I'll be Waiting Everlasting Like the Sun
11 Sweet Ocean
Notas iniciais
Clara estava diante do mar esperando algum sinal dele, ou dos céus, ou do canto dos pássaros que ali estavam... Espera algum sinal para que pudesse saber o que fazer. Sabia que se perguntasse ao marido sobre o fato ele negaria até a morte. E Marina? Desejo, tesão... Aquelas palavras estavam ali, mas e os sentimentos? Também estavam? Eles existiram? Era muita informação para processar em pouco tempo.
Ela então respirou fundo e achou melhor não pensar em nada. Não por enquanto.
***
– Van! – chamei sacudindo a ruiva – Van, acorda.
– Porra, me deixa dormir – resmungou de volta cobrindo a cabeça com o travesseiro.
– Deixo sim, reclamona – dei um beijo em sua cabeça e avisei: – Vou sair pra dar um volta na praia, correr, andar na beira do mar... Tô precisando disso.
Vanessa tirou o travesseiro da cabeça e me olhou piscando forte algumas vezes.
– Cê tá louca? Tá com febre?
– Não. Só preciso colocar meus pés na areia, preciso parar pra pensar, ou parar de pensar, não sei...
– Talvez você precise parar pra pensar pra poder parar de pensar e esperar que as coisas aconteçam no seu tempo.
– Você sabe que não sou paciente.
– Claro que sei. Ainda mais eu que quase fui sequestrada por você naquela época que você era louca por mim – brincou rindo e me fazendo rir também.
– Será que eu consigo, Van? Será que eu consigo ser forte o suficiente?
– Claro que consegue, Marina. Nunca achei que fosse admitir isso, mas você passou daquela fase de encantamento e paixão pela Clara, senão passou, essa fase e o amor estão ai. E eles vão te fazer forte, mulher!
Acariciei o rosto amarrotado que sorria pra mim.
– Te amo. Não sei o que faria sem você na minha vida.
– Tá, agora some daqui. Preciso dormir.
– Rabugenta – despedi-me dando mais um beijo nela e sai – Ah! Se a minha mãe aparecer diga a ela que fui dar uma volta – avisei da porta, mas Vanessa supostamente já estaria dormindo novamente.
Parei o carro num estacionamento, pois não estava com paciência para os flanelinhas que pareciam urubus sobre a carniça.
Tirei as sapatilhas assim que cheguei ao calçadão. Desliguei o celular e desci na areia que não estava tão quente quanto pensei. A praia não estava cheia, afinal de contas era meio de semana e nem todo mundo poderia fazer o horário que quisesse como eu fazia.
Cheguei na beira da água que estava fria e deixei as ondas pequenas lamberem meus pés por algum momento. Ventava e o vento fazia meus cachos imperfeitos dançarem lentamente. Fechei os olhos respirando fundo, sentindo o cheiro do mar e do vento.
Emocionou-me quando lembrei do dia em que Clara me fez sair da cama às oito horas de uma manhã morna para caminhar na praia. Foi a primeira vez que sai da cama naquele horário em anos. Nem me lembrava da última vez em que acordara tão cedo. Agora cedo era quando eu conseguia pegar no sono depois do que aconteceu com a Clara.
– Maldição! – praguejei pisando firme na areia. – Maldição!
Caminhei em direção as pedras do Arpoardor.
Lá de cima era minha visão preferida da cidade. O mar, o morro, a comunidade, os prédios. Tudo entrava numa harmonia que não existia lá olhando aqui debaixo.
Olhei pra cima e vi que as gaivotas voavam pacificamente sobre o mar, traçando trajetos no ar dignos de uma foto. Ainda bem que sempre levo minha câmera comigo. Saquei-a da bolsa e comecei a fazer o que faço de melhor. Só percebi que estava me aproximando dos rochedos quando senti algumas pedras trombarem nos meus pés. Mirei a câmera para cima e a afastei dos meus olhos. Lá em cima parecia ter alguém que eu conhecia muito bem. Mas que infelizmente já não se lembrava mais de mim. Meu coração começou a acelerar aos poucos e então eu não precisei chegar perto para saber que era ela.
Tentei não correr, mas senti o suor descer pelas minhas costas quando alcancei a pedra. Cheguei no topo e a Clara estava sentada de costas pra mim. Se ela me visse ali com certeza já teria saído correndo. E eu não queria aquilo. Não suportaria mais aquilo.
Mas eu precisava tanto vê-la, tocá-la, sentir aquele cheiro que me acalmava... Acabei caminhando em direção a ela e sem dizer nada me sentei ao lado dela.
Demorou um pouco pra ela perceber que era eu. No primeiro momento ela me olhou duas vezes e seus olhos pararam nos meus quando tirei meus óculos escuros.
– Oi – disse com um sorriso nervoso.
