I'll be Waiting Everlasting Like the Sun
17 Accomplices
Notas iniciais
– A Marina não foi a primeira mulher que eu beijei.
Virei as costas e não esperei para ver o queixo da minha mãe cair no chão.
Segui para o quarto da Luiza onde eu estava dormindo e ouvi passos me seguindo e perguntas acertando minhas costas. Quando pensei em fechar a porta do quarto minha mãe estava diante de mim escoltada por todos os habitantes daquela casa, exceto pela minha sobrinha que não estava lá.
– O que que está acontecendo aqui? Eu hein, vão cuidar das suas vidas – disse sem o mínimo de paciência necessário para ser civilizada.
– Clara, o que está acontecendo com você? No que aquela...
– Não. Ouse. Dizer. Um. A. Da. Marina – disse sem nem saber se era Marina que seria ofendida depois do “aquela”, mas era melhor me prevenir.
– Irmã, vamos pra sala conversar civilizadamente – disse Helena com a toalha enrolada no cabelo.
Ok. Eu estava agindo feito uma adolescente revoltada. Coisa que eu não era e nunca fui, talvez isso justificasse tal atitude naquele momento.
Voltamos para sala e a minha mãe se sentou na poltrona paralela ao sofá maior onde eu sentei tentando buscar minha paciência.
– Deixa elas conversarem sozinhas, Leninha – ouvi Felipe dizer.
Então quando olhei ao redor estávamos só minha mãe e eu.
– Clara, me explica... – o tom dela era de pura repulsa e incredulidade – O que você quis dizer com aquilo que falou agora a pouco?
– Que a Marina não foi a primeira mulher que beijei? Que a Marina não foi a primeira mulher que beijei, oras. Simples assim.
– Quando... Onde...?
– E isso importa? Vocês acham que eu sou uma santa, faltam pouco me colocar num altar, mas eu não sou. Nunca fui. E não vai ser agora que eu vou ser – respondi séria – Vocês me protegeram ou tentaram me proteger demais, mas isso não me impediu de fazer tudo o que deu na telha quando nós ainda morávamos em Goiânia. Inclusive beijar meninas.
– Para de falar isso, Clara. Me dá nojo só de imaginar você...
– O fato de eu não falar não apaga o passado. Não falo em respeito a você e você não fala nada sobre o meu relacionamento com a Marina. Se eu tenho que te respeitar, você também tem que me respeitar.
– Eu nunca vou aceitar isso! – exclamou com veemência levantando-se do sofá atordoada – Eu... Eu preferia ver você...
– Morta? Que discurso de ódio é esse? Cadê aquele amor todo que você sempre disse sentir por nós três? Como mãe achei que você quisesse ver seus três filhos felizes, como sempre bradou aos quatro ventos... – ouvir aquilo dela estava me quebrando em vários pedacinhos, mas eu não ia colocar aquela dor pra fora ali, não na frente dela.
– Você não tem mais idade pra se comportar como uma menor de idade, você não acha que está muito velha pra passar por essa fase?
O riso que saiu de minha garganta foi amargo e seco.
– Isso não é uma fase! Nunca foi. Eu sou lésbica, gay... Chame como quiser. E vocês todos são culpados por me fazer acreditar o