Notas iniciais
Feliz ano novo, galera =) Já começo o ano atrasada e pedindo desculpas por não ter postado no prazo. É que eu fiquei doente às vésperas, uma virose demoníaca me deixou de cama até dia 31. Mas estou bem agora. Vamos dar um tempo de Cadu? Sim, vamos =) Aproveitem.

Clara pagou o táxi e pensou por um momento em vender a geringonça que chamava de carro para comprar um mais novo. Não queria depender de Marina ou do motorista da fotógrafa para ir a qualquer lugar que fosse.
Assim que entrou no hospital percebeu que algumas pessoas a olhavam pelo canto dos olhos e em seguida trocavam cochichos. Concluiu que deveria se acostumar com aquilo a partir do momento que havia voltado para a vida de uma das fotógrafas mais famosas do mundo. Riu por um momento. Nunca poderia imaginar que estaria se relacionando com uma mulher, muito menos com uma das mulheres mais conhecidas que se tinha notícia no século XXI.
Caminhou até o local indicado e esperou menos tempo do que previra e logo ouviu seu nome sendo chamado no corredor.
– Oi, Clara. Como tem passado? – perguntou o médico indicando a cadeira para que ela se sentasse.
– Estou numa montanha russa, doutor.
– Fiquei sabendo de tudo o que aconteceu. Sinto muito pelo seu marido...
– Ex-marido – corrigiu.
– Ex-marido e mais ainda pela Marina. Sou fã do trabalho dela e tenho certeza de que ela não merecia aquilo.
Clara sorriu com o elogio e então o médico perguntou se a morena ainda sentia alguma dor, incômodo, ou qualquer coisa que ela considerasse anormal aos olhos dela. Ela mencionou as vertigens que sentia e as dores de cabeça quando tentava e conseguia se lembrar de alguma coisa. Segundo o médico, muito normal. Mencionou também as duas sessões de regressão que havia ido e recebeu um olhar de reprovação do médico que era completamente cético quanto ao assunto.
– E você pretende voltar lá? – perguntou ele fazendo algumas anotações na pasta de Clara.
– Não... Percebi que as lembranças não me faziam bem e depois de tudo o que aconteceu tenho medo de descobrir que aquele... – ela freou o xingamento no meio do caminho e continuou: – que aquele idiota do Carlos Eduardo foi além do que eu possa imaginar.
O médico continuou anotando algumas coisas e em seguida pediu que Clara se deitasse na maca para exames de rotina. Com o estetoscópio no pescoço disse que ela estava ótima e que faria a retirada da maioria dos remédios deixando algumas indicações para dores de cabeça e algumas vitaminas.
– Quanto a sua memória Clara, não podemos garantir que ela vá voltar cem por cento e se voltar, não há um tempo pré-determinado para isso. Mas há algo que pode te ajudar.
Clara inclinou o corpo mais pra frente apoiando as mãos na mesa do médico e prestando atenção a cada sílaba que saía da boca dele.
– Pegue um caderno e anote tudo o que você se lembrar, como se fosse um diário, sabe? Colocar isso no papel pode ajudar o seu cérebro a processar as informações de maneira mais rápida e a interligá-las com outras que podem te trazer novas memórias.
– E eu posso colocar o que eu já lembrei ou preciso, necessariamente, começar com as lembranças que surgirem a partir de agora?
– Você pode escrever o que já lembrou sim, não há problema algum nisso.
Clara anotou aquilo mentalmente.
– Vou marcar seu retorno agora para daqui seis meses, porque você está ótima, mesmo! Seu progresso foi dentro do esperado e apesar dos últimos fatos você se mostra completamente apta a seguir com sua vida normal, claro, sem excessos. Você tem alguma dúvida?
– Tenho, mas na verdade não seria para mim a ajuda.
– Tudo bem, pode falar.
Clara então relatou sem muitos detalhes o que havia acontecido na noite em que pulara na piscina para salvar Marina e em seguida relatou o que havia acontecido mais cedo. O choro compulsivo, os tremores e o suor excessivo.
– Não acho que isso seja normal, Carlos – concluiu Clara com os olhos assustados e apertando uma mão na outra de angústia e impotência.
O médico pegou o telefone e após discar alguns números perguntou por uma tal de “Zahra”. Desligou e pediu a Clara que esperasse.
