I'll be Waiting Everlasting Like the Sun
21 Some Problems.
Notas iniciais
Foi Marina quem acordou primeiro. Surpreendeu-se consigo mesma já que sempre era a última a acordar, ainda mais depois de noites como a última.
Clara estava de bruços ao seu lado, com o rosto virado na sua direção. Os cabelos formando um emaranhado que Marina achou lindo, uma desordem poética e digna de registro fotográfico, mas que ela faria apenas com os olhos. Não gostaria de dividir aquele momento com mais ninguém.
Ao abrir os olhos deparou-se com a cintura exposta da fotógrafa que estava sentada na cama, ao olhar um pouco para cima Clara percebeu que estava sendo observada e abriu um sorriso. Ficaram em silêncio enquanto os dedos da mão se tocavam e se entrelaçavam.
– Nossa! – observou Clara colocando a mão no cabelo – Está parecendo um ninho de rato.
As duas riram e Marina disse:
– É o ninho de rato mais lindo que eu já vi.
Clara mostrou a língua arrancando mais sorrisos da fotógrafa.
– Vamos tomar banho? – sugeriu Marina deitando-se na cama novamente.
Clara se arrastou um pouco até ela e pousou a cabeça em seu ombro.
– Sim, acho que uma chuveirada fria vai me acordar.
– Fria, amor? Não pode ser... morna?
– Então você toma banho na banheira e eu no chuveiro – provocou dando um sorriso sem seguida.
Clara espreguiçou-se um pouco e se não fosse o fato de sentir o corpo pregando, teria agarrado Marina. Parecia que havia matado só um pouco da sua vontade na última noite, só de pensar no quanto haviam se virado e revirado naquela cama, dando-se prazer, amando-se, reconhecendo-se, sentia o ar escapar dos pulmões.
E Marina também sentia o mesmo, talvez até mais. Mas precisava muito de um banho, embora quisesse continuar sentindo o cheiro e sentindo os vestígios que Clara deixara em seu corpo. Mas era uma coisa que não precisaria se preocupar, poderia repetir quantas vezes quisesse. Clara estava ali, para sempre.
Antes de agarrar a morena pela cintura Clara já estava de pé, não se preocupou em cobrir sua nudez com o lençol, sentia-se livre e assim caminhou até o banheiro. Marina a seguiu.
Clara abriu o chuveiro e não hesitou em entrar debaixo antes mesmo de as gotas de água caírem no chão e descer ralo abaixo. A água fria caia livre por seu corpo e lhe refrescava. Da porta Marina a observava com os dentes no lábio inferior, como se o desejo fosse lhe sair boca a fora.
– A água está uma delícia, vem – convidou gesticulando com o dedo indicador e com um sorriso de canto.
Marina caminhou até ela hesitante, odiava água fria quando essa não era da piscina. Parou a poucos centímetros de Clara fazendo careta como uma criança e fez a morena sorrir.
– Vem – insistiu estendendo a mão.
Marina aceitou o gesto e sentiu-se ser guinchada para debaixo d’água, seu corpo colidindo com o de Clara.
– Sua bandida!!! Essa água tá muito gelada – reclamou rindo.
Clara colocou a mão na torneira diminuindo um pouco a pressão da água. Marina a observava, o corpo formigando de vontade de ter Clara.
Os corpos molhados escorregavam e um arrepio subiu por ambas as espinhas e Clara passou os braços ao redor do pescoço de Marina que a abraçou pela cintura.
– O banho pode esperar – sussurrou a fotógrafa já entorpecida.
Clara apenas meneou a cabeça e fechou os olhos, entregando-se a boca de Marina que a recebeu com calma, delicadeza...
A morena a segurou pela nuca exigindo mais dos lábios que lhe deixavam à beira de uma erupção e Marina correspondeu à altura. Precisavam de ar, mas os lábios não se desgrudaram, as línguas não paravam de bailar nas bocas.
