Notas iniciais
Capítulo sem alterações.

Já faz uma semana desde a última vez que fui visitar a Clara.
A família dela não dá uma trégua. A única coisa que consigo são ligações clandestinas com a enfermeira que agora posso chamar de amiga. Um anjo vindo de alguma galáxia distante.
Mas faz dois dias que não tenho notícia alguma dela. E isso me deixa num estado de angústia paralisante. Não consigo fazer nada a não ser ficar colada ao celular, esperando alguma ligação.
Eu estava sentada perdida em meus devaneios quando a Giselle entrou no estúdio. Levantei-me às pressas e comecei a sabatiná-la.
– Calma – pediu Gi segurando em meus ombros – Ainda não há nenhuma novidade sobre a Clara. Tudo está na mesma. Ela... Ela está na mesma.
Meu coração se contraiu e minha garganta se fechou.
Só percebi que estava ajoelhada no chão quando Giselle me puxou pelos ombros, exigindo que eu me levantasse. Seus braços magros me apertaram e minhas lágrimas molharam seu ombro nu.
Chorei até me sentir mais vazia do que eu já estava. Meu Deus! Como o mundo pode girar tanto em tão pouco tempo? Até ontem a Clara estava aqui comigo, fazendo planos para nossa vida juntas.
Ela estava tão certa de largar tudo e ficar comigo.
Porque isso tinha que acontecer?
– Marina... – me chamou Giselle. Puxando-me para me sentar numa cadeira.
Ergui meus olhos encharcados e ela afastou meu cabelo despenteado do meu rosto.
– Acho que... – ela parecia ponderar as palavras, parecia não querer abrir uma nova ferida em mim – Acho que você tem que seguir em frente.
Meus olhos se semicerraram e uma raiva desconhecida começou a crescer dentro de mim.
– Não estou falando pra você arranjar outra namorada, estou falando apenas de trabalho. Faz meses que você não produz nada, as contas estão começando a pesar no orçamento do estúdio e depois? Quando todo o dinheiro acabar como vai ser?
Eu sei, Gi. Eu sei de tudo isso. Pensava eu sem conseguir verbalizar meus pensamentos. É só que simplesmente não consigo pensar em outra coisa além da Clara deitada naquela maldita cama de hospital.
– E você tem que se cuidar também. Olha o seu rosto, seu cabelo... Você quer estar parecendo uma mendiga quando a Clara acordar e vier atrás de você?
Eu esbocei um sorriso verdadeiro em meses.
– Vamos tomar um banho de piscina e pegar um pouco de sol. Vem.
Giselle se levantou e me estendeu a mão.