Duas batidas foram dadas à porta e Zahra entrou.
– Está precisando de mim? – perguntou a médica muito simpática.
Clara não deixou de notar a beleza da médica que parecia não ser natural do país do futebol e do samba. Era alta, uma pele com um ou dois tons acima do seu, cabelos pretos e incrivelmente lisos que iam até as costas. E o nome, pouco comum para o país tropical.
– Clara, essa aqui é Zahra, nossa psicóloga mais confiável e mais eficiente – disse Carlos trazendo Clara para a realidade novamente – Ela pode te ajudar com as dúvidas que me apresentou agora pouco.
– Boa tarde, Clara. Vamos para minha sala?
E mais uma vez Clara relatou tudo sobre o que tinha acontecido. E ao final não conseguiu segurar as lágrimas que desde antes queriam escapar.
– Eu estou com medo, muito medo – confessou passando o dedo nos olhos úmidos.
– Entendo seu medo e acho ótimo que você tenha tomado a atitude de procurar ajuda sem esperar mais sintomas – disse Zahra – Porque como ela acabou de ser reinserida no convívio social esses sintomas poderiam demorar um pouco mais para aparecer. Você vai precisar trazê-la aqui para que eu possa examiná-la detalhadamente e ver qual tratamento é melhor, se ela vai precisar de terapia e remédios ou só um dos tratamentos. Transtornos de estresse pós-traumático são duros de enfrentar sozinho, pois quem sofreu o trauma revive o episódio, como se estivesse ocorrendo naquele momento e com a mesma sensação de dor e sofrimento que o agente estressor provocou. Essa recordação é conhecida como revivescência, desencadeia alterações neurofisiológicas e mentais. E se você não viesse buscar ajuda, talvez tão cedo a Marina tomasse essa iniciativa. Geralmente a maioria só procura ajuda dois anos depois das primeiras crises.
– Amanhã você está por aqui? Se der eu a trago para podermos resolver isso o quanto antes, vê-la assim me destrói – disse Clara enquanto tentava organizar todas as informações.
– Infelizmente não, Clara. Mas depois de amanhã estarei e você pode trazê-la sem problema.
– Tudo bem, muito obrigada!
Do lado de fora do hospital enquanto observava o movimento pegou o telefone de Marina e para o seu alívio não tinha nenhuma ligação, mensagem de texto ou mensagem no whatsapp. Mesmo assim, Clara ligou para o celular de Vanessa, que alegou estar tudo bem, embora o tom de sua voz dissesse o contrário. Em seguida procurou o número de Giselle e ligou para ela.
– Irmã-postiça, tá muito ocupada agora? Preciso de uma carona pra casa.
Quarenta minutos depois Giselle estacionou e Clara entrou no carro enquanto a sua irmã-postiça se desculpava pelo atraso.
– Morar sozinha tem suas vantagens e desvantagens – concluiu Giselle dando seta para pegar a avenida.
– Não sabia ou não lembrava de que você morava sozinha – disse Clara.
– Ah! Depois que a minha mãe foi embora eu fiquei com o meu pai. Vendemos a casa onde morávamos, ele comprou um apartamento e depois que conheceu a Chica ele se mudou para o apartamento dela. Eu não quis ir e ele deixou o apê pra mim – resumiu Giselle.
– Hm... Bom, deixa eu te contar os últimos fatos.
Clara a atualizou dos últimos acontecimentos e Giselle sentiu pesar pelo que havia acontecido e por ter se afastado da prima que tanto amava.
– Que bom que a minha tia está de volta – disse Giselle – A Marina vai precisar muito dela.
Clara concordou com um aceno de cabeça.
– A Anna está morando com vocês?
– Não, ela mora perto de nós, uns dois quarteirões acima da casa da Marina senão me engano.
– Hm – e enquanto parava no sinal vermelho, Giselle repousou a cabeça momentaneamente no encosto do banco e sentiu uma luz acender-se sobre ela – Clarinha, tive uma ideia. E acho que pode ajudar a Marina por enquanto.

Clara chegou junto de Giselle e foi logo atrás de Marina que estava na cama dormindo profundamente. Vanessa dormia no sofá que ficava em frente a cama, pareciam exaustas.
