I'll be Waiting Everlasting Like the Sun
23 Blood.
Notas iniciais
E antes de dizer mais alguma coisa, Giselle desmaiou e o grito que ecoou por toda Santa Teresa foi o de Marina.
Ouviu-se várias sirenes e as luzes dos carros de polícia e ambulância bruxuleavam nas paredes e árvores.
Marina voltou para casa sentindo uma faca enfiada em seu peito. Foi acolhida por Clara que também estava assustada, mas parecia a única a conseguir racionalizar no meio daquele mar de emoções.
– Eu liguei para o seu pai e pedi para ele mandar mais seguranças pra casa, amor – disse Clara enquanto acariciava os cabelos da fotógrafa – Não sei mais o que a gente pode fazer. Porque a polícia parece que não está fazendo nada.
Marina apenas assentia em silêncio com a cabeça baixa, encarando os pés descalços.
– Eu vou para o hospital, vocês vão ficar? – perguntou Luiza entrando no estúdio enquanto amarrava o cabelo num rabo de cavalo baixo.
Inquietas, Flávia, Vanessa, Clara, Marina e Luiza não conseguiam ficar sentadas esperando que os exames de Giselle acabassem. Andavam de um lado para outro, às vezes trombando uma na outra, às vezes atrapalhando a passagem de quem só queria atravessar o corredor.
Clara ligou para Anna para saber como Ivan estava. Havia deixado o filho com a sogra para que ele não ficasse sozinho em casa. E Anna informara que os seguranças requisitados haviam chegado e agora tomavam toda extensão da casa, o que não acalmou nem Marina, nem Clara e nem nenhuma das meninas que sentiam-se completamente expostas e inseguras. Mil teorias macabras rondando suas mentes.
– Ela está bem? – perguntou Vanessa assim que viu Mônica aparecer no corredor.
– A Giselle não teve nenhuma lesão mais grave, nada está quebrado, ela vai ficar em observação por hoje e amanhã já poderá ir para casa – respondeu a enfermeira com o braço ao redor da namorada.
– Quero vê-la – disse Luiza.
– Os policiais estão pegando o depoimento, assim que eles saírem eu dou um jeito de deixar vocês irem até lá.
– Obrigada, Mônica – agradeceu Marina.
A enfermeira beijou a face de Vanessa e voltou para o trabalho.
O tempo pareceu se arrastar. Agitou-se um pouco quando Ricardo chegou desesperado querendo notícias da filha.
Foi o primeiro a ver Giselle depois que os policiais foram embora.
– Marina, posso conversar com você um minuto? – disse Ricardo acenando para que a prima chegasse mais perto.
Marina meneou a cabeça e acompanhou Ricardo até as vidraças que lhe mostravam a rua movimentada.
– Eu estou morando num hotel agora porquê... como você sabe...
– Você e a Chica...
– É, e com a Giselle nessa situação, não tem como eu levá-la para casa, porque nem casa eu tenho – ele esticou os lábios num sorriso nervoso acompanhado de Marina.
– Ela pode ficar conosco, Ricardo. Não tem problema.
– Eu sei, você é sempre muito solicita. Mas quero saber se eu posso ficar com a minha filha até que ela melhore. Como não aconteceu nada de mais grave creio que não vou montar acampamento.
– Não! A Giselle fica lá até esse louco do Carlos Eduardo estar atrás das grades. E você não só pode, como deve ficar com a Gi – afirmou Marina sentindo o corpo arrepiar só de pronunciar o nome do ex de Clara – Não quero ninguém sozinha. As meninas já moram lá em casa, minha mãe mora duas quadras de mim e tem seguranças com ela, então fica mais fácil de controlar, sabe?
– Obrigado, Marina!
Ao voltarem para casa, foi difícil driblar a impressa que mais uma vez fazia às vezes de urubu sobre a carniça, querendo o menor depoimento que fosse para dar mais veracidade às teorias que já estavam fundamentadas em especulações. Mas o que ganharam foi o silêncio de todas, que simplesmente não queriam demonstrar o abismo de medo que estava em cada uma.
E Giselle, assim como Marina conversara com ela no hospital, foi para a casa da prima junto do pai. Ainda um pouco assustada passou a noite acordada, com a luz do abajur acesa e os olhos revirando todo o quarto, como se Carlos Eduardo pudesse estar ali.
No outro dia recebeu a visita dos amigos da faculdade e da garota com quem até dias antes estava ficando, deixando Luiza sentada num canto fuzilando ambas com os olhos.
– Eu falei pra ela que... Bom... – Giselle riu tímida – Há tempos uma menina linda tinha roubado meu coração e agora ela sabia disso – explicou assim que todos foram embora.
– Hm – resmungou Luiza ainda de braços cruzados com os olhos focados na TV.
– Para de bobeira e vem aqui – Giselle puxou Luiza pela cintura e a encheu de cócegas antes de enchê-la de beijos.
A campainha tocou e Anna foi atender, ficou parada na porta encarando a figura curiosa que tentava olhar por sobre seu ombro.
– Posso ajudá-la? – perguntou.
– Vó!
Anna olhou para trás e viu Ivan correndo até a mulher que a olhava ainda muda. O menino pulou no colo dela e a abraçou.
– Você deve ser a mãe da Clara... – concluiu Anna – Eu sou Anna, mãe da Marina. – estendeu a mão e Chica demorou um pouco para aceitar o gesto.
Atrás de Chica surgiu Felipe, cumprimentando Anna com beijos e abraços. Deixando a mãe com o bichinho do ciúme lhe corroendo cada pedaço do corpo.
