Notas iniciais
Capítulo novinho =) Enjoy it.

Era a terceira noite que Clara não dormia bem depois de ter um beijo roubado por aquela que para ela era tão estranha quanto a falta das memórias que agora ocupava uma grande parcela de sua mente.
Cadu jogou o braço por cima de seu peito e ela acariciou os grossos pelos do braço do marido, enquanto os olhos vagavam no vazio do breu. Olhou para o relógio de cabeceira e ele dizia que um novo dia já estava chegando. E pela terceira vez Clara acompanharia o espetáculo do nascer do sol.
O despertador soou às 7h00 e Clara, já de pé, foi ao quarto do filho acordá-lo. Beijou os cabelos loiros e ganhou braços ao redor de seu pescoço e um pedido de “só mais um pouquinho, mãe”. Que foi negado com Clara pegando Ivan no colo e o tirando da cama.
– Mô, vamos ter que tomar café na casa da Helena. Tô atrasadão pra uma reunião com os fornecedores lá do bistrô – disse Cadu quando Clara voltou para o quarto despindo-se de sua camiseta para colocar uma saia e uma blusa mais justa.
– Algumas coisas não mudam nunca, né? – perguntou Clara sorrindo, referindo-se aos cafés na irmã que eram feitos dia sim, outro também.
– É só porque hoje – Cadu foi até a esposa e a beijou rapidamente nos lábios enquanto abotoava a camisa – Eu estou com o dia cheio. Mas antes das 19h00 eu estou aqui, tá?
– Leva o Ivan pra escola.
Cadu resmungou alguma coisa, mas depois de Clara ter voltado para ele, estava submisso a todas as suas vontades.
Apontou na porta do banheiro e fez sinal positivo com a cabeça para o pedido da esposa.
Quando chegaram à casa da irmã mais velha de Clara, a mesa já estava quase completa, parecia mesmo que só faltava Clara, Cadu e Ivan para completá-la.
Clara ainda sentia os olhares de preocupação, a “paparicação” excessiva ao seu redor... Era uma atmosfera que já estava se tornando incômoda. Ela era muito paparicada e mimada não só pela mãe, mas também pelos irmãos por ser a mais nova. E apesar desse título já estar entalhado em seu ser, naquele contexto, aquilo não fazia mais tanto sentido. Clara não se sentia mais tão necessária de cuidados, mesmo que ainda estivesse perdida em quem era e quem fora antes de rolar pela escada e ter todas as suas memórias roubadas.
Aos poucos cada um foi seguindo rumo à sua rotina. Cadu saiu para levar Ivan à escola e depois seguiu para sua reunião. Luiza foi para a faculdade acompanhada de Alice, Virgílio para suas artes. Apenas Helena e Chica ficaram no apartamento junto de Rosa que foi lavar a louça.
Clara folheava umas revistas aleatoriamente. Não queria voltar pra casa onde havia se tornado um lugar tão solitário e cheio de perguntas que ela não sabia como responder. Ela estava tão alheia ao mundo externo que não sentiu quando mãe e irmã invadiram o espaço.
Clara ergueu os olhos e deu um sorriso para a matriarca dos Fernandes enquanto pegava outra revista. O título que estava em destaque na capa lhe chamara a atenção: Saiba tudo sobre regressão e seus benefícios. Foi até as páginas onde a matéria e começou a ler o texto por cima. Iria começar pelo começo, mas a mãe havia lhe feito uma pergunta, cuja resposta ela precisava dar.
– Oi, mãe?
– Perguntei como foi com a Giselle e o passeio de vocês. Não nos falamos depois daquele dia. Você viu a... – a voz de Chica tremeu, denunciando seu medo em concluir a pergunta.
– A Marina? Sim, eu... Eu a conheci sim.
Não muito diferente da voz da mãe, a voz de Clara estava instável e ao se lembrar dos olhares que foram de carinho a decepção em pouco tempo, Clara se viu obrigada a respirar fundo e não demonstrar o quão abalada ainda estava. Aproveitou o gancho jogado por Chica e tentou obter da mãe algumas respostas. Ainda no silêncio, Clara notou que mãe e irmã trocaram um olhar que pareceu preocupado com o encontro que acontecera. As respostas... Ela precisava mesmo delas.