Marina foi impulsionando o corpo de Clara até atingir o azulejo frio e se olharam. Clara tirou o cabelo molhado do rosto da fotógrafa e fez o mesmo com o seu. Ao contrário do que haviam vivenciado na noite passada, agora estavam numa plenitude quase etérea, tinham fome, mas não tinham pressa. Tinham urgência, mas não queriam correr, pois sabiam que não precisariam mais. Haviam corrido demais, corrido mais que o necessário.
Marina tocou o rosto de Clara com as duas mãos, sorriu enquanto beijava a maçã do rosto. Clara também sorriu e desceu as mãos pelas costas branca e pintada. Roçaram os narizes, os lábios, sem desprender-se do olhar.
As mãos desceram pelos corpos deslizando, apertando levemente os seios, os braços, percorrendo as barrigas, as cinturas, coxas. Fazendo-as delirar entre suspiros.
Marina avançou para beijar Clara que recuou rindo em seguida e logo entreabrindo os lábios, e prendendo os dedos nos cabelos anelados.
A fotógrafa desceu a mão pelo corpo de Clara e parou entre as pernas que se afastaram gentilmente.

Sentiu-a gemer entre o beijo e pedir mais. Abriu um pouco mais as pernas quando Clara retribuiu o toque.
Os beijos continuaram nos colos e pescoços, alternando entre mordidas e lambidas que terminavam nas orelhas e mandíbulas enquanto os dedos circundavam os clitóris rígidos e as penetravam.
Como se combinassem por telepatia, abriram os olhos segundos antes de sentirem os espasmos que sacudiram seus corpos.
Gemiam simultaneamente, com as testas unidas, subindo e descendo nos dedos ágeis.
Clara apertou a nuca de Marina e a fotógrafa mordeu seu pescoço beijando-o em seguida. Gozaram uma nos braços da outra e os corações batiam no mesmo ritmo desesperado.
– É tão melhor fazer isso assim... com você – disse Clara de olhos fechados respirando fora do habitual.
– É maravilhoso ter você!
Beijaram-se ardentemente mais uma vez e Marina trocou de posição com Clara ficando agora contra a parede, sentindo o corpo da morena sopesar sobre o seu.
– O banho pode esperar mais um pouco? – perguntou Clara ajoelhando-se no chão.
– Amor, eu vou buscar o Ivan na casa da Helena e vou aproveitar e conversar com ele sobre nós – avisou Clara enxugando o cabelo com a toalha.
– Quer que eu vá com você?
– Obrigada, mas não precisa. Essa é uma conversa que deve ser só entre nós dois – respondeu dando um beijo nos cabelos de Marina que estava sentada mexendo no celular.
Clara ligou o celular e o deixou em cima do criado. Minutos depois ele começou a vibrar e quando olhou no visor o nome da sobrinha brilhava na tela.
– Oi, Lu. Tá tudo bem?
– Tia... – ela parou um minuto recuperando o fôlego – Eu... Eu preciso de você – e desabou em lágrimas.
– Você está em casa? O que está acontecendo?
Mas do outro lado da linha só havia um choro compulsivo e havia também gritos que Clara não sabia distinguir de quem eram, pareciam muitas vozes. Alguma coisa estava acontecendo.
– A Luiza... Ela estava chorando muito e tinha umas pessoas gritando, preciso saber o que aconteceu – disse Clara respondendo ao olhar de Marina.
E o celular voltou a vibrar. Notificações do whatsapp. Dessa vez era Felipe e ele pedia que Clara fosse até à casa da irmã, mas não dissera o motivo.
– Eu vou com você, amor – disse Marina já tirando a blusa e procurando por outra na gaveta.
– Tudo bem, vamos.
– Te espero aqui fora. É melhor. – disse a fotógrafa estacionando em frente ao prédio.
– Também acho. Assim que eu sair eu te ligo.
– Ok.
Clara entrou no prédio e ao olhar para o relógio percebeu que ainda era meio-dia, achou que fosse bem mais tarde.
Antes mesmo de descer do elevador ouviu gritos vindo do apartamento da irmã e sem bater entrou. Os gritos pararam e todos olhavam para ela.
Luiza saiu correndo em direção ao quarto, deixando Helena marchando de um lado para outro enquanto Virgílio tentava fazer as vezes de conciliador.
