Notas iniciais
MINHA SANTA CHER! Tou até vesga de tanto escrever, brother! Demorei porque passei esses 7 dias escrevendo esse capítulo. Aproveitem e comentem. Obrigada. De nada.

Diogo depositou a taça ao lado da garrafa enquanto Anna esmagava o cigarro, apagando-o. Clara sentou-se no sofá ao lado do pai de Marina e Anna empertigou-se em sua poltrona, ambos com os olhos na morena, captando cada palavra que saia de sua boca
– O que vocês acham? – perguntou Clara diante da mudez deles depois de falar sem ser interrompida.
– Clara, é uma ideia... genial! Genial! Adorei – confessou Anna sentindo-se otimista depois de dias de total pessimismo.
– Vai demandar bastante tempo... – disse Diogo descruzando as pernas. Levantou-se e andou de um lado para outro enquanto encarava o chão – Mas acho que consigo encurtar esse tempo. Tenho meus contatos.
– Que bom que vocês gostaram, não sei como faria se vocês estivessem contra mim – disse Clara sorrindo para Diogo e Anna.
– Clara! – Diogo voltou a se sentar ao lado dela, agora com as mãos sobre as dela – Quando a Marina disse para mim “Pai, acho que encontrei a mulher da minha vida!” eu ri, porque essa era uma frase muito usada por ela.
Clara riu completamente sem graça sentindo uma pontada de desconfiança e insegurança. Afinal de contas estava redescobrindo o universo de Marina, pouco sabia sobre ela. Não havia dúvidas de que ambas haviam entrado uma na vida da outra para se transbordarem, ainda mais depois do que a fotógrafa havia passado por ela. E Clara também, acreditou na sessão de regressão, acreditou que as memórias que haviam voltado eram verídicas. E mais do que isso, acreditou no palpitar irregular que o seu coração ficava sempre que pensava e via Marina.
– Mas depois de ver todos os seus trejeitos e como você mantém... como se diz... – continuou Diogo puxando Clara para a conversa novamente. Estreitou os olhos e franziu os lábios buscando a expressão que queria encaixar ali – ah! Depois de ver como você tem jogo de cintura para cuidar do seu filho, de você e ainda da minha filha... O jeito como ela te olha, como vocês se olham... Estou cada vez mais certo de que a Marina escolheu a pessoa certa. Um pouco complicada – os dois riram enquanto os olhos brilhando de emoção se encaravam – Mas nem por isso menos valiosa.
– Quero pedir desculpas a vocês por todo esse transtorno causado – disse Clara – Infelizmente o passado não pode ser mudado, mas o futuro pode e eu vou cuidar para que a Marina seja feliz todos os dias. E eu quero ser responsável por essa felicidade.
– É muito bom ouvir isso – se pronunciou Anna.
– Preciso subir agora, senão a Marina dorme sem tomar os remédios.
Deu boa noite aos pais de Marina. Recebeu de Diogo um aperto de mão bastante amigável e Anna pediu que Clara abaixasse até ela para dar um beijo na testa e um carinho no rosto que quase arrancou lágrimas dela. Sentiu saudade do tempo que a própria mãe fazia aquele gesto de carinho que parecia cada vez mais distante.
Passou no quarto onde Ivan estava e o menino já dormia todo enrolado no edredom, formando seu próprio casulo. Foi até ele na ponta dos pés e o beijou desejando boa noite mesmo que ele não ouvisse.
– Demorei? – perguntou quando viu que Marina parecia longe de querer entregar-se aos braços de Morfeu.
– Um pouco – disse Marina estendo a mão para que Clara se deitasse ao lado dela.
A morena entregou os remédios e Marina colocou os três comprimidos na boca de uma só vez, virando meio copo de água em seguida. Fez careta quando sentiu que um deles dissolveu em sua boca o suficiente para deixá-la amarga.
– Vamos dormir? – sugeriu Clara afagando o rosto abatido da fotógrafa com o dorso da mão.
– Será que eu vou conseguir dormir? – perguntou apática e já sentindo o corpo arrepiar antecipadamente.
– Vai sim, linda! Eu estou aqui. Vem, deita aqui em mim.
Marina deitou a cabeça no ombro de Clara enquanto sua perna passou por cima das pernas da morena. Clara passou o braço por cima dos ombros de Marina e a puxou para si, beijando-lhe os cabelos e a embalando suavemente.
– Vou deixar a luz acesa até você pegar no sono – avisou Clara.
A fotógrafa aquiesceu e fechou os olhos. Clara sentiu a mão de Marina adentrando sua blusa e apertando-lhe as costas, como se quisesse criar garras para que não se separasse dela.
Marina acordou assustada menos vezes do que a primeira noite após voltar para casa. Não suava tanto, nem gritava. Parecia que ficar longe de casa era a cura para seus problemas traumáticos.
– Boa noite – desejou Clara assim que viu que os olhos da fotógrafa já não se abriam com tanta frequência a procura do perigo que estava longe dali.
– Não saia daqui.. – sussurrou Marina em meio a um bocejo, respirando fundo e conseguindo se entregar a um sono tranquilo pela primeira vez.
– Não vou sair, anjo. Meu lugar é ao seu lado – sussurrou Clara de volta, mas Marina havia conseguido descansar.
Assim que constatou que a fotógrafa havia enfim dormido a morena se desvencilhou dela, dando um beijo suave em sua maçã do rosto e puxando o edredom até um pouco abaixo do ombro. Marina se aconchegou mais ao travesseiro e permaneceu quieta, respirando compassadamente, deixando Clara aliviada.
Ela então foi até sua bolsa e pegou o caderno que havia comprado para registrar tudo o que havia se lembrado. Apesar de já fazer um tempo que não tinha rompantes de memória, quis fazer uma espécie de diário contando tudo o que bem entendesse. Achou uma caneta no fundo da bolsa e caminhou até uma poltrona que lhe parecia muito antiga, porém conservada e tão confortável que Clara quis passar a noite ali. Mas olhou na direção da cama e sorriu. Não trocaria aquela companhia por nada no mundo. Nem por aquela poltrona.
Abriu o caderno e o apoiou sobre o braço da poltrona, começou a escrever como se seus pensamentos estivessem há muito tempo loucos para serem liberados em formas de palavras grafadas:

Não tem sido dias fáceis. Muita coisa tem acontecido e estou tentando me adaptar a todas elas. Mas a melhor surpresa que eu poderia encontrar no meio desse turbilhão de acontecimentos, tem nome, sobrenome e sente muito amor por mim. Só isso define o que a Marina sente. Se não fosse por amor acho que ela não teria passado tudo que passou... Ai...! Pudera eu voltar ao passado, no exato momento em que decidi descer aquela maldita escada. Eu não teria perdido a memória e nada disso teria acontecido.
Aquele desgraçado do Carlos Eduardo continua solto e a polícia está atrás dele (isso é o que dizem).
Estou tão perdida e ainda não contei ao meu filho sobre o meu verdadeiro relacionamento com a Marina. Acho que não teremos problemas quanto a isso, ele é esperto, já deve ter sacado que há alguma coisa maior que uma simples amizade.
Falando em amizade, descobri que tenho boas amigas ao meu lado. A Gi tem se mostrado muito prestativa. A Vanessa apesar de ser um pouco ácida, é muito solicita. E a Flavinha é um doce. E falando em amizade tem a tal da Marina Carolina... mas ela não é minha amiga, é amiga da Marina e ainda por cima é ex dela. Ah! A Vanessa também é ex. Será que ela é ex da Flávia também? Será que ela é amiga de todas as ex?
Não pira, Clara! Não pira!
Só pelo jeito da Marina me olhar sei que – posso parecer pretensiosa – ela tem olhos só pra mim. E eu... Eu que só beijei algumas mulheres... garotas na verdade. Éramos apenas garotas, e apesar de apenas uma ter me chamado a atenção, ter mexido com os meus sentidos eu não consegui ir além. Não sabíamos muito o que fazer, mas eu pelo menos tinha consciência do desejo que eu sentia, mas nunca nem me relacionei mais sério, agora só tenho olhos também para Marina. Não sei... A Marina me faz um bem que nunca senti com ninguém. Se antes do acidente era assim eu não sei, mas eu sinto que nossa ligação é forte. Tão forte que resistiu aos meus meses de internação e aos últimos fatos. Cada dia me apaixono mais por ela. E não estou falando só do ato heroico que foi a luta física travada a meu favor – estou sendo pretensiosa de novo –, mas hoje ela me contou uma coisa que não consegui esquecer...

