiando a cabeça na curva do ombro de Lexa. — Como aqui pode ser tão frio?
— Não se preocupe, nós vamos para um lugar quentinho depois daqui.
— Espero que sim. Onde nós vamos, falando nisso?
Lexa negou com a cabeça, segurando o sorriso, e Clarke bufou. As duas se voltaram para o jogo, onde não acontecia muito. Os passes estavam calmos e os times pareciam se conter diante da vaga na final. Lexa nunca vira Roan jogar daquela maneira. Talvez ele estivesse tramando alguma coisa.
O primeiro chute a gol do time de Arkadia veio aos vinte minutos. Bellamy passara a bola para Raven do meio de campo e a garota correu como nunca até a grande área e chutou na primeira chance que teve. A bola acertou na trave e Lexa, assim como a arquibancada toda, soltou um suspiro decepcionado.
O jogo se tornou mais movimentado. Bellamy, Raven e Octavia faziam o melhor trio de atacantes do campeonato, Lexa tinha que admitir. Eles se mexiam em sincronia e nunca deixavam uma bola da defesa da Nação do Gelo avançar mais do que dois passos antes de tomá-la. Mais chutes a gol foram feitos, nenhum com sucesso.
Nos minutos finais do primeiro tempo, Lexa pode perceber que Roan se irritara com a movimentação do time adversário. Ele não tinha espaço para passar a bola muito menos fazer jogadas com seus companheiros. Seu rosto estava vermelho de raiva. O juiz deu mais três minutos de acréscimos, o que Lexa achou desnecessário.
Aos 46 minutos, Raven e Octavia trocavam passes em direção ao goleiro da Nação do Gelo. As duas estavam livres. A arquibancada se levantou, pronta para comemorar o gol iminente, quando um jogador de Azgeda surgiu do nada atrás de Raven e mandou um carrinho faltoso.
O grito de dor de Raven cortou o gramado quando ela caiu, já segurando o joelho. Clarke cobriu a boca com as mãos, em choque. O sangue de Lexa borbulhou, tamanha sua raiva. De longe, a situação de Raven parecia horrível. O jogador de Azgeda, um brutamontes que finalmente se formaria esse ano, tinha um sorriso escárnio no rosto quando o juiz prontamente lhe levantou um cartão vermelho.
O jogo foi interrompido para que pudessem colocar Raven na maca e levá-la ao hospital. Quando Lexa teve por fim uma visão clara de Raven, pode perceber o ângulo estranho de sua perna. Ela fez uma careta; de repente, continuar o jogo com o nariz quebrado como fizera na final do ano anterior não parecia tão corajoso assim.
— Eu preciso ir com ela — disse Clarke, se afastando de Lexa.
— O quê?! — Lexa indagou, confusa. Por instinto, ela seguiu Clarke até a beirada do campo, onde o jogo recomeçara. Monty substituíra Raven.
— Raven... eu preciso ir para o hospital — repetiu Clarke, passando pelos companheiros de escola que estavam no banco e indo até o Treinador Kane. — Para onde levaram ela?
— Polis Hospital — respondeu Kane sem hesitar, com o celular na mão. — Clarke, não precisa... Sinclair... estou ligando para ele. Vou junto com ele depois que o primeiro tempo acabar.
— Não — retrucou a garota. — A gente tem que ganhar o jogo. Você fica aqui com eles. Sinclair teve que trabalhar até tarde e deve estar a caminho daqui. Fala para ele que eu estarei no hospital. Eu e... — ela olhou para a namorada, que assentiu a tudo com um suspiro — Lexa ficaremos com Raven.
Kane concordou ainda que de contragosto. O apito final do juiz se fez ouvir quando Clarke segurou a mão de Lexa e a puxou para o estacionamento da escola. Lexa continuava sem entender o que acontecia, mas de uma coisa teve certeza: seu jantar romântico com Clarke já era.
***
Clarke nunca pensou que passaria o aniversário de namoro com Lexa em um hospital, mas ali estava ela, encarando o teto branco da sala de espera, nervosa enquanto não tinha notícias de Raven.