– Cadê o Ivan? – perguntou aos rostos assustados.
– Está lá na casa da mamãe – respondeu Felipe indo até a irmã e beijando-lhe o rosto.
– O que está acontecendo? – perguntou baixinho.
– Você vai saber. Agora que chegou eu preciso ir trabalhar, já estou atrasado. Depois me liga?
Clara assentiu e se despediu do irmão.
– Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? – perguntou Clara jogando a bolsa na poltrona.
– A culpa é sua. Toda sua! – acusou Helena apontando o dedo em riste para Clara.
– Se você disser o que está acontecendo eu posso dizer se a culpa é minha ou não.
– Helena, calma! A Clara não tem nada a ver com isso – ponderou Virgílio com as mãos nos ombros da esposa.
Luiza apareceu com uma mochila nas costas e uma mala de rodinhas pequena. Clara logo notou os olhos vermelhos e empapuçados da sobrinha.
– Onde você pensa que vai? – perguntou Helena para a filha.
– Qualquer lugar é melhor que aqui – respondeu dando as costas.
– Luiza, filha... Vamos conversar – pediu Virgílio.
– Não tenho mais nada para falar.
– Lu, o que aconteceu? Que carinha é essa? – perguntou Clara com a mão no rosto da sobrinha.
Luiza apenas balançou a cabeça negativamente deixando as lágrimas caírem em seus pés.
– Tia, eu posso ficar com você? Na casa da Marina...
– Era só o que me faltava – bradou Helena com as mãos para cima. Indignada – Agora a casa da Marina virou um tipo de abrigo para pessoas da sua laia? – os olhos em Clara.
A morena coçou a cabeça e balançou a cabeça abstraindo o que estava implícito nas palavras da irmã.
– Vamos. Só vou passar na casa da sua avó para pegar o Ivan e nós vamos para casa, a Marina não vai se importar.
As duas saíram ouvindo as piores palavras que saíram da boca de uma Helena revoltada e preconceituosa.
Clara apertou a campainha do apartamento da mãe e não demorou para que a porta se abrisse. Assustou-se. Assim como a sobrinha a mãe tinha os olhos vermelhos. Comoveu-se.
– Mãe... – tentou tocar em seu ombro, mas Chica recuou como se Clara tivesse uma doença contagiosa – Você está bem?
– Ivan, sua mãe veio te buscar – chamou Chica olhando duramente para Clara.
A morena ignorou a dor que sentiu naquele momento e abaixou-se para ficar da mesma altura do filho e abraçá-lo. Antes de levantar ouviu a porta bater e seu coração doeu mais uma vez.
Já no carro, Marina e Clara trocavam um olhar enquanto Ivan segurava a mão de Luiza que tinha a cabeça encostada à janela do carro e o olhar perdido na paisagem em movimento.
– Filho, que tal um sorvete? – sugeriu Clara olhando-o pelo retrovisor.
– Mas eu ainda não almocei, mãe.
– Mas hoje é sábado, cara. No final de semana a gente pode extrapolar um pouco – piscou para o menino que abriu um sorriso – Vamos parar em Copa um pouco, eu converso com o Ivan e a Lu toma um pouco de ar, vê movimento – pediu para Marina num tom mais baixo.
– Tudo bem – respondeu sem hesitar.
Clara e Ivan sentaram-se numa barraca próxima à orla, enquanto Marina e Luiza estavam sentada duas barracas à frente. Num completo silêncio que a fotógrafa só quebraria se Luiza permitisse.
– O sorvete daqui é uma delícia, né? – perguntou Clara dando uma colherada e olhando para o filho.
– Muito bom. Mas eu prefiro o da sorveteria que tem perto da casa da Marina, que agora é a nossa casa também – disse Ivan balançando as pernas na cadeira.
Antes de aproveitar a brecha aberta, Clara mordeu a casquinha do sorvete e a saboreou preparando-se para a conversa que julgava a mais difícil.
– Filho, você gosta da Marina? – perguntou ela.
– Muito.
– E está gostando de morar lá?