Clara parou de escrever e apoiou a nuca no encosto, respirou fundo. De olhos fechados tentou remontar o episódio narrado por Marina horas antes. Uma falta de ar súbita lhe atingiu e ela sentou ereta na cadeira, puxando oxigênio suficiente para não ficar tão zonza. Colocou a mão no coração e ele estava acelerado, mas não num ritmo que lhe fizesse pensar que estava tendo um ataque cardíaco. Então fechou os olhos novamente e foi como se acendessem mil lâmpadas simultaneamente em sua mente.

FlashBackOn

– Eu sei, pode ter certeza que eu sei – interrompeu mais vez. Prolongando o suspense beijando a pinta e com as mãos no rosto de Marina olhou-a mais uma vez, antes de fechar os olhos e beijar-lhe a boca roubando todo o seu fôlego.
Marina cambaleou um pouco para trás, mas Clara a prendeu em seus braços enquanto o beijo se intensificava.
Como se fosse inexperiente, Marina não sabia onde colocar as mãos. Optou por colocá-las na cintura de Clara que por sua vez, tinha uma mão na nuca da fotógrafa e a outra em sua cintura nua pela blusa curta.
Marina foi andando fazendo Clara repetir o gesto e a morena sentiu algo trombar em sua lombar. Era a mesa onde estavam vários papeis, fotos para analisar, clipes e outras coisas. Sem desgrudar as bocas, Marina tirou uma mão na cintura de Clara e a usou para jogar tudo o que estava em cima da mesa no chão. Entendendo o recado, Clara impulsionou o corpo sentando-se e afastando as pernas para que Marina se encaixasse ali.
Clara passou as pernas ao redor de Marina e sentiu seu sexo roçar com aquele contato. Apertou a nuca da fotógrafa e se inclinou sobre a morena, mordendo o seu queixo.
Para ambas aquele beijo tinha gosto de novidade, desejo e necessidade. Para Clara em particular era uma redescoberta, e essa sensação aumentou quando as mãos de Marina tocaram sua pele quente e arrepiada. Fazia muito tempo desde que havia beijado uma mulher. Garota na verdade. E apesar da vontade de querer ir além e descobrir todas as nuances daquela novidade, Clara não pode. Mas agora poderia e seria melhor ainda, seria nos braços de alguém ela amava cada dia mais.
Marina estava entorpecida. Ansiava por aquilo desde quando colocou os olhos em Clara na galeria. No começo poderia ser até o sabor do desafio que a fez convidar a morena de franja infantil para visitá-la, mas depois era a vontade de dividir a cama e a vida que a fez seguir em frente.
Como se tivessem caído na realidade novamente, as duas abriram os olhos. As bocas ainda permaneciam próximas ao passo que as respirações se tornavam mais tranquilas.
Mas Clara parecia tão insaciável quanto a fotógrafa. Provocava Marina deslizando a boca pela linha da mandíbula e terminava mordendo o queixo. A fotógrafa devolvia a provocação escorregando sua língua pelo pescoço, mordendo de leve. Clara arfou e queria que Marina fizesse aquilo com todo o seu corpo, mas teve que ser forte.
– Não me deixa marcada – disse enquanto se afastava seguindo sua razão. Seu corpo ardia de vontade de sentir o que Marina tinha para oferecer. E o corpo de Marina queimava de vontade em mostrar tudo o que ele poderia fazer.
– Não vou... – sussurrou Marina no ouvido de Clara –... mas eu quero você, Clara! Muito! Inteira! Só pra mim...
A morena sentiu o sexo contrair, sentiu-o umedecer, mas mais uma vez seguiu sua razão.
– Espera só mais um pouco, eu vou resolver isso. Te prometo – respondeu com o rosto na curva do pescoço de Marina – Eu também... Eu também te quero, Marina. Tanto quanto você me quer. Mas...
– Não fala nada! – interrompeu a fotógrafa colocando os dedos nos lábios de Clara – Me beija!
Clara mordeu o lábio e colocou uma mão no rosto de Marina. Admirou aquele rosto tão expressivo e de beleza tão singular alguns segundos. Entreabriu os lábios convidando os de Marina e a puxou para si.
A assistente desceu a mão arranhando levemente a fotógrafa até o colo. Marina não conseguiu se controlar, por cima da roupa tocou um seio de Clara fazendo-a ofegar em sua boca.
Afastaram-se. Olharam-se. Mergulharam novamente num beijo ensandecido.
A boca de Clara estava no pescoço de Marina quando a mão da morena adentrou aquele pedaço de pano que a fotógrafa vestia.
– Ah, Clara... – disse Marina quando sentiu a mão toda apertando-lhe o seio nu. Ela não estava numa situação tão diferente daquela que lhe corrompia o corpo. Seu sexo pulsava querendo ser tocado.
Com os dentes fazendo o trajeto de volta a boca da fotógrafa, Clara tomou iniciativa de encerrar o beijo. Não queria, não saberia como conseguiria ficar sem aquilo, mas precisava. Pelo menos naquele momento. Já estava a ponto de arrancar a própria roupa e fazer o mesmo com Marina. Estava molhada... Tão... Flamejante de desejo.
E Marina sabia que Clara estava quase perdendo o controle, pois ela também estava quase usando o vão que se formou entre a perna e o short da morena para tocá-la. Sentia a coxa rígida em sua mão, seria só subir alguns centímetros. Precisava daquilo, mas...
– Preciso ir – anunciou Clara com a testa apoiada a testa de Marina.
– Está arrependida?
– Não fala besteira. Claro que não – afirmou afastando as testas para que os olhos pudessem se encontrar – É só...
– Clara, quando? – cortou Marina não querendo ouvir qualquer coisa que pudesse estragar aquele momento – Eu só quero saber quando a gente vai viver tudo isso que a gente está sentindo?
– É muito difícil...
Clara tentou descer da mesa e Marina se afastou para que ela o fizesse.
Já de pé a morena ajeitou suas roupas assim como a outra.
– Eu sei que é difícil, mas Clara... – a fotógrafa respirou fundo e tentou não se exaltar. – Eu estou te amando, cada segundo, cada minuto, cada dia mais. Eu não consigo mais... imaginar a minha vida sem você. E quando eu imagino minha vida você está ao meu lado, você é minha... mulher.
A cabeça de Clara começou a girar e aquele ciclo infeliz onde ela não sabia o que fazer, como fazer parecia querer recomeçar. E ela não queria contaminar Marina com suas dúvidas e aflições. Tudo até aquele momento havia sido tão bom e Clara queria repetir. Iria lutar para que fosse o quanto antes para os braços de Marina sem qualquer empecilho. Mas naquele momento não queria discutir.
– Eu preciso ir – disse fingindo não ter ouvido nada, mesmo sabendo que as palavras de Marina estavam rodopiando em sua mente naquele momento.
– Vai, mas eu não quero mais ver você indo embora. Não vou nem olhar.
Marina virou-se de costas para Clara e continuou:
– Não aguento mais ver você indo.
Aquilo atingiu Clara como navalha rasgando a carne. Sentiu-se como uma flor murcha. Começou a piscar rápido para despistar as lágrimas e em seu íntimo prometeu que resolveria sua situação com o marido o mais rápido que pudesse. Se Marina não aguentava mais vê-la partir, Clara não aguentava mais deixá-la.
Pegou a bolsa em cima da banqueta e colocou no ombro, esperou que Marina se virasse fazendo cair por terra o que tinha acabado de falar, mas não aconteceu.
Marina cumpria tudo o que falava. Por mais dolorido que fosse continuaria de braços cruzados até ter certeza de que Clara não estava mais ali.
Clara continuou encarando as costas da fotógrafa. Suas mãos ainda sentindo o calor do corpo, os lábios sentindo o gosto doce do beijo, suas narinas ainda sentindo o cheiro amadeirado da pele branca... A morena jogou a bolsa no chão e caminhou até sua perdição puxando-a pelo braço e colando os corpos novamente.
Marina assustou-se, mas nem por um milésimo de segundo pensou em recuar. Quando se dizia respeito a Clara era totalmente passiva, submissa.
Beijaram-se com ferocidade, desequilibrando-se e quase caindo, mas se seguraram. Foram terminando o beijo aos poucos e então Clara caminhou de costas e disse:
– Pode virar de costas de novo.
Marina riu e viu Clara indo embora, pois sabia que seria uma das últimas vezes.

