I'll be Waiting Everlasting Like the Sun
22 Message to her.
Notas iniciais
Alguns dias depois o estúdio fotográfico mais badalado do Rio de Janeiro estava sendo reinaugurado em grande estilo. Regado a champanhe e muitos flashes.
Clara havia voltado ao antigo prédio apenas para vender todas as coisas que nele estavam. Não quis ficar com nada que a remetesse ao passado ali vivido. Ficou apenas com as roupas dela e do filho, todo o resto foi vendido e/ou doado. E ela havia colocado no jornal o anúncio de venda do apartamento. Conseguiu um dinheiro razoável pelo carro, daria para dar entrada num outro. Mesmo Marina falando que ela não precisava, que poderia usar o seu carro ou o motorista quando quisesse, Clara achou melhor começar a correr atrás de um carro próprio, mesmo que fosse um carro popular, só queria se locomover sem depender de ninguém.
Depois que Luiza havia se mudado para a mansão de Marina não viu mais a mãe ou o pai, tinha notícias deles apenas por Felipe que ligava, ou mandava whats, ou aparecia por lá depois do trabalho. Por mais que doesse ficar longe da mãe quer era uma de suas melhores amigas, doía menos do que todas as atrocidades que havia ouvido.
E ela e Giselle estavam cada vez mais próximas. Mas por enquanto era só, já que ambas ainda estavam se relacionando com suas respectivas ficantes. Porém, os olhares e sorrisos que trocavam quando se viam eram perceptíveis para todos.
Marina havia tido alta da terapia. Zahra dissera que ficou impressionada com a rápida recuperação após as sessões que a fotógrafa havia feito.
– Era só isso que eu precisava. Colocar tudo para fora, aceitar o que aconteceu, respirar fundo e seguir em frente – disse na última consulta com a psicóloga.
– Você está de alta agora, espero não te ver aqui tão cedo – disse Zahra estendendo a mão para Marina – Isso não é nada pessoal – sorriu.
– Também espero não te ver tão cedo – respondeu a fotógrafa.
Depois de ter a exposição em Londres cancelada, Marina havia se reerguido passando por cima de tudo o que havia acontecido e sentido. Estava sentindo-se renovada e com Clara ao seu lado ficava ainda mais fácil não se deixar esmorecer.
A memória de Clara havia lhe trazido novas lembranças, que ela não demorou a escrever no seu caderno que estava quase sendo substituído pelo word do notebook, tamanha intensidade dos pensamentos e recordações.
A última lembrança, na verdade era a primeira. Clara havia se lembrado de quando ela e Marina haviam se olhado pela primeira vez.
– Por isso que no dia em que dançamos eu quis que você usasse o vestido branco – dizia Clara – era meu subconsciente me dando pistas de que ele representava alguma coisa importante, eu só não sabia o que era.
– Talvez você ainda não se lembre, mas vou refrescar sua memória: Eu odeio suspense! – disse Marina em cólicas para saber do que Clara havia se lembrado.
Estavam deitadas na cama. Clara de barriga para cima encarando o teto com os olhos marejados e uma vontade de gargalhar que fazia sua garganta formigar.
– Eu lembrei do dia em que nos olhamos pela primeira vez, naquela galeria na Barra, né? É tudo tão nítido, parece que acabou de acontecer, olha... – Clara mostrou o braço de pelos arrepiados.
– Me conta, quero saber tudo o que você lembrou!
Clara então fechou os olhos e respirou fundo.
– Quando eu cheguei à galeria você já tinha se apresentado e estava andando em meio às pessoas, tirando foto. Você estava de costas e mesmo eu não sabendo como você era pessoalmente, quando eu te vi, eu tive certeza de que era você e eu não consegui sair do lugar, fiquei parada olhando suas costas – começou a contar Clara ainda de olhos fechados.
– E eu senti que deveria me virar porque tinha alguma força superior me obrigando a fazer isso e quando eu me virei senti meu corpo queimar – interrompeu Marina gesticulando com as mãos.