– Você anda muito sumido, menino! – ralhou Anna acariciando o rosto do irmão do meio de sua nora.
– Muita correria, Anna.
– Vocês vão ficar conversando na porta? – perguntou Ivan.
Todos sorriram para o menino e entraram.
Chica ainda esperou um segundo para processar que estava no terreno da inimiga como vinha pensando desde que soubera que Giselle estava lá. Quis visitá-la numa tentativa de se reaproximar de Ricardo. Sentia falta dele. Já não tinha a filha caçula por perto, nem a neta, pelo menos com Ricardo a dor que sentia em seu peito seria amenizada. Olhou cada canto da sala, cada móvel, cada porta-retrato e seus olhos se fixaram numa foto onde a filha e a fotógrafa estavam abraçadas e o neto estava entre elas. A felicidade que havia naquela figura a incomodou como pó de mico na roupa.
– A Clara está no estúdio ajudando a Marina a terminar um ensaio, posso chamá-la...
– Não, eu vim ver a Giselle – interrompeu Chica contrariando o interior que gritava o nome da filha caçula e o coração que palpitava em desespero – Só a Giselle.
– Ela está no quarto com a Luiza, vou chamá-la – disse Anna – Fiquem à vontade. Você já é de casa de Felipe.
– Eu vou falar um oi pra minha mana e pra minha cunhadinha – disse ele colocando a carteira sobre a mesa de centro e indo em direção ao estúdio.
– Que piada mais sem graça, hein? – recriminou Chica.
– Mas eu contei alguma piada? A Marina é a minha cunhada, sua nora e namorada da Clara. O fato de não aceitar, não faz “a coisa” desaparecer – e antes que começasse uma discussão saiu. Ivan seguiu o tio contando como estava sendo divertido ter Marina como madrasta.
– Mas eu a chamo de Marina mesmo, madrasta é um nome feio e a Marina é a pessoa mais legal do mundo – disse o menino.
Chica respirou fundo e balançou a cabeça como se quisesse espantar os pensamentos. “Madrasta... Então o Ivan já sabe... Meu Deus”, martelava em sua cabeça.
– Chica? – a voz de Ricardo tirou a mulher dos devaneios que sempre se metia quando visualizava a fotógrafa e a filha com o título que o filho sempre esfregava em sua cara.
– Ah... Oi, Ricardo. Eu vim ver a Giselle, eu soube do que aconteceu, aliás... Acho que todo mundo está sabendo... Eu ainda não consigo acreditar que o Cadu é responsável por tudo isso... – e antes de o choro convulsionado sacudir seu corpo, Ricardo já estava com os braços ao redor dela – Me desculpa pelos absurdos que falei da sua filha, eu não queria...
– Está tudo bem – garantiu Ricardo apertando-a seus braços – Que bom que você veio.
O barulho de passos nas escadas fez Chica se afastar para enxugar as lágrimas. Seu coração que já estava esmagado em seu peito, conseguiu se contrair ainda mais quando viu a neta descendo junto de Giselle e as mãos de ambas entrelaçadas. Quis levantar e sair correndo, não admitiria que a neta fosse contaminada por aquela coisa que parecia um vírus incapaz de ser controlado. Engoliu em seco. Respirou fundo.
Anna passou por ela sentindo pena por uma mulher que parecia tão esclarecida, mas que não conseguia esconder a feição de nojo quando se deparava com as manifestações diversas do amor. Foi para a cozinha pedir que a empregada fizesse algo rápido para eles.
Chica cumprimentou Giselle ainda com os olhos úmidos. Olhou para o curativo no cotovelo e no joelho, o corpo magro com marcas arroxeadas e a face abatida.
Os olhos de avó e neta se encontraram, e Luiza se lembrou de quando a mãe lhe disse que ela e Chica eram muito parecidas em muitas coisas. Fez questão de afirmar aquilo quando abaixou o olhar e ignorou a presença da avó ali. Deixou Giselle sozinha e foi para a área da piscina tomar sol. Depois que se mudara para lá havia virado rotina colocar biquíni aos finais de semana, nunca sabia quando a vontade de cair na água apareceria.
– Não sei nem o que falar... – disse Chica ainda olhando para Giselle, a mão na boca e a cabeça balançando negativamente – Ele te machucou muito?
– Não, ele só quis me dar um susto, como ele mesmo disse. Na verdade, ele quis que eu mandasse um recado para a Marina... – Giselle ficou pensativa, pois havia se esquecido de alertar a prima sobre o que Carlos Eduardo havia lhe dito.
– Giselle... – chamou Chica – Quero te pedir desculpas por... tudo o que eu falei sobre você para o seu pai... Eu realmente estou com... vergonha. Vergonha de tudo o que eu falei.
Giselle deu de ombros despreocupada.
– Se eu falar que não me magoou estarei mentindo. Mas se você não aceita sua própria filha, porque aceitaria sua enteada, né? – respondeu Giselle naturalmente – E eu não te culpo por pensar assim, você foi criada num contexto histórico completamente diferente e muito mais machista que o de hoje. Mas se eu posso te culpar, eu te culpo por continuar pensando assim, por não querer nem quebrar essa barreira de preconceito que você mesma criou ao redor de você.
– Filha! – chamou Ricardo incomodado.
– Não, deixa-a falar... – disse Chica acariciando o braço dele.