FlaskBackOff

Clara praguejou contra a lembrança quando abriu os olhos, não por ter lembrado, mas por ter se dado conta de que estava excitada. Não se recordava de momentos onde sentia o corpo vibrar só por se lembrar de beijos mais ardentes.
Olhou para Marina que ainda dormia serenamente. Foi até o banheiro e abriu a torneira, jogou água na nuca e molhou o rosto. Enxugou-os e voltou para o quarto. Achou melhor colocar tudo no caderno para, quem sabe assim, diminuir o latejar de seu sexo.
Escreveu até os dedos pedirem arrego. E em pouco tempo cinco folhas se encheram com sua letra que se tornou tombada e um esboço de garrancho. Concluiu que se continuasse assim precisaria de um caderno com mais de noventa e seis folhas.
Antes de deitar colocou o caderno embaixo da cama e beijou suavemente a ponta do nariz de Marina que o remexeu um pouco e buscou com a mão o corpo de Clara. A morena atendeu ao pedido e virou-se de costas, chegando para trás o suficiente para Marina se sentisse confortável. Fechou os olhos, mas não conseguiu desligar os pensamentos.

***

No dia seguinte Marina havia acordado pouco depois de o sol nascer. Era muito cedo ainda, mas havido dormido cedo no dia anterior e estava se sentindo descansada. Respirou aliviada quando percebeu que havia dormido a noite toda e abriu um sorriso quando viu Clara dormindo. Não quis acordá-la. Achou que não tivesse o direito de interromper o descanso que era tão merecido quanto o seu.
– Te amo – soprou no ouvido de Clara, afastando o cabelo que repousava no rosto moreno e encostando os lábios em sua face.
Levantou da cama com cuidado e caminhou até o banheiro. Tirou os curativos do braço e das costelas e gemeu um pouco quando o esparadrapo puxou sua pele. Entrou no chuveiro e deixou a água cair livre pelo seu corpo, foi como sentir que suas energias estavam sendo renovadas.
Não tomou o banho que queria, pois ainda não conseguia se curvar o suficiente para não sentir algumas fisgadas. E não queria pedir a ajuda de ninguém para fazer uma tarefa tão simples. Mas havia sido uma chuveirada suficiente para deixá-la limpa. O caminhar ainda continuava lento. As dores já não eram tão intensas e ela conseguiu descer as escadas sozinha, depois de colocar uma roupa confortável e enxugar os cabelos.
– Marina! – Ivan veio em sua direção oferecendo sua mão para ela apoiar.
– Você não tinha que estar na escola, Ivan?
– Eu vou daqui a pouco, ainda tenho que tomar café – respondeu ele. De mãos dadas se encaminharam para a sala de jantar onde a mesa do café estava posta.
– Bebê, você não pode fazer esforço. Deveria ter ficado lá no quarto, eu levaria o café para você – repreendeu Anna puxando a cadeira para a filha se sentar.
– Não aguento mais quarto, mãe! Preciso respirar um ar diferente – confessou.

Clara acordou assustada remexendo-se na cama procurando por Marina. Olhou no banheiro e não a viu, mas sentiu o cheiro de sabonete que ainda pairava ali. O ar abafado denunciava que ela havia tomado banho há pouco. Prendeu os cabelos num coque e calçou os chinelos, descendo as escadas às pressas. Quando ouviu o burburinho vindo da sala de jantar, soltou o ar pesadamente.
– Você quer me matar do coração? – perguntou olhando para a fotógrafa e dando seu primeiro bom dia ao filho que comia – Acordei...
E parou de falar. Não saberia qual seria o impacto se Ivan ouvisse o “e não te vi na cama”. Clara trocou um olhar com todos que estavam à mesa e sentou ao lado de Marina.
– Eu estou bem, Clarinha – disse olhando para ela e colocando sua mão sobre a dela – Só não queria tomar café na cama.
– Cara, come logo para não nos atrasarmos. Sua escola agora está longe pra caramba – pontuou o filho gesticulando na direção dele.
Depois do café, Clara subiu para o quarto e trocou de roupa. Apanhou seus óculos escuros e pegou as chaves do carro de Anna que havia emprestado para que ela levasse Ivan à escola.
– Amor, eu vou demorar um pouco porque... Preciso resolver umas coisas – disse Clara enquanto Marina sentava na varanda da casa.
Marina não conseguiu ignorar o adjetivo que Clara havia usado. Virou o rosto da direção dela e abriu um sorriso imenso.
– Que saudade de ouvir você me chamando assim...
Clara não pensara em dizer aquela palavra que saíra tão naturalmente de seus lábios. Só havia notado a espontaneidade ao dizer “amor” quando Marina chamou atenção para aquilo. Ela sorriu de voltar e agachou-se em frente da fotógrafa.
– E de que outro jeito eu te chamaria, hein? – a mão da morena pousou no rosto sorridente e o tom da voz diminuiu, tornando-se mais íntimo – Você é o meu amor, Marina. Cada dia tenho mais certeza disso.
Completamente aquecida pelas palavras de Clara, a fotógrafa retribuiu com um beijo tranquilo.
O filho de Clara surgiu na varanda no momento em que ela se afastava de Marina, fazendo-a pensar no quanto precisava esclarecer logo a situação entre elas para o menino.
Ivan se despediu de Marina e foi de mãos dadas com a mãe até o carro que estava a poucos metros dali.

Clara voltou para Santa Teresa e foi direto para a mansão de Marina.
Diogo já estava lá e falava ao celular quando viu Clara entrar no jardim. Se a conversa já estava se encerrando ou não Clara não saberia dizer, mas assim que a viu ele tirou o aparelho da orelha guardando-o no bolso em seguida. Ao lado do sogro, havia um homem que Clara não conseguia tirar os olhos. Não por sua beleza peculiar, mas porque...
– Clara, esse é Noah Henz, um grande arquiteto. Talvez você já tenha ouvido falar nele e nos seus maravilhosos trabalhos.
Claro que ela já havia ouvido sobre Noah. Ele era um dos arquitetos mais famosos do Rio de Janeiro, conhecido por sua precocidade em desenhos de traços precisos e surrealistas, Noah Henz havia ganhado notoriedade ainda aos vinte cinco anos de idade, quando ouviu seu nome sair da boca de Oscar Niemeyer.
– Muito prazer – disse Clara oferecendo a mão para Noah.
– O prazer é todo meu – respondeu o homem moreno de olhos azuis como o mar de Ipanema.
– Vamos entrar, temos muito o que conversar – disse Diogo.
Os três sentaram-se na sala e Clara começou a verbalizar sua ideia, como tinha surgido e o que já pensava sobre como concretizá-la. Pediu agilidade no processo. Eles não sabiam, mas a pressa de Clara era intrínseca.
– Entendi, Clara! Você quer mudar os espaços, porém quer preservar a identidade da Marina... – Noah continuava escrevendo em seu bloco enquanto falava. Virava o bloco de cabeça para baixo, na horizontal deixando Clara e Diogo sem entender nada.
– Preciso conhecer o outro espaço para que eu possa visualizar o que e como mudar – informou fechando o bloco.
Encaminharam-se para o estúdio.
Estava vazio.
Sem Marina e as meninas ficava tão inexpressivo, morto. Não se parecia em nada com o espaço alegre que tinha visitado semanas atrás. E essa imagem se distanciava quando pensava em tudo que havia acontecido ali.
Noah sentou numa banqueta e continuou suas anotações. Olhava vez ou outra para o espaço, usava as mãos para enquadrar e destacar algum detalhe e voltava para o seu bloco.
Diogo e Clara acompanhavam em silêncio.
– Pronto! – disse Noah entusiasmado levantando-se – Esse aqui é o primeiro projeto.
Exibiu suas anotações, que Clara viu serem desenhos perfeitos em 3D. Parecia ser possível tirá-los do papel e colocá-los diretamente no lugar.
– E esse aqui... – ele virou a página e fez Clara ficar boquiaberta com o que viu.
Ela passou os desenhos para Diogo que analisou tudo.
Estava perfeito.
– Em quinze dias tudo isso está pronto. Para vocês está bom?
– Excelente – disse Clara ansiosa.
– Se ela está de acordo eu também estou – completou Diogo.

