Notas iniciais
Oi, gente, tudo bom? Primeiro, queria pedir desculpas pela demora e provavelmente demoraria mais ainda, porque eu queria que esse capítulo fosse menor, mas achei que seria injusto deixar vocês esperando mais tempo necessário, então aqui estamos :D Espero que gostem!

Lexa nunca esteve tão nervosa quanto estava naquele momento. Talvez se ela chegasse à final com o time, ficaria mais nervosa; mas ali, enquanto esperava o juiz dar início a semifinal contra Mount Weather, ela queria vomitar o lanche que comera antes da partida.

Mount Weather High tivera uma campanha razoável no campeonato e, para Lexa, o time não merecia a vaga na semifinal. Nunca fora fã do ex-vice-diretor da escola, um homem em seus 90 anos que se juntara com a Reaper High para um experimento contra anabolizantes. Depois da expulsão dos dois times da liga e do vice-diretor, essa era a primeira vez que eles chegavam tão longe no campeonato.

O jogo era na escola de Lexa e ela deveria estar mais tranquila com isso, mas não conseguia. O desempenho do time de Trikru que lhe arrancara elogios de todo mundo não parecia tão importante agora. Se não eles ganhassem aquela partida, Lexa jamais poderia ter a chance de ganhar o campeonato por Trikru de novo.

O apito se fez ouvir e Lexa passou a bola para Gustus automaticamente. Do campo, ela viu Aden no banco e Clarke em pé na arquibancada com seu dedão de espuma ridículo. Clarke não pintara o rosto ou viera com a camisa do Trikru; ela imaginou que causaria mais confusão se fosse. Em Arkadia, as coisas já estavam mais hostis para seu lado.

Não que ela quisesse que Clarke passasse por aquilo. Na verdade, preferia que a namorada ficasse do lado da escola. Seria menos trabalhoso e ninguém se machucaria no fim, mas teimosia era uma das qualidades mais expressivas em Clarke. Ela não torceria para Arkadia se achasse que Lexa merecesse mais o campeonato.

— LEXA! — gritou Titus lá do banco, e a garota sacudiu a cabeça, confusa. Acabara de perder a bola para alguém do time adversário. — PRESTA ATENÇÃO NO JOGO!

Lexa fez um sinal positivo para o treinador, se xingando mentalmente. Ela não poderia pisar na bola. O time todo estava dependendo dela. Era sua última chance. Não fode com isso, ela pensou.

Se Mount Weather ainda sofria as consequências dos esteroides de duas temporadas anteriores, não demonstravam. O time tinha mais garotas e pareciam fazer um jogo mais limpo do que Lexa lembrava. A capitã era Maya, a garota que fora o pivô principal para a descoberta do plano maligno do vice-diretor do colégio. Ela e Jasper namoravam.

Os primeiros dez minutos foram tranquilos. Depois da bola perdida, Lexa se focou mais no jogo e não deixou nenhum lance de Mount Weather passar do meio de campo. Alguns dribles arrancaram gritos animados da arquibancada. Ela teve a chance de fazer um gol, mas a goleira do outro time defendeu a bola com as pontas dos dedos.

O tiro de meta foi o início da jogada que abriria o placar para Mount Weather. Maya pegou a bola com uma batida no peito e a manejou rapidamente com os pés. Ela era pequena e rápida, e por isso correu metade do campo sem marcação nenhuma e deu um passe longo para um companheiro próximo da pequena área. Bastou um chute e o time de Mount Weather comemorava o primeiro gol da partida.

Lexa chutou a grama raivosamente. Ela ouviu gritos de Titus e gritou com seus companheiros de time também. A arquibancada estava silenciosa. Quase não havia torcedores de Mount Weather ali, então um gol de seu time não seria tão celebrado.

Ela respirou fundo e tentou conter sua raiva. Não adiantaria começar um jogo sujo por causa de um gol. Ainda faltava quinze minutos para terminar o primeiro tempo. Seu time podia muito bem empatar antes do intervalo. E era isso o que iriam fazer.

