I'll be Waiting Everlasting Like the Sun
24 Peace.
Notas iniciais
Leblon – 5h01
– A sua filha está lá no meio e você não consegue simplesmente deixar esse preconceito idiota de lado pelo menos um minuto?
– Se ela não tivesse se bandeado para o lado dessa... Dessa... – respirou fundo controlando a vontade de sair chutando tudo o que visse pelo caminho – Nada disso teria acontecido. Ela que escolheu, ela que aguente.
Virgílio e Helena não pararam de discutir desde o plantão da madrugada anunciara o que estava acontecendo em Angra dos Reis. Foi Felipe quem viu assim que chegou em casa de mais um plantão e ligou a TV, como sempre fazia. Gostava de ouvir um barulho enquanto tomava banho e se ajeitava para dormir. Caiu sentado na cama quando viu a foto da cunhada e da irmã aparecendo na tela da TV. Sentiu o coração afundar quando ouviu o nome do ex-cunhado ser anunciado. Saiu do quarto tentando não demonstrar o desespero que crescia com força dentro de si.
Bateu na porta do quarto da irmã e ligou a TV para que ela visse com os próprios olhos. Ao contrário de Virgílio que ficou desesperado, Helena apenas balançou a cabeça como se concordasse com tudo aquilo e deu de ombros. Foi ao banheiro e voltou para a cama. Virgílio a sacudiu pelos ombros exigindo uma reação, uma emoção qualquer, mas Helena não disse nada.
O marido surtou, quase partindo para cima dela, mas resolveu gastar a energia em preces para proteger a filha e todas que estavam na ilha. Foi ai que ele colocou para fora suas emoções e a discussão com Virgílio durou até a chegada de Chica.
– O Ricardo acabou de me ligar e está voltando para o Brasil – disse Chica amarrando o hobbie e passando a mão nos cabelos bagunçados – Não saiu nenhuma notícia do Ivan? Meu neto deve estar lá também.
– Ainda não, mãe. Não saiu nada – falou Felipe chamando-a para sentar ao seu lado.
– Hoje... – Chica engoliu o choro, mas logo ele voltou ainda mais forte, deixando-a fria e obrigando o filho a pegar um aparelho para medir a pressão que se mostrou baixa.
Rosa trouxe um pouco de sal e Chica colocou debaixo da língua, ficou deitada um pouco no sofá enquanto ouvia a filha mais velha resmungar. Colocou a mão na testa, massageou as têmporas e sentou-se.
– Eu não quero mais ouvir você falando nada, NA-DA, nem da minha neta e nem da minha filha mais nova – disse Chica apontando para a Helena – Eu quase perdi a minha filha uma vez, por culpa minha – Virgílio e Felipe que nada sabiam sobre o quase desligamento dos aparelhos ficaram encarando a matriarca com pontos de interrogações ao redor de suas mentes – E agora eu quase a perdi de novo... Isso tudo não está acontecendo à toa, não está...
– Você está defendendo depois de tudo o que aconteceu? Depois de a sua filha ter corrompido a minha filha? – interrompeu Helena apontando o dedo para a mãe. Os olhos faiscando ódio.
– Eu não te dei o direito de falar – disse Chica revidando o dedo apontado – Sou sua mãe e quando eu falo – dedo bateu em seu peito – você – e voltou a indicar Helena – fica calada.
Helena prendeu a respiração e ficou quieta, assim como os outros presentes na sala.
– Muito bem – continuou Chica recompondo-se – Eu não aceito a escolha que a minha filha fez, não entendo como ela pode... pode gostar de uma mulher e eu nem quero pensar nisso agora, eu só quero a minha filha, a minha Clara e a minha Luiza de volta. Eu estou perdendo as pessoas que eu mais amo nessa vida por causa desse... – a palavra ficou presa em sua garganta por alguns minutos – ...preconceito. E... – assumir que tinha preconceito foi como sentenciar sua liberdade – Eu não quero mais ser escrava desse sentimento horrível. Eu não posso mais perder as pessoas que eu amo por causa dele – a fragilidade e o medo atingiram Chica novamente que caiu de joelhos no chão chorando compulsivamente, batendo as mãos espalmadas no carpete felpudo.