– Vocês conhecem a Marina também? Ela é prima da Gi...
– Ah... Nós a vimos algumas vezes só – respondeu Helena desconsertada olhando para mãe de rabo de olho.
– Eu e ela éramos amigas? Porque vocês estão se olhando tanto? Estão me escondendo alguma coisa? – alterou-se Clara jogando a revista sobre a mesinha de centro.
– Não, filha. Não estamos escondendo nada. É só... Você e a Marina não eram amigas, ela até tentou, mas você se afastou dela depois que... – Chica colocava a mentira para fora como se aquilo fosse a maior verdade a ser apresentada.
– Depois do que mãe? Fala logo!
– Ela é estranha né, filha? Você não percebeu isso quando foi lá ontem? O Cadu está sabendo que você foi lá?
– Estranha por ser lésbica? Não vejo nada de estranho nisso – respondeu Clara deixando Chica inquieta e receosa quanto ao encontro da filha com a fotógrafa – Só queria saber mesmo... Não aconteceu nada demais e o Cadu nem pode sonhar que estive lá, então se vocês puderem ficar de boca calada, eu agradeço.
Clara achou melhor deixar aquele assunto encerrado ali mesmo. Não havia ficado satisfeita com as respostas que havia conseguido e sabia que não conseguiria mais nada que lhe fosse aproveitável. Não dá mãe ou dá irmã que pareciam se incomodar mais do que ela mesma com o nome de Marina Meirelles.
A morena voltou a ler a matéria da revista que havia jogado na mesa de centro se atentando a cada palavra aqui grafada.
– Achei interessante isso aqui – disse Clara mostrando a matéria para mãe e para irmã – Será que funciona com memórias perdidas?
– Talvez sim – respondeu Helena tomando gentilmente a revista da mão de Clara e folheando a matéria – Acho que seria uma boa.
– Eu acho que não!
Clara e Helena olharam para a mãe assustada com o tom de voz dela.
– Porque não? Vocês estão me tratando como se eu fosse uma criança. Ridículo isso. Se pode me fazer bem, se pode me ajudar, porque é que eu não faria?
– Essas coisas podem ser mito, minha filha. Coisa de charlatão.
Clara revirou os olhos e se levantou do sofá.
– Irmã, aonde está indo?
– Pra casa. De onde eu nem deveria ter saído – respondeu saindo pela porta e a fechando sem tanta delicadeza.
Clara chegou em casa e usou o notebook do marido para procurar mais sobre regressões e os seus benefícios ou possíveis malefícios.
Quando terminou de sanar todas as suas dúvidas, já estava na hora de buscar Ivan na escola e o almoço ainda nem tinha sido planejado. Pensou em voltar à casa de Helena para almoçar, mas ao pensar no desgaste emocional que tivera horas antes desistiu.
Tomou um banho rápido, pegou as chaves de seu velho jipe e praguejou quando a partida teve que ser dada mais do que duas vezes. Algumas coisas realmente não haviam mudado, e o desleixo com o carro, da parte do marido, era uma delas.
Enquanto Ivan a atualizava sobre o dia na escola, Clara decidiu parar n’O Galpão para almoçar junto do marido.
Quando viu esposa e filho entrando no estabelecimento, Cadu parou o que estava fazendo indo de encontro Clara e Ivan, abraçando-os de uma só vez.
– Viemos almoçar com você – disse Clara ajeitando o cabelo grisalho do marido.
– Ótima ideia – disse o homem levando-os até uma mesa – Podem pedir o que quiser, se quiser batata frita, pode pedir, filhão.
Ivan olhou para a mãe pedindo autorização ao mesmo tempo que se esquivava do falso carinho do pai.
– Só hoje hein, cara? Não vai abusar de porcaria, não – disse Clara.
De longe a assistente de Cadu acompanhava a cena família que transcorria em harmonia. Quase deixou o copo que secava cair de sua mão quando sentiu o ódio lhe invadir as veias.
Quando Ivan já estava terminando o segundo sundae perguntou à mãe se poderia ir ver o ensaio de hip hop que estava acontecendo ali perto. A mãe autorizou e o menino foi.
– Cadu, já ouviu falar sobre regressão? – perguntou Clara tomando o que havia sobrado do sundae do filho.
O marido negou com a cabeça.