Trikru recomeçou o jogo mais forte. Passes mais precisos foram feitos e as chances de gol aumentaram consideravelmente. Com somente um minuto de acréscimo, os minutos finais do primeiro tempo ficaram mais tensos. Lexa queria o gol de Trikru para buscar a vitória no segundo tempo.

Um escanteio para Trikru aos 42 minutos poderia ser a última chance do time de se reerguer. Nyko se aprontou para lançar a bola. Lexa e Gustus eram os mais marcados dentro da grande área. Ela sabia que não daria para ter uma boa chance de chute, então ordenou para que Gavriel, um calouro, ficasse longe de toda a confusão.

Nyko chutou a bola na direção de Gavriel, que, em pânico, mal teve tempo de se preparar para rebater o lance na direção do gol. A goleira de Mount Weather pegou mal na bola e a deixou escapulir, dando a oportunidade para que Lexa a chutasse com toda força para dentro do gol.

A arquibancada explodiu em vivas. Lexa e Gustus se abraçaram na grande área e Gavriel, parecendo em choque, foi englobado pelo resto do time. Era a sua primeira vez começando o jogo como titular. Mount Weather recomeçou o jogo, apenas para que o juiz apitasse o fim do primeiro tempo.

Lexa estava confiante quando chamou o time para o vestiário. Titus lhe parabenizou com um tapinha nas costas e Aden pulava ao seu redor. De longe, ela viu Clarke e acenou para a namorada. Queria falar com Clarke, mas sabia que não podia. De qualquer forma, falaria com ela assim que ganhasse a partida.

E ela sabia que seu time iria ganhar. Seu nervosismo no começo do jogo não era nada. Lexa tinha certeza que estaria na final contra Arkadia. Ela esperara quatro anos por isso e não desperdiçaria tão fácil.

— Alguma substituição? — Lexa perguntou para Titus enquanto o time conversava dentro do vestiário.

— Quero guardar Aden para a final — disse o treinador. — Tenho medo que ele se machuque de novo se jogar agora.

— Eles parecem tranquilos — contrapôs Lexa. Titus a olhou de relance. — Mas entendo o que quer dizer. Aden seria mais útil na final. Se algo der errado no segundo tempo, colocamos ele.

— Não vai dar nada errado. — Titus tinha a mesma certeza de Lexa e isso a deixou animada. — Nós vamos ganhar.

Lexa assentiu e chamou a atenção do time. Estava quase na hora de voltar e eles precisavam dar tudo de si para ganharem. Era um trabalho em equipe e, se eles estivessem tão confiantes quanto ela e Titus, poderiam fazer três gols contra Mount Weather já nos primeiros minutos do segundo tempo.

Assim que colocou os pés para fora do vestiário, Lexa foi puxada para um canto. Assustada, ela soltou um suspiro aliviada ao ver que era apenas Clarke. Ela sorriu para a namorada e lhe deu um selinho.

— Não vai ter nada hoje na sua casa se ganharmos, certo? — Clarke indagou a centímetros do rosto de Lexa. A garota não pode deixar de notar o “ganharmos” na frase da namorada e abriu um sorriso maior.

— Não, será tudo na casa do Gustus — respondeu Lexa. — Por quê?

— Nada. — Clarke deu um sorriso maroto. Ela deu outro selinho em Lexa. — Boa sorte. Ganhe essa. Não se mate no campo. Te amo.

— Eu te amo também! — exclamou Lexa quando Clarke se afastou.

Lexa pulou no mesmo lugar para conter sua animação e encaminhou para o campo, onde todos a esperavam. Ela sorriu para seu time antes de o juiz apitar o início do segundo tempo. Eles se contagiaram com sua agitação e estavam prontos para virar o jogo.