A morena caminhou até a cômoda azul que acomodava suas roupas e viu um buquê de rosas vermelhas que tinha um aroma que Clara julgou muito forte e incomum. Ela ouviu alguém respirar mais fundo e ao olhar a ruiva espreguiçava. Seus olhares se encontraram e Clara teve certeza de que estava certa ao sentir que a voz de Vanessa estava estranha.
– Ela dormiu faz tempo? – perguntou Clara engatinhando na cama e acariciando o rosto da fotógrafa com os dedos.
– Ela apagou. Assim que você saiu ficou muito agitada e eu dei um calmante que ela sempre toma. – resumiu Vanessa bocejando e esfregando os olhos.
– De quem são essas flores?
– Ah... – Vanessa caminhou até a cômoda e pegou o cartão que estava ao lado dele. Entregou-o para Clara que ao ler sentiu como se tivesse recebido um soco no estômago.
Sem dizer nada passou o cartão para Giselle.
– Não sei mais o que eu faço – confessou Clara sentindo-se com as mãos e os pés atados. Sentindo-se impotente, uma das sensações que ela mais detestava – Vou ver o Ivan, já volto.
O menino estava em meio aos cadernos e livros. Começava um trabalho sobre a fauna e a flora brasileira com a ajuda de Anna que se mostrava muito disposta e nem um pouco incomodada em ajudá-lo.
– Espero que não se incomode – disse a mãe da fotógrafa assim que viu Clara entrando no quarto.
– Claro que não – respondeu Clara indo até o filho.
Acarinhou os cabelos loiros e depois deu um beijo nele.
– Está muito difícil? Quer que eu ajude?
– Não, mãe. A Anna está me ajudando. Pode ir cuidar da Marina ela está precisando de você.
Clara sorriu orgulhosa do filho que não se mostrava nem um pouco egoísta.
Voltava para o quarto quando viu Vanessa descendo as escadas. A ruiva disse que precisava ligar para Diogo, pois o pai da fotógrafa avisou que logo chegaria ao Brasil para ver a filha. Clara agradeceu por Vanessa cuidar de Marina e seguiu para o quarto. Giselle havia ido até o estúdio inteirar-se das poucas novidades de trabalho que haviam.
Assim que abriu a porta percebeu que Marina estava suando como se tivesse feito exercícios físicos há pouco. Colocou a mão na testa da fotógrafa e ela não tinha febre, mas tremia como se sentisse frio.

Marina

Senti meus cabelos sendo puxados com violência, muito diferente do modo como eu gostava que puxassem. Muito distante do contexto que eu gostava de receber aquele tratamento. A mão que me puxava era forte. A piscina... Uma voz grave... Meus olhos encontraram os dele.
– TIRA SUAS MÃOS DE CIMA DE MIM! ME SOLTA! SOCORRO!

– Socorro! – gritava Marina se debatendo na cama. Lágrimas escorriam pelos lados de seus olhos. As mãos fechadas em punhos batiam na cama como se ela lutasse.
– Marina, acorda! Ei, linda. Eu estou aqui! – chamava Clara sacudindo Marina, mas a fotógrafa parecia não ouvir.
– Clara... Clara... – choramingava de olhos fechados.
– Marina, acorda! – tentou mais uma vez pegando a fotógrafa pelos ombros. Se ela estava sofrendo, Clara estava sofrendo o dobro.
– Clara... CLARA! – e quando o nome foi repetido num grito desesperado os olhos castanhos se abriram apavorados e quando percebeu que Clara estava ao seu lado, Marina rompeu em lágrimas e abraçou.
– Calma, eu estou aqui – pediu Clara apertando Marina para que ela tivesse certeza de que aquilo havia sido um terrível pesadelo.
– Ele estava aqui... – dizia Marina engasgando-se com o choro e soluçando – Ele me puxava pelo cabelo... Ele ia me jogar na piscina... Por favor... Não me deixa, Clara. Não me abandona. Não me deixe mais sozinha, por favor...
– Não vou deixar, prometo! Nunca! Nunca mais. Estamos juntas nessa, Marina. Olha pra mim – Clara pegou o rosto pálido entre as mãos e os olhos se encontraram. Marina com os olhos assustados. Clara tentando demonstrar com os seus toda força que ainda avaliava se tinha ou não – Eu e você estamos juntas. Juntas, entendeu? – ela pegou a mão da fotógrafa e entrelaçou à sua beijando-a em seguida – Não vou descansar enquanto não ver aquele desgraçado atrás das grades.