Ivan respondeu com um aceno de cabeça enquanto tentava lamber todos os cantos do sorvete que derretia.
– Sabe... A mamãe também gosta muito da Marina, quer dizer... A mamãe ama a Marina e a Marina... – Clara tombou a cabeça de lado olhando para a fotógrafa e voltou-se para o filho – ela também ama a mamãe e...
– Ama como você me ama?
Clara riu da inocência do filho.
– O amor que eu sinto por você é diferente. É amor de mãe, sabe? Igual ao da Anna pela Marina. O amor que eu e a Marina sentimos uma pela outra é amor de namorados. Namoradas no caso.
Pela primeira vez desde que a conversa havia iniciado Ivan tirou os olhos do sorvete e os fixou em Clara e sentiu o creme pegajoso escorrer pela sua mão. Clara pegou alguns guardanapos e limpou a mão de Ivan que jogou o sorvete no lixo.
– Você é namorada da Marina? – perguntou ele de cabeça baixa encarando os grão de areia do calçadão.
– Sim.
– Mas duas mulheres podem namorar?
– Podem, assim como dois homens também podem. Filho – Clara chegou mais perto segurando as mãozinhas e pediu que Ivan a olhasse – O que importa é o que a gente tem aqui dentro – disse apontando para o coração – O amor não escolhe com quem ou onde acontece. E a mamãe não está fazendo nada de errado, eu estou feliz.
Ivan permaneceu com a cabeça baixa processando todas as informações, tentando encaixar as peças daquele quebra cabeça novo e tão diferente dos que já havia montado. Não soube o que sentia naquele momento, nem saberia responder se ainda gostava “muito” da Marina se a mãe lhe perguntasse, nem saberia se a imensa piscina da casa da fotógrafa ainda era legal. Só queria ir para onde era sua casa agora e ficar quieto, pensando.
Assim que o carro parou Ivan saiu correndo direto para o quarto. Ainda estava confuso e não queria conversar com ninguém. O excesso de pensamento já lhe bastava.
Marina indicou um quarto para que Luiza ficasse e após deixar sua pequena mudança no cômodo, foram para o estúdio onde poderiam ficar à vontade sob o clima mais que agradável do ar-condicionado.
– Desculpa cair de paraquedas aqui, mas eu não sabia para onde eu poderia ir – disse Luiza acanhada, olhando o novo espaço de Marina – Nossa! A última vez que vim aqui não era assim.
– Ah! Fizeram uma surpresa para mim – disse Marina dando uma piscadela cumplice para Clara – Mas não se preocupe, pode ficar o tempo que quiser.
– Quer nos contar o que aconteceu? – perguntou Clara puxando um pufe para se sentar e outro para apoiar os pés.
Marina fez o mesmo e sentou ao lado de Clara, dando-lhe um beijo no ombro e ganhando um afago no rosto em seguida.
– Primeiro: – Luiza respirou fundo passando as mãos no rosto – Depois que você decidiu vir morar com a Marina a vovó não parou de falar de você e no quanto era absurda essa história, que você não tinha noção do que estava fazendo, que a Marina era culpada por tudo que tinha acontecido e outros absurdos.
Clara revirou os olhos e Marina ficou com a boca aberta em formato de O.
– O Ricardo resolveu contar para ela que a Giselle é gay porque achou que ajudaria já que a vovó gosta tanto dela... Ele achou que ela não mudaria de opinião, mas ele estava errado. Ela surtou, falou mais um monte de absurdo e hoje o Ricardo resolveu sair de casa, porque segundo o que ele contou, a vovó pegou pesado.
Marina e Clara se entreolhavam com total descrença e Clara entendeu o porquê de a mãe ter os olhos vermelhos quando ea havia ido buscar Ivan.
– Resumindo é isso. E segundo: e no meio disso tudo minha mãe descobriu que eu estou ficando com uma menina da faculdade, ela me bateu, gritou, xingou... E foi por isso que eu liguei ontem pra você, mas seu celular só dava caixa postal.
– Você também é lésbica? – quis saber Marina.