– Se você soubesse o quanto a Clara sente a sua falta e o quanto ela chorou todas as vezes que você a tratou como um nada, talvez isso a fizesse mudar de visão. Eu vou subir, minha cabeça está doendo – disse Giselle se levantando – Obrigada pela visita.
Chica ficou sentada sentindo o coração se esmigalhar.
– Eu trouxe... Uns chocolates para você – disse a mãe de Clara estendendo a embalagem para Giselle.
Giselle agradeceu com um sorriso. Pegou a caixa, deu um beijo no pai e antes de subir para o quarto disse:
– Você ainda não perdeu sua filha, Chica. Mas se demorar, vai perdê-la.
O celular de Ricardo começou a tocar e ao olhar no visor viu que era um dos amigos da companhia aérea para qual trabalhava. Pediu licença e se afastou.
Anna voltou para a sala e estranhou quando viu apenas Chica ali, sentada sozinha e com as mãos unidas como uma prece apoiando a cabeça que estava baixa.
– Chica? – chamou Anna – Está tudo bem?
Chica ergueu a cabeça e deu de ombros. Não saberia responder se tudo estava bem ou não.
Anna serviu dois copos com suco e ofereceu um para Chica que aceitou e deu um bebericada e o suco pareceu pequenos blocos de concreto descendo pela garganta.
– Como foi? – perguntou Chica olhando para Anna que não entendeu o sentido da pergunta – Como foi quando a Marina te contou que... Que...
– Ela é lésbica?
Chica deu um aceno de cabeça.
– A Marina tinha dezesseis anos quando me contou que ficava com meninas – começou a contar Anna enquanto escolhia qual petisco pegar – Foi uma semana bem difícil para mim, não vou mentir, mas eu e a minha filha sempre conversamos sobre tudo. Então quando ela contou que havia se descoberto lésbica ficamos uma semana sem conversar, pois cada uma precisava do seu espaço. E quando essa semana chegou ao fim, eu sentei com ela e disse que nada iria mudar entre nós, que se ela fosse a pessoa de caráter, honesta e verdadeira que eu estava criando, então tudo bem.
– Mas foi assim... Tão fácil? Ela era uma menina – disse Chica.
– Chica – Anna colocou o copo ainda pela metade em cima da bandeja e a encarou tentando ultrapassar as nuvens cinzas daquele olhar perdido – Se eu não estivesse lá pela minha filha quem estaria? Mesmo que no começo eu não entendesse, mesmo achando que era uma fase, eu estou aqui por ela. Tem um mundo contra a Marina e ela precisa de um lugar seguro se acontecer alguma coisa e eu sou esse lugar seguro.
Chica se levantou e começou a andar de um lado para outro aos prantos. O olhar voltado para cima, esperando alguma luz divina, querendo conforto para o seu coração, querendo tirar aquela angústia que lhe atormentava desde o dia em que dera um tapa em Clara.
– Minha filha era casada com um homem, ela tem um filho... Como... Isso não é certo, Anna – explodiu Chica.
– Errado seria se ela continuasse se enganando, vivendo uma vida que não era a que ela queria. Vivendo uma vida que não era ela, entende? Você acha que é fácil mentir para você todo santo dia? Acha que esconder um sentimento tão bonito quanto o amor é fácil? A Marina me contou todo o calvário que passou até a Clara voltar pra ela e mesmo sem ver sua filha, Chica, eu sabia que ela era só mais um produto da criação machista e homofóbica que recebeu.
Chica a olhou indignada, mas nada disse. Sabia que era verdade, não tinha o que contestar.
– Se você deixasse o seu preconceito de lado por cinco minutos e olhasse para a minha filha e para sua, você veria que ali não há nada imoral, pecaminoso ou errado. Ali só há amor, companheirismo, sinceridade, lealdade...
Risadas interromperam Anna. Chica passou as mãos no rosto mais uma vez limpando as lágrimas e logo avistou a filha e Marina abraçadas, rindo junto de Felipe, da ruiva que havia esquecido o nome e da morena alta que parecia modelo. Quando chegaram na sala, as risadas morreram e Marina apertou ainda mais Clara em seus braços.
A morena e Chica se olharam. Clara sentia saudade do colo da mãe, do abraço que lhe aconchegava e lhe trazia paz, chegou até a se soltar dos braços de Marina, mas desistiu de dar um passo à frente. Se Chica estava ferida, Clara estava duas vezes mais. Não passaria por cima do próprio orgulho. Era sua mãe, mas se Chica havia se esquecido de que tinha uma filha, Clara também havia se esquecido que tinha uma mãe. E na verdade, até aquele encontro estava vivendo bem sem ela.
– Vou levar essas coisas para a cozinha – disse Anna pegando a bandeja e sinalizando com a cabeça para que a filha a seguisse e deixasse Clara e a mãe sozinhas.
– Eu preciso ir embora – anunciou Chica quase fazendo com que Anna derrubasse a bandeja – Vamos Felipe – chamou pegando a bolsa em cima do sofá.
Felipe engoliu a vergonha que sentia da mãe naquele momento e beijou irmã e cunhada, depois beijou Vanessa, Flávia e Anna. Chica já estava do lado de fora, esperando por ele.
– Parece que eu falei tudo isso para as paredes – disse Anna num tom áspero e indignado – A sua mãe é muito cabeça dura, Clara. Muito.
– O que aconteceu, gente? Vocês brigaram? – quis saber Vanessa.
E então Anna deixou a bandeja na cozinha e ao voltar colocou as meninas a par da conversa que havia tido na sala.