Marina balançava a cabeça concordando, mas ainda estava assustada. O pesadelo parecia tão real... Poderia sentir o couro cabeludo ardendo. Poderia sentir as mãos dele em seu corpo frágil... Mas Clara estava ali, aquilo era real. Estava em sua frente, olhando-a, tocando-a, protegendo-a. Ela estava ali.
Abraçou a morena dona de sua força e de seu amor. Os olhos encontraram as flores que ainda repousavam em cima da cômoda e uma lágrima solitária fez o trajeto que parecia ter se tornado rotineiro. Sentindo a tensão em que o corpo de Marina havia ficado, Clara a afastou delicadamente e olhou para trás. Saiu da cama e pegou as flores jogando na lata de lixo que ficava às costas da cama. Amarrou a boca do saco e rapidamente desceu colocando o saco junto do lixo da cozinha. Subiu a escada novamente em passos rápidos e voltou para o lado de Marina.
– Dorme, meu anjo. Descanse, eu fico com você – disse Clara tirando seu relógio de pulso, a pulseira e os brincos.
Assim que se deitou, Marina a acompanhou deitando-se com a cabeça em seu peito. Clara mal havia começado a acariciar seus cabelos quando Marina adormeceu novamente.
Delicadamente saiu da fortaleza que os braços de Marina haviam criado em torno de si e beijou-lhe sutilmente nos lábios.
Foi para a parte inferior da casa completamente atordoada. Nunca havia visto Marina tão frágil... Se viu, não se lembrava e nem queria, pois aquilo lhe causava uma dor desconhecida e completamente incomoda. Era como se pudesse sentir toda angústia e medo que a fotógrafa sentia naquele momento. Estava no sofá da sala tentando adivinhar por onde começaria a ajudar Marina quando Anna sentou-se ao seu lado.
A morena contou para Anna sobre a consulta com Zahra, e sobre o pré-diagnóstico que havia feito. Anna ficou desolada, jamais poderia imaginar que a filha única poderia passar por uma situação tão catastrófica. Enquanto conversavam sobre como persuadir Marina para que fizesse uma consulta com a psicóloga, Giselle voltou do estúdio e sentou no braço do sofá. Colocando a mão no ombro de Clara.
– Clarinha, quando estávamos vindo pra cá e você disse o que havia acontecido eu pensei em afastar a Marina da casa, pelo menos por uns dias... Ela pode ficar na sua casa, tia – sugeriu olhando para Anna.
– Cla-Claro que pode. Vocês podem ficar lá o tempo que quiserem – concordou pegando nas mãos de Clara.
– O Ivan não vai entender nada... – disse Clara apoiando os cotovelos nas pernas e enfiando as mãos nos cabelos enquanto seus olhos encaravam o carpete.
– Você ainda não conversou com ele sobre você e a Marina?
Clara negou.
– É muita informação para a cabecinha dele, e muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Não sei se eu vou dar conta – acabou confessando explodindo em lágrimas.
– Minha querida, você não está sozinha. Eu também estou perdida e completamente apavorada... – Anna também tinha lágrimas nos olhos que Clara notou terem um tom esverdeado, ainda que a cor predominante não fosse essa – Vamos fazer uma coisa de cada vez: a polícia já está atrás daquele crápula do seu ex-marido. Levamos Marina para a minha casa e o mais rápido possível ela vai conversar com a psicóloga e iniciar o tratamento.
Clara soltou o ar pesadamente pelas narinas.
– E o Ivan é um menino muito esperto e amoroso, Clara. Não vai te questionar muito – completou Giselle.
– Certo, um passo de cada vez... – disse Clara por fim quase arrancando sangue de seu lábio inferior que só percebeu que estava mordendo quando sentiu uma pontada de dor.

Não notaram quando a noite havia chegado. Ainda havia vestígios de final de tarde no céu quando Diogo chegou à mansão de Marina perguntando pela filha.
– Ela ainda está dormindo – disse Anna – Mas pode acordá-la ela vai adorar te ver.
Clara saía do banho quando viu um homem entrando pela porta do quarto. A expressão tornou-se completamente séria e defensiva.
– Você deve ser a Clara – disse ele estendendo a mão – Sou Diogo, o pai de Marina.