Pelo o que o médico do plantão informara, Raven rompera o ligamento cruzado anterior, quebrara o tornozelo e precisava de cirurgia. A expressão de Lexa foi o suficiente para que Clarke soubesse que a situação da amiga era grave. Raven viveria, mas talvez não com as condições para jogar uma suposta final ou o campeonato do ano seguinte.
— Era o restaurante — disse Lexa ao voltar depois de receber uma ligação em seu celular. — Perdemos a reserva.
— Desculpa por te arrastar até aqui — falou Clarke, puxando Lexa para um abraço, ou o que ela conseguiu sentada nas cadeiras desconfortáveis da sala.
Sinclair estava sentado no canto mais afastado da sala. Ele era tio de Raven e tomava conta dela desde que os pais da garota haviam falecido em um acidente de avião. Os dois eram bem próximos e a expressão dele no momento era enjoada. Ele não falara muito desde que chegara, não muito diferente de um dia normal; Clarke só escutara ele falar sobre mecânica e Raven nas poucas vezes que fora em sua casa.
— Não tem problema. — Os olhos de Lexa deram a certeza a Clarke de que ela estava sendo sincera. Ela deu um sorriso triste para a namorada. — Raven é bem mais importante.
Clarke agradeceu com a cabeça e olhou para o relógio da sala. Se as suas contas estivessem certas, o jogo acabaria nos próximos dez minutos. O Treinador Kane mandava updates do que acontecia a cada cinco minutos e, pelos emojis que ele usava, parecia que Arkadia tinha a vantagem, mesmo que o jogo estivesse empatado em 0x0. Pelo jeito, a disputa real seria nos pênaltis.
— Que vestido você vai usar no baile? — indagou Lexa de repente.
— O que? — retrucou Clarke, confusa.
— Nós estamos a quase uma hora sem conversar, estou tentando quebrar o clima de tensão, me diga, que vestido você vai usar?
Clarke franziu o cenho. O baile de Arkadia High seria em três semanas e ela não fazia ideia o que usaria. Já discutira a questão com Raven e Octavia, mas as duas estavam ocupadas demais com a semifinal para prestar atenção. Talvez em algum dia da semana ou na próxima ela levantasse o tema de novo.
— Não sei... — Clarke olhou de soslaio para Lexa. — Por favor, não me diga que está sonhando com isso desde que me conheceu e que tem os dois vestidos que vai usar prontos há mais de seis meses.
Lexa riu. No meio do nervosismo que era estar naquela sala de espera, seu riso aqueceu o coração de Clarke.
— A gente tem que ir combinando — respondeu Lexa. — Eu meio que estou, hm, concorrendo à rainha do baile.
— E você escolhe esse momento pra falar disso?! Porra, Lexa...
— Eu ia falar durante o nosso jantar! Como a única coisa que a gente deve comer hoje é salgadinhos, não consegui achar um momento melhor.
Clarke revirou os olhos.
— Quem é a outra que está na corrida?
— Uma garota chamada Luna. — Lexa deu de ombros, desinteressada. — Ela é legal. Faz parte das cheerleaders.
— Então, ela é mais popular que você? — Clarke deu um sorriso maroto.
— Eu não diria isso — respondeu a outra garota, se remexendo no banco, desconfortável. — Mas ela ganhou o campeonato das cheerleaders ano passado. E eu perdi. Pela terceira vez.
— Bom, se você ganhar a semifinal semana que vem, talvez fique a frente dela.
— Talvez. — Lexa apontou para o celular de Clarke na mesinha de centro. — Está tocando.
Clarke pegou o celular e atendeu. A gritaria que veio dele com certeza teria ecoado na sala vazia. O número da tela era o de Bellamy, mas era Octavia que estava no telefone.
— CLARKE! CLARKE! CLARKE! — ela berrou sob a gritaria ao fundo. — NÓS GANHAMOS, CLARKE! BELLAMY FEZ UM GOL NO ÚLTIMO MINUTO! NÓS VAMOS PRA FINAL!