Muito a contragosto me estirei na espreguiçadeira enquanto a Gi se achava o César Cielo na piscina.
Vendo-a nadar me surgiu a ideia de fotografar mulheres na piscina. Fechei meus olhos e comecei a compor esse ensaio.
As imagens que surgiam em minha mente estavam espetaculares. Eu só precisava saber passar para prática o que estava na teoria.
Tirei meu chapéu e meus óculos escuros e cai na piscina.
Giselle começou a fazer guerrinha com água e me arrancou risadas genuínas. Guardei no meu estoque para quando eu precisasse me lembrar de como era sorrir.
– Sabe? Foi bom você aparecer aqui assim, como quem não quer nada. Eu estava precisando de alguém que me colocasse pra cima – disse enquanto eu e Giselle nos aproximávamos da borda da piscina – Obrigada, Gi.
Ela sorriu e me deu um beijo no rosto.
Comecei a contar a minha ideia sobre a hipotética exposição e ela se entusiasmou mais do que eu. Não que isso fosse difícil.
– Agora temos que passar tudo isso para o papel, pra nenhuma ideia se perder – disse ela saindo da piscina.
Entramos no estúdio com os corpos ainda úmidos e sentamos no banco. Gi pegou o notebook e o colocou no colo sobre uma almofada. Enquanto eu ditava minhas ideias ela as colocava no word.
– Meu telefone está tocando em algum lugar.
A Gi se levantou e achou o celular dela no outro hemisfério do estúdio.
Tomei o computador em meu colo e continuei o que ela estava fazendo por mim.
– Pa... Pai. Calma! O que está acontecendo? – ouvia a Gi perguntar num tom nervoso, sentando-se no chão.
Tirei meu computador do colo e caminhei até ela.
– Como isso aconteceu? Pai, porque você escondeu isso de mim? Cla... Mas é claro que eu ia contar pra Marina. – o tom de voz dela era frio e um riso irônico escapou de sua garganta – Isso é um absurdo, a Clara é a mulher que ela ama. E a Clara ama a Marina também. Você tem que impedir isso. Eu sei que a Clara é filha da Chica, mas ela não tem esse direito. Meu Deus! Pai, você precisa fazer alguma coisa.
Coloquei a mão no peito e impedi que meu coração saísse do lugar. Ele batia tão acelerado que me senti tonta. Comecei a hiper-ventilar e me sentei ao lado da Gi gesticulando para que ela falasse alguma coisa coerente para mim.
Colei meu ouvido ao ouvido onde o celular estava e não conseguia ouvir o que o Ricardo dizia.
O que estava acontecendo?
– Tudo bem... – a Giselle tinha lágrimas nos olhos.
Meu Deus. A Clara não pode... Não... Por favor, não!
– Eu... Eu aviso a Marina.
A ligação foi encerrada e num movimento lento a Giselle se virou para me encarar. Os olhos que não paravam de se inundar buscavam os meus que começam a se inundar também.
– Gi... A Clara... Ela... Ela não...
As palavras paravam no meio da minha garganta. Não conseguia ordená-las numa sentença coerente.
– Por favor... Diz que não... – implorei. Minha voz num fio.
A Giselle respirou fundo e enxugou as próprias lágrimas.
– Marina! Presta atenção em mim e, por favor, mantenha a calma.
– Fala logo! – exigi aumentando o tom de voz.
– A Chica... Eles...
– Eles quem? Fala logo, Gi. Pelo amor de Deus!
– Eles decidiram desligar os aparelhos.
Procurei alguma coisa para me apoiar e o que encontrei foi a mão magra e fria da Giselle.
Não, não, não, não, não, não.
Meu corpo todo tremia. Eu não conseguia pensar. Não conseguia respirar.
Não reparei quando a Giselle saiu. Mas quando ela voltou tinha um copo de água nas mãos.
– Eu não quero água! – gritei tacando o copo longe – Eu quero a Clara, a minha Clara...
Deitei no chão, a Gi se deitou ao meu lado. Apesar da magreza ela tinha um abraço forte e quente.
– Porque Gi? Não posso... Não posso deixá-la ir sem me despedir. Meu Deus! Ai... Tá doendo, Gi... A minha Clara... Diz que é mentira, por favor!
Levei minhas mãos ao rosto, abafando o choro desesperado que parecia não ter fim.
A Gi tentava me confortar, mas parecia aumentar mais a minha dor.
Quando foi que a Clara desistiu de lutar pela vida dela? Ela não é desistir. Ela não pode desistir.
Num impulso, levantei e Giselle me seguiu.
– Marina! Aonde você vai?
– Eu preciso vê-la, Gi. Preciso olhar pra ela, pelo menos uma última vez.
– Vai estar todo mundo lá, Marina – alertou-me.
– Agora que está tudo acabado, estou pouco me fodendo pra eles.
– Olha pra mim – disse ela virando meu rosto para encará-la – A briga não vai compensar. Você precisa descansar e se acalmar. Por favor, faça isso por mim.

***


O sol já havia se retirado quando enfim minhas lágrimas cessaram.
A Giselle ficou comigo aquele tempo todo.
Fiquei deitada em posição fetal durante muito tempo. Quando fui mudar de posição meus ossos estralaram e alguns doeram.
– Gi? – chamei buscando por ela.
– Oi, eu tô aqui.
Ela saiu do sofá e se deitou na cama comigo.
– A Mônica não disse nada sobre desligar os aparelhos. Porque ela me esconderia isso? O quadro clínico da Clara mudou do dia para noite? Eu não estou entendendo porque essa decisão agora. Não faz sentido.
E então a expressão de Giselle mudou. Tornou-se sombria. Preocupada.
– O que é que você está me escondendo?
– Cal...
– Calma o caralho! O que é que está acontecendo que você não quer me contar? A mulher da minha vida está morta numa cama de hospital. Posso aguentar qualquer notícia. – exasperei salivando de raiva.
A Gi levantou da cama e andou de um lado pra outro em passos lentos e precisos.
– Giselle, você nunca me escondeu nada desde que a Clara se acidentou. O que aconteceu?
– Meu pai ligou enquanto você dormia e disse que havia brigado com a Chica, porque tentou mudar a decisão dela. Na verdade a decisão é dela e do Cadu. A Chica acusou meu pai de te defender e de saber sobre você e a Clara.
– Que? A Chica... Como ela sabe que eu e a Clara íamos ficar juntas? Como... Ela descobriu? Não vai me dizer que eles...
– Sim. Eles vão desligar os aparelhos porque descobriram que você e a Clara pretendiam ficar juntas.
Um mix de raiva e dor começou a correr nas minhas veias e quando me dei conta, metade dos porta-retratos estavam no chão.