– O meu também queimou, e eu fiquei olhando pra você igual uma bocó – as duas riram – Nem vi quando e como o Carlos Eduardo tinha sumido, só sei que eu estava ali, diante de você e o mundo todo parecia ter parado e aí... – abriu os olhos e se virou de lado para encarar a fotógrafa – ...você caminhou na minha direção, e se apresentou como se eu não soubesse quem você era.
– Era só charme – brincou piscando de modo sedutor e provocativo.
– Acho que foi ali que eu comecei a me deixar ser conquistada, porque eu não sabia o que fazer, onde colocar as mãos... E pensando mais um pouco... Quando cheguei em casa fiquei me achando horrível, com aquele vestido brega – gargalhou ao se lembrar.
– Você estava linda, amor. Linda – garantiu a fotógrafa.
Clara lhe deu um beijo singelo e continuou:
– Depois você me levou para ver de perto suas obras, explicou sobre conceitos e cores e eu via uma alegria nos seus olhos, uma paixão pelo seu trabalho. Fiquei encantada. E não sei como fomos parar do lado de fora da galeria, você estava tão perto de mim... só de lembrar... – Clara uniu as pernas tentando amenizar o pulsar de seu sexo.
– Eu queria tanto te beijar, Clara...
– Teria conseguido.
– Se a Vanessa não tivesse chegado – Marina jogou o corpo no colchão e abafou a risada com o travesseiro no rosto.
– Achei que ela fosse me matar – Clara acompanhou a risada de Marina – E é isso, senhora. Satisfeita?
– Muito. Essa nossa história daria um livro, né? – brincou.
– Daria... Com certeza daria.
Vendo que o dinheiro que havia conseguido com as vendas estava quase acabando, Clara ficou angustiada querendo saber o que faria a seguir para conseguir sua própria fonte de renda. Marina a acalmou, dizendo que ela poderia ficar no estúdio, que se quisesse fazer algum curso técnico, uma faculdade teria o total apoio.
– Eu quero ver você feliz, Clara. Comigo aqui no estúdio ou em qualquer outro lugar que te dê prazer – disse Marina certo dia.
Clara acabou aceitando, já havia trabalhado com e para a fotógrafa antes. Mesmo sentindo-se incomodada por saber que era Marina quem lhe pagaria, tratou de esquecer todas as dúvidas e voltou a ser a assistente preferida da fotógrafa.
E a tranquilidade dos dias que decorreram até as deixava um pouco assustada, mas por um breve momento concluíram que já haviam passado por tempestades demais e que aquela calmaria era muito bem-vinda e poderia ficar por ali para sempre.
Até Ivan estava mais calmo, mais amistoso. Ainda não entendia como a mãe, que até “ontem” amava um homem, hoje dizia o mesmo para uma mulher, e ainda era confuso saber que haviam muitas e muitas pessoas como elas. Mas nunca havia visto nada além de sorrisos largos e doçura no olhar que ambas trocavam e nos que Marina direcionava a ele na tentativa de trazê-lo mais para perto.
Clara não invadiu mais o espaço do filho, esperou que ele viesse até ela com suas dúvidas. Mas foi com Marina que Ivan quis questionar e dialogar.
Após um jantar na casa de Anna, Clara e Marina foram embora mais cedo do que queriam, pois Ivan tinha algumas tarefas da escola para fazer. Enquanto a mãe tomava banho, Ivan estava na sala de jantar que tinha a mesa com seus cadernos, livros e lápis de cor.
Marina saía do estúdio após conferir se haviam entregado um material importantíssimo para a próxima sessão de fotos, quando foi até a cozinha. Encheu o copo com água gelada e ia subir para quarto quando notou Ivan concentradíssimo, encarando confuso o livro diante dos olhos.
– Quer água? – perguntou a fotógrafa às suas costas.
– Hm... Não, obrigado. Eu só quero saber como eu vou fazer isso aqui... – apontou o lápis de ponta fina para as figuras geométricas. O menino olhou para cima e pediu: – Você pode me ajudar?