– Eu estava lendo mais cedo a respeito e é um processo de relembrar o passado, tanto coisas positivas quanto negativas. Acho que isso me ajudaria. Acho não, tenho certeza.
Cadu balançou a cabeça negativamente com um pequeno sorriso de canto de lábio. Lambeu a colher de sua sobremesa e encarou Clara.
– Isso é besteira, Clara. Essas coisas não funcionam.
– Como você sabe? Já fez regressão pra saber?
– Não fiz e nem preciso pra saber que isso é charlatanice da pior qualidade. Esquece isso.
– Não, eu já esqueci coisas demais – respondeu Clara sem olhar o marido pegando a bolsa que estava no braço na cadeira.
– Onde você vai? – perguntou Cadu confuso seguindo Clara.
– Vou embora pra casa com o meu filho – respondeu ela indo até Ivan e o chamando.
– Você não vai atrás dessa história de regressão, né? – interrogou Cadu segurando Clara pelo braço.
Clara agitou o braço tirando-o da mão de Cadu e se aproximou o suficiente para sentir a respiração dele em sua pele.
– Porque eu não iria? Tem alguma coisa lá atrás que eu não posso saber?
Cadu olhou tão rápido para a assistente que seus olhos doeram.
– Não.. É só que... Mô, reviver pra que remexer em lembranças ruins? Isso só vai te fazer mal.
Clara achou melhor dançar no ritmo da música do Cadu. Antigamente o marido costumava apoiá-la em tudo que pensava fazer. Mas depois que havia acordado, Clara percebeu que Cadu tinha muito tato para tratar de qualquer assunto, e quando esse assunto dizia respeito as suas lembranças, o tratamento era bem diferente. Havia um pouco de frieza na voz, um brilho estranho no olhar que ela não conseguia identificar o que era.
– Tudo bem. Realmente foi uma ideia idiota – disse Clara concordando apenas da boca pra fora. Sua decisão já estava tomada e não haveria ninguém que lhe faria mudar de ideia. Já estavam se metendo demais na minha vida, concluiu.
– Isso. Deixa as coisas acontecerem naturalmente – e então Clara viu nos olhos do marido a nuvem cinza se dissipar instantaneamente. E os braços que a envolveram estavam muito mais fortes. Clara poderia estar viajando nos seus pensamentos, mas aquilo lhe pareceu muito estranho.

No dia seguinte, Clara acordou antes de todo mundo e preparou o café. Quando marido e filho acordaram a mesa já estava preparada e carregada de coisas nutritivas e saborosas.
Clara ficou encostada à pia da cozinha enquanto observava o marido e o filho se alimentarem. Notou que Ivan quase não interagia com o pai como era de costume. Não conversavam sobre futebol, escola. Estavam em silêncio. E o menino mal olhava para o pai.
– Não vai comer, mô? – perguntou Cadu olhando para Clara enquanto a xícara com café fumegante ia aos seus lábios.
– Já comi – respondeu ela saindo da pia e indo até o filho – Vamos, Ivan. Senão daqui a pouco nos atrasamos.
– Deixa que eu levo o Ivan na escola hoje.
– Não, não. Pode deixar que eu levo, depois eu busco.
Cadu deu de ombros e depositou a xícara na mesa. Beijou esposa e filho e saiu.

Clara deixou Ivan na escola e partiu rumo ao instituto Antônio Carvalho.
Aquele foi o local escolhido para iniciar sua sessão de regressão. Havia ligado no dia anterior, enquanto Cadu estava no bistrô e agendou um horário. Não sabia se faria a regressão, mas mesmo assim foi para saber um pouco mais sobre aquilo.
Na recepção havia uma moça loira de óculos azuis diante do computador que perguntou o nome de Clara e pediu que ela aguardasse por um tal de Márcio. Ele faria a sessão dela.
Passado vinte minutos, Márcio apareceu na porta. Negro alto, musculoso e com um sorriso simpático nos lábios.
– Vamos lá, Clara?
Clara olhou ao redor um minuto e depois de respirar fundo entrou na sala.
Sentou-se de frente para Márcio e sentiu mais confiante diante daquele sorriso amistoso.