– Bissexual – respondeu sem pensar nem um milésimo.
– Ontem eu... estava ocupada a noite – respondeu Clara corando e segurando o riso – Mas que bom que nada de pior aconteceu.
– É... Eu posso ficar aqui mesmo? Só por alguns dias... Eu vou procurar um emprego qualquer, nem que seja no shopping e depois arrumo um canto para mim.
– Sem problema, já te falei! A casa é grande, sempre cabe mais um – disse Marina dando um sorriso.
– Obrigada, mesmo e...
O raciocínio foi interrompido pelo barulho de vozes femininas e agudas. Risadas, barulhos de portas e às costas de Luiza, Vanessa e Mônica entraram retirando os óculos escuros e desejando boa tarde.
– Oi, casal – cumprimentou Marina em tom zombeteiro.
Mônica sorriu sentindo as bochechas esquentarem e Vanessa a puxou pela mão para se sentarem nos pufes.
– Eu sei que aqueles dois “guarda roupas” lá fora são para a nossa segurança, mas não gosto deles – disse Vanessa referindo-se aos seguranças.
– Meu pai acha que não sei, mas ele deixou um na cola de cada uma aqui do estúdio e na cola da minha mãe também. Achei exagerado, mas...
– Depois do que aconteceu com vocês eu não acharia exagerado – pronunciou-se Mônica – Nenhuma notícia dele?
Clara bateu com os nós dos dedos duas vezes na madeira antes de dizer:
– Graças a Deus não. E é melhor nem falar muito, porque vai que atrai.
Todas benzeram-se e bateram na madeira mais próxima.
– Vamos almoçar na piscina? Relembrar os velhos tempos? – sugeriu Marina.
– Eu vim no caminho falando para a Mônica que íamos recomeçar os trabalhos hoje, Marina – disse Vanessa.
– Ai, Vanessinha! Só hoje vai... – pediu daquele jeito de criança manhosa.
– Ah! Eu quero aproveitar esse sol maravilhoso, estou de folga hoje, Van – fez coro Mônica.
– Tudo bem, tudo bem.
– Vou ligar pra Gi e ver se a Flavinha vem com a Maria – informou Marina pegando o celular.
Anna também apareceu e quando entrou na mansão sorriu ao ver a cena. A filha e a nora abraçadas dentro da piscina, enquanto Vanessa e Mônica tomavam sol e Marina Carolina passava protetor solar nas costas de Flávia.
Luiza e Giselle estavam nas espreguiçadeiras, conversando sobre os últimos fatos.
– Cadê o Ivan? – quis saber Anna após cumprimentar todas.
– Ele não quis vir, está lá dentro jogando vídeo-game...
– A Clara contou hoje para ele sobre nós e talvez ele não tenha reagido muito bem a notícia – explicou Marina sentindo um nó no estômago. Tudo o que mais queria era que Ivan aceitasse o amor que a unia à Clara. Mas entendia que eram muitos acontecimentos para o pequeno processar em tão pouco espaço de tempo.
– Dá um espaço para ele entender a reviravolta que aconteceu na vidinha dele. Ele é um menino muito inteligente, Clara. Não vai te decepcionar – garantiu Anna.
Anna tirou sua roupa ali mesmo e arrancou palmas e assovios das meninas que gritavam “gostosa”, “linda” deixando-a com o ego massageado e um pouco de vergonha. Saltou na piscina com uma elegância invejável.
– Agora sei de onde saiu todo esse seu lado... sexy – disse Clara no ouvido de Marina.
– Não me provoca, Clara... – disse Marina se encolhendo e ficando de frente para a morena.
– Estou mentindo? Você é muito, muito sexy – continuou agora olhando em nas írias amarronzadas e sentindo corpo estremecer.
– Ô, gente. Vocês descobriram o sexo agora? A gente vai ter que sair da piscina? – provocou Vanessa arrancando risada de todas.
– Queria avisá-las que há quartos nessa casa – disse Maria Carolina.
– Ai... Calem a boca – disse Clara mergulhando e indo até elas.