Marina engasgou com a água e sem titubear sentou-se ao lado do garoto. A fotógrafa sempre se dera bem com todas as matérias, ao contrário da maioria amava português e matemática na mesma proporção. E não teve dúvidas quando analisou o problema que Ivan tinha diante de si.
Gentilmente pegou o livro nas mãos, leu o enunciado do exercício e começou a explicar. Ajudou Ivan a pintar as figuras, a fazer as contas e a traçar as retas. Em bem menos tempo do que imaginava, já havia terminado.
– Obrigado, Marina. Você é muito legal – agradeceu o menino saindo da cadeira e dando um abraço que deixou os olhos de Marina marejados.
– Sempre que precisar pode contar comigo.
Ivan sorriu de forma tímida. Juntou seus materiais e voltou a se sentar na cadeira, encarando o copo de água quase vazio.
– Quer me perguntar alguma coisa? – incentivou a fotógrafa.
– Minha mãe disse que vocês são namoradas... – respondeu um pouco ressabiado – Não entendo muito isso, mas sei que ela está muito feliz, mais feliz do que quando estava com o meu pai. Isso quer dizer que você está cuidando dela, né?
– Uhum. Estamos cuidando uma da outra.
– Então se você está cuidando dela e deixando ela feliz... Tudo bem vocês serem namoradas.
Marina abriu um sorriso imenso e afagou os cabelos loiros, detrás da porta que dividia a sala de estar da de jantar, Clara observava os dois amores da sua vida tornando-se cúmplices e a deixando, enfim, em paz.
– Hoje é um grande dia, meninas! – anunciou Marina entrando no estúdio animada com o ensaio que realizaria. Havia até acordado bem cedo tamanha ansiedade e necessidade de deixar tudo à beira da perfeição.
– Deve ser mesmo, para você derrubar todo mundo da cama às 7h – reclamou Vanessa bebendo seu café fumegante e ajustando os óculos escuros.
– Deus ajuda quem cedo madruga – respondeu.
– Nossa, Clara. Tudo bem você voltar para vida da Marina, mas você poderia entrar nosso ritmo, né? Acordar depois das 10h... – implicou a ruiva.
– Mas foi ela quem mudou o horário, cara. Me tira dessa – defendeu-se.
– Bom dia, bom dia! – desejou Giselle entrando preguiçosa pelo estúdio.
– Gente, ânimo que esse ensaio tem que ser perfeito.
– E quando que um ensaio seu não é, hein? – disse Clara abraçando Marina pela cintura.
– Desse jeito fica difícil manter a humildade, amor.
Trocaram um selinho demorado e antes de o beijo se aprofundar, Flavinha bateu a mão e disse:
– Mãos à obra? Porque pelo que vi aqui a gente vai ter que dar uma mudada no cenário.
Marina e Clara trocaram mais um beijo rápido e se juntaram as demais para organizar o espaço.
Lá fora enquanto um segurança permanecia no seu posto, o outro pegou o celular e ligou para Carlos Eduardo.
– A menina que você falou que precisa conversar acabou de chegar, disse que pelo jeito vai sair daqui no mínimo às 18h.
– Ótimo. Quando você notar que ela está indo embora pode me dar outro toque?
– Sim. Brother? – chamou o segurança.
– Fala.
– Você não vai fazer nada demais com a menina, né?
Do outro lado da linha o outro gargalhou.
– Fica tranquilo, eu só quero ter uma conversa com ela.
– Tá, beleza.
E um suor frio brotou de sua testa. Pela primeira vez havia se arrependido de ter dado confiança para Carlos Eduardo, que como ele e praticamente todo o mundo sabia: não era nada inofensivo.
– Estou morta – disse Giselle caindo no sofá, ocupando todo espaço.
– Porra, garota. No sofá cabem três pessoas, deixa de ser folgada – reclamou Vanessa cutucando as costelas de Giselle.