Maya fez as primeiras jogadas de Mount Weather e não mediu esforços para ultrapassar a defesa de Trikru. Em um passe errado de Maya, Lexa viu a oportunidade. Gritou para que o jogador do seu time que roubara a bola da capitã passasse para ela e correu como podia até a grande área. O chute foi certeiro: a bola passou tão rápido pela goleira que ela olhou perdida para os lados, sem saber o que lhe acontecera.

Novamente, a arquibancada se ergueu para comemorar o gol. Lexa nunca se sentira tão feliz quanto naquele momento. Ela mandou um beijo para Clarke antes de se posicionar.

— Você é boa demais — falou Maya, perto de Lexa. — Não tem como vencer você.

— Fale isso para a Nação do Gelo — retrucou a garota, acompanhando o jogo de longe. Gustus tinha a posse de bola.

Maya sorriu. Lexa franziu o cenho. Não entendia porque essa conversa acontecia naquela hora. Talvez Maya já tivesse aceitado a derrota, mesmo ainda podendo empatar e até virar o jogo.

— Não conte para o Jasper, mas estarei torcendo para Trikru na final. — Maya piscou para Lexa e se afastou.

Lexa olhou para Titus, que acompanhara a conversa de longe. Ele parecia pronto a entrar no campo se Maya se mantivesse perto de Lexa por mais um minuto. Ela mordeu o lábio, sacudindo a cabeça e voltando a pensar no jogo. Precisava manter o placar.

Não houve muitas jogadas importantes pelo resto do segundo tempo. Gavriel lançou a bola longe demais em um ataque e Maya perdeu um gol na cara do goleiro, o que com certeza lhe daria o prêmio de Desperdício do Ano. Lexa fez algumas jogadas que deixaram a plateia animada, mas nada que levasse ao terceiro gol.

Faltando três minutos para o fim do jogo, contando os acréscimos, Lexa mal podia se conter de alegria. Ela deu uma olhada no campo e seus amigos também estavam na mesma sintonia. Aden pulava na lateral do campo, andando para lá e para cá já cantando vitória. Titus tentava contê-lo, mas até o treinador estava sorrindo.

O último lance do jogo veio de Maya. Ela recebeu um passe na pequena área e chutou para o gol em uma tentativa desesperada de empate. Lexa prendeu a respiração ao ver a bola fazer um arco e cair na mão do goleiro do seu time. No segundo seguinte, o apito se fez ouvir.

Lexa pulou no ar e gritou em comemoração. Ela estava na final! Trikru contra Arkadia! Ainda não sabia como lidar com isso, mas pelo menos sabia que lidaria com isso.

— LEXA! — gritou Aden, indo em direção da garota e pulando em seus braços. Seu pulo foi tão forte que a garota caiu no chão e, quando percebeu, o time todo estava em cima dela.

— Deixem a garota respirar! — Titus foi tirando um a um quem estava no monte. — Vocês não podem quebrar nossa capitã.

— É, ele tem razão — falou Clarke, ao lado do treinador. O time estava tão feliz que ninguém questionou sua presença ali. — Parabéns, campeã!

— Cuidado com o seu favoritismo — disse Lexa assim que conseguiu se levantar.

Ela beijou Clarke lentamente. Não se importava se a arquibancada toda estava olhando, ela queria beijar sua namorada e o faria, fosse repreendida ou não.

— Lexa! — chamou Gustus. — Minha casa!

Lexa, ainda abraçada a Clarke, arqueou a sobrancelha pra namorada.

— Nós não vamos, não é? — ela indagou. Seu tom era triste.

Clarke tinha o mesmo sorriso pretensioso do intervalo. Isso deixou Lexa realmente curiosa.

— Nós não vamos.

***

Lexa estava muito curiosa. Clarke ficou em silêncio o caminho todo, o que a garota achou muito estranho. Se tinha uma coisa que Clarke gostava de fazer, essa coisa era conversar o tempo inteiro, tanto que às vezes irritava Lexa. E depois da final decidida entre Arkadia e Trikru, Clarke estaria mais faladeira do que o normal.

— Porque estamos indo para minha casa? — indagou Lexa ao reconhecer o caminho.