Ela engoliu em seco e continuou me encarando.
Como eu queria saber o que se passava naquela mente perdida e nebulosa. Como eu queria poder trazer todas as suas lembranças de volta...
– Eu posso só ficar aqui? Vou ficar quietinha – Sentei-me bem próxima e nossos braços se encostaram. E ela não recuou. Então eu fiquei ali como prometi, quieta.
Clara olhava as ondas quebrarem enquanto sua visão periférica lhe mostrava a fotógrafa fazendo o mesmo. Ela queria saber o que se passava na cabeça de Marina naquele momento, queria poder invadir as memórias dela e descobrir o que havia acontecido entre elas e porque seu corpo estava reagindo daquele jeito apenas com a presença e o roçar singelo de seus braços.
Não disse nada desde que a fotógrafa chegara. Não sabia o que falar. Como falar. E se queria falar alguma coisa. Marina não poderia ter aparecido em pior momento. Quanto mais respostas buscava, mais perguntas apareciam.
Mas a verdade é que naquele momento a presença de Marina estava lhe dando algo que desde que saíra do coma não tinha conseguido sentir: paz.
A fotógrafa estava quieta como havia falado. Apenas a olhava vez ou outra. Sorria, mas desmanchava o sorriso quando via que ela não retribuía. E Clara se sentiu um pouco mal por estar tão fria e distante.
Apesar de não conhecer mais a fotógrafa, Clara sentia que Marina era uma boa pessoa. Via aquilo nos olhos castanhos brilhantes que olhava. E isso Clara já não via ou sentia com quem dormia e acordava todas as noites.
O silêncio estava se tornando ensurdecedor e Clara girou a cabeça na direção da fotógrafa e se assustou com a sintonia que ela mal sabia que existia quando Marina fez o mesmo gesto em sua direção. Um sorriso pequeno saiu dos lábios da fotógrafa que estavam pintados de um vermelho vivo.
Clara respirou tão fundo naquele momento que seus pulmões quase doeram e ela fechou os olhos. Assim que suas pálpebras se fecharam por completo o sorriso de Marina surgiu em sua mente. Entretanto, não era aquele sorriso que ela dera naquele momento. Talvez fosse um sorriso que ela vira no passado. Tudo ao redor do sorriso era um borrão. Os dentes brancos se mostraram quando o sorriso se ampliou e Clara estremeceu mais uma vez.
Aquela imagem só poderia ser uma pequena parte de um passado com a fotógrafa que estava perdido. Não havia outra explicação aceitável.
Não sabia quanto tempo tinha passado, mas quando voltou pra realidade, Marina ainda a encarava.
Clara ergueu os dedos querendo tocar a pele que parecia tão macia, mas não podia. Não queria ao mesmo tempo que desejava aquele toque. Num impulso então inclinou-se na direção de Marina. Os lábios imóveis e colados, Clara sentiu, tinham uma simetria que combinava. Quando a fotógrafa abriu os lábios para deixar o beijo completo foi como se um choque elétrico tivesse lhe atingido. Clara se afastou ofegante e atordoada. Ela se levantou sem dizer nada.
– Clara volta aqui – chamei enquanto a via correr para a areia.
Sai correndo atrás dela e quase me esqueci da minha bolsa.
– Clara!
A alcancei já no calçadão e minha mão a segurou pelo braço.
– Me solta – disse ela se tornando sombria ao passo que eu me aproximava — Me solta, me deixa ir...
– Não, me ouve. Vamos conversar, tenho tanta coisa pra te falar – disse enquanto lutava para colocar meus sapatos nos pés sujos de areia.
– Mas eu não quero ouvir. – recusou ela atravessando a ciclovia.
– Você vai me ouvir sim! – minha mão foi para o braço dela novamente. Só percebi que estávamos chamando a atenção quando um cara malhado sem camisa nos abordou.
– Tudo bem por aqui?
– Sim. Não tem nada de errado – respondeu Clara num tom bravo e se afastando.
A vi entrando em seu carro e os pneus cantando av. Atlântica à fora.
***
Clara olhou no relógio e viu que já estava quase no horário de Ivan sair da escola. Aproveitou que já estava lá por perto e virou, cantando pneu, a rua que estava mais próxima. Antes de Ivan aparecer saltitando no carro, Clara respirou fundo várias vezes com a cabeça apoiada ao volante. Seu coração palpitava desesperado e ela não queria pensar no porquê daquela ação. Porque sabia qual era o motivo. Ou quem era.
O sinal da escola ecoou e Clara ouviu a algazarra das crianças. Deu partida no carro assim que seu loirinho passou pelo portão.
Sem dizer nada engatou a primeira marcha do carro e tentou prestar atenção ao que o filho dizia enquanto dirigia para casa, mas a verdade é que Clara só queria desviar sua atenção das palpitações do seu coração.