– Ah! – respondeu Clara sentindo o mundo sair de suas costas por alguns minutos. Avaliou o homem a sua frente. Estava com um traje esporte, camisa social, um cardigã caindo de seus ombros com classe e os olhos... Marina havia puxado os olhos castanhos dele. Expressivos, intrigantes e intensos.
– Vou deixar vocês a sós.
E Clara saiu encostando a porta em seguida.
Minutos depois Marina descia com pai, segurando em sua mão com tanta força que a mão dele estava vermelha pelo sangue que se concentrava onde a filha apertava. Ela ainda estava com a roupa que havia acordado àquela manhã. A palidez em seu rosto era assustadora, as olheiras cada vez mais profundas.
Quando Clara viu Marina a fotógrafa logo se jogou em seus braços como se a morena tivesse acabado de voltar da guerra.
– Filha, sente-se aqui. Precisamos conversar – disse Anna sorrindo usando o pouco de tranquilidade que tinha.
Clara contou sobre sua consulta com Carlos e Zahra. A menção a um possível tratamento fez Marina sentir-se pior do que estava. Há horas não se lembrava como era falar sem ser interrompida pelas lágrimas.
– Gente... E-eu... Eu não estou louca. Juro – tentou brincar com a situação, mas o sorriso ficou perdido em algum lugar.
– Você não precisa fazer nada que não queira, linda. Só conversa com ela, só isso e se você achar que precisa, que deve, então segue para o próximo passo que ela sugerir – tranquilizou Clara.
Marina escondeu o rosto no pescoço de Clara. Nem o cheiro tão característico da morena pareceu acalmá-la naquele momento.
– Vocês vão lá para casa, até que você, filha, sinta-se mais à vontade aqui – disse Anna passando o dorso de sua mão no rosto molhado da filha – São só alguns dias, e só se você quiser também.
A ideia pareceu para Marina muito necessária. Tudo que ela queria era fugir daquele lugar, se pudesse jamais voltaria. Atearia fogo, passaria com um trator em cima. Reconstruiria tudo se pudesse. Apagaria tudo se fosse possível, mas não podia. Apesar dos pesares aquele ainda era seu paraíso particular. Seu refúgio. Apesar das cenas de terror que haviam acontecido, muitas coisas boas haviam acontecido ali. E Clara era dona dos melhores momentos. Só precisaria de um tempo.
– Tudo bem – concordou depois de alguns minutos perdidos em seus devaneios – Eu vou pra sua casa.
Anna respirou aliviada, assim como Clara.
– Então vem, vamos arrumar suas coisas – disse Anna puxando a filha pela mão.

Como previsto por Giselle, Ivan não questionou sobre uma a mudança temporária que estavam fazendo. Mas mesmo assim Clara justificou aquilo dizendo ao filho que a casa de Marina passaria por reformas, o que não era mentira.
O sol já havia ido há muito tempo embora quando Marina chegou à sua antiga casa. Muita coisa havia mudado, mas o aconchego ainda permanecia o mesmo. Enquanto Clara levava as coisas para os quartos indicados por Anna, Marina deitava-se no sofá. Compadecido da situação da “amiga” da mãe, Ivan ofereceu o colo para que Marina repousasse sua cabeça. Ela não recusou e recebeu afagos do menino que antes de ir dormir cumprindo às ordens da mãe deu um beijo demorado na bochecha da fotógrafa.
Flávia e Vanessa ficariam na mansão, mas naquele momento foram paparicar a chefe e amiga que parecia ainda mais carente da atenção das pessoas que amava.
Diogo abriu um vinho e Marina tentou negociar, fazer charme, mas Clara e nem Anna cederam as chantagens emocionais da filha que bebeu um suco de laranja feito pela mãe. Clara a acompanhou assim como Flávia e Vanessa que não escondeu a careta ao ingerir o líquido açucarado e sem álcool.
Já era tarde quando Flávia e Vanessa foram embora. Giselle já havido ido antes de Marina ir para a casa da mãe. Diogo ficaria num outro quarto de hóspedes, mas naquele momento apreciaria mais um pouco o vinho seco que tomava enquanto colocava a conversa em dia com sua ex-esposa.