– Que dia longo – disse Marina girando os ombros numa tentativa frustrante de relaxá-los – Parece que eu nunca mais vou conseguir sentir paz.
Clara estava sentada na cama com a cabeça apoiada na cabeceira olhando para cima. Um duelo dentro de si. Um lado a culpando por tudo, outro lado a isentando de toda desgraça que se abatera sobre a fotógrafa. Um choro silencioso comprimiu sua garganta que já estava fechada. Sentiu o colchão ondular quando a fotógrafa sentou e então fechou os olhos numa tentativa de Marina não ver seus olhos rasos d’água. Mas não durou muito, as lágrimas desceram pelos cantos dos olhos.
Clara levantou a cabeça e olhou para Marina que nada disse. A dor e o medo nos olhos delas já diziam tudo. Abraçaram-se, os braços e as mãos apertando-as, querendo fundir os corpos. Cada uma querendo roubar para si a dor da outra.
– Me desculpa, isso é tudo minha culpa... – disse Clara entre os cabelos de Marina.
– Nós já conversamos sobre isso, olha pra mim – Marina limpou o rosto de Clara e o segurou entre as mãos – Eu não mudaria nada, nada na nossa história. Cada vez que eu acordo e te vejo ao meu lado eu tenho certeza que tudo que passamos valeu a pena e que eu te quero para sempre ao meu lado. Clara... Você não tem culpa se o seu ex-marido é um louco psicopata, você não tem nada a ver isso.
Clara discordava e sentia como se a culpa lhe açoitasse as costas.
– A gente vai colocar esse desgraçado atrás das grades – disse Marina fazendo com que Clara a olhasse novamente – Eu faço o que for pra ver ele pagando por tudo isso.
– O que a gente vai fazer? – perguntou Clara com a voz fraca encostando a testa à testa de Marina.
– Não sei, meu amor... Não sei. Mas nós vamos pensar juntas e a gente vai conseguir achar uma solução, tá? Prometo! Ele não vai mais fazer mal pra ninguém.
Uma batida foi dada à porta e Marina deu um pulo colocando a mão no coração disparado.
– Sou eu, desculpa – disse Giselle entrando.
– Todo mundo anda assustado nessa casa, normal – disse Clara abrindo os braços para Giselle que engatinhou na cama e abraçou a irmã-postiça de volta.
– Preciso conversar com vocês – disse Giselle sentando na cama e encarando irmã e prima.
– Não sei se é possível, mas acho que estou sentindo mais medo do que já tenho – disse Marina querendo sorrir, mas não conseguindo.
– Esqueci de falar pra vocês que o Cadu deixou um recado pra você, Marina.
– O que aquele escroto disse? – perguntou Marina.
– Ele falou para você cuidar da sua mãe.
O ar tornou-se rarefeito e Marina empalideceu na hora recostando-se em Clara. A pressão baixa fez nascer em sua testa gotículas frias de suor e seus olhos transbordaram no mesmo instante em que as lágrimas desciam.
– Não, a minha mãe, não! – gritou Marina descontrolada – Como ele sabe que eu tenho mãe? Como ele sabe que...
– Marina, está tudo bem? – perguntou Ricardo da porta.
– Entra, primo! – pediu ela. Foi até a porta e chamou por Vanessa também e depois por Flavinha. Luiza assustada com a gritaria também apareceu.
– Onde é o incêndio? – perguntou Vanessa coçando os olhos cansados.
– O que está acontecendo, gente? – perguntou Luiza.
– A gente vai embora daqui, ficar uns dias fora. Quero todo mundo comigo – anunciou Marina com as mãos na cintura pegando todo mundo de surpresa.
– Que? Como assim, amor? – perguntou Clara gesticulando com as mãos para que Marina continuasse a falar.
E então a fotógrafa apoiou a coluna na cômoda azul que ficava de frente da sua cama, contou o que Giselle acabara de falar e disse o seu plano. Ouviu a contestação de Vanessa, a dúvida de Luiza, mas no final todos concordaram. Não era o mais correto, o mais sensato, mas era o mais prático e o mais necessário, porque a fotógrafa não aguentava mais ver as pessoas que amava machucadas.
Angra dos Reis
– Quantos dias a gente vai ficar aqui, mãe? – perguntou Ivan brincando com os grãos de areia nas mãos.
– Uma semana, duas... Um pouco menos... O tempo que for necessário, filho – respondeu dando um beijo nele.
– Até prenderem o meu pai?
A pergunta pegou Clara de surpresa e ela, um pouco receosa, meneou a cabeça concordando.
– Você sente falta dele, filho?
Ivan passou a areia de uma mão para outra e negou olhando os grãos caírem entre seus dedos.
Marina havia decidido levar todo mundo para Angra dos Reis. Era longe, a casa que o pai havia construído para ela ficava bem afastada da ilha, só de helicóptero para chegar até lá. Foi a única alternativa que encontrou no momento em que Giselle anunciou que Anna, provavelmente, seria a próxima vítima do psicopata. Não entendeu a estratégia dele, e nem quis pensar muito nisso, já estava assombrada demais.
Vanessa contestou a decisão pois não queria ficar longe da namorada, assim como Flavinha e Marina tinha voltado a trabalhar há pouco, o dinheiro acabaria e a comida também e como fariam depois?
– A gente não vai ficar lá para sempre, Vanessa – disse Marina – Precisamos só de um tempo longe daqui, preciso proteger vocês, me proteger.