Lexa olhou de soslaio para Clarke. Era óbvio que a garota guardava algum segredo, e não queria revelar até que chegassem ao local apropriado, porém o seu rosto vermelho dizia o contrário. Clarke mordeu o lábio e resistiu a entregar sua resposta a Lexa. A garota voltou a olhar para a janela e suspirou.

— Você vai gostar — respondeu Clarke por fim, ao estacionar na garagem dos Woods. — Isso eu garanto.

— Como daquela vez que você me levou de surpresa ao zoológico e um guaxinim me atacou? — retrucou Lexa, levemente irritada. Os puxões do bicho em seu cabelo deixaram sua cabeça doendo por mais de uma semana.

Clarke impediu Lexa de sair do carro antes dela. A garota correu para abrir a porta da namorada e a cumprimentou com um sorriso aberto. Lexa franziu a testa, mas não contestou.

— Em minha defesa, você que estendeu seu amendoim para ele — disse Clarke, apertando de leve a mão da namorada. Lexa teve que dar o braço a torcer; depois do incidente, ela nunca mais comera amendoim em locais públicos. — Mas hoje não tem guaxinins. É só eu e você.

Não era novidade nenhuma que os pais de Lexa estavam viajando. Porém, eles haviam prometido ficar em casa durante a final e Lexa estava contando com isso. Seus pais estavam presentes nas duas últimas e seu pai saíra especialmente decepcionado com os resultados. Na semana seguinte, Lexa deixaria sua família orgulhosa.

Ela e Clarke foram para a sala de jantar. Os olhos de Lexa arregalaram ao ver velas por todos os cantos e dois pratos de aparência chique em cima da mesa. Lexa podia ouvir um dos discos antigos da sua mãe no gramofone da sala de estar. Em mais de um ano de namoro, Lexa nunca vira Clarke sorrir tão feliz.

— Uh... — Lexa fez, sem saber o que dizer. — Eu... ah...

— Você ficou realmente triste por não poder comemorar nosso aniversário de namoro, então tive uma ideia. — Clarke acenou para as velas e os pratos. — Na verdade, Octavia teve a ideia, mas eu... Bem, minhas economias não deram para um restaurante chique, então pensei “qual é o lugar mais chique que conheço”?

— Minha casa? — Lexa tentou não rir. Ela nunca vira o local desse jeito.

— Pedi ajuda para sua governanta e seus pais e, bom, aqui estamos.

Clarke deu de ombros, como se não fosse muito importante. Lexa diminuiu a distância entre as duas com um beijo profundo e apaixonado. Ela ainda era só uma garota, mas tinha certeza de que Clarke seria única na sua vida. Lexa sabia que iria passar os próximos anos ao lado da namorada e essa era uma das poucas certezas que tinha.

— Ok... — disse Clarke quando se afastaram. Seu cabelo estava bagunçado e os beijos quase as levaram para uma cômoda cheia de velas. — Vamos... comer. A comida. Antes que esfrie.

— Claro — respondeu Lexa, sorrindo.

Ela se sentou na ponta da mesa e olhou para o prato. Era um bife pequeno com brócolis e um pouco de arroz prensado a estilo sushi. Parecia gostoso, mas a última refeição de Lexa fora um pacote de Cheetos que dividira com o time todo três horas antes.

Clarke a observava atentamente.

— A gente... pode, uh, comer algo depois, não é? — indagou Lexa tentando parecer desinteressada, cortando o pedaço do bife e colocando na boca. De fato, estava delicioso, e isso só deixou o estômago de Lexa mais pesado.

— Claro, sua boba — disse Clarke. Ela fez barulhos positivos sobre a comida enquanto mastigava. — A gente pode fazer o que quiser. A noite é nossa.

— Foi você que convenceu Gustus a usar a casa dele para a festa, certo? — Lexa olhou para Clarke, desconfiada.

— Óbvio — sua namorada respondeu, revirando os olhos. — Quase tive que pagar a ele. É incrível como seu time vê sua casa como a casa deles.