Felipe notou o quão fria e trêmula a mãe estava, estava com o rosto bastante vermelho a pulsação estava lenta. Pediu que Chica se deitasse no sofá enquanto ia pegar seu aparelho para medir a pressão. A pressão estava muito baixa e Chica já não conseguia responder de maneira coerente. Tinha os olhos vidrados no teto e as lágrimas continuaram a escorrer pela lateral de sua face.
O filho então colocou a mãe na cama onde Luiza dormira até o dia em que resolveu sair de casa. Medicou-a e ficou ao lado dela esperando o efeito do remédio que era um sono profundo e tranquilo.
Quando voltou para sala apenas Virgílio estava sentado no sofá tomando o café quente que Rosa fizera.
Angra dos Reis – 5h58
De onde estava, Marina e Clara viram o mar que começava a receber os primeiros raios de sol, tornar-se vermelho.
A fotógrafa não queria acreditar, aquilo não poderia ser verdade. Sua mãe não poderia ter sido vítima da incompetência do policial. O grito agudo e desesperado ecoou gradativamente, vibrando seu peito que ardia de dor da possibilidade de nunca mais ter a mãe ao seu lado e Clara chorava em silêncio enquanto notava uma equipe de resgate cair no mar e a outra vir até ela e Marina.
Foi Clara que teve os braços e as pernas livres primeiro, desesperada não esperou que a paramédica tirasse as cordas de Marina, ela mesma usou sua força para afrouxar as amarras e assim que se viu livre a fotógrafa correu até a proa do barco, Clara a segurou pela cintura impedindo que ela também se jogasse na água.
Cobertores foram colocados nas costas de ambas e a paramédica pediu que elas voltassem a se sentar para que fossem examinadas. A inquietude de Marina exigiu um sedativo que a fez apagar no colo de Clara.
O primeiro corpo foi resgatado antes de chegar ao fundo do mar, estava branco como um fantasma, o sangue ainda escorria em linhas finas pela roupa suja e molhada. O segundo corpo, aparentemente sem vida, também muito pálido foi colocado junto do outro no barco da polícia.
O corpo de Rita foi colocado dentro daquele saco preto que Clara via nos filmes.
O vento frio fez com ela pegasse Marina e a levasse para dentro do barco enquanto voltavam para a casa. Apertou os olhos para a luz do sol que começava a trazer um novo dia. Desejou tranquilidade, paz, recomeço. Desejou o fim daquele pesadelo.
Assim que desceu do barco Clara viu as meninas que estavam ainda com roupas de dormir, descabeladas mesmo com eles presos em coques e rabos de cavalo, e olhos inchados de chorar e falta de uma boa noite de sono. Assim que viu o seu pequeno entre elas saiu correndo e o pegou nos braços, o menino gemeu tamanha intensidade do abraço que recebera, tentava corresponder à altura, mas não conseguia. Clara colocou o filho no chão e abraçou todas as meninas que junto dela choraram apenas. Não havia palavras suficientes para explicar tudo o que viveram e tudo que estava sentindo. Por estar muito nervosa e agitada, Marina recebeu uma dose de calmante e um dos paramédicos a trouxe na maca e a colocou na cama, enquanto a perícia fazia o seu papel e os outros corpos eram retirados dali.
Flávia e Vanessa, junto de Luiza e Giselle voltaram para dentro da casa para organizar suas bagagens, voltariam naquele mesmo dia para o Rio de Janeiro. Ivan ficou junto da mãe olhando o sol subir no céu, não queria sair de perto dela, ainda estava assustado pelo sangue que viu nos corredores.
– Clara, o Carlos Eduardo quer falar com você — disse a paramédica num tom sério se aproximando. — Ele está dentro da ambulância algemado, não precisa se preocupar.
Clara tirou o filho do colo e o olhou, mesmo sem perguntar nada Ivan fez que não com a cabeça. Ele já se sentia órfão de pai muito antes daquele dia.
– Eu estarei aqui fora – avisou quando chegaram.
Clara concordou com a cabeça e entrou enquanto a loira com uniforme de mesma cor da ambulância sentava no meio fio chutando os cascalhos.