– Deita no tapete, gente, vocês nunca tiveram essas frescuras, eu hein – disse Marina seguindo o próprio conselho.
Clara aconchegou-se nela dando uma longa suspirada.
– Tá cansada, né amor?
– Muito – respondeu bocejando.
– Vamos subir? – sugeriu a fotógrafa.
– Uhum... – murmurou se estreitando ainda mais nos braços de Marina.
– Como é dengosa essa minha mulher, vamos...
Clara apenas meneou a cabeça e deixou-se ser puxada pela mão.
– Gi, amanhã pode tirar o dia de folga, tá? Aliás, todas estão de folga – sentenciou Marina – O trabalho agora é só comigo e com as fotos que eu preciso tratar.
– Melhor chefe do mundo – disse Giselle jogando um beijo de longe para Marina.
Marina e Clara subiram, Flávia e Vanessa continuaram ajeitando algumas coisas. Preferiam organizar tudo no mesmo dia a deixar a bagunça para depois.
Quando Giselle deu três bocejos num curto espaço de tempo, pegou sua bolsa e se despediu de quem ficava. Passou pela porta da sala e deu de topa com Luiza. Trocaram um sorriso tímido e ambas sentiram as bochechas esquentarem.
– Já vai? – perguntou Luiza quebrando o clima.
– Achei que nunca mais ia sair daqui – brincou.
– Ouvi minha tia falando que a campanha de hoje era grande mesmo. Por isso fiquei lá na faculdade até agora fazendo alguns trabalhos, não sei lidar com tanto barulho.
– Me acompanha até a porta?
– Claro.
Contavam os passos. Velocidade mínima. Queriam que o tempo parasse no momento em que Giselle fez a pergunta. Chegaram próximas ao portão e Giselle apertou o botão que desligava o alarme.
De fora o segurança observava pelas frestas da cerca viva e ao ouvir o barulho do alarme ligou para Carlos Eduardo.
– Ela está indo embora – disse. Ouviu um ok e em seguida a linha ficou muda.
– Amanhã eu estou de folga, mas depois estou ai de novo. E fica tranquila porque você pode estudar na área da piscina ou na sala de jantar, que não vai ouvir nada do que acontece dentro do estúdio – garantiu Giselle.
– Vou me lembrar disso – respondeu Luiza sorrindo.
– Bom... – Giselle colocou um pé para dentro do carro e permaneceu naquela indecisão enquanto seus olhos e os de Luiza não se desprendiam – Tchau.
– Gi! Espera! – pediu demonstrando nos gestos das mãos o nervosismo.
Giselle saiu do carro e ficou de frente para Luiza. Antes de perguntar o que ela queria, sentiu os lábios volumosos da sobrinha de Clara contra os seus e as mãos quentes em seu rosto. Afastaram-se com sorrisos imensos e antes de ir Giselle roubou um beijo de Luiza e entrou no carro. Passou pelos seguranças desejando boa noite.
– Vai para dentro, menina. Daqui a pouco escurece – disse o segurança tirando Luiza do transe em que o beijo a deixara.
Ela apenas balançou a cabeça e entrou, tropeçando nos próprios pés.
Giselle ligou o rádio e começou a cantarolar tamborilando os dedos no volante. Sorria enquanto os cabelos dançavam com o vento que entrava pela janela entreaberta. Balançava a cabeça no ritmo da música e soltou um “urrul” antes de frear bruscamente.
– Mas que merda, cara! – falou permitindo que aquele fato lhedeixasse apenas 5 segundos de mau humor.
Um carro branco de vidro fumê vinha na direção contrária. Deu uma derrapada, antes de parar alguns metros à frente de Giselle que puxou o freio de mão no mesmo momento, senão bateria.
Naquela localização de Santa Teresa não havia nenhum trânsito, ainda mais naquele horário onde a maioria das pessoas que desciam para o centro estavam presas nos engarrafamentos das grandes avenidas.