Marina não estava com sono. Apesar de ter dormido muito, dormira muito mal durante o dia, mas não estava cansada e não queria dormir e correr o risco de ter novos pesadelos. Clara havia levado o notebook pessoal da fotógrafa para a casa provisória, pois queria ver mais fotos delas. O bem que aqueles registros faziam trazia uma paz e uma vontade de voltar no tempo só para revivê-los.
Estavam sentadas na cama, as costas apoiadas na cabeceira de ferro e Clara tinha o notebook no colo e a cabeça de Marina em seu ombro.
– O que você vai fazer? – perguntou a fotógrafa assim que Clara abriu o notebook.
– Ah... Estou sem sono, quero continuar vendo nossas fotos.
A morena ligou o computador portátil e começou a rever as fotos que Marina havia mostrado para ela semanas atrás. Abriu uma nova pasta e se deparou com o estúdio quase similar a um cenário de filme. Luz baixa, pétalas de rosas no chão, alguns balões enchidos com gás hélio pairando leves no teto... Ela e Marina abraçadas, testas e mãos unidas, olhares intensos, bocas coladas, tão íntimas...
– Nesse dia você realizou uma das minhas maiores vontades – disse Marina levantando do ombro de Clara, mas não se afastando dela.
– E qual era essa vontade?
– Nós dançamos – Marina fechou os olhos como se pudesse captar cada sensação daquele dia, cada cheiro, cada movimento. As lembranças eram tão nítidas que chegavam a ser palpáveis.
– E eu não pisei no seu pé? – questionou Clara rindo.
– Só uma vez, mas mesmo assim foi uma das noites mais perfeitas da minha vida.
Clara riu sabendo que o pisão no pé não poderia ser mentira. E até estranhou a singularidade da palavra, já que quando dançava com outra pessoa parecia ter dois pés esquerdos.
– Conte-me mais desse dia – pediu a morena fechando o notebook e dando total atenção à fotógrafa. Aquela lembrança havia tirado, pelo menos por um instante, o semblante sombrio e pesado de Marina que estava com um brilho diferente nos olhos e agora, depois de Clara fazer tal pedido, tinha um sorriso que obrigou a morena sorrir junto e roubar um beijo da fotógrafa.

FlashBackOn

Era uma noite atípica. A chuva que caía era fina e tão calma, que só sabia que estava chovendo pois ouvia-se alguns trovões ao longe depois de ver os relâmpagos produzindo seus clarões.
Mais um dia de trabalho intenso no estúdio chegava ao fim. Flávia e Vanessa já haviam sido dispensadas e não pensaram duas vezes em aproveitar aquele resto de noite acompanhadas de uma boa dose de álcool.
Clara como sempre gostava de ficar até o último segundo naquele lugar que já era muito dela. E gostava mais ainda quando tinha a companhia de Marina só para ela que a cada dia a deixava mais certa de que o amor pode vir em variadas formas, em qualquer época da vida, basta estar disposto a enxergar.
O som ligado em volume ambiente embalava os pensamentos da assistente de Marina enquanto ela namorava a fotógrafa em silêncio.
A fotógrafa estava tão imersa no que estava fazendo que não reparou nos olhares que esquadrinhavam cada milímetro do seu corpo que estava coberto por uma saia que ia até os pés, e uma blusa que ia pouco mais de três dedos abaixo dos seios. Deixando a barriga reta de fora, e deixando Clara completamente fora de si. Coisa que há muito tempo não ficava, coisa que nem sabia que poderia sentir por outra mulher.
– Clarinha! Você não vai embora? – perguntou Marina indo até ela e apoiando o quadril na mesa em que Clara estava – Eu te levo, se quiser.
– Não! Meu ferro velho ambulante está ai fora. Não se preocupe – garantiu a morena aproximando-se de Marina e deslizando o dedão pela maçã do rosto que estava corada e não era pelo blush.
Marina sorriu e se afastou um pouco, pois estava ficando cada vez mais difícil ter aquela mulher ali na sua frente e não poder fazer nada além de encubar sua vontade de tomá-la nos braços e fazê-la sua.
A fotógrafa ao mesmo tempo em que se sentia desiludida e cansada de tentar conquistar uma mulher que parecia tão distante da sua realidade, sentia que não deveria desistir. Sentia que deveria resistir e lutar, pois aquilo não era só mais um desejo carnal, aquilo era também a vontade imensa de olhar dentro daqueles olhos castanhos como os seus e dizer entre os lábios da outra: eu amo você.