Ela entrou e ficou em pé ao lado do homem que tentava tirar a máscara de oxigênio, mas tinha dificuldade. Ela não se compadeceu, deixou que ele se virasse.
– Se nem a sua compaixão eu merece mais, acho que é porque... — tossiu uma tosse seca que Clara desconfiou ser encenação — Eu realmente errei.
Ela segurou a vontade de gargalhar e abriu a boca para manda-lo para o inferno, mas ele a interrompeu.
– Eu... Estou muito arrependido, quero te pedir perdão por tudo o que eu fiz.
A gargalhada continuou presa na garganta.
– Vai pro inferno, cara — respondeu Clara — Sabe o que faz com esse pedido de...
Clara sentiu uma fisgada em sua perna e quando olhou para baixo viu uma seringa em sua coxa. Sentiu as vistas embaralhar e um sorriso nascer nos lábios dele. Mas não se entregou, urrou de dor quando tirou a seringa e sentiu o líquido correndo em suas entranhas.
Do lado de fora a paramédica caminhou em passos rápidos, chegou a tempo de ver Clara em cima de Carlos Eduardo, aos berros, proferindo palavras de puro rancor e ódio. Puxou-a pela cintura e sem relutar Clara cedeu. Já estava feito.
A loira sentiu falta de ar quando viu o sangue pingando da garganta do homem que dava seus últimos suspiros enquanto piscava lentamente com uma seringa no olho e tentava, inutilmente, tirar o bisturi ensanguentado da garganta. Tossiu mais uma vez, expeliu seu sangue escuro pelos lábios ressecados e então seus olhos ficaram parados no ar e o peito subiu e desceu mais uma vez, num suspiro derradeiro.
Estava acabado.
1 mês depois.
Clara andava de um lado para outro com o telefone na orelha e o tablet na mão, anotando ensaios e entrevistas. Ela e Marina concordaram em dar entrevistas para pouquíssimas emissoras, não queriam ficar relembrando o que haviam vivido, porém queriam dizer a todas as mulheres que elas tinham poder nas mãos, que mesmo que o mundo dissesse o contrário, elas eram donas de suas vidas e de suas vontades e o mundo precisava ser enfrentado e enfrentá-lo por amor (fosse qual fosse a forma de amar) era necessário e transformador.
Após muitos protestos de Marina, de Clara e Ivan, Anna colocou a própria casa para aluguel e se mudou para a casa da filha.
A mãe da fotógrafa que recebera no ombro o tiro de raspão que acertou Carlos Eduardo, também precisou de tratamento para estresse pós-traumático, mesmo que não demonstrasse sinais como Marina. Mais uma vez nora e filha se colocaram ao lado de Anna e Zahra a atendeu.
Marina queria fazer alguma coisa com a experiência que tivera, queria transformar aquilo em algo maior. Após uma conversa com Zahra e de fazer alguns contatos, a fotógrafa junto de profissionais da saúde, abriram um centro de tratamento pós-traumatico para pessoas que não tinham condições de pagar psicólogos e psiquiatras.
O centro que tinha no nome as iniciais de Clara e Marina, no geral, ficava acessível para a maioria dos cariocas. Havia recebido muitas propostas para construí-lo e para mantê-lo. A influência de Marina ajudou muito para que o centro saísse do papel, mas foi a sua história junto com Clara que o engrandeceu.
E elas estavam cada vez mais unidas, apoiando-se mutuamente em tudo que pensassem. Não tinham segredos, não havia omissões, só havia amor, uma paixão que queimava cada dia mais.
Clara, apesar de o médico dizer que não era mais necessário, continuava anotando tudo o que lembrava, tudo o que sentia e havia transferido tudo o que tinha escrito para um notebook que comprara com o dinheiro que havia conseguido com a venda dos móveis do antigo apartamento. Comprara seu próprio carro e cada dia se sentia mais viva no estúdio com Marina que vez ou outra permitia que a morena tirasse algumas fotos.
– Amor, você tem um olhar tão... Particular, minimalista... Poderia investir e me fazer companhia — disse Marina certo dia.