E então todos concordaram. Como Ricardo passava mais tempo voando do que em terra firme, ele não foi com elas para Angra. Abraçou a filha apertado quando soube que justo naquela semana faria um voo particular para Amsterdã. Giselle garantiu que ficaria bem, mas o pai não se sentiu seguro.
Marina avisou o pai da decisão e Diogo concordou, dispensando os seguranças e enviando apenas cinco deles para a ilha. Diógenes era um deles. O pai da fotógrafa também aproveitou para pedir um monitoramento das linhas telefônicas da casa, pois Marina e Clara haviam recebido ligações há algum tempo. O segurança, xará de Diogo, havia anotado a placa do carro branco que vira. Não sabia se era o carro de Carlos Eduardo, mas suspeitou. Mesmo quebrando as regras da polícia, o pai de Marina tinha suas influencias, era respeitado, honesto e sempre que precisava de ajuda sabia com quem contar. E quando se tratava de sua filha (e até de sua ex-esposa), não media esforços para mover céus e terras por ela.
Assim que chegaram em Angra, Diogo avisou a filha de que haviam descoberto onde era o esconderijo de Carlos Eduardo.
– É no Catete! – informou Marina enquanto comiam a sobremesa após o jantar – Meu pai falou que se a polícia não agir em vinte quatro horas, ele mesmo vai dar um jeito nisso.
– Seu pai é louco, filha! Fala pra ele entregar essas informações para a polícia – disse Anna angustiada.
– Você o conhece, mãe. A gente fala não e ele fala sim. Não adianta.
– Pelo menos aqui estamos seguras, né? – disse Luiza dando um sorriso para Giselle e recebendo uma piscada em troca.
– Eu estou segura, mas não estou feliz – disse Vanessa contrariada – Preferia ter ficado insegura e com a minha enfermeira.
– É o amooooor, que mexe com a minha cabeça e me deixa assim – cantarolou Clara fazendo a colher de microfone e arrancando gargalhadas de todas.
– Está acabando, Van. Calma, logo a gente volta pra casa. Faz um dia que estamos aqui, não vai durar para sempre.
E Marina tinha certeza, não duraria para sempre.
E Vanessa estava errada, não estavam seguras.
Diógenes ligou para Carlos Eduardo assim que aterrissaram em Angra dos Reis. O arrependimento que sentira quando viu o que aconteceu com Giselle, sumiu no mesmo instante em que o colega havia lhe falado quanto lhe daria se tudo corresse como o combinado.
O sol descia no horizonte desenhando seu alaranjado nas ondas azuis do mar. Ivan chegava na garupa do jet ski de Vanessa, que vinha logo atrás de Flávia e Luiza. Anna e Giselle tiravam a areia do corpo no chuveiro que ficava ao lado da piscina. As peles ardendo em consequência de quererem recuperar o bronzeado.
– Gostou do passeio, Ivan? – perguntou Marina tirando-o do jet ski e desabotoando o colete salva-vidas que o protegia.
– Adorei! É muito da hora, Marina. Da próxima vez você tem que ir com a gente – disse o menino empolgado.
De longe Clara observava o cuidado da fotógrafa com o filho, sorrindo encantada com a cena.
– Você também, mãe! Vocês duas tem que ir – disse ele chegando perto de Clara.
– Que tal amanhã? – sugeriu Clara erguendo a mão no alto.
– Fechado – respondeu o menino batendo a mão pequena na mão da mãe.
Mais um dia se findava e assim que voltaram para o casarão, Marina ligou o notebook para fazer uma videoconferência com o pai e saber das novidades enquanto Clara e Anna faziam o jantar.
– Ele fugiu, filha! – disse Diogo do outro lado com um olhar desapontado.
Marina suspirou cansada daquela brincadeira de gato e rato e seus olhos se umedeceram.
– Calma, meu amor! Nós vamos achá-lo. Alguma notícia oficial da polícia?
– Ah! – suspirou jogando-se na cadeira – Eles só falaram que descobriram que o Cadu roubou todo o dinheiro do Galpão e por isso conseguiu o carro e conseguiu não morrer depois que eu enfiei a faca no pé dele.
E além de culpado por tentativa de homicídio, Carlos Eduardo estava sendo acusado de desviar para sua conta não tudo, mas dinheiro suficiente para deixar o Galpão no vermelho por meses.
– Filha, agora eu preciso desligar, mas fique tranquila. Prometo que vou fazer tudo para livrá-las desse fantasma.
– Obrigada, pai! Por tudo. Te amo, boa noite ou bom dia.
– Boa noite para você e bom dia pra mim – respondeu Diogo mandando um beijo para a filha que enquanto ia dormir – pelo menos era o que ele achava –, do outro lado do mundo ele começaria mais um dia de trabalho.
Anna apareceu na porta do quarto e chamou pela filha, que calçou os chinelos e foi para a mesa que já estava posta e farta.
Todas conversavam e riam, como se ali naquele pedaço do paraíso todos os problemas desaparecem ou fossem solucionados sem qualquer esforço. Sentiam que tudo estava em ordem e que logo poderiam seguir em paz com suas vidas. Marina não contou que Carlos Eduardo havia fugido, não queria estragar o clima que estava à mesa. Apenas fixou-se no momento em que estava vivendo e registrou com sua câmera fotográfica ocular cada olhar e sorriso e guardou em sua memória todos eles.
– Cadê a grana? – perguntou Diógenes assim que viu Carlos Eduardo surgir entre as folhagens.
O ex-marido de Clara olhou para os dois lados, certificando-se de que só Diógenes estava ali. Caminhou sentindo as ondulações do trecho de paralelepípedo sob os sapatos e parou de frente para o segurança.