Marina sabia que Clara não poderia ler seus pensamentos, mas ela sentia e enquanto seus olhos permaneciam num contato ininterrupto, ela sabia que Clara estava ciente de que o sentimento entre elas – que ainda nem tinha nome – estava ficando imenso e a qualquer momento ia explodir.
– Essa música! – disse Marina com o dedo indicador em riste. Foi até o aparelho de som e aumentou o som o suficiente para que as notas musicais preenchessem todo aquele espaço.
A fotógrafa caminhou até Clara e parou de frente a ela. Sem titubear perguntou:
– Posso te pedir uma coisa?
– Porque pergunta? Você sabe que pode me pedir o que quiser – respondeu Clara num tom completamente provocador.
– Dança comigo?
A proposta pegou a assistente de surpresa. Clara riu levando as mãos ao rosto e achando aquilo o maior absurdo do ano.
– Acho melhor não – recusou enquanto ria.
– Porque? Você acha que eu vou pisar no seu pé? – perguntou Marina também rindo.
– Eu vou pisar tanto no seu pé que amanhã você nem vai conseguir andar direito.
Enquanto riam, Marina chegou mais perto e ambas ficaram séria. Encarando-se. A fotógrafa pegou as mãos de Clara e as levou até o seu peito, manteve unidas às suas.
– Dança comigo – a pergunta se transformou em sentença afirmativa e Clara estremeceu – É sério. Eu sou apaixonada por essa música. Sabe aquela música preferida da vida? E... nos últimos meses eu penso muito... em você quando a ouço. E já até sonhei que dançava essa música com você, eu viajo...
Clara compartilhou o sorriso tímido da fotógrafa e aproximou os corpos desfazendo a união das mãos e passando os braços ao redor do pescoço de Marina. Não tinha noção se estava preparada para o que quer que fosse acontecer a partir dali, mas sabia o que queria. Não teria nada a perder. Já não prestava tanta atenção, estava perdida e completamente seduzida pelo movimento dos lábios cor de carmim da fotógrafa.
– Mas nós nunca tivemos tempo suficiente sozinhas para podermos dançar. Então eu só fiquei na vontade.
– Mata a sua vontade agora...
O corpo de Marina se arrepiou em toda sua extensão e ela não poderia supor onde Clara queria chegar, mas dançaria no ritmo dela seja lá qual música ela estivesse ditando.
Mesmo querendo permanecer nos braços de Clara, a fotógrafa se afastou para ligar o aparelho de som. Apertou stop e pegou um tripé. Colocou sua câmera que estava até um pouco quente devido ao dia intenso de trabalho no suporte e a programou.
– Dez em dez ou cinco em cinco? – perguntou a fotógrafa ajustando o temporizador – Cinco em cinco... – decidiu – Não quero perder um minuto desse momento.
A música voltou no início quando Marina apertou o play.
– Prometo não pisar no seu pé – disse Clara sorrindo.
Marina estendeu a mão, ao que respondeu:
– Maravilha!
Clara aceitou a mão de imediato e no mesmo momento os corpos grudaram-se e Marina sorriu quando percebeu que o encaixe entre eles era exatamente como havia sonhado tantas vezes.
Enquanto as mãos esquerdas estavam entrelaçadas com firmeza, Clara não conseguia deixar sua mão parada no ombro de Marina que adorava senti-la descer e subir por suas costas, deixando seu corpo completamente entregue às carícias involuntárias.
A morena por sua vez sentia a mão da fotógrafa em sua cintura e sentiu um calor particular e muito íntimo entre suas pernas.
Não tinham pressa, a música e a necessidade de se manterem unidas naquele momento que Marina tinha plena certeza que jamais se repetiria não exigiam pressa.
A fotógrafa também não conseguiu deixar sua mão na cintura curvilínea de Clara. A vontade que a consumia era descer a mão pelas pernas desnudas pelo short que a fotógrafa queria que fosse maior, pois passara o dia admirando as pernas bronzeadas e tendo pensamentos que envergonhava até ela mesma que era totalmente desprendida de pudores.
Os corpos pareciam se conhecer muito antes daquele contato. Se entendiam, iam no mesmo ritmo, para o mesmo lado e Clara se admirou por ainda não ter pisado no pé de Marina.