— Esse lugar está na família há gerações — respondeu Lexa, displicente. — Meu pai decidiu reformar grande parte da casa e por isso ela é tão “chique”. Acho que meio que virou um local sagrado do bairro.

— Você acredita nisso?

A pergunta de Clarke era sincera. As duas nunca haviam discutido sobre a a parte mais antiga da família de Lexa e, honestamente, a garota não preocupava com isso. Ela mastigou lentamente o último pedaço do bife antes de responder.

— Não muito. Digo, os Woods têm muita influência no bairro, mas isso não é o mais importante. Mas para minha casa ser um local sagrado? Acho que não.

— Você é adorada por todo mundo — comentou Clarke com admiração. — E aposto que seu pai também era.

Lexa soltou um muxoxo de impaciência.

— Ele e meu tio brigavam o tempo todo no colegial. Teve uma temporada que os dois ficaram como capitães do time... tipo o Bellamy e a Octavia... mas eles não eram tão conectados assim. O time nunca conseguiu chegar às semifinais com os dois no comando.

— E seu tio pega no seu pé? — Clarke revirou os olhos. — Se eu fosse você, jogaria isso na cara dele em toda reunião de família.

— Eles meio que ainda brigam por isso, então não me intrometo. — Lexa abriu um sorriso bondoso. As duas já haviam terminado seus pratos. — E a Abby? O que tem para contar sobre sua mãe?

— Ah, você sabe... — Clarke abanou a mão, desinteressada — Ela é médica, conheceu meu pai no hospital... meu pai morreu cedo, ela desistiu da profissão e virou educadora. Não tem muita coisa para saber.

— É claro que tem! — Lexa parecia indignada. — Sua mãe é uma mulher incrível, Clarke. Cuidar de você sozinha desde quando você tinha 10 anos... mudar de profissão que, se me permite dizer, não tem nada a ver com a outra... isso é muito corajoso dela.

— Você ganharia pontos com ela por isso.

Clarke colocou sua mão na de Lexa e olhou para um ponto acima da cabeça da namorada. Seu semblante era pensativo. Lexa realmente admirava Abby por tudo o que ela fazia. Abby não podia ser a maior fã de Lexa (ela e Clarke eram muito parecidas nesse quesito; a mãe ainda não a perdoara por causa do baile), mas Lexa era definitivamente uma grande fã de Abby.

— Nós estamos perdendo tempo aqui! — exclamou Clarke, fazendo Lexa se sobressaltar. — Tenho uns filmes na Netflix que você vai adorar.

— Netflix & Chill? — Lexa arqueou a sobrancelha enquanto Clarke a guiava para a sala de estar. — Gostei.

— Cala essa boca. É para ver os filmes!

***

— Puta... merda...! Clarke! — Lexa gritou ao chegar ao clímax, seu corpo se contorcendo por inteiro antes de relaxar.

Os olhos curiosos de Clarke surgiram por entre as pernas de Lexa. Ela se levantou no sofá e lambeu os dedos, sem querer ser realmente sexy, mas sabia que ia chamar a atenção da namorada de qualquer jeito.

As duas queriam só ver os filmes — a maratona de hoje seria De Volta Para O Futuro —, mas uma coisa leva a outra e agora Clarke estava sem camisa e sutiã enquanto Lexa não tinha uma peça de roupa no corpo. Clarke sempre agradecia o tamanho do sofá dos Woods que sempre permitia uma boa transa.

Ela só esperava que os pais de Lexa jamais soubessem disso.

— Ah, Deus — suspirou Lexa, se sentando e procurando suas roupas pela sala. — A gente precisa parar de transar aqui.

— Aqui é o único lugar onde a gente pode transar — disse Clarke indignada. — Não posso obrigar minha mãe a ouvir seus gritos.

— Eu não...! — Lexa tentou retrucar, mas Clarke exibia seu sorriso sacana. Ela revirou os olhos. — Eu odeio você.