– Jamais chegarei aos pés de Marina Meirelles — brincou a morena.
Luiza e Giselle assumiram o namoro que todas já sabiam que acontecia, até Ivan já sabia que entre elas estava acontecendo alguma coisa que o fez questionar a mãe certa vez:
– Eu vou ter que namorar meninos também?
Clara riu acariciando os cabelos claros.
– Claro que não meu amor. Você vai namorar quem você quiser e se quiser também. Somos livres para fazer o que bem entendermos.
Mesmo depois de todo terror em Angra dos Reis, ao contrário da mãe, Helena não se tornou nem um pouco flexível. Culpava ainda mais Marina e Clara pela — o que ela chamava — de "escolha" da filha. Luiza mantinha contato apenas com o pai e com Rosa que se mostrou mais compreensível que Helena.
Chica apareceu certo dia de surpresa no estúdio de Marina. O ensaio que acontecia era para uma campanha de primavera/verão de biquínis e maiôs.
A mãe de Clara entrou pelas portas de correr que estavam abertas, dando a luminosidade natural que era a preferida da fotógrafa. Marina havia deixado Clara finalizar o ensaio enquanto ela e Vanessa acertavam outros detalhes.
Assim que Marina a viu, ficou na defensiva, mas Chica pediu num gesto para que elas não falassem que ela estava ali. Queria que Clara a notasse ali, sentisse sua presença.
Marina pediu que Flávia e Vanessa, juntamente com ela, saíssem do estúdio e as deixasse a sós quando o momento chegasse. Na ponta dos pés as três saíram, interceptando Giselle no caminho.
Clara estava tão compenetrada que tirava a câmera da frente do olho apenas para pedir que as modelos mudassem de posição. Ajoelhou-se, deitou-se no chão, ficou de cócoras e então levantou-se e desligou a câmera.
– Por hoje é só meninas, depois a Vanessa entra em contato com vocês para falar sobre o pagamento.
As meninas disseram sim, pegaram suas coisas e foram para o vestiário, que após a reforma ficava ali mesmo no estúdio, no anexo superior atrás de uma porta.
Clara tirou a câmera do pescoço e a colocou sobre o carpete. Chica ainda a observava. A morena prendeu os cabelos num coque e ia se sentar, mas precisava saber se Ivan já havia feito os deveres de casa. Quando virou-se seu coração vibrou e mesmo notando um brilho diferente nos olhos da mulher a sua frente Clara permaneceu exercendo seu lado frio e indiferente.
– O que você quer? — perguntou pegando a câmera do chão e a colocando sobre a mesa. Mexeu no notebook, pois ainda tinha que enviar um e-mail para fechar mais um trabalho.
Chica sentiu o corpo esfriar e não precisou de muito para entender o porquê de a filha estar agindo daquela maneira.
– Vim conversar com você, saber como estão as coisas depois de tudo... — disse Chica quebrando o silêncio e indo em direção a Clara.
– Agora você se importa? — perguntou ainda mexendo no notebook.
– Clara... Filha... Olha pra mim.
Há tempos Clara não ouvia a mãe lhe chamando de "filha" e isso a desarmou tão facilmente que ela segurou muito a vontade de se jogar nos braços de Chica.
– Me... — Chica também já não conseguia segurar as lágrimas e nem fazia questão — Desculpa... Me perdoa! Eu não queria ter te machucado tanto com as minhas palavras, com as minhas atitudes. Todos os dias, desde que você veio pra cá eu pensava em você e em tudo que aconteceu. Tudo o que eu provoquei, mas era mais fácil te ignorar, te... Machucar porque eu estava machucada também. Eu tive minhas expectativas anuladas e você como mãe sabe que criamos expectativas em cima dos filhos, por mais errado que seja.
Clara apenas concordava com um aceno de cabeça, queria deixar a mãe falar tudo o que quisesse, só depois então se pronunciaria.
– Eu não lidar com isso, com essa sua escolha.
– Não é escolha — disse num impulso.
– Tá vendo? Eu não sei lidar, entender essas coisas e aí vem a Luiza e fala que fica com meninos e meninas... Como...? Como isso acontece? Eu quero entender, eu quero saber como lidar com isso... Eu quero vocês... Eu preciso de vocês comigo de novo. Eu sinto tanta a falta de vocês...