Notaram que dançavam abraçadas quando Clara roçou os lábios no pescoço de Marina após afastar os cabelos anelados para o lado. A fotógrafa não protestou, apenas se deixou ir.
Marina afastou-se de Clara e a pegou pela mão novamente, dessa vez para girá-la e fazer com que ficasse de costas para ela. O contato dos seios de Marina em suas costas nuas pelo decote exagerado da blusa fez Clara arfar. E ela percebeu que a chefe não usava sutiã pois sentiu os bicos tesos dos seios em sua carne. Controlando a vontade de matar a própria vontade e a sua curiosidade, Clara pegou as mãos de Marina de sua cintura e uniu as suas. Enquanto Marina beijava sua nuca e respirava em seu pescoço.
Aquilo foi o mais próximo que ambas haviam chegado de uma tortura.
Marina voltou a ficar de frente para Clara e os olhares flamejavam.
Clara mordeu o canto da boca e Marina umedeceu a sua com a ponta da língua. Ambas acompanhando o movimento da outra, sem piscar, mal respirando.
Não perceberam quando a música acabou, e a próxima que se seguiu permitiu que o clima continuasse como estava.
A assistente deu um passo à frente e Marina já tinhas as duas mãos na cintura dela novamente puxando-a ainda mais para si.
As respirações entrecortadas já se encontravam, foi quando divisaram que a ponta dos narizes já roçavam.
– Clara... – chamou Marina não querendo interromper o que viria a seguir, mas sabendo que era necessário.
– Shh... – interrompeu Clara passando a ponta do dedo indicador nos lábios de Marina, tocando a pinta tão pequenina abaixo do lábio inferior.
– Clara, você não sabe o quanto...
– Eu sei, pode ter certeza que eu sei – interrompeu mais vez. Prolongando o suspense beijando a pinta e com as mãos no rosto de Marina olhou-a mais uma vez, antes de fechar os olhos e beijar-lhe a boca roubando todo o seu fôlego.

FlashBackOff

– E foi assim que eu fiquei mais perdida do que eu já estava – terminou Marina encarando Clara – Você não sabe o quanto eu te queria pra mim, coisinha.
Clara riu daquele apelido que nos lábios de outra pessoa soaria infantil, impessoal, mas nos de Marina era exatamente o oposto.
Como se ouvisse um click! em sua mente Clara conciliou a ideia que havia tido ao explicar para Ivan o porquê de terem que se mudar novamente com a ideia que havia tido no momento em Marina concluira sua narração.
– Planeta terra chamando – disse Marina estalando os dedos na frente dos olhos de Clara.
– Ah! Estava aqui tentando me lembrar disso, mas... Parece que as minhas lembranças querem continuar fugindo de mim – disse Clara não expondo o verdadeiro motivo para ter ficado “fora do ar” – Vamos dormir, meu anjo? Você precisa descansar.
– Não estou com sono, amor... – Marina se aconchegou em Clara passando seu braço ao redor dela.
– Mas você precisa dormir, Marina! Eu vou buscar seus remédios porque ainda falta o da noite para você tomar e vou pegar um calmante também.
Marina acabou aceitando a ideia do calmante e antes de sair, Clara colocou a mão na nuca da fotógrafa e a beijou com toda vontade que sentia e que sabia que Marina também sentia.
– Já volto – sussurrou no ouvido da fotógrafa.
Clara desceu os degraus e encontrou Anna batendo o cigarro no cinzeiro enquanto Diogo finalizava a garrafa de vinho parecendo longe de estar alterado alcoolicamente.
– Anna, Diogo – chamou Clara chegando perto deles.
– A Marina dormiu? – perguntou Anna dando mais uma tragada.
– Não, vim pegar os remédios e conversar com vocês. Eu estou com uma ideia para a mansão dela e quero saber se vocês concordam e se concordam se podem me ajudar.
Diogo depositou a taça ao lado da garrafa enquanto Anna esmagava o cigarro, apagando-o. Clara sentou-se no sofá ao lado de Diogo e Anna empertigou-se em sua poltrona, ambos com os olhos na morena, captando cada palavra que saia de sua boca.

Notas finais
Sei que vocês não veem a hora de elas deitarem e rolarem (no sentido mais pervertido da expressão) e eu juro juradinho que não vai demorar, tá?