***

Clara se remexeu na cama e ao passar a mão ao lado sentiu que Marina não estava. Abriu os olhos um pouco temerosa. Perguntou-se quando pararia de se assustar por não ver a fotógrafa ao seu lado. Talvez quando tivesse certeza de que o ex-marido estivesse atrás das grades, pagando por todas as atrocidades que fizera.
Para o seu alívio, Marina estava a poucos metros de seus olhos. Olhava pela janela o dia que vinha ganhando força, tendo o canto dos pássaros como trilha sonora. A fotógrafa se virou como se sentisse os olhos de Clara em suas costas.
– Bom dia, amor – desejou ela voltando para cama e se aconchegando em Clara.
– Que cara é essa? – perguntou Clara fazendo cafuné em Marina.
– É hoje que vamos à psicóloga, né?
– Uhum.
– Hm... – Marina se afastou de Clara e sentou na cama torcendo os lábios.
– Não me olha com essa carinha, amor. Você sabe que precisa, pelo menos uma vez. Por você, por mim, por nós – disse Clara.
Os olhos de Marina transbordaram no mesmo instante e as lágrimas correram livres. Sabia que precisava, mas ainda sentia medo. Colocar para fora todo o medo que sentia parecia uma boa alternativa, falar daquilo com alguém que havia ouvido milhares de casos e entendia seu pavor era diferente. E necessário. Ela sabia que era. Mas ao mesmo tempo sentia a alma se rasgando só de imaginar relembrar tudo. Com ou sem detalhes, não seria fácil.
– Se você não quiser mais ir, tudo bem. Eu apoio qualquer decisão que tomar, mas pelo menos hoje você vai. Acho que a Zahra não vai me deixar entrar com você na consulta, mas eu estarei atrás da porta te esperando – garantiu a morena tentando enxugar o rosto de Marina.
– Tudo bem. Eu vou, mesmo que... mesmo que eu não consiga dizer nada, eu vou.

Clara deixou Ivan na escola e seguiu com uma Marina quieta para o hospital. A fotógrafa ficou calada durante todo o trajeto. Olhava a paisagem em movimento pelo vidro entreaberto do carro, sentindo o ar quente bagunçar o cabelo que tocava. Sentiu a mão de Clara em sua coxa e um arrepio de tesão subiu pela sua coluna quando a morena apertou. Rápido como surgiu foi embora, pois aquele toque era de apoio e não uma tentativa de seduzi-la ainda mais.
Assim que passaram pela recepção, Marina entusiasmou-se um pouco ao ver Mônica. A enfermeira andava como se tivesse rodinhas nos pés, mas parou abruptamente quando viu a fotógrafa ao lado de Clara. Sorriram uma para outra.
– Que bom te ver aqui, minha querida – disse Mônica abrindo os braços.
Marina estava tão sensível que se deixou abraçar e devolveu o carinho apertando-a em seus braços por minutos a fio.
– Oi, Clara. Muito bom ver você aqui também – disse ela abraçando-a também.
Conversaram um pouco e Marina desabafou sobre o porquê de estar ali. Mônica ouviu tudo em silêncio e quando teve certeza de que a fotógrafa havia encerrado, apenas repetiu o que Carlos havia dito dois dias antes para Clara: Zahra era uma ótima psicóloga. E anexou:
– Você vai se sentir muito melhor, Marina. Acredite, todos esses fantasmas vão sumir quando você atravessar aquela porta.
– Eu disse para ela que não há o que temer – falou Clara olhando para Mônica e depois para Marina.
A fotógrafa apenas sorriu.
– Agora preciso voltar. Se precisarem de alguma coisa, estarei no oitavo andar.
Enquanto esperavam Marina cruzava e descruzava as pernas em tempo recorde. Estralava os dedos e roía o canto das unhas.
– Marina Meirelles? – ouviu uma voz grave chamar e então prendeu a respiração.
A psicóloga lançou um olhar para Clara que sorriu.
– Calma, vai dar tudo certo, amor – pediu Clara dizendo entre os lábios de Marina antes de tocá-los com leveza.

Marina

Antes mesmo de a psicóloga me oferecer a cadeira para sentar eu sentei e cruzei as pernas umas quatro vezes até chegar perto de me sentir confortável, porque eu não conseguiria chegar mais perto do que isso.
Ela era tão bonita que pensei se não era melhor estar ganhando o dobro, talvez o triplo do seu salário como psicóloga nas passarelas da vida. E ela acha que não sei, mas notei o olhar que lançou para Clara. Espero que tenha sido apenas para garantir que eu sairia viva daqui.
As primeiras perguntas eram de praxe e para deixar meu cadastro no hospital atualizado. Meu corpo todo enrijeceu quando da boca dela saiu:
– E como você tem passado, Marina?
Apertei os lábios e olhei para baixo. Não queria chorar, mas não sabia por quanto tempo mais aguentaria segurar essa vontade. Zahra parecia compreender, pois esperou o meu tempo. Ficou quieta apenas me olhando e esperando a resposta.
– Na medida do possível bem, porque... – era difícil demais admitir que eu que nunca tive muitos medos estava sendo tomada de repente por todos eles de uma só vez –... tem sido dias difíceis, parece que... é como se... se eu soubesse que ele vai voltar e... e fazer tudo de novo ou ser pior.
– Quando você diz “ele” está se referindo a quem?
Pensar no nome deixou os pelos do meu braço arrepiados e eu engoli em seco algumas vezes antes de prosseguir:
– No Cadu... Carlos Eduardo, o ex-marido da minha mulher – respondi como se tivesse tirado um peso das costas.
Zahra anotava em seu desktop tudo o que eu dizia e as perguntas que se seguiram depois daquela me levaram de novo para aquele dia terrível onde eu achei que fosse morrer de tanta dor e medo.
Contei sobre meus pesadelos, sobre os meus tremores e como eu suava enquanto me debatia na cama enquanto tinha os piores sonhos que alguém poderia ter. A consulta durou uma hora inteira e achei que deveria ter durado mais, porque eu realmente estava me sentindo melhor apesar de ter esgotado minha cota de lágrimas da semana durante aquele tempo.
– Marina, você tem estresse pós-traumático e tudo isso que você me falou: a sudorese, os tremores, os pesadelos, são consequência desse trauma – disse ela com as mãos entrelaçadas sobre a mesa me olhando e me passando uma segurança que eu só sentia com a Clara – A terapia pode te ajudar a amenizar essas consequências, não há necessidade de medicação já que você disse que está conseguindo dormir depois que se mudou para a casa da sua mãe.
Terapia... Eu nunca fui uma pessoa de “terapia”, precisar de ajuda para resolver os meus problemas. Não desmerecendo essa modalidade, mas é só que eu sempre me virei sozinha, mas eu tive que admitir para mim mesma que sim, eu precisaria de ajuda, porque sozinha eu não conseguiria.
– Vou te indicar um grupo dedicado a estresses pós-traumáticos aqui no hospital mesmo. Há sessões todos os dias, mas você pode escolher os dias, ou dia que quer fazer. Só quero que você faça, está bem?
– Tudo bem – concordei – Eu vou fazer.
Ela me estendeu a mão e eu a apertei. Seguimos até a porta e encontrei Clara ainda sentada na cadeira me esperando.