E nenhuma palavra mais saiu da boca de Chica. Ela apenas sentou na cadeira quando o choro explodiu em seu peito e a deixando fatigada. Clara ajoelhou-se em frente a ela e deitou a cabeça nos joelhos da mãe.
Chica tocou nos cabelos da filha e debruçou-se sobre ela pedindo perdão repetidas vezes. Choravam copiosamente, sem pausas. Abraçadas daquele jeito desajeitado, porém muito próximo.
Clara se levantou e viu o lápis e o rímel manchando a calça clara de Chica que deu de ombros. Já haviam se estranhado tanto, Chica não repreenderia a filha por uma simples mancha em sua roupa.
– Eu senti tanta saudade do seu abraço, dos seus conselhos, da sua comida — Clara riu passando a mão abaixo do nariz — Você fez muita falta... — ela sentou no colo de Chica e os braços da mãe a envolveram pela cintura.
– Eu vou precisar da sua ajuda, preciso entender... — disse Chica matando a saudade de acariciar o rosto da filha — Eu só não quero mais ficar sem você e a Luiza na minha vida.
– Nós temos todo o tempo do mundo, eu vou te ajudar.
– Clara, já mandei o Ivan para o banho e... Desculpa! Não sabia que você tinha visita – disse Anna parando em frente a elas e tentando disfarçar os pontos de interrogações que surgiam em sua mente.
– Vocês já se conhecem... – disse Clara.
– Oi, Anna. Como vai? – perguntou Chica dando um aceno de cabeça.
E Marina apareceu no estúdio junto no mesmo momento em que Anna respondia Chica. Havia corrido até a mãe para impedi-la de atrapalhar o que quer que estivesse acontecendo no estúdio.
O clima tornou-se silencioso e desconcertante.
– Chica, o jantar vai ficar pronto daqui a pouco, quer jantar conosco? – perguntou Anna abrindo um sorriso e olhando para Clara.
Mãe e filha se encararam e então a mãe respondeu:
– Acho que vou aceitar sim, o Ricardo foi viajar e eu fiquei sozinha... – deu um sorriso amarelo.
Anna e Chica saíram na frente conversando muito diferentemente da primeira vez em que se viram. Estavam com a guarda baixa e na verdade nem havia mais guarda para se manter.
– Pelo sorriso lindo que você tem posso concluir que você e a Chica se acertaram? – perguntou Marina com as mãos no rosto de Clara.
– Está tudo perfeito agora, meu amor! Agora – Clara puxou Marina pela cintura e lhe roubou o fôlego num beijo – tudo está perfeito.
Era mais um dia de trabalho de estúdio, mas parecia mais uma festa. Todas estavam com suas namoradas e não sabiam se trabalhavam ou se trocavam beijos e carícias. Até Luiza deixou de estudar para as provas finais e ficou ali, olhando Giselle trabalhar.
– Marina Meirelles, seu aniversário está chegando e eu quero saber qual será o traje da festa – disse Maria Carolina acarinhando o braço de Flávia que estava em seu colo.
– A festa vai ser particular – disse Clara dando uma piscada sexy para Marina – Podem tirar o cavalinho da chuva.
– Estraga prazeres você, hein Clarinha? – disse Mônica.
– Dependendo da pessoa ela não estraga os prazeres não – disse Marina fazendo todas rirem.
– Dá uma segurada ai, Marina. Ela é tímida, vocês esquecem que ela não é pervertida como vocês? – disse Vanessa deixando uns papeis de lado para abraçar Mônica que estava vermelha igual a um pimentão.
– Desculpa, eu esqueço – disse Marina separando as lentes que usaria naquela sessão.
Uma buzina soou longe, Vanessa saiu pela porta acompanhada de Flávia e ambas viram o carro preto ganhar o jardim. As modelos daquela sessão haviam acabado de chegar.