— O jeito que você grita diz o contrário.

Clarke abriu ainda mais seu sorriso. Ela pegou a camisa de botão que Lexa usava e a colocou, despretensiosa. O lençol que as duas usavam para se cobrir fora jogado longe e Clarke aconchegou na namorada ainda seminua para se aquecer.

O filme que viam era a segunda parte da trilogia. Marty McFly acabara de descobrir que sua mãe se casara com Biff depois que o seu pai fora assassinado. Lexa adorava a trilogia. Clarke achava legal, mas nunca fora tão fã de sci-fi igual a namorada.

Contudo, aqueles três filmes a uniam de uma maneira única. Eles também eram os filmes favoritos do pai de Clarke, e ela estava comprando um box para a mãe quando esbarrou em Lexa e as duas começaram a conversar. Depois que descobrira que era tudo um plano de Lexa para humilhá-la publicamente, Clarke não se sentiu a vontade para vê-los com Abby. Ela só conseguiu assisti-los de novo na presença de Lexa, após todas as desculpas terem sido feitas.

— Já escolheu que cor vai usar no baile? — perguntou Lexa.

Bailes — corrigiu Clarke. — Só de um, na verdade. O meu.

Lexa revirou os olhos.

— Meu vestido é vermelho. — Clarke examinou Lexa por alguns minutos. — Acho que azul combinaria com você. Mas não da mesma cor de Arkadia. Talvez um mais claro.

Os bailes de Arkadia e Trikru seriam na semana que vem, na sexta e sábado antes da grande final do campeonato no domingo. Clarke agradeceu mentalmente a comissão organizadora das escolas, afinal enfrentar os bailes sem um resultado do campeonato era melhor do que ir sabendo do vencedor. Pelo menos, era o que pensava. As coisas estariam hostis de qualquer maneira.

— Bom, e para o meu baile? — insistiu Lexa.

Clarke franziu o cenho. Ela tinha uma ideia do que queria usar em Trikru, mas não tinha certeza se sua mãe iria aprovar. Durante a semana, conversara com Raven sobre sua vestimenta e a amiga adorara a ideia.

— Algo... preto — respondeu Clarke, desviando o olhar.

— Ok... — disse a namorada, desconfiada. — Me surpreenda.

Lexa abriu um sorriso e deu um selinho em Clarke. As duas continuaram assistindo ao filme, embora Clarke já sentisse cansada. Seu corpo tremia por causa do vento frio do início de verão.

— Sabe, uma de nós vai ter que levantar e fechar a janela ou pegar o lençol — disse Lexa nos momentos finais do filme.

Lexa olhou de relance para a namorada. A garota fingiu que não escutara. O abraço de Lexa era uma das melhores coisas do mundo para Clarke, em uma lista que incluia transar com Lexa, usar as roupas de Lexa e beijar Lexa. Ela se sentia tão em paz com os braços da garota ao redor do seu corpo que não tinha nada que a fizesse sair dali.

À exceção do barulho que acabara de vir da janela aberta.

Clarke sentou rapidamente, se desvencilhando da namorada. Seus olhos arregalaram. Lexa morava perto de um bosque e havia bichos perambulando de lá para cá toda hora. Clarke não se sentia nada confortável com isso — ela crescera em um apartamento apertado que não permitia animais. Lexa, por outro lado, às vezes saía para dar comida a qualquer esquilo que passasse por sua casa.

No entanto, o barulho parecia diferente. Era definitivamente causado por algo maior que um esquilo. Até Lexa parecia um pouco apavorada. Ela vestiu sua calça rapidamente quando outro barulho se fez ouvir. Por instinto, Clarke pegou a mão de Lexa.

— Se acalma! — sussurrou Lexa para a namorada. Ela pausou os créditos do filme e olhou para Clarke. — Levanta!

— Porque?! — questionou Clarke com a voz esganiçada. Mesmo assim, ela fez o que Lexa pedira. — A gente precisa mesmo ir lá fora?

