Notas iniciais
Modifiquei só a primeira parte desse capítulo. Amenizando um pouco o lado da Chica, rs.

Naquele dia especialmente o corredor estava silencioso.
Chica andava de um lado para outro esperando o genro.
Quando o elevador chegou ao oitavo andar e a porta se abriu, a mãe de Clara estava de frente para ele. Olhar atento e coração se despedaçando a cada passo que Cadu dava.
Os olhares de Chica e Cadu só se desgrudaram quando eles se abraçaram.
Quando Chica abriu os olhos, ela pôde ver por cima do ombro Ivan logo atrás. Chica se ajoelhou no chão e abriu os braços. Correndo, o neto veio a seu encontro. Ambos choravam em silêncio.
– Vai ficar tudo bem, meu querido. Eu prometo – sussurrou a avó enquanto o neto a apertava em seus pequenos braços.
Ivan correu até o quarto da mãe e ficou observando-a através do vidro transparente e das persianas semiabertas.
– Você concorda comigo? – perguntou Cadu à Chica.
Chica começou a chorar compulsivamente. Teve de se sentar, senão cairia ali, na frente do genro.
Cadu se sentou ao lado dela, a mãos deslizando de maneira reconfortante por suas costas. Chica aconchegou-se no peitoral definido do genro. Depois de se recompor, respondeu:
– Não tem outro modo de... – Chica não conseguia dizer nada. A garganta apertada pelo choro preso não a deixava colocar pra fora.
– É melhor assim – garantiu Cadu – Prefiro ela a sete palmos abaixo do chão, do que...
Chica então levantou e Cadu a acompanhou, abraçando-a novamente.
– Eu fico pensando no Ivan. Às vezes me parece tão errado fazer isso com ele, deixá-lo sem a mãe. Ele é só uma criança – confessou Chica observando o neto.
– Prefiro que seja assim, Chica. Certo não é a Clara trocar a nossa família por aquela mulher, por aquela vida de luxos e futilidade. Há males que vem para alguma razão maior do que podemos imaginar.
Chica assentiu cruzando os braços. Quando se virou para ir ao bebedouro, estacou. O médico responsável pelo caso de Clara vinha na direção deles.
– Boa tarde – desejou o médico muito sério – O procedimento é rápido, mas antes vocês têm de assinar alguns papeis, assim como eu. Agora é 13h30, o desligamento está marcado para as 17h; até lá vocês têm mais um tempo pra pensar na decisão.
– Não precisamos pensar em nada – disse Cadu rispidamente.
– Tudo bem. Queiram me acompanhar, por favor. Minha sala fica no primeiro andar.
Chica chamou Ivan e quando ele olhou para a avó, ela tinha a mão estendida. O pequeno segurou na mão da avó enquanto seus olhos ainda olhavam para trás.