– Espera só um minutinho? – pediu Clara assim que Marina voltou.
A fotógrafa assentiu e acompanhou Clara com os olhos. A morena ia em direção à Zahra.
– E ai, doutora? O que você tem a me dizer? – perguntou Clara visivelmente aflita.
– Não é ético conversar sobre minhas consultas, mas para você eu vou abrir uma exceção porque você foi brilhante em relação à Marina – disse Zahra abrindo um sorriso.
Então a psicóloga resumiu sua conversa com a fotógrafa e disse a Clara que havia indicado apenas terapia, que nenhuma medicação seria necessária.
– Obrigada, Zahra. Não sei nem como te agradecer.
– Agradeça-me ajudando a Marina como vem fazendo.
– Não precisa nem pedir duas vezes – disse Clara oferecendo a mão para a psicóloga e voltando para Marina.
Já no carro, voltando para casa Marina estava se sentindo ainda mais leve, estava conversando, rindo e tirando de Clara sorrisos extremamente doces e olhares intensos.
– Ah! Eu só não gostei mais da Zahra porque ela ficou cobiçando você, dona moça – disse Marina.
– O que? Tá louca? Eu hein... Nada a ver, Marina.
– Estou de olho, dona moça.
– Pode ficar, adoro quando seus olhos estão em mim – provocou Clara beijando o pescoço da fotógrafa assim que a sinaleira ficou vermelha.

Uma Semana Depois

Para a felicidade do casal, Carlos Eduardo parecia ter sumido do mapa. Mas infelizmente a polícia não havia notícias sobre ele, o que amenizava a sensação de alívio de ambas.
Enquanto esteve no Rio de Janeiro, Diogo providenciou seguranças para Marina, Clara e todos que eram do círculo de convívio delas. Embora Marina não quisesse andar por ai com dois “guarda roupas” atrás de si, Diogo pediu que eles fossem discretos e a seguissem de longe. A fotógrafa nunca usou de segurança para circular por onde quer que fosse.
Felipe foi visitar a cunhada e ambos ficaram conversando por tanto tempo que Clara até sentiu uma pontinha de ciúmes. O irmão também disse que quanto aos outros membros da família, todos continuavam irredutíveis quanto à decisão de Clara. O fez a morena determinar que se eles quiseram assim, então não moveria um dedo para mudar a situação. Estava cansada só de imaginar outra discussão com a irmã e com a mãe.
Mas Felipe garantiu que ele e a sobrinha, Luiza (que também havia ido visitar Marina certo dia), estariam sempre lá por Clara, e que ela não precisaria se preocupar com mais ninguém.
A morena continuava a colocar no papel tudo o que acontecia, tudo o que lembrava e tudo o que queria lembrar. Sempre escrevia antes de dormir e já havia comprado um caderno com muito mais folhas, pois seu fluxo de pensamento era intenso.
Voltaram ao hospital para tirar os pontos e o médico elogiou a boa cicatrização de Marina e retirou toda a medicação que ela tomava. Deixou apenas uma pomada para as cicatrizes.
A fotógrafa havia iniciado a terapia, naquela semana iria pela terceira vez. Na primeira ficou relutante, fazendo Clara dar voltas ao redor do hospital duas ou três vezes antes de decidir se desceria ou não, mas acabou descendo e viu que era a melhor opção. Aceitar e enfrentar seus medos.
Naquela terceira sessão saiu de lá com os olhos inchados. Ouvira o relato de uma jovem de quinze anos que havia sido vítima de abuso do padrasto por dez vezes. Contou que a mãe não acreditava nela e até a acusou de provocá-lo, até que um dia a mãe viu a cena do até então marido tentando tirar a força o short jeans da filha. A jovem, que se chamava Amanda, disse que nunca havia visto a mãe tão fora de si, pois ela esfaqueara o ex-marido duas vezes e agora ele estava atrás das grades e “eu estou aqui tentando seguir com a minha vida normalmente” concluiu.
E Marina ouviu outras histórias de tortura e abusos e viu sequelas maiores do que as cicatrizes físicas que carregava no corpo. Havia crescido muito naquelas três sessões.
A fotógrafa sentia Clara muito mais próxima a ela, só faltava uma coisa para que voltassem a ser como eram antes, ouvir “eu amo você, amo você” como Clara havia repetido várias vezes em Angra dos Reis e feito o coração de Marina se desmanchar. Mas a fotógrafa não cobraria nada de Clara, nunca havia cobrado, na verdade... até havia, mas... Clara já estava ali com ela e para ela, estava de peito aberto, poderia esperar pelo tempo que fosse para ouvir aquele jeito tão “Clara” de se declarar.
E naquela semana Clara havia se lembrado de quando Marina tinha lhe dado um ultimato. Era começo de noite quando Anna, Marina e Clara conversavam sobre como Marina havia corrido atrás de Clara mais do que um queniano na São Silvestre.
– Se isso não é amor, o que mais seria? – perguntou Anna olhando encantada para a nora e para a filha.
– Boa pergunta, Anna – disse Clara olhando para Marina enquanto tirava fios rebeldes da testa da fotógrafa.
Foi no momento em que os olhos de ambas se encaravam que Clara teve um lampejo e foi como se tivesse adentrado os olhos de Marina.