Giselle abaixou o freio de mão e ligou o carro. Estava com a cabeça abaixada e não viu quando dois rostos conhecidos saíram de dentro do veículo branco, apenas ouviu o barulho de mãos batendo no capô do carro e da porta do motorista sendo aberta. Tentou gritar, mas antes disso teve a boca tapada e viu tudo ficar escuro quando um saco de estopa foi colocado em sua cabeça.
– Gente, eu ainda não conheço nada aqui então vocês podem me falar onde tem um mercado, uma padaria, qualquer lugar onde eu possa comprar um doce de leite?
Flávia e Vanessa olharam para Luiza que riu.
– Eu amo doce de leite e agora até aqueles que são quadradinhos já me satisfazem – explicou.
– Eu vou com você, Lu. Aproveito e compro fio dental, porque o meu acabou. Quer alguma coisa, Van?
– O que eu quero não se compra – respondeu a ruiva com o celular nas mãos.
– Não se compra mesmo, é só ligar que ela vem – disse Luiza.
– Não hoje porque tem plantão, só amanhã – fez muxoxo.
Luiza e Flávia jogaram almofadas em Vanessa que as jogou de volta acertando nas costas das duas.
Flávia e Luiza iam a pé, pois o mercado ficava a dez minutos de caminhada. Conversavam e riam enquanto andavam. Luiza olhava a copa das árvores e a luz do sol que passava por elas quando trombou no ombro de Flávia que parou de repente.
– Que foi, Fla... Ué... Aquele não é o carro da Giselle? – perguntou Luiza já indo em direção.
Flávia, por ter as pernas mais longas, chegou ao carro primeiro. Porta aberta, chave na ignição e setas ligadas.
– Puta merda! Liga para a polícia – pediu Flávia enquanto buscava alguma coisa que pudesse lhes dizer para onde Giselle havia ido.
Luiza tinha lágrimas escorrendo até o seu pescoço e as mãos tremiam enquanto explicava o pouco que sabia. Assim que desligou voltou para a mansão correndo, Flávia achou melhor não tocar no carro. Abriu uma exceção apenas para tirar o triângulo que estava no porta-malas e simular um problema mecânico que havia obrigado o carro a ficar parado ali, no meio da rua.
A sobrinha de Clara só parou de correr quando Diogo (o outro segurança) lhe perguntou o que havia acontecido, e ela aos prantos, disse que não sabia e que o carro estava parado a poucos metros dali. O colega de Carlos Eduardo apenas apertou o terço que sempre carregava no bolso.
– O que aconteceu? – perguntou Vanessa assim que viu Luiza entrar aos gritos chamando por Clara.
Como a tia não deu sinal de que apareceria subiu as escadas correndo, ignorando as perguntas que Vanessa lançava em seu rastro.
Abriu a porta num estrondo e quem saiu enrolada na toalha cheia de espuma no corpo foi Marina, que tinha o pescoço vermelho e não precisaria ser muito esperto para saber o porquê.
– Desculpa entrar assim é que a Gi... A Giselle... Eu... Não sei... Ela sumiu o carro dela está lá fora no meio da rua com a chave no contato as setas ligadas e ela não está lá não sei o que pode ter acontecido e...
– Calma, porra! Respira, garota! – pediu Vanessa.
Luiza sentou-se no sofá que ficava de frente para a cama da fotógrafa e Clara apareceu no mesmo momento, completamente alheia ao que estava acontecendo.
– Lu, respira e explica o que aconteceu.
Luiza respirou fundo, mas não se acalmou. Tremia como se tivesse recebido um choque elétrico e as palavras saíram desconexas, embaralhadas. Mas foi o suficiente para que Marina colocasse uma roupa, mesmo sem enxugar direito e descer às pressas.
O primeiro pensamento de Clara foi Ivan, o segundo: Carlos Eduardo.
A morena foi até o quarto do filho que estava na suíte tomando banho, pediu que ele ficasse ali e que não saísse. Mesmo sem entender ele obedeceu e terminou o banho.