– Quanta felicidade para um lugar só – disse ele observando de longe, a casa que era quase toda de vidro dando uma visão privilegiada para ele – E realmente, a mãe da Marina é gostosa para caralho. Dá até para brincar um pouco antes de chegar ao gran finale.
– Cara, passa logo a grana que eu quero sumir daqui.
Carlos Eduardo deu um sorriso e disse:
– Diógenes, muito obrigado pelos seus serviços.
E antes que o segurança pudesse correr, reagir ou gritar, sentiu a camiseta empapada do sangue que jorrava de sua garganta após Carlos Eduardo atacá-lo em sua jugular de uma só vez. Diógenes ainda levou as mãos ao pescoço e caiu de joelhos, olhando em meio ao breu para o homem que tinha a faca com seu sangue nas mãos. O corpo já sem vida caíra de lado. Ele puxou o cadáver pelos braços até os coqueiros que estavam a dois passos dali. Jogou-o entre as folhas e então partiu para o seu plano que seria o último.
– Que foi, amor? – perguntou Clara passando hidratante no corpo.
– Nada... Achei que... Nada. Só ouvi um barulho lá fora – respondeu a fotógrafa indo até a porta de correr que levava para a varanda e fechando. Trancou e puxou as cortinas.
– Devem ser os seguranças, calma.
Clara deitou-se ao lado da fotógrafa e beijou seus lábios com a mesma malícia das mãos que a arranhavam nas costas.
– Ainda bem que o quarto fica bem afastado – disse Marina entre os beijos, rolando para cima de Clara.
A morena impulsionou o corpo para frente, empurrando Marina; tirou a blusa que a fotógrafa vestia e fez o mesmo com a sua. Ficou entre as pernas brancas e pintadas e tirou a calcinha fazendo-a deslizar numa falta de pressa agonizante. Marina trocou de posição de Clara que não contestou, apenas afastou as pernas e deixou que a fotógrafa também tirasse a sua. Encaixou-se entre as pernas torneadas e bronzeadas, deixando que o desejo comandasse seu corpo que parecia leve e prestes a flutuar de tanto tesão.
Marina debruçou-se sobre Clara que apertava os dedos na carne das costas quando sentiu a pressão no sexo com a coxa que deslizava com a umidade que se intensificava a cada rebolada que a fotógrafa dava.
Clara soltou um gemido nos lábios de Marina que sugou a língua quente e molhada e depois deslizou os lábios pelo queixo e pescoço.
– Aaaah, Marina... – sibilou Clara em êxtase.
– Isso, geme pra mim, goza pra mim – retrucou Marina sentindo o sexo entrar em erupção ao ouvir seu nome sendo dito com tanto despudor e lascívia.
Foi Clara quem sentiu o arrebatamento do gozo primeiro, cravando seus dentes no ombro de Marina, num grito abafado e contido. Após o arrebatamento atingir Marina também, ela debruçou-se sobre a morena, os peitos tremendo com os corações acelerados.
– Vou pegar uma coisa – avisou Clara depois de se recuperar. Marina observou o corpo malhado se afastar. O rebolado provocativo, as curvas harmoniosas sob a meia luz aguando a boca que queria passar a noite provando cada pedaço.
Um baque surdo. Um barulho de coisa se arrastando.
Clara olhou para Marina que deu de ombros. Afinal de contas eram só os seguranças. A morena tirou da mala o strap-on que havia sido usado nela dias antes e o vestiu, virou-se de frente para a fotógrafa que apenas mordeu o lábio e afastou as pernas de modo convidativo.
A faca escorria sangue que formava um rastro pela casa mal iluminada. Ele entrou descalço, andando com cuidado para que nenhum barulho acordasse as moradoras e acabasse com sua festa particular. Riu quando se deu conta de que os seguranças estavam apenas do lado de fora da casa.
Abriu a primeira porta que encontrou e viu o filho dormindo, poderia começar por ali, mas seu alvo não era Ivan. Não o principal. Deixou a porta encostada e abriu a que ficava em frente. Luiza e Giselle seminuas com as pernas entrelaçadas.
– Que visão maravilhosa – sibilou sentindo a animação movimentar seu pau entre as pernas.
A porta do lado estava entreaberta, e alguma coisa dizia que ali estava quem ele queria. Abriu e encontrou quem procurava.
Anna dormia com três travesseiros ao redor de si e o ar-condicionado quase a 0 grau. Ele não acendeu a luz. Tirou do bolso um lenço e o umedeceu com sonífero, as gotas do líquido misturando as gotas do sangue escuro.
A faca foi colocada em sua cintura e ele caminhou como um leão que espreita sua presa. Subiu na cama no mesmo momento em que Anna despertou e antes de gritar, o pano já estava em seu rosto. Ela se debateu, tentou chutar quem ela não enxergava, mas logo perdeu as forças e o corpo ficou à mercê de Carlos Eduardo.
– Abre a boca – pediu Clara em cima de Marina. O strap-on descendo e subindo com suavidade no sexo da fotógrafa.
Marina obedeceu e as papilas gustativas sentiram o bico do seio de Clara deslizar sobre elas.

Marina o envolveu com seus lábios tirando um suspiro abafado da morena.
Clara pegou o objeto fálico com uma mão e o posicionou na entrada da fotógrafa, fazendo-a morder seu seio. Marina a puxou pela nuca, chamando-a para um beijo de lábios, línguas e dentes.