Ao emergir chamou Vanessa para aproximar o ouvido de sua boca, disse que queria contar-lhe um segredo. Quando aproximou-se Clara a puxou para dentro da piscina com óculos escuros e o protetor solar que estava passando no próprio corpo. Começaram uma guerra com água e logo Luiza e Giselle também entraram na brincadeira.
Clara foi até o quarto de Ivan e o menino estava deitado na cama lendo gibis, não quis ir para piscina e recusou o diálogo proposto pela mãe. Voltou para a piscina preocupada, mas Anna lhe pediu calma e garantiu que tudo ficaria bem, mais uma vez.
– Olha lá gente... – disse Maria Carolina abaixando os óculos de sol e olhando por cima deles – Acho que o cúpido está solto.
Luiza e Giselle continuaram conversando, entrosadíssimas. A prima de Marina estava sentada na borda e a sobrinha de Clara estava com os braços apoiados nas coxas molhadas, os rostos próximos, sorrisos cúmplices.
– Eu aprovo esse novo casal – disse Flávia observando-as.
– Eu também – disse Vanessa.
Anna anunciou o almoço/lanche da tarde e todas saíram da piscina sentindo a fome apertar em seus estômagos.
Enquanto comiam Clara e Marina trocavam beijos, sorrisos, “beijos de esquimó”; Vanessa roubava beijos de uma Mônica tímida que ficava com o rosto vermelho todas às vezes que sentia os lábios da ruiva nos seus; Maria e Flávia que mais saciavam a fome que se tocavam, mas os olhares estavam ali, presentes. Assim como Giselle e Luiza. Olhares e sorrisos que faziam todas sorrirem sem que percebessem.
Ivan apareceu na escada no momento em Marina acariciava o rosto da mãe. Sentindo que olhos a encaravam, Clara virou o rosto e viu o filho lá de cima. Fez menção de ir até ele, mas o menino o fez primeiro.
– Não queria comer sozinho lá em cima – anunciou buscando com os olhos uma cadeira para se sentar.
– Aqui está bem mais divertido – disse Marina abrindo um sorriso.
Ivan sorriu de volta e sentou-se ao lado da prima.
Depois do almoço aproveitaram a piscina até o sol cair por detrás das casas e as primeiras estrelas surgirem no céu.
Mônica foi a primeira a ir embora, pois no outro dia entraria cedo no hospital. Logo após Maria Carolina foi embora. Anna também voltou para a sua casa mesmo com todos os protestos da filha e da nora.
– Fica mais um pouco – sugeriu Luiza quando viu Giselle ajuntando suas coisas.
– Hm... Eu preciso mesmo ir. Coisas da faculdade para fazer, mas agora com você morando no meu “trabalho” nos veremos todos os dias – disse despedindo-se dela com um beijo demorado na bochecha.
– Como vocês são fofas – disse Clara abraçando a sobrinha assim que Giselle saiu pela porta.
– Para, tia!
– Dava até para ver os corações saltando ao redor de vocês – disse Marina desenhando corações no ar.
– O amor está realmente no ar – continuou Vanessa.
– Ai, como vocês são chatas – implicou a menina sorrindo e jogando almofadas – Vou tomar banho que eu ganho mais.
Já era bem tarde quando Clara colocou Ivan na cama.
– Você está bem? – perguntou a mãe ajoelhada em frente a cama do filho, acariciando seus cabelso loiros.
– Uhum.
– Não quer me perguntar nada?
O menino negou com um gesto.
– Você pode me perguntar e me falar o que quiser a hora que bem entender, fechado? – Clara ergueu a mão fechada em punho e Ivan retribuiu o toque.
– Boa noite, meu bichinho.
– Boa noite, te amo mãe.
– A mamãe também te ama, muito!
Clara foi para o quarto e jogou-se na cama como se ansiasse por aquilo há anos. Foi chegando devagarinho perto de Marina que lia uns e-mails e quando percebeu que a morena queria sua atenção, fechou o notebook e colocou os óculos em cima do criado.
– Que dia intenso e tenso – disse Marina com os braços ao redor de Clara.