Clara passou o dia todo em nuvens que a carregavam por uma galáxia particular cravejada de estrelas enigmáticas.
Enquanto Ivan fazia suas tarefas, ela pensou em ir até a casa da mãe ou da irmã para conversar sobre o que tinha acontecido, sobretudo, sobre o que ela tinha feito. Daquela vez o beijo tinha partido dela. Ela tinha ultrapassado os próprios limites, não era Marina quem havia invadido seu espaço. Ela rompera a barreira. Sua cabeça estava a mil por hora. Sentia-se numa rodovia deserta sem freio.
O sol de pôs e Clara nem viu quando o filho saiu do banho de cabelo molhado e pijama meio torto perguntando se poderia tomar sorvete depois do jantar. Clara apenas assentiu enquanto enxugava a louça encarando o vazio como havia feito o dia todo.
Ivan fez o que quis aquela noite. Ficou jogando videogame até depois do horário e tomou duas taças de sorvete.
Clara também saiu do banho com os cabelos molhados depois de colocar o filho na cama. Uma vontade repentina, mas cheia de fundamentos de chorar começou a fazer sua respiração acelerar e seu pulso também se agitava... Então ela caiu na cama sentada com secador ligado em suas mãos tirando-a vez ou outra de sua soturna órbita.
A porta da sala foi aberta e ela ouviu a voz masculina anunciando sua chegada. O choro cessou na hora e ela desligou o secador. Apagou as luzes do quarto, inclusive o abajur e deitou na cama, de costas para lado da cama onde o marido dormia.
– Mô, já dormiu? – perguntou Cadu ajoelhando na cama e debruçando-se sobre Clara.
Clara não se mexeu e lutou para deixar as pálpebras fechadas e o grito controlado em sua garganta. Mas sua vontade era de vomitar todas as coisas que havia visto em sua mente mais cedo, na cara do marido. Cuspir todas as suas angústias e suas dúvidas que já eram quase certezas. Mas ela estava esgotada demais para discutir. E tinha Ivan. O filho não precisava ouvir aquelas coisas. Ele não tinha culpa. Já o marido...
Cadu sempre fora um bom esposo, até aquele momento por exemplo. Nunca dera motivos para desconfiava. Ou Clara sempre fora iludida demais e não conseguiu enxergar que por trás daquele sorriso charmoso existia um cafajeste. Clara acabou pegando no sono, e só notou que dormia com os dedos nos lábios quando acordou no meio da noite pensando nos olhos de Marina.
***
O dia amanheceu abafado e Clara sentiu como se não conseguisse mandar para os pulmões todo o oxigênio que era necessário. Virou-se de lado na cama e deu de cara com o marido. Suprimiu um grito de susto e continuou olhando-o. Passou os dedos delicadamente pelos cabelos, desenhou o contorno másculo do rosto que tinha a barba por fazer e balançou a cabeça negativamente. Não poderia acreditar que aquilo tudo que vira na sessão de regressão era verdadeiro. Não era do feitio do marido. Ou será que era? Quem poderia confirmar tal informação?
Clara levantou da cama e foi para o banheiro. Enquanto escovava os dentes ouviu os barulhos matutinos do marido e se apressou em terminar a escovação. Assim que depositou a escova no armário sentiu os braços do marido encostando em sua pele, mas deu tempo de fugir do abraço antes que ele se tornasse fosse o suficiente para impedir a fuga.
– Bom dia pra você também... – murmurou o marido sem entender a frieza de Clara.
Sem dizer nada a esposa foi acordar o filho e logo depois foi para a cozinha dar início a sua cansativa rotina.
– Mô, tava pensando em faltar do bistrô hoje para ficar aqui com você – disse Cadu sentando-se à mesa.
– Pode ir pro bistrô que eu não vou ficar em casa. E leva o Ivan na escola também, por favor. Se puder buscar melhor ainda – respondeu ela sem olhar para o marido.
– Porque?
– Vou sair com a Giselle – disse Clara sem nem saber se a irmã-postiça estaria disponível.
– Aonde vocês vão?
– Fazer coisas de mulher.
– Não gosto dessa menina – disse Cadu esfregando uma mão na outra e estralando os dedos.
– Isso dai é problema seu, querido.
– O que você tem?
Clara não respondeu verbalmente. Apenas colocou a garrafa de café na mesa e apressou Ivan para se arrumar. Tudo isso sem tirar os olhos do marido que ficou intrigado e achou estranho a mulher mudar da noite para o dia, não poderia ser só uma oscilação de humor. Tinha mais coisa por trás disso.
Ivan chegou correndo na cozinha e pulou no colo da mãe beijando sua bochecha carinhosamente.
– Seu pai vai te levar pro colégio hoje – avisou Clara colocando o filho no chão – E vai te buscar também, a mamãe tem algumas coisas pra resolver.