Enquanto sentia seus lábios entre os lábios de Marina, Clara a adentrou e o gemido agudo estremeceu seu corpo que movimentou-se para frente e para trás num ritmo calmo, que fazia Marina enlouquecer a cada segundo.
Clara a puxou pelas costas, sentou-se na cama e colocou Marina em seu colo.
– Rebola pra mim, minha gostosa – falou depois de deslizar a língua pela orelha de Marina.
Enquanto Marina rebolava, subia e descia no objeto, Clara a beijava pelo pescoço, mordiscava cada pedacinho da pele já avermelhada. Sugava os seios, os apertava com as mãos que pareciam ter vida própria.
A fotógrafa passou os braços ao redor de Clara e embrenhou-se entre a cascata marrom, gemendo no ouvido da morena e sentindo o corpo desfalecer quando o orgasmo explodiu.
– Deliciosa, gostosa – falou Clara acariciando com mãos e boca o corpo suado.
Marina saiu de cima do objeto que Clara tirou e jogou em qualquer lugar. Deitaram-se na cama entre carícias e beijos.
– Você que é deliciosa – disse Marina usando a ponta da língua para acariciar o mamilo intumescido – Gostosa – falou agora apertando a bunda – Quero chupar você inteira, meu amor.
– Me chupa então, vai... – respondeu virando o corpo para cima – desce... – pediu abrindo as pernas.
– Sua safada – falou Marina rindo e descendo até o ponto inchado.
Clara estremeceu quando sentiu a boca de Marina tomar seu sexo. Rebolou na língua que girava em seu clitóris e inclinou-se para frente, jogando o corpo no colchão novamente quando sentiu-se ser penetrada por sabe-se lá quantos dedos. Só sabia que se não soltasse os cabelos de Marina naquele momento, eles sairiam em seus dedos.
Marina ritmava dedos e língua, sentindo as texturas, o calor, os barulhinhos que os dedos faziam quando entravam e saiam e saboreava toda a extensão do sexo.
– Marina... Oh... Ma... rina... – dizia Clara delirando, sentindo os nós dos dedos arderem enquanto enrolava o lençol nas mãos.
Marina afundou os dedos o quanto pôde e então Clara gozou em sua boca. A morena poderia jurar que sentia o sangue correr em alta velocidade por suas veias, parecia lavas vulcânicas, o corpo suado tremia e o peito subia e descia na tentativa de recuperar o ar.
– Adoro quando você geme meu nome, sabia? – confessou Marina acariciando as linhas faciais de Clara – Adoro saber que sou dona do seu prazer, do seu gozo... – a beijou transferindo para ela o próprio gosto que ainda dominava seus lábios.
– Você é dona do meu prazer, do meu gozo, do meu amor... Sou sua, Marina – respondeu Clara a penetrando com dois dedos.
Marina passou uma perna por cima de Clara para facilitar o acesso. Olharam-se com intensidade enquanto Clara se movia dentro dela.
– Agora sou eu que quero ouvir você gemer – disse a morena mantendo os dedos dentro de Marina, mas descendo com os lábios para sorver todo o desejo que melava seus dedos.
– Eu também quero ouvir você gemer. Ma-ri-na.
Como se recebesse um golpe direto nos pulmões, Clara ficou tonta. Não queria acreditar, não queria... Mas então as luzes se acenderam e ainda nuas as duas viram a figura a sua frente. O rosto suado, sujo de terra e sangue, a faca também com sangue que parecia seco.
Clara levou as mãos à boca, e mesmo sentindo o cheiro entorpecedor de Marina invadir suas narinas, todo o tesão e a fome que sentia pela fotógrafa havia se esvaído.
– Cadê a minha mãe? – perguntou Marina procurando a camiseta que deveria estar em algum lugar daquela cama bagunçada.
– Sua mãe – disse ele andando devagar e pegando o strap-on que estava aos seus pés – Está num bom lugar agora. Não se preocupe – disse ele com o objeto na mão – Vocês não gostam de um pau, mas usam isso aqui? O meu está aqui, pronto pra ser usado se quiserem – então apertou a calça destacando sua ereção.
Clara sentiu um looping no estômago e quando pensou em gritar, Carlos Eduardo pegou Marina pelos cabelos e a colocou junto de seu corpo, a faca quase encostando em sua garganta.
– SOLTA ELA!! – gritou Clara partindo para cima deles, mas parou quando a faca pressionou a pele fina do pescoço.
– Coloca uma roupa e vem comigo – disse ele mantendo Marina firme em seus braços – Está quase amanhecendo, vamos andar um pouco de barco.
Clara seguiu na frente. Abriu as cortinas e a porta de correr. Deu uma rápida olhada para trás e viu Marina chorar em silêncio, avistou dois seguranças do lado esquerdo na ponta da casa. Gritou, saiu correndo pedindo socorro e então ouviu barulho de tiros. Reconheceu a menina que para ela era inofensiva, atirar nos seguranças que caíram inertes. Rita subiu no iate que Marina havia comprado na época que ainda namorava Vanessa e a fotógrafa ouviu o barulho do motor.
Lá dentro da casa houve gritaria. Luiza caiu ao escorregar no sangue que tinha em frente à porta do quarto. Gritou horrorizada. Foi abraçada por Giselle que seguiu o rastro assustada, o coração lhe tirando o ar e a deixando tonta. Poderia sair de seu peito a qualquer momento. Foram até o quarto de Ivan que perguntou o que estava acontecendo.