– Mais tenso que intenso... – Clara apoiou-se num cotovelo e encarou a fotógrafa antes de prosseguir: – Desculpe-me por trazer tantos problemas para você. Não basta ser complicada e desmemoriada, tem que ser cheia dos problemas também – riu um pouco sem graça.
Marina compartilhou do riso e também virou-se para melhor olhá-la e admirá-la.
– Eu te aceito assim: complicada, desmemoriada, estressadinha, com essa cor do pecado, boca suja, atrapalhada, faladeira, gostosa... – a última palavra saiu sílaba por sílaba dos lábios e atingiram Clara no mesmo momento.
– Eu sou faladeira? Perai... – reagiu rindo e fazendo cócegas na fotógrafa que tentava escapar, mas não conseguia fazer nada além de gargalhar até sair lágrimas dos olhos.
Depois de revidar o ataque e de quase caírem da cama ambas recuperavam o fôlego que as risadas haviam tirado. Clara ficou um pouco séria e disse:
– Eu te amo, obrigada por me aceitar assim.
– Eu também te amo, amor... Obrigada por ser assim.
Clara segurou o rosto de Marina com as duas mãos, puxando-a para mais perto e o beijo que trocaram reacendeu a fogueira que havia sido apagada pela manhã.
– Quero te amar a noite toda – anunciou Clara nos lábios da fotógrafa.
A resposta que teve foi Marina tirando a camiseta da morena e mergulhando nos seios dela.
– O dia hoje foi intenso, hein? Vou ali pegar minhas coisas e ir para casa, daqui a pouco o Diogo chega ai – disse um segurança para outro assim que olhou no relógio e viu que o seu turno havia terminado.
– Vai lá, cara. Boa noite – disse batendo a mão no ombro do colega.
O segurança foi embora e ainda faltava meia hora para Diogo chegar.
Ouviu-se passos vindo na direção, pareciam apressados. A figura parou em frente a ele e estendeu a mão num cumprimento.
– E ai, cara? Qual vai ser a informação que você quer dessa vez? – perguntou o segurança.
– Quero saber como anda o clima da casa? – perguntou o outro olhando por sobre a cerca viva como se pudesse enxergar o que queria.
– Bem, muito bem. Hoje elas passaram o dia na piscina. Nunca vi tanta mulher linda na minha vida. Até a coroa é gata.
– Que coroa? – quis saber de cenho franzido.
– A mãe da fotógrafa, acho que é Anna o nome dela.
– Então a vadia tem mãe? Bom saber, muito bom.
– Não sei se elas voltam para cá amanhã ou não, mas as que moram aqui estão tudo ai e chegou uma menina nova também, parece que vai morar ai.
– Mas isso aqui virou um antro mesmo – disse cuspindo no chão e mexendo nos cabelos grisalhos – Era só isso que eu precisava saber mesmo. Deixa seu celular ligado porque amanhã vou precisar de mais informações.
– Cadê meu pagamento?
O homem de cabelo grisalho ficou irritado e tirou duas notas de cem bem amassadas do bolso e colocou na mão do segurança.
– Falta pouco para eu entrar em ação e se der tudo certo, te pago o resto – avisou.
O segurança não gostou muito, não era o que tinham combinado, mas agora que havia entrado no “negócio” não tinha o porquê de sair.
– Agora vaza daqui que o cara que vai ficar no turno agora tá chegando – avisou quando ouviu o barulho da moto.
– E ai, qual são as novidades? – perguntoua loira deitada na cama quando Cadu chegou.
Tirou os sapatos – e xingou quando sentiu a fisgada no tornozelo que nunca se recuperaria –, a camiseta, a calça e sentou-se na cama com seu bloco de notas. Escreveu GISELLE e fez um círculo em volta. Contou a sua comparsa sobre o que o segurança havia lhe contado e concluiu:
– Parece que tudo está bem no paraíso daquela sapatão nojenta. Mas é por pouco tempo, acho que a vida delas está precisando de um pouco de emoção. Então vamos começar agitando o mundinho daquela petulante da Giselle, certo?
– Certo. Qual é o plano?
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