– Vocês viram pra onde a Giselle foi? – perguntou Marina quando chegou ao portão.
– Desculpe-me senhora, mas não conheço vocês todas pelo nome – disse Diogo.
– Ela tem uma franja assim – disse apontando até onde a franja ia na testa – É magra, tem um carro vermelho pequeno.
O outro segurança permanecia quieto.
– Não precisa mais responder – interrompeu Vanessa olhando o carro vermelho surgir, mas dentro dele estava Flávia na direção.
Um carro de polícia chegou logo atrás e todos foram para sala responder as perguntas dos policiais, mesmo querendo ter as próprias perguntas respondidas.
O saco pinicava em seu rosto e tinha cheiro de casca de batata. O lá dentro daquele pequeno espaço estava quente. Sentiu as canelas bater no que parecia ser uma escada, sentia mãos em seus braços lhe apertando. Ouviu uma porta abrir e ser fechada com delicadeza. Sentiu o corpo ser jogado num colchão e o saco raspou em seu rosto quando foi tirado.
Se remexeu, os braços estavam amarrados tão firme que ao tentar o mínimo movimento as cordas fizeram sua pele arder.
– Até que enfim consegui tirar um tempo para podermos conversar – disse Carlos Eduardo olhando para Giselle. Seus olhos injetados de ódio liquido.
– O que você quer? Já não basta o que você fez com a Clara e com a Marina?
– Relaxa, garota! Ele só vai te dar um recado – disse Rita em pé enquanto lixava a unha.
– Shhhhhhh – pediu o homem com o dedo nos lábios – A conversa é entre ela e eu. Vai buscar uma cerveja pra mim. Você quer alguma coisa? – perguntou deslizando as costas dos dedos pelo maxilar de Giselle.
Ela respondeu dando uma cusparada que o acertou no olho e o fez respirar fundo. Levantou-se da cama e limpou-se com uma toalha encardida pendurada num cabideiro velho.
Giselle reparou que ele mancava e gemia sempre que usava mais a perna que estava prejudicada. Lembrou-se do que Marina havia contado e riu um riso nervoso, porém incontrolável.
– Está rindo do que fedelha? Está achando tudo isso engraçado?
Ele jogou a toalha no chão e sentou-se novamente bem perto de Giselle, passou o polegar áspero e largo pelos lábios, fazendo a bile subir até a garganta dela. Por um momento achou que ele a beijaria. Mas o que veio a seguir lhe deixou com a visão embaçada e com o rosto queimando.
A mão grande e pesada lhe atingiu o rosto deixando-a tonta.
O riso de transformou em lágrimas quentes e grossas que lhe ardiam nos olhos.
– Meu negócio não é com você não, garota. É com a sua prima. Só quero deixá-la esperta. Me diz... Onde que a mãe dela mora?
– Quem te disse que ela tem mãe?
– CALA A BOCA E ME RESPONDE! – trovejou fazendo Giselle se encolher.
Giselle não poderia dizer a verdade. Estaria colocando mais uma pessoa em risco. A dúvida de como ele sabia sobre Anna começou a fazer seu cérebro fritar e ela decidiu que negaria. Mesmo que aquilo lhe trouxesse consequências ruins.
– Não sei do que você está falando.
Um tapa foi dado do outro lado do seu rosto e dessa vez Giselle sentiu o gosto metálico e quente do próprio sangue misturar-se a saliva.
– Me fala onde ela mora e eu deixo você sair daqui – provocou ele segurando o queixo dela.
Giselle não soube de onde tirou coragem e ameçou um chute nas genitálias que acabou acertando a curva que dava final à coxa de Carlos Eduardo e o outro acertou a parte interna dela.
Suprimindo o ódio que lhe fervia o sangue, Carlos Eduardo pegou-a pelos ombros a jogou no chão, batendo no cabideiro e o derrubando no chão.