– Resolver? – perguntou Cadu com o cenho franzido.
– Me esquece hoje, cara. Me esquece.
Clara esperou Cadu sair e ligou para Giselle. Por sorte a irmã postiça estava disponível e não titubeou em responder “sim” quando Clara a chamou para ir até seu apartamento.
– Oi, irmã-postiça! Entra – saudou Clara abrindo a porta e os braços para Giselle quando ela tocou a campainha.
– Expressão triste, Clarinha... O que aconteceu?
Assim que Clara fechou a porta e Giselle sentou no sofá, ela começou a relatar tudo o que tinha acontecido no dia anterior e concluiu com uma pergunta:
– Será que é verdade, Gi? Será que o Cadu me traiu mesmo?
Giselle comprimiu os lábios e então Clara a viu balançando a cabeça pra cima e para baixo.
– C-Como você sabe?
– Você me contou quando aconteceu, pediu que eu não contasse nada à Marina porque você ainda não sabia o que ia fazer e não queria ficar com a Marina só pra se vingar ou coisa do tipo – respondeu Giselle olhando Clara nos olhos e a fazendo se sentir mais perdida do que já estava.
– Apesar do que aconteceu você resolveu ficar com o Cadu por causa do Ivan e também porque você não tinha certeza do que a Marina queria com você...
Clara andava de um lado para outro. Sua cabeça parecia comportar uma roda gigante em alta velocidade que talvez tão cedo não pararia de girar. Olhou no relógio que ficava na parede da cozinha e viu que estava na hora dos remédios. Giselle a seguiu e sentou-se na cadeira enquanto Clara tomava toda a água do copo.
–Eu não sei o que fazer, Gi... Não sei – disse Clara sentando-se de frente para Giselle.
Giselle estendeu as duas mãos que encontraram as de Clara no meio da mesa e as segurou.
– Parece que todo mundo está me escondendo alguma coisa, parece que todo mundo está mentindo pra mim... Não dá pra confiar nem na minha sombra mais.
– Você pode confiar em mim, confiar na Marina e nas meninas lá do estúdio. E pode confiar principalmente nele – Giselle apontou para o coração aflito de Clara.
– Não sei o que fazer, estou tão perdida – assumiu Clara fungando e tentando fazer as lágrimas pararem de rolar por seu rosto – Tudo que aconteceu me assusta. Saber isso do Cadu me assusta, a Marina me assusta... Estou com medo de perguntar ao Cadu sobre isso, ele anda estranho. O clima aqui em casa está muito estranho...
Giselle não queria comentar nada do que sua mente trazia à tona enquanto ouvia Clara. Ela também tinha medo de Cadu e do que ele poderia fazer.
– Acho que você tem que fazer o jogo dele – sugeriu Giselle – Aceite tudo o que quiser te dar, caia na “lábia” dele e uma hora a máscara dele vai acabar caindo. E acho melhor você se manter afastada da Marina...
Clara semicerrou os olhos e estranhou a sugestão de Giselle.
– Como assim?
– Depois do que aconteceu aquele dia no estúdio eu não fui mais trabalhar, por motivos diversos e também porque ainda estou chateada – confessou – Mas não preciso estar lá pra saber que a sua presença ainda afeta a Marina negativamente. Ela está mal, e enquanto você não se decidir ela vai se agarrar a qualquer mínima brecha que você deixar…
– Eu sei... Também tenho medo de nunca mais conseguir me lembrar dessa Marina que ela se mostrou pra mim, dessa Marina que você me disse e o pior... O pior é que eu vi essa Marina nos olhos dela aquele dia... Que inferno, cara! Vou surtar.
– Olha pra mim, Clarinha!
Clara que estava debruçada sobre a mesa segurando a vontade de gritar e de enlouquecer, ergueu a cabeça e encarou Giselle com os olhos já bem vermelhos.
– Resolva-se com o Cadu primeiro. Vá a mais sessões de regressão se achar que deve. Depois vai atrás da Marina, sério. Se você não conseguir se lembrar de nada que aconteceu entre vocês, mesmo com as sessões, eu tenho certeza que ela vai te fazer lembrar de tudo, senão de tudo pelo menos do principal: do amor que você sente por ela e vice-versa.
Clara balançou a cabeça concordando com tudo enquanto chorava e sentia a roda gigante girar cada vez mais rápido em sua cabeça.
– Gi, você tem algum compromisso agora? – perguntou Clara.
– Não, Clarinha. Precisa de alguma coisa?
– Fica aqui comigo? Só um pouquinho...
Giselle sorriu e respondeu sim. As duas foram para o quarto e Clara deitou-se com a cabeça no colo da irmã-postiça que acarinhava seus cabelos enquanto a roda gigante não parava de girar.
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