— Você ouviu isso? — Clarke indagou para Lexa, sorrindo. — Ganhamos!
— Murphy vai dar uma festa! — continuou Octavia. — Eu e Bellamy vamos para o hospital antes. Como ela está?
— Em cirurgia — respondeu Clarke. — O médico disse que ia durar umas duas horas. Podemos esperar vocês aqui.
— Tudo bem! Nos vemos daqui a pouco.
Octavia desligou o celular e a gritaria cessou na sala. O olhar de Lexa era debochado. Clarke empurrou a namorada com o ombro, mas sorria. Arkadia High estava na final! A primeira final desde que Bellamy entrara na escola. Ela ficou feliz em ouvir que o garoto fora o herói do jogo. Apesar da boa campanha no campeonato, Bellamy não estava em sua melhor forma.
— Se tudo der certo, você vai garantir sua coroa de rainha do baile semana que vem e a vaga na final — disse Clarke.
— E vai ser o encontro do ano: Arkadia versus Trikru. — Lexa desenhou a manchete no ar. — Terei que lavar minha chuteira especial.
— Que você disse que só iria usar caso entrasse para a USWNT — Clarke completou enquanto Lexa murmurava as palavras também. — Você vai conseguir, não se preocupe.
— Espero que sim. Desde que começamos a namorar, Trikru só enfrentou Arkadia uma vez e deu empate.
— Não sou grande fã de favoritismos — disse Clarke, dando um selinho em Lexa, que sorriu. — Você já tem o meu coração.
— Credo, isso foi careta.
— Sabe o que é mais careta? Falar a palavra “careta” em voz alta.
As duas riram alto. Do outro lado da sala, Sinclair acordou com um pulo. Ele dormira depois que Raven entrara na cirurgia e as garotas pensaram melhor em deixá-lo quieto. O homem trabalhava demais para garantir que Raven tivesse o melhor sempre. Não era difícil criar uma adolescente órfã explosiva igual Raven era, mas Sinclair fazia isso de maneira espetacular.
— Está tudo bem? — indagou Sinclair para Clarke.
— O médico ainda não voltou — respondeu a garota. — Bellamy e Octavia estão a caminho. Ganhamos o jogo.
Sinclair exibiu um sorriso cansado.
— Que bom. Raven vai adorar a notícia... tirando o fato de que ela não vai poder jogar na final.
— Bem, esse é um assunto para mais tarde.
O tio de Raven voltou a encostar na cadeira e logo já estava com os olhos fechados. Clarke também estava cansada. Ela não podia negar que mal via a hora de deitar ao lado de Lexa em sua cama e dormir. Não estava com vontade de ir à festa de Murphy. Duvidava que seus amigos mais próximos estavam, também. Ela ficou surpresa ao saber que teria uma festa, mas Murphy geralmente vivia em uma realidade alternativa.
Ela cochilou um pouco no ombro de Lexa até que alguém lhe cutucou. A garota abriu os olhos lentamente e se assustou ao ver Octavia na sua frente com pacotes de salgadinhos. Bellamy estava mais atrás, parecendo preocupado.
— E aí — cumprimentou Clarke. — Vocês ganharam!
— Ganhamos! — respondeu Octavia, animada. Ela entregou os pacotes à Lexa. Seu rosto ficou mais sério. — Como ela está?
— Sinclair entrou com o médico enquanto a Clarke dormia — respondeu Lexa, abrindo um pacote de salgadinho e enchendo a mão. Bellamy arqueou a sobrancelha, mas não falou nada. — Tem uns dez minutos. Vocês demoraram.
— Tente sair de um campo de futebol adversário onde você acabou de se classificar para a final do campeonato com um gol no último minuto — retrucou Bellamy.
Lexa acenou que entendera.
— Parabéns, falando nisso — disse a garota.
Havia uma rivalidade constante e silenciosa entre Lexa e Bellamy desde o momento que ela começara a namorar Clarke. Eles tinham um respeito mútuo, mas não conversavam muito quando colocados juntos em ocasiões. Clarke não esperava que os dois se dessem bem, mas se Octavia gostava de Lexa, porque Bellamy não podia fazer o mesmo?