A porta se abriu e Rita chegou com três garrafas de cerveja. Colocou a sacola no colchão e nem esperou a ordem para servi-lo. O copo ainda sujo com a cerveja que foi tomada durante o dia foi entregue a ele que bebeu numa só golada.
Ele abaixou-se ao lado de Giselle que já não conseguia mais segurar as lágrimas e sentia o corpo doer. O suor lhe escorria pelas costas.
Perdeu o ar quando uma mão de Carlos Eduardo se fechou ao redor de seu pescoço. Fazendo-a se debater.
– Dá um recadinho para a sua prima: Fala pra ela cuidar muito bem da mãezinha dela – e a soltou.
Giselle respirava ofegante, lutando pelo ar tossindo sentindo a garganta raspar e os pulmões.
Carlos Eduardo rasgou um pedaço de silver tape com os dentes e colocou na boca de Giselle. Saiu porta afora junto de Rita, deixando-a completamente no escuro e dessa vez ela não estava com o saco na cabeça.
Giselle tentou se soltar, tentou gritar, mas nada adiantava. Quando tentou levantar, tropeçou em alguma coisa e caiu de cara no chão. Agora o nariz também sangrava. Ficou deitada no chão já cansada de chorar e viu a porta de abrir. Primeiro viu os sapatos de Carlos Eduardo, depois sua face.
Não sabia que horas eram. Quando foi jogada na cama e olhou pela janela quebrada o sol já havia se posto e poderia até achar poético o céu salpicado de estrelas senão fosse a situação a qual se encontrava.
– Vambora, cansei de me divertir com você – disse Carlos Eduardo deslizando o nariz pelo pescoço de Giselle – Como você é cheirosa.
Giselle não disse nada. Apenas sentiu o estômago se rebelar e respirou fundo segurando a vontade de vomitar.
Espirrou quando o saco foi colocado de novo em sua cabeça. Não pensou em gritar em momento algum, agora que já estava cansada, só queria chegar a qualquer lugar seguro e poder colocar para fora todo o desespero que não queria deixar transparecer.
Ficou em silêncio o caminho inteiro. Voltou a respirar melhor quando o saco foi retirado, tentou olhar através da luz difusa da iluminação pública e parecia estar perto da mansão de Marina.
O carro parou e Carlos Eduardo pelos braços.
– Se cuida, gata – disse Rita jogando um beijo e piscando os olhos para Giselle.
– Não esquece do recado que eu deixei para sua prima? – perguntou puxando Giselle para junto de seu corpo.
Ela sentiu a ereção dele entre suas coxas nuas. O choro começou a ficar descontrolado, a boca ficou amarga e ela vomitou. O líquido pegajoso e esverdeado caindo na calça jeans dele e respigando nas pernas dela.
Ele nada disse, apenas olhou fundo nos olhos dela e a jogou no asfalto de paralelepípedo. Ela ouviu os pneus cantando e então gritou. Gritou o mais alto que pode. Usou toda a força do seu diafragma.
Do portão Diogo ouviu e virou o rosto para a direção da onde vinha o grito. Sentiu o portão bater em suas costas quando ele foi aberto. Marina também havia ouvido. Estava sentada no pequeno declive do jardim tentando ligar para Ricardo, pois o sinal da telefonia parecia querer cooperar com os bandidos e não com as mocinhas. Ela jogou o celular no gramado e subiu correndo.
– Liga pra polícia, pede uma ambulância. MEXA-SE – disse com o rosto afogueado correndo junto de Diogo.
Se não tivessem chegado a tempo, Giselle poderia ter sido atropelada por uma moto que por sorte não estava correndo e reduziu ainda mais a velocidade quando viu Diogo e seu tamanho todo fazendo sinal para que ela desviasse.
– Gi, meu Deus! Fala comigo, bebê! Pelo amor de Deus, fala comigo – pediu Marina pegando Giselle em seus braços e chorando.
– F-foi ele, Marina! Foi ele.
E antes de dizer mais alguma coisa, Giselle desmaiou e o grito que ecoou por toda Santa Teresa foi o de Marina.
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