– Ivan, tranque a porta e só sai daqui quando alguém vier te buscar, tá? – disse Luiza dando um beijo no menino que perguntou pela mãe e começou a chorar, mas acabou trancando a porta e se escondendo debaixo da cama.
– Cadê a Anna? – perguntou Flávia amarrando o hobbie.
– Gente! Tem sangue no quarto da Marina, a cama está bagunçada – disse Vanessa pálida e tentando controlar o tremor de medo que percorria seu corpo.
Todas correram para o quarto de Marina e saíram pela porta aberta, tirando do meio do caminho as cortinas que dançavam com o vento que entrava. Viram o iate se afastar e Vanessa gritou o nome da fotógrafa tão alto que sua garganta raspou. Giselle pegou o telefone que tinha no quarto da prima e ligou para a polícia, explicou o que estava acontecendo, falou com certeza quem era o principal suspeito.
Vanessa que não tinha fé alguma, de repente se viu de joelhos no gramado. Olhou para o mar e começou a pedir a todas as forças superiores que não deixasse nada demais acontecer com Anna, Marina e Clara.
Anna acordou zonza. Ainda sentia o cheiro forte arder em seus pulmões e levou a mão à cabeça que parecia pesar toneladas. Levantou-se e a visão embaralhada parecia também alucinante. Pois quando abriu os olhos viu Marina e Clara sentadas com as mãos e os pés amarrados. Mas até minutos atrás estava na cama, dormindo o sono dos justos, o que...
Então um flash, forte como um raio, acendeu-se em sua mente e ela lembrou-se de um homem entrando no quarto. Tentou controlar a tontura apoiando-se na parede, queria ajudar a filha e a nora, mas caiu de joelhos e sentiu a lateral do corpo bater em algum ferro, sentiu gotículas frias atingirem seu rosto. E então seu corpo foi erguido e alguma coisa fina e mais fria que as gotas pararam em sua garganta.
– O que está... Marina? – Anna apertou os olhos para ter certeza de que estava enxergando direito.
– Cala a boca, coroa. Senão acabo com você agora – disse a voz grossa segurando-a como havia feito com Marina e arrastando Anna para bem próximo da proa do iate.
– Solta ela. Faz o que quiser comigo, mas deixa ela livre, por favor... – implorava Marina aos prantos – Não faça nada com ela... Eu te imploro!
– Muito comovente – respondeu sorrindo – Mas não... Você roubou o que eu tinha de mais precioso! VOCÊ ROUBOU O QUE EU MAIS AMAVA – gritou salivando ódio e rancor – Acho justo fazer o mesmo com você!
– Seu doente! – gritou Clara.
– Até me xingar ela xinga agora, antes ela me amava, me adorava...
E Anna sentiu gotas quentes cair em seu ombro.
Carlos Eduardo estava chorando. Chorando como Marina também fazia, chorando como havia visto tantas vezes nos filmes e seriados que assistia.
– Eu nunca vou te perdoar, Marina! NUNCA! – vociferou – Ritinha! Para o barco, acho que aqui está bom para deixar a sua mamãezinha descansar – disse olhando para Marina.
Anna ainda não entendia muito bem o que estava acontecendo. A cabeça girava, queria correr, se debater, gritar, mas o corpo não obedecia aos comandos do cérebro.
– Diga o quanto a ama, Marina! Depois você não vai mais ver sua mãe. Aproveita que eu estou sendo legal – disse com um sorriso de canto.
– Não faz isso... – foi a única coisa que ela conseguiu dizer.
– CARLOS EDUARDO, COLOQUE SUA ARMA NO CHÃO E MÃOS PARA CIMA!
Luzes brancas surgiram no céu e Carlos Eduardo viu outros dois barcos surgirem na direção do iate que estava desligado.
Ficou assustado. Sentiu medo pela primeira vez, mas não se deixou ser dominado por ele.
A polícia do barco repetiu o aviso pelo megafone.
– Se vocês se aproximarem eu mato a coroa e todo mundo que está aqui – gritou olhando para o helicóptero que estava acima de sua cabeça e olhando para os barcos que tentavam cercá-lo.
Clara não conseguia pensar, aceitaria a morte se aquele fosse o seu fim, aceitaria a vida se a terceira chance lhe fosse concedida. Olhou para Marina que tinha os olhos inchados e sussurrou:
– Te amo, eu vou te amar para sempre.
– Eu também amo você, também vou te amar para sempre.
Marina arrastou o corpo para mais perto de Clara e a beijou dizendo eu te amo repetidas vezes e ouvindo o mesmo.
– Obrigado por antecipar a ida da sua mãe dessa para uma melhor, sua sapatão desgraçada – disse Carlos Eduardo quando viu as duas se beijando.
Posicionou a faca no mesmo lugar onde havia posicionado no pescoço de Diógenes e antes de dar o golpe final o barulho do tiro foi dado.
Rita saiu correndo da cabine e atirou de volta. O disparou que veio em sua direção atingiu-lhe em cheio no coração e ela caiu de olhos abertos próxima a Marina que gritou.
E a fotógrafa continuou gritando quando ouviu outro tiro e viu a roupa da mãe tornar-se vermelha. Lembrou-se do batom que sempre usava, das flores que havia recebido, do próprio sangue que saiu de sua pele quando foi vítima daquele monstro.
– NÃOOOOOOO! – foi a única coisa que disse quando viu Carlos Eduardo cair junto de Anna na água.
De onde estava, Marina e Clara viram o mar que começava a receber os primeiros raios de sol, tornar-se vermelho.
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