– O processo de regressão de memória é simplesmente, o fato de relembrar o que está registrado no mais profundo do seu inconsciente, por meio de técnicas mentais utilizadas em um relaxamento profundo, que faz reviver todas as lembranças do passado, positivas ou negativas – começou a explicar Márcio – Em um estado de consciência, haveria dificuldade de lembrar, principalmente em relação aos detalhes de vivências anteriores. Normalmente, fazemos regressão até a vida intra-uterina.
– Não, isso não me interessa. Eu queria lembrar de coisas que aconteceram há um ano porquê... – Clara foi interrompida por lágrimas que saltaram de seus olhos sem aviso, sem consentimento e sua respiração ficou acelerada fazendo-a tremer – Porque eu perdi minha memória de um ano atrás, não lembro de nada. Nada...
– Calma! – Márcio pousou a mão na mão de Clara e ela, desejando um pouco de calmaria que fosse aceitou o gesto – Aqui nós não fazemos milagres, nem aconselhamos sobre nada. Só desejamos que os nossos pacientes encontrem as respostas que procuram. É isso que você quer?
– Sim. É isso que eu quero.
– Ótimo. Nossas sessões duram de 1h30 a 2h00 sendo possível uma interrupção antes no caso de você ficar muito agitada.
– Tudo bem. Vamos começar.
Márcio então estendeu uma esteira de palhas no chão. Ligou o som que começou a tocar uma música instrumental calma, com acordes de violino e harpas. Cortinas foram fechadas, mas sem deixar o ambiente num total breu. Eram claras permitindo que a luz do dia passasse pelo tecido.
Clara deixou na esteira e permaneceu de olhos fechados.
– Clara, nesse primeiro momento quero que você se concentre apenas nos barulhos ao redor. Esqueça tudo o que está lá fora. Concentre-se na sua respiração. Deixe-a num ritmo único e tranquilo.
Clara meneou a cabeça levemente e seguiu os passo a passo.
No começo foi difícil se desligar de tudo que havia acontecido nos últimos dias. Principalmente com as imagens de Marina se misturando as suas novas memórias.
Aos poucos Clara sentiu o corpo relaxar e sua mente se esvaziou de tudo que havia armazenado desde que havia acordado. Assustou-se e abriu os olhos.
– Calma! Pode ficar tranquila. Você está indo bem – garantiu Márcio sentado nos calcanhares ao lado dela.
– Ok.
Então Clara recomeçou. Dessa vez foi mais fácil e sentiu que havia mesmo fugido de tudo que estava lá fora. A viagem agora seria dentro de si.
– Continua respirando calmamente – orientou Márcio – Você é casada? Tem filhos.
– Tenho... Tenho marido... E um filho... – respondeu entre uma respiração e outra.
– Bom. Consegue visualizar a casa onde moram?
– É um apartamento no Leblon...
– Você é feliz lá?
Clara então sentiu como se tivesse aterrissado em seu apartamento. Mas não abriu os olhos para se certificar. Estava presa àquela imagem. Mas estava diferente. Estava barulhento. Havia uma agitação. Ivan... Ivan parecia chorar... O que está acontecendo.

FlashBackOn

– Você é um filho da puta. Como você pode fazer isso? Como você pode fazer isso comigo, Carlos Eduardo – gritava Clara aos prantos.
– Amor, me desculpa. Foi só aquela vez, eu juro. Nunca aconteceu nada antes, nem depois – afirmou o marido tentando chegar perto de Clara.
– Sai de perto de mim, seu filho da puta, mentiroso. Sai!!!
Clara ouvia Ivan chorando em seu quarto. Correu até o filho e pediu que ele fosse pra casa de Helena. Odiava brigar e ainda mais xingar perto do filho. Ivan saiu correndo porta afora.
– Eu não acredito que você fez isso comigo... Não acredito. Porque, Cadu? Porque? – perguntou Clara sentada no sofá, encarando o homem que parecia pouco arrependido a sua frente.
– Foi um momento de fraqueza. Eu ju...
– Fraqueza? Você tem coragem de dizer pra mim que foi fraco? Logo pra mim, seu desgraçado? Eu tenho sido a pessoa mais forte do mundo depois que a Marina apareceu na minha vida. Eu – Clara estalava a mão no próprio peito – Eu tenho segurado a minha vontade e o meu tesão de me entregar pra ela porque EU te respeito. Eu tenho consideração por você. Mas você pelo jeito está pouco se fodendo pra mim ou pra tudo que vivemos.