A ruiva as direcionou para o estúdio, explicou onde elas poderiam se trocar e se maquiar. As quatro mulheres muito altas e de tonalidades diferentes de pele desejaram bom dia para quem estava presente no estúdio e Clara não as viu e nem ouviu, estava concentrada montando o cenário junto de Giselle.
– Eu vou vir aqui todos os dias – disse Maria Carolina não conseguindo disfarçar o olhar para as pernas nuas.
– Vai mesmo, Maria Carolina Scobbi? – Flávia estava na porta de braços cruzados.
A loira deu um sorriso enorme e soltou uma gargalhada.
– Uhum... – disse levantando e indo até a morena – Só porque você está aqui.
– Você se situe, hein? Senão eu quebro todos os seus dedos – ameaçou Flávia não querendo rir junto com Maria Carolina.
– Quem vai sair no prejuízo vai ser você, Flavinha – disse Clara descendo da cadeira e a colocando de volta de onde havia tirado.
– Vou deixar você trabalhar, anjo. Preciso estudar para aquela matéria suuuuuper legal ainda – disse Luiza com os braços ao redor do pescoço de Giselle.
– Tudo bem, depois eu vou lá te encher o saco – respondeu num roçar de lábios – Amo você.
– Também amo você.
– Vocês são as mais lindas do mundo – disse Mônica com a cabeça de lado e sorrindo.
– Não mais lindas do que nós duas – disse Marina abraçando Clara por trás.
– Vamos parar de conversa e trabalhar? – disse Vanessa assim que viu as modelos descendo a escada – Meninas, podem ir para o centro e vamos começar.
Clara atravessou o estúdio sem olhar com atenção para as modelos, pegou o controle remoto e ligou o som colocando na playlist que ela e Marina fizeram certo dia.
– Vou colocar as músicas que quando eu escuto lembro de nós – disse Clara.
– Vai ser a playlist mais melosa e mais linda do mundo – respondeu a fotógrafa.
Sorrindo ao se lembrar Clara tomou o seu posto e parou, o sorriso que antes era grande tornou-se incerto. Os olhos pretos que a encaravam estavam arregalados e os lábios se abriram num sorriso para ela.
De longe Marina olhava tentando entender o que estava acontecendo ali. Não estava gostando daqueles olhares, muito menos daquele sorriso enorme que a negra alta de black power dava para Clara. A fotógrafa abriu a boca para dizer que iriam começar, mas a modelo foi mais rápida e a interrompeu.
– Clara? Clara Fernandes? Irmã do Felipe e da Helena? – perguntou ela incrédula. – Clara... – a modelo pensou mordendo o lábio e segurando a risada – ...judoca?
Marina olhou para Vanessa e Flávia, fez sinal com a mão para que esperassem. Queria saber de onde elas se conheciam. Mônica se encolheu na cadeira e Maria Carolina ajeitou os óculos de grau e endireitou o corpo. Adorava cenas como aquela. Giselle pegou uma das luzes que Marina usaria e a posicionou ao lado de Clara.
As duas explodiram em risadas e caminharam em direção uma a outra. Abraçaram-se o que para Marina foi um tempo desnecessário e eterno.
– Deixei de ser judoca faz tempo, Lóri – respondeu Clara depois desfazer o abraço.
A modelo ia abrir a boca, mas Marina se pôs em frente às outras modelos, e Vanessa as posicionou.
– A gente já vai começar – disse Marina encarando a modelo por cima dos olhos sem nenhum humor na voz.
– Depois a gente vai conversar, Clara linda! Agora eu preciso trabalhar – disse a modelo indo para o seu lugar e jogando um beijo no ar para a morena que sentiu o rosto queimar e queria enfiar a cabeça na terra como um avestruz.
Clara autoflagelou-se mentalmente.
Marina fechou a boca que estava aberta num “O” indignado. A modelo havia chamado Clara por um apelido que desconhecia, e ainda tinha anexado um “linda” ao nome da sua mulher. Fazia tempo que Marina não sentia tanto ciúme, e nem sabia que era capaz de senti-lo com tanta intensidade. Respirou fundo e ligou a câmera.
A fotógrafa sentiu a mão e depois os lábios de Clara em seu ombro, mas a morena precisaria de muito mais para acalmar a fera.
Fale com o autor