FlashBackOn

Enquanto arrumava o cenário para o ensaio do dia, Just The Way You Look Tonight tocava pela quinta vez aquele dia.
Marina havia acordado com uma energia que há tempos não aparecia.
Cantava, assoviava a música, sorria... Sentia-se pronta a enfrentar o mundo.
E de longe Clara observava a fotógrafa.
Assim que a viu Marina abriu um sorriso que fez a respiração de Clara falhar no mesmo momento. Mas Clara precisou ser forte, pois depois daquele beijo que dera muita coisa havia mudado e ela não queria dar nem tirar esperanças de Marina, queria apenas um pouco de espaço. Poderia ter ficado em casa, inventado uma desculpa para não ir trabalhar. Porém no mesmo lugar onde se perdia era onde se encontrava, e ficar em casa pensando não ajudaria, pelo menos trabalhando – o que era sempre uma atividade intensa – se distraía.
Não tiveram tempo para amenidades, pois Clara havia chegado em cima da hora. Deixando Vanessa furiosa.
Marina tinha vontade de se jogar nos braços de Clara, mas tudo o que recebeu foi um oi morno e um meio sorriso. E sentiu ali naquela falta de contato direto que alguma coisa estava errada.
Vanessa pediu para as modelos se posicionarem, para Clara dispor as luzes nos devidos lugares e Flavinha separava as lentes que Marina usaria enquanto Gisele separava as roupas que seriam usadas naquele dia.
Marina buscava Clara com os olhos a cada pausa que ocorria e Clara não fugia. Entretanto não respondia ao que a fotógrafa perguntava em silêncio.
Quando notou a angústia nos olhos de Marina, Clara parou de responder aos olhares.
Se em Marina um turbilhão confuso de sentimentos começava a nascer, com Clara não era diferente.
Depois de uma hora e meia intensa de flashes e movimentos ensaiados, Vanessa atendeu ao pedido de Marina para que dessem uma pausa.
A fotógrafa colocou a câmera sobre a mesa e se virou, mas não precisou procurar, Clara estava logo atrás dela.
Marina olhou ao redor e estavam a sós. A passos lentos aproximou-se de Clara que recuou.
– Eu sei que você quer respostas – disse Clara segurando as mãos de Marina – Ainda mais depois do que... Do que aconteceu sábado.
A fotógrafa engoliu em seco e apertou as mãos de Clara.
– Marina... Tem... – Clara respirou fundo com os olhos já marejados – Tem um turbilhão de sentimentos passando aqui dentro, eu estou perdida. Meu casamento está um lixo, mas não posso...
Marina riu balançando a cabeça em negação.
– E você descobriu isso agora? Depois de brincar comigo, de me deixar invadir sua vida, de... De me beijar? Clara, foi você que me beijou sábado. Você aceitou dançar comigo, você tem aceitado todas as minhas investidas e só agora caiu a sua ficha?
Marina explodiu. Cansada de ser a apaixonada iludida. Cansada de ser aquela que esperava e que renunciava a qualquer coisa pra ter o amor que desejava em suas mãos.
– Pelo amor de Deus, Clara. Eu também preciso de amor, preciso ser cuidada. Não posso ficar à mercê da sua indecisão, não posso...
Clara tremia diante das verdades. E não podia tentar desmentir nenhuma, porque não conseguiria. Marina tinha razão. Ela tinha aceitado tudo. E muito consciente do que estava fazendo.
– Eu posso sair da sua vida agora se você quiser. Me fala que é isso que você quer e eu desapareço, você nunca mais vai me ver – ameaçou Clara num tom de desafio que ela mesma sabia que não cumpriria.
Marina sentou no banco prateado apoiando os cotovelos sobre as pernas. Apoiou a cabeça que fervilhava nas mãos unidas e começou a controlar a respiração. Já tinha chorado demais por aquela mulher, não iria desmoronar ali, sabendo que receberia o consolo por pura piedade e culpa. Não era isso que ela queria.
Arrependida do discurso que fizera, Clara ajoelhou-se em frente à fotógrafa.
– Desculpa, eu fui ridícula... Mas Marina, tenta me entender. – pediu tentando controlar o choro – Você virou minha vida de ponta cabeça. Ofereceu tudo aquilo que eu precisava naquele momento... Eu não sei como fazer isso. Eu não sei se posso fazer isso.
– Não sabe ou não quer? – Marina a encarou com o cenho franzido.
– Marina...
– Olha, Clara – a fotógrafa levantou soltando o ar pesadamente pelas narinas – Quando você se resolver com você, quando souber o que você realmente quer, me procura. Mas me procura pra dizer se eu ainda devo insistir nesse amor ou se eu posso parar de ser trouxa.
Marina não deu espaço para réplica. Sabia que ouviria respostas ambíguas.
Clara ficou parada olhando Marina sair pela porta. A verdade dando loopings em sua mente. Estava contra a parede e precisava escapar dela com uma decisão.

FlashBackOff

Marina percebeu a mudez de Clara e perguntou o que era, Clara não hesitou e contou o que tinha acontecido. Anna comemorou batendo palma animada, e Marina se segurou para não beijá-la com toda vontade que sentia, mas ainda não podia, segundo o médico, fazer esforço. Mal sabia ele que esforço era ter que segurar o desejo cada vez que via Clara deitada em sua cama.
– Pena que lembrei disso, né? – Clara parecia um pouco desapontada.
– É... Acho que a sua lembrança está deixando o melhor para o final – disse Marina.
– Sabe o que eu mais queria lembrar? De Angra dos Reis, sei lá, só de imaginar aquele lugar, nós duas... As fotos que vi... Deve ter sido a melhor viagem das nossas vidas.
Marina corou, fazendo Anna rir.
– Para a Marina ter ficado muda e com as bochechas rosadas é porque deve ter sido a melhor viagem mesmo – pronunciou-se fazendo a filha rir.
E o clima na casa de Anna sempre era assim, alegre, descontraído. Ivan se dava bem com Anna, Clara se dava bem com ela e Anna adorava ter a presença deles por perto. Poderiam morar lá para sempre, disse ela um dia para Clara depois de visitar as mudanças pela qual a casa da fotógrafa estava passando.
Só Marina que ás vezes sentia falta de seu paraíso, garantiu a Clara que poderia voltar para casa, mas Clara disse que era melhor esperar mais um pouco. Segundo o prazo de Noah faltavam seis dias para que tudo ficasse como a mente dela havia imaginado desde quando teve a ideia.
A ideia de Clara foi aclamada por todos, até por Maria Carolina que conseguiu descobrir o motivo daquela bagunça na casa da fotógrafa quando foi visitá-la e foi informada de que ela estava na casa de Anna.
A loira prometeu a Clara que não contaria nada a Marina. Clara não acreditou mesmo com a garantia, mas não havia muito a ser feito.

Alguns dias depois

Antes que todo mundo acordasse, ela já estava desperta.
Parece que Marina havia contagiado a todos com o seu amor por dormir até depois das nove horas. Eram 9h40 e ninguém ainda havia acordado.
Foi até o banheiro fazer sua higiene matinal e parou em frente ao imenso espelho levantando a camiseta estampada com a foto de Frida Kahlo até a altura dos seios. Olhou os pontos que formavam uma linha vertical em sua pele e se lembrou do que o policial dissera dias atrás:

"Ainda estamos procurando por ele. Fique tranquila"

Tranquilidade... Marina só sentia aquilo quando Clara estava ao seu lado e ainda assim não era uma completa tranquilidade.
Assim como a cicatriz na lateral de seu corpo, a do antebraço também era um traço fino com meio tom acima da cor natural de sua pele. Marina não gostava de cicatrizes, não gostava de nada que tirasse a beleza de sua pele sempre tão bem cuidada. Mas optou por não fazer nenhuma plástica para retirar aquelas duas cicatrizes, julgou ser suas marcas de guerra. Guerra essa que não tinha terminado ainda.
Abaixou a camiseta e foi até o notebook. Contabilizou trezentos e-mails.
Ainda havia mensagens estimando sua melhora, alguns spams, novas propostas de trabalho, revistas pedindo entrevistas sobre o episódio acontecido e uma decepção:

"Prezada Marina Meirelles, sentimos muitíssimo pelo fato ocorrido e desejamos que sua recuperação seja imediata.
Vim informar que em decorrência do que lhe aconteceu não poderemos mais esperar por sua exposição. Infelizmente o prazo para uma resposta não pode ser mais postergado.
Já temos uma exposição para o próximo mês.

Oliver Carter"