— Não, boba — respondeu a outra, ainda segurando a mão de Clarke. — A gente só precisa ver o que é.

— Mas e se for...?

— Shh!

Clarke estava pronta para responder Lexa maldosamente, mas hesitou. Ela ficou perto da namorada enquanto as duas andavam de maneira lenta em direção à janela. Outro barulho. Agora que tudo estava silencioso, parecia a Clarke que eram galhos se quebrando.

As duas estavam próximas à janela, mas nenhum vulto humano podia ser visto. Clarke sentiu Lexa respirar fundo. A garota colocou a cabeça para fora da janela e soltou um muxoxo de irritação.

— O que foi? — Clarke tentava ver o que era pelo ombro da namorada.

— Olha isso! — exclamou Lexa, se afastando para que Clarke pudesse ficar na janela.

Clarke olhou. Ela tentou não rir, mas foi impossível. Bem abaixo da janela estava um guaxinim adulto. Ele estava com algo na mão, que Clarke imaginou ser algum tipo de comida... seja lá o que os guaxinins comem. O bicho olhou para cima e Clarke acenou. Ele deve ter se assustado, porque saiu correndo o mais rápido que podia.

— Eu odeio guaxinins! — exclamou Lexa, pegando o lençol e o resto de suas roupas jogadas pela sala. — Não tinha nenhum no bosque. Imagino o que será que tenha trazido ele por aqui.

— Aquecimento global — respondeu Clarke ironicamente. Ela ainda ficou na janela para ver por onde o guaxinim fora, mas o perdeu de vista. Estava escuro demais.

Lexa parou de vestir a camisa de Clarke e olhou para a namorada, irritada. Clarke escondeu uma risadinha, se afastou e fechou a janela. Ela olhou ao redor. Eram quase três da manhã, de acordo com o relógio na parede.

Fora apenas algumas horas atrás que Trikru ganhava sua vaga na final do campeonato. Clarke ainda não pensara muito no que faria no dia da final. Era iria apoiar Lexa sempre, é claro, mas não podia deixar de lado Arkadia. Muita gente já olhava para ela estranho nos corredores da escola. Ela não deveria se importar, afinal estava a poucas semanas de concluir o ensino médio, mas ainda assim isso a incomodava.

Quando fora visitar Raven durante a semana, a amiga pediu para que fosse sincera. Não com o pessoal de Arkadia ou com Lexa, mas com ela própria. Clarke vira Bellamy e o time lutarem para chegarem a final da mesma maneira que vira Lexa. Clarke também ficou chateada quando Arkadia não se classificou nem para as semifinais no ano anterior. Clarke era tão de Trikru quanto era de Arkadia. Ela era das duas escolas. Ela ajudara a escolher os uniformes para Trikru nesse ano, da mesma maneira que fizera com Arkadia.

Clarke olhou para Lexa, ajeitando as almofadas que as duas deixaram de lado na hora do sexo. Ela não podia deixar de torcer para a namorada. Além de Raven, Octavia e sua mãe, Lexa a apoiara quando se candidatara para Columbia. Lexa acreditava no seu potencial e Clarke agradecia por isso todos os dias. Agora, as duas morariam em Nova York e estudariam em duas das mais conceituadas universidades do estado.

— Ei — Lexa chamou a atenção de Clarke. — Vamos dormir. A gente vê o terceiro filme no quarto.

— Sem sexo — respondeu Clarke, indo em direção à Lexa e deixando ser abraçada pela namorada. — E eu tô falando sério.

Lexa revirou os olhos, mas sorria.

— Tá bom.

Notas finais
E aí, o que acharam? Se vocês tiverem algum elogio, dúvida, xingamento ou qualquer outro comentário sobre a fic, por favor, mandem aquele review maroto, tá beleza? Não garanto que vou postar o próximo capítulo mais rápido, mas farei o possível para entregar na mão de vocês com a mesma qualidade de sempre! Beijos e até o próximo :)