Por sorte, Sinclair voltou com o médico de Raven. Os quatro olharam para eles ansiosos, esperando por notícias.
— A cirurgia foi um sucesso — disse Sinclair. Clarke suspirou, aliviada. — Ela está meio sonolenta, por causa dos remédios, mas quer falar com vocês. O médico disse que podem entrar por alguns minutos.
— Obrigada — agradeceu Lexa, entregando os salgadinhos a Sinclair. O homem não parecia saber o que fazer com eles, embora Clarke tenha visto ele pegar alguns antes de entrar pelo corredor dos quartos dos pacientes.
Octavia liderou o comboio, com Clarke logo atrás. Bellamy e Lexa seguiam por último, desconfortavelmente um ao lado do outro. Octavia bateu na porta do quarto que o médico informara e a abriu lentamente, sorrindo ao ver Raven com a perna para cima e o semblante grogue.
Clarke tinha certeza de que, se pudesse, Raven levantaria os dois dedos do meio para os quatro. Felizmente, ela estava no modo tranquilizado e não pareceu perceber quem era quem.
— Me diga que a minha perna quebrada valeu a pena e a gente ganhou de 6x0 — Raven disse enquanto Octavia sentava ao seu lado. Clarke ficou perto dela. — Porque senão, eu vou matar todo aquele time da Nação do Gelo.
— Você terá um tempo para fazer isso depois que eles ficarem em quarto lugar no campeonato — disse Bellamy encostado na bancada da TV e sorrindo. — Ganhamos de 1x0.
— Se tivesse forças para me movimentar, estaria aos pulos — falou Raven. Ela suspirou e olhou para a perna levantada e engessada. — Não vou voltar a jogar tão cedo, né?
— O médico disse que levaria alguns meses para se recuperar — afirmou Clarke. — Você vai poder jogar no ano que vem.
O rosto de Raven murchou. Todos no time de Arkadia estavam animados para a semifinal e perder a chance de jogar na final daquela maneira era injusto. Clarke queria que pudesse ter alguma forma de ajudar Raven voltar a jogar, mas era impossível.
— Fazer o que? — Raven forçou um dar de ombros. — Com certeza estarei lá na final, numa cadeira de rodas ou não.
Todos riram. Os Blake contaram um pouco como foi o segundo tempo do jogo e Raven fez alguns comentários amargurados sobre Azgeda High e seu time. Ela ficou surpresa ao saber do gol de último minuto e disse que Bellamy Blake entraria na história de Arkadia High como o capitão de time mais lerdo de todos os tempos. Ninguém entendeu muito bem, então os quatro presumiram que era os anestésicos falando.
Logo, uma enfermeira os chamou para saírem. Todos se despediram de Raven, que acenou para eles antes de irem embora. Clarke olhou no relógio do celular: era quase meia-noite. Fazia muito tempo que não ficava tão tarde fora de casa assim, tirando as noites que passava na casa de Lexa. Dessa vez, no entanto, ela tinha certeza que sua mãe iria entender.
— Vocês vão para o Murphy? — indagou Bellamy ao voltarem para a sala de espera e toparem com Sinclair. Ele dormiria no sofá do quarto de Raven e esperava encontrá-los ali no dia seguinte.
— Na verdade, não — respondeu Clarke, entrelaçando sua mão na de Lexa. — Hoje é nosso aniversário de namoro.
— Poxa, gente, se vocês tivessem falado... — começou Octavia, mas Lexa a interrompeu.
— Está tudo bem. — Ela levantou a sacola de pacotes de salgadinhos. Bellamy sorriu. — Estamos abastecidas. Vamos só para a casa da Clarke, comer e dormir.
— Dormir, sei — retrucou Octavia sarcasticamente. — Tudo bem. Boa noite para vocês e até segunda, Clarke. A gente se vê, Lexa.
— Até — cumprimentou Clarke, acenando para os irmãos Blake.
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