***

– Pai... – chamou Ivan com a voz engasgada – A mamãe vai mesmo morrer?
Cadu apenas meneou a cabeça.
– Mas... – o pequeno se levantou e foi até o vidro – E esses aparelhos todos? Ela está viva, pai.
Cadu foi até o filho e abaixou-se ficando da altura dele. Explicou de modo resumido o que era um coma. Explicou, agora do seu jeito, porquê aquilo seria melhor para Clara e principalmente para ele próprio.
– Se ela sair dessa, filhão, ela vai ter sequelas graves. Talvez não ande direito, nem fale... Talvez fique na cama pra sempre. Você quer isso?
As palavras de Cadu foram interrompidas quando Ivan, abraçado ao pai, mal respirava de tanto chorar.
– Você quer se lembrar da sua mãe desse jeito?
O menino negou com um gesto de cabeça.
– Então temos que deixá-la ir, filho.
O relógio da parede marcava 16h55. O procedimento ia começar.
– A criança não pode ficar aqui – disse Mônica olhando enviesado.
A enfermeira tentou ligar para Marina mais cedo, mas o celular da fotógrafa só dava desligado. Ela não se despediria da amada.
Enquanto esperava o médico responsável, Mônica dobrou o lençol até abaixo dos seios de Clara e baixinho disse:
– A Marina te ama, te ama muito. Você poderia sair dessa e ficar com ela. Ela te ama, Clara, te ama tanto que acho que essa dor não vai passar nunca.
Mônica poderia jurar que viu os batimentos de Clara aumentando. Mas com certeza era só ilusão.
A porta se abriu e Mônica se afastou.
– Você pode nos deixar a sós? Meu neto quer se despedir da mãe.
Mônica assentiu e deixou Chica, Cadu e Ivan com Clara.
– Mãe – disse Ivan correndo até Clara e deitando sobre o corpo da mãe – Acorda, mãe! Por favor! Eu preciso de você... Prometo que nunca mais faço bagunça, que vou te obedecer e não vou mais jogar vídeo game até tarde. Acorda, mãe. Por favor. Acorda!
Chica virou de costas evitando a cena.
Ivan abraçou a mãe, desajeitando alguns fios. Cadu deu a volta e abraçou o corpo da esposa do outro lado. Deu um beijo no filho e outro nos lábios de Clara.
– Você sabe que é para o seu bem – disse Cadu de maneira fria e num tom tão baixo que ele mesmo mal ouvia a própria voz.
Mônica voltou para o quarto agora acompanhada do médico.
A enfermeira abaixou as persianas e fechou a porta.
Médico e enfermeira trocaram um olhar com Chica e ela entendeu o recado. O fim iria começar. Já eram 17h05.
– Vem, meu amor. Agora eles precisam cuidar da sua mãe – disse Chica indo buscar Ivan.
– Não! Eu quero ficar com a minha mãe! – Ivan agarrou-se ainda mais forte à Clara.
– Ivan, não faz assim – pediu a avó.
– Me deixa aqui com a minha mãe. Mãe, acorda! – o menino pegou nos ombros de Clara e a sacudiu – Mãe!
Chica o pegou pela cintura e o levou.
– Mãe! – gritava Ivan enquanto era carregado – Eu amo você.
Cadu decidiu não acompanhar o procedimento. Foi para junto do filho e da sogra. Estavam sentados poucos metros à frente do quarto.
O menino no colo do pai já não tinha mais forças para chorar.
– Meu Deus, faça isso passar rápido – pedia Chica em oração – Receba a minha filha, cuide dela – as mãos estavam unidas apoiando a testa.
Lá dentro o médico já estava com as luvas, pronto para começar o desligamento.
– Tão nova e com um fim tão trágico – disse o médico – Nunca vou conseguir entender o porquê de certas coisas.
Mônica concordava em silêncio.
– Aquela moça que vinha sempre visitá-la está sabendo?
Mônica olhou apreensiva, a mão tremendo enquanto segurava o cateter de Clara.
– Eu a vi aqui algumas vezes, ninguém além de mim sabe, fique tranquila – disse o médico com um pequeno sorriso.
– Eu... Eu não consegui avisá-la. Mas provavelmente ela sabe da decisão – respondeu a enfermeira segundos depois.
– Vamos começar?
A contragosto, Mônica disse que sim. Afinal de contas ela estava ali para receber ordens e não para ter desejos atendidos.
Um toque-toque tímido foi dado à porta e ela se entreabriu.
– Doutor Carlos? O dr. Pierre está chamando por você no corredor, parece urgente.
Carlos parou o que mal havia começado. Tirando o fato de o tubo estar um pouco torto, tudo estava como antes.
– Me espere aqui – disse Carlos retirando as luvas.
– Parece que tem alguém lá em cima que gosta muito de você – disse Mônica sorrindo e ajeitando o cateter no nariz de Clara novamente.
A enfermeira foi até o banheiro que ficava ali no quarto. Quando fechou a torneira seus ouvidos se atentaram aos barulhos vindo das máquinas que estavam a centímetros dali. Parou na porta, os olhos arregalados.
O peito de Clara começou a subir e a descer num ritmo mais rápido. O som dos bips começou a soar mais alto.
Mônica chegou mais perto e teve que chegar bem próximo aos olhos de Clara para ter certeza de que não estava ficando louca. As pálpebras pareciam se movimentar, pareciam querer mostrar aqueles olhos cuja cor a enfermeira desconhecia.
– Meu Deus! – exclamou Mônica sentindo a pressão abaixar.
O dedo indicador de Clara que tinha o medidor de pressão acoplado se ergueu alguns milímetros.
– Clara? – chamou Mônica olhando fixamente para a paciente.
Mônica foi até a porta à procura do dr. Carlos. Olhou para os dois lados e não o viu por perto.
– O que foi? Já acabou? – perguntou Cadu indo até a enfermeira.
– N-não. É que o dr. Carlos foi atender a uma emergência e ainda não voltou... – Mônica olhou para dentro um segundo. No segundo seguinte, Carlos voltava com um novo par de luvas em mãos.
Cadu foi até o médico, mas Mônica tentou demonstrar tudo o que estava sentindo através de sua expressão facial. A palidez de sua pele ajudou no teatro.
– O que foi? – perguntou o homem assim que ultrapassou os limites da porta.
Quando chegou, se aproximou da cama e olhou para a paciente, ela tinha os olhos abertos e a máscara de oxigênio estava embaçada pela respiração acelerada.
Clara havia acordado.