– Então quer dizer que as minhas suspeitas estão certas, neh? Você e a Marina...
– Não vem querer se colocar de vítima da situação, não. Eu nunca me deitei com a Marina, nunca sequer a beijei... – Clara começou a andar de um lado para o outro enquanto as lágrimas pingavam no chão acarpetado – Eu nunca te trocaria por uma aventura. Nunca.
Cadu foi até Clara e tentou abraçá-la. Clara relutou, mas acabou se entregando aos braços do marido, chorando em seu peito definido.
– Me desculpa, meu amor. Juro que aquilo nunca mais vai acontecer – disse Cadu simulando uma voz amargurada enquanto de sua voz saia arrependimentos tão falsos e doces que ele mesmo acreditou no que dissera – Vamos esquecer tudo isso, vamos esquecer a Marina. Me perdoa?
Clara se afastou olhando-o nos olhos. Perguntando-se se deveria dar uma segunda chance ao marido, perguntando-se se não deveria simplesmente jogar tudo pro alto e se entregar aquela moça de batom vermelho e olhos intensos que conhecera um mês atrás... Sua cabeça começou a girar, girar, girar... E antes que explodisse abraçou forte o marido. Dizer que sentia qualquer por Marina pode ter sido apenas por raiva. Talvez ela não sentisse nada aquilo que dissera. Que confusão, Clara... Que confusão! Repreendia-se mentalmente.
– Espero que essa tenha sido a primeira e última vez. E se eu estou te dando uma segunda chance saiba que o Ivan tem uma grande parcela de culpa nisso – disse Clara indo para o quarto.
Cadu esperou a esposa virar as costas e pegou o celular.
– Relaxa, está tudo bem por aqui. Estou perdoado – disse ele para a voz do outro lado da linha – Melhor não nos encontrarmos hoje, pra não dar muito na cara. Deixa pra amanhã, no mesmo lugar, gostosa!
Cadu desligou o celular e colocou no bolso. Foi para o quarto sentindo-se vitorioso.

FlashBackOff

Clara se debatia e gritava. As lágrimas desciam pela lateral de seu rosto como cachoeiras. Márcio a chamava para a realidade, mas ela não o ouvia. Se sentia presa. Os punhos cerrados batiam na esteira.
Não, não... Isso é mentira. Falava Clara quando viu, ainda em seu inconsciente, Cadu e sua assistente no bistrô, Ritinha, aos beijos no estacionamento. Não... NÃO!
E então Clara abriu os olhos. Estava ofegante como um maratonista. O coração agitado batendo violentamente e o ar parecendo não ser suficiente para seus pulmões.
Ela se sentou e encostou a coluna na parede, flexionando as pernas e as abraçando.
– Clara, está tudo bem. Calma... Apenas tente ficar calma – pediu Márcio colocando a mão no ombro da morena.
Aos poucos os espasmos foram cessando e as lágrimas já não desciam pelo rosto violentamente. O olhar de Clara se tornou frio e os punhos ainda cerrados permaneciam ao lado de seu corpo.
– Você pode me contar o que viu?
– Meu marido... E a assistente dele estavam se beijando.
Márcio retesou o corpo e apenas meneou a cabeça levemente. Sabia que não haveria palavras que confortariam Clara.
– Sua sessão ainda...
– Não, não quero continuar. Preciso ir embora.
– Tudo bem. Estaremos aqui à sua disposição.
Clara agradeceu e pegou suas coisas.
No caminho para casa não poderia acreditar que aquilo era verdade. Mas as imagens apareceram tão nitidamente, parecia que estava vivendo aquele momento novamente, juraria que poderia tocá-los naquele momento. Olhou no relógio de pulso e viu que ainda faltava bastante tempo para buscar Ivan na escola. Decidiu parar um pouco no Arpoador e sentar nas pedras lá de cima que lhe davam uma vista pacifica e lhe permitia sentir mais o cheiro salgado do mar do que o cheiro da poluição.
Sentou ali com as pernas cruzadas e respirou fundo. O Rio de Janeiro era mesmo muito mais bonito lá de cima.

Notas finais
Até quinta-feira. Beijos.