O e-mail de uns dos curadores de uma das mais importantes galerias londrina tirou a solidez dos pés da fotógrafa que só não jogou o notebook longe porque seria muito prejuízo num dia só.
Tentou visualizar a luz no fim do túnel. Mas o túnel parecia comprido demais.
Clara acordou, mas não abriu os olhos. Apenas jogou o braço na direção de onde achou que Marina estava e o sentiu cair sobre algo sólido. Gemeu um “ai” e abriu os olhos, viu que Marina tinha o notebook no colo.
Antes do bom dia riram uma para outra.
– Machucou, amor? – perguntou Marina beijando a mão de Clara.
– Não, vida... Só doeu um pouco.
A morena esfregou os olhos e foi ao banheiro, voltou prendendo os cabelos e notou uma sombra de tristeza na feição da fotógrafa.
– Dormi demais – olhou para o relógio de cabeceira e já passava das dez.
– Eu que acordei cedo demais – Marina debruçou-se sobre Clara e ficou deitada sobre ela.
– Tô te sentindo triste, minha linda...
Marina saiu de cima de Clara e deitou de barriga pra cima ao lado dela. Contou sobre os xingamentos que preferiu ao pai de seu filho e sobre a exposição em Londres que iria acontecer, mas que não seria a dela.
– Você é capaz de rodar esse mundo sendo com essa ou outra exposição – afirmou Clara se virando de lado para olhar o mais fundo que conseguisse nos olhos de Marina – Infelizmente a maré está péssima para o nosso lado, mas a gente vai virar esse jogo a nosso favor, amor. Lembra que eu te falei que estamos juntas? Não é só para colocar aquele monstro atrás das grades, mas é para tudo. Não vou deixar você se abater assim.
Marina sorriu agora com a boca toda e puxou Clara para mais perto.
Clara enfiou as mãos nos cabelos de Marina e puxou a cabeça para trás o suficiente para se olharem. A fotógrafa entreabriu os lábios de um jeito que fez o íntimo de Clara se contrair. Simultaneamente fecharam os olhos e Clara avançou sobre Marina, ficando por cima dela.
Marina afastou um pouco as pernas e Clara se encaixou. Trocaram um gemido abafado pelos beijos e ela mordeu o pescoço de Marina quando ela movimentou o quadril, fazendo os sexos roçarem entre as pernas.
Contra a vontade, Clara começou a se afastar. Queria muito. Necessitava dar vida a tudo que tinha imaginado, já que não conseguia se lembrar de quando fizera amor com a fotógrafa, mas naquele momento precisava usar seu auto-controle.
– O que foi, amor? – perguntou Marina sentindo Clara escapar de seus dedos – Você não...
– Eu só preciso... Desculpa – disse Clara fingindo uma cara de frustração que parecia ter convencido muito bem Marina.
Marina respirou fundo e apenas assentiu.
– Tudo bem, temos todo o tempo do mundo agora – disse beijando Clara e levantando-se para ir até a sala.
Sabia que tinha deixado Marina chateada mesmo sem maiores explicações, já se conheciam tanto que um olhar, uma meia palavra bastava. Marina não sabia, mas aquele dia era especial pois o plano de Clara seria posto em prática e apesar de desejar sentir a nudez da fotógrafa com os dedos, boca e todo seu corpo, ela queria guardar aquele momento para o “gran finale”.

Vanessa ligou para Clara e perguntou quando ela chegaria a mansão de Marina para preparem tudo. Disse à ela o quanto a reforma havia ficado bonita e a parabenizou pela ideia. Clara havia acertado em cheio.
O café da manhã havia terminado quando Clara disse que iria fazer algumas coisas no centro da cidade. Deixaria Ivan na casa da mãe e o buscaria no dia seguinte. Ela havia se afastado da família, mas o filho não tinha culpa e sentia falta da avó e dos tios.
A morena puxou Anna para um canto e pediu:
– A Marina quer ir para a casa e parece que está adivinhando que tem alguma coisa de “errado”. Já comentou, antes de descermos, que queria dar uma passada lá para ver como se sentia. Tente mantê-la entretida, volto no final da tarde.
– Pode deixar Clara e boa sorte – desejou Anna.

Quando Clara chegou a mansão ficou estupefata. Noah tinha feito muito melhor do que havia imaginado.
Poderia ficar o dia todo olhando para a beleza daquele lugar, mas havia muito a se fazer no estúdio que quando entrou sentiu o mesmo frio na barriga. Só desejou que Marina não ficasse brava por ter mexido naquele espaço que era tão dela.
– Vanessinha, vamos começar? – disse Clara jogando a bolsa sobre um pufe e indo até a ruiva cumprimentá-la.
– Porra, até que enfim você chegou mulher, já estava ficando preocupada – disse a ruiva.
Clara riu, mas fechou o semblante na hora quando viu Maria Carolina entrar pela porta.
– Ela veio ajudar – explicou Vanessa notando o quão séria Clara estava.
– Espero que não se importe – disse a loira com um sorriso para Clara.
– Tudo bem – foi a única coisa que disse.
E o trabalho já começou a todo vapor.
Enquanto Clara colocava as luzes brancas – como as de natal – no anexo superior do estúdio, Maria Carolina organizava os painéis de fotos do jeito como Vanessa dizia enquanto ligava para a floricultura para saber se as pétalas encomendadas demorariam para chegar.
Giselle entrou no estúdio carregando uma caixa, e Flávia em seus calcanhares carregava outra. Eram pequenas velas que seriam espalhadas pelo chão do estúdio e ao redor da piscina.
– Cada dia que eu te vejo você está mais bonita, Flávia. Vai ser sempre assim? – disse Maria Carolina parando com um painel na mão e olhando a morena alta sem piscar.
Flávia riu e deixou a caixa no chão.
Vanessa revirou os olhos assim como Clara quando as duas se olharam.
– Precisa de ajuda? – perguntou Flávia para a loira.
Maria Carolina assentiu e mordeu o lábio quando as mãos encontraram as mãos de Flávia que a ajudavam a carregar um painel para perto da porta.
O clima de romance a qual Clara desejava para o estúdio parecia ter se instalado desde cedo.
Os painéis já estavam no lugar, as velas já estavam dispostas no chão do estúdio e Giselle ajudou a levar algumas para a beira da piscina.
– Clarinha, tudo ficou muito lindo, mas aqui fora... Nossa! Ficou muito mais – disse Giselle admirando o fundo da piscina que tinha um toque especial.
– Até a tal da Maria Carolina disse que eu acertei em querer fazer essa surpresa para Marina, espero ter acertado mesmo, irmã – disse Clara.
Apesar da felicidade em que tudo aquilo havia lhe trazido estava receosa. Não se lembrava se Marina gostava de surpresas, não se lembrava se ela gostava que mexesse no seu espaço, não se lembrava se tinha autorização para mudar alguma coisa do mundo dela. Mas mesmo assim fez tudo ouvindo o que o coração dizia, e ele não se enganava, não quando se dizia respeito à fotógrafa.
Lá dentro do estúdio o trabalho estava terminado e Clara analisou tudo sem colocar um defeito, sem querer mudar nada. Inclusive no trabalho feito por Maria Carolina.
Flávia disse que iria tomar um banho e ver o que faria para passar o tempo enquanto Clara e Marina fariam uma coisa que há tempos ela não fazia. Todas riram duvidando que fosse verdade.
Marina Carolina mais do que depressa ofereceu um jantar, um cinema:
– Estou à sua disposição, Flavinha! – disse com um sorriso.
– Eu vou sair com a Mônica e só volto amanhã – anunciou Vanessa.
– Se continuar assim vai dar namoro, hein? – disse Clara.
– Amém, irmãos? – perguntou Vanessa com as mãos unidas como se fosse orar arrancando mais risadas.
– E você irmã-postiça, vai fazer o que? – quis saber.
– Vou sair com uma menina que entrou essa semana na faculdade – respondeu Giselle.
– Q-que? Como assim?
– Clara, conforme-se: o mundo é gay – disse Vanessa dando um tapinha no ombro dela.
– O mundo eu não sei, mas eu sou, Clarinha – admitiu Giselle descontraída – E posso confessar uma coisa?
Clara balançou a cabeça.
– Tenho uma paixãozinha pela sua sobrinha.
– O que? A Luiza?
Dessa vez foi Giselle que balançou a cabeça.
– Não vai me dizer que enquanto eu dormia profundamente...
– Não! Não aconteceu nada infelizmente, ela já me deu vários foras – disse Giselle fazendo beicinho.
– Vou para o banho, você me espera aqui? – perguntou Flávia para Maria Carolina.
– Sim, pode ir tranquila.
Giselle se despediu de todas com beijos e abraços e Vanessa subiu para o quarto também enquanto falava com Mônica ao telefone.
Ficaram apenas Maria Carolina e Clara que apesar de não se simpatizar com ela, não quis deixá-la sozinha enquanto esperava.
O silêncio tornou-se pesado e incômodo.
Clara andava de um lado para outro inquieta, olhando para o relógio e através das janelas vendo o sol se pôr.
Maria Carolina levantou-se do pufe e foi até a morena parando ao lado dela.
– Muito legal tudo isso que você fez pela Marina – disse quebrando o silêncio, mas não o clima pesado.
– Ah... Obrigada – respondeu sem tirar os olhos do lado de fora.
– Clara, eu sou apenas amiga da Marina. Somos ex sim, mas hoje ela é uma das minhas melhores amigas – continuou – Não quero forçar você a gostar de mim, nem nada, mas só quero que fique tranquila porque eu nunca faria nada para abalar o relacionamento de quem quer que seja, muito menos o da Marina. O dia que fui ao hospital visitá-la ela falou muito de você e era quase... – ela esfregou os dedos como se pudesse sentir o que diria a seguir –... quase palpável o amor e o desejo que ela sente por você.
Abaixando um pouco a guarda, Clara virou-se de frente para a loira e encarou os olhos azuis agora com menos receio e raiva.
– Tudo bem, desculpe-me – pediu – Eu ainda estou redescobrindo muitas coisas, então... É normal que eu fique meio com o pé atrás.
– Pode desconfiar de tudo, menos do amor que a Marina sente por você.
Clara sorriu e minutos depois Flávia surgiu exalando um perfume doce. E então ela percebeu que Maria Carolina tinha outro alvo agora.
Foi até o quarto da fotógrafa e escolheu a roupa com a qual gostaria de vê-la mais tarde. Escolheu um vestido branco comprido de alças cruzadas nas costas e um decote generoso na frente. Ao tocar o tecido sentiu que aquele vestido deveria ser especial. Mas não conseguiu lembrar o porquê, apenas o escolheu e saiu.

Clara voltou para casa e ligou para o irmão a fim de saber como o filho estava e para se certificar de que não estavam envenenando o menino contra ela. Felipe asseverou que tudo estava bem.
Assim que Anna a viu perguntou como tudo estava e disse que não via a hora de ver como tudo havia ficado. Clara garantiu que em breve, pois Marina seria a primeira a ver.
Quando subiu para o quarto encontrou a fotógrafa deitada na cama, parecia ter acabado de dormir. Beijou-lhe o rosto e foi para o banho, aproveitou para pedir ao Universo que tudo continuasse dando certo e principalmente para que o ex-marido não fizesse nenhuma “surpresa” naquela noite.
Saiu do banho e decidiu tirar um cochilo, o corpo estava cansado e precisaria dele em ótimo estado para mais tarde. Ainda era relativamente cedo, daria para descansar.
Programou o despertador para dali uma hora.
Tirou o roupão e se deitou-se atrás de Marina, passando um braço sobre o dela e a sentindo aproximar-se de si. Pelo gesto parecia não estar mais tão chateada.

Clara despertou com o celular tocando em sua orelha. Espreguiçou-se e viu Marina virar-se para o outro lado ainda adormecida.
Subiu na cama e ajoelhou-se de frente para ela. Abaixou o edredom até a cintura e com os dedos subiu do braço até o rosto, inclinou-se sobre ela e disse:
– Acorda, dorminhoca. Tem surpresa para você.
Marina resmungou e tentou puxar o edredom para cima.
Clara resolveu pegar pesado.
Deitou-se atrás dela e colocou a mão por baixo da camiseta que ela dormia. Sentiu os pelos da coxa torneada de Marina se arrepiar com o toque.
A fotógrafa retesou o corpo e virou-se de frente para Clara ainda com os olhos fechados.
– Acorda, Marina! Preciso muito, MUITO te mostrar uma coisa – disse a morena resistindo a tocar todo o corpo da fotógrafa – Vai para o banho e fica bem linda para mim, sua roupa está em cima da poltrona.
Marina abriu os olhos e não viu mais Clara. Não entendeu o que ela quis dizer, mas resolveu obedecer. Estranhou quando viu o vestido que usara no dia da exposição ali diante dos seus olhos. Nunca mais o havia usado. O que Clara estaria aprontando?
Lá embaixo estava tudo acertado entre Anna e Clara. A morena abraçou a sogra e foi para a mansão, a partir dali ela tomaria conta da situação.
Marina tomou um banho bem demorado, deixou os cabelos soltos e passou apenas lápis e rímel nos olhos, colocou o vestido que Clara havia deixado ali e decidiu descer para ver se a encontrava na sala. Mas quem estava lá, parecendo à sua espera era a mãe, que ficou encantada quando a viu.
– Cadê a Clara? – perguntou Marina achando aquilo tudo muito estranho.
– Eu vou te levar até ela, mas antes... – Anna chegou bem perto da filha e colocou as mãos no rosto dela – Você está linda, bebê. Mas se eu fosse você passaria aquele seu batom vermelho maravilhoso.
– Ai, mãe... Não estou a fim de me produzir muito – confessou Marina já ficando um pouco irritada.
– Por favor – pediu.
Marina acabou cedendo e passou o batom que era sua marca registrada.
– Vamos – disse Anna pegando as chaves do carro.
– Hm... Vamos aonde?
– Siga-me – disse a mãe piscando.

Anna estacionou o carro em frente à mansão de Marina e deu um beijo na filha antes de dizer:
– Aproveite a noite.
Marina deu de ombros, porque realmente não fazia ideia do que a mãe queria dizer. Desceu do carro e encarou o segurança que estava na porta de sua casa. Abriu o portão de olhos fechados, parou no limite entre o interior e o exterior e inspirou fundo. Apesar do temor que sentira, o ar que inspirava era de puro saudosismo, pois os momentos de felicidade eram maiores do que o de infelicidade e aquele sempre seria seu paraíso particular.
Ela caminhou em direção à piscina, mas ainda distante percebeu que havia alguma coisa de diferente e não eram só as velas ao redor da piscina que... também parecia diferente. Não só parecia como estava.
Caminhou até lá e seu coração parou. Tudo ao redor da piscina estava diferente. Havia um deck de madeira em torno e em uma de suas pontas havia uma pequena cascata.
Marina riu quando olhou no fundo e viu dois Ms entrelaçados. As espreguiçadeiras também estavam diferentes, havia mais verde e flores... Estava divinamente lindo e muito mais iluminado.
Lá da escada Clara olhava, mas não conseguia enxergar a expressão no rosto de Marina, caminhou lentamente e fez Marina dar um pulo quando disse:
– Gostou?
– Amor... Meu Deus! Está tudo lindo, não acredito que fez tudo isso pra mim – respondeu emocionada.
– Vem, tem mais – Clara ofereceu a mão e Marina a seguiu.
A fotógrafa não pode deixar de reparar o quão linda Clara estava também num vestido longo, tomara que caia num verde que começava escuro na altura dos seios e descia num degrade mais claro até os pés. Os cabelos soltos emolduravam o rosto e a deixava ainda mais sexy.
Antes de chegarem ao estúdio Clara pediu que Marina fechasse os olhos, a fotógrafa relutou, mas aceitou e pegou nas duas mãos de Clara para ser guiada.
Clara abriu a porta e a fechou enquanto Marina segurava em seu braço.
– Pode abrir – disse a morena ficando ao lado de Marina.
– M-meu D-deus!
Marina perdeu-se minutos a fio no seu novo estúdio. Mas o que lhe chamou a atenção de imediato foram os painéis com fotos dela e de Clara no estúdio no dia em que dançaram e se beijaram pela primeira vez. Os olhos de Marina se encheram e os de Clara também transbordaram ao ver que havia conseguido o objetivo principal: deixar a fotógrafa feliz.
Clara caminhou até o centro do estúdio e pegou o controle remoto do aparelho de som e apertou play. A música tema da primeira dança seria a dessa também e a melodia começou a preencher todo o ambiente.
Marina caminhou até ela e ficou bem próxima.
Clara jogou o controle sobre um pufe, estendeu a mão e perguntou enquanto sentia o olhar de Marina queimar no seu:
– Dança comigo?

Notas finais
O capítulo ficou gigante assim porque prometi para mim mesma que o próx. seria de séquiçu, então fui obrigada a fazer um "bem bolado" nesse para cumprir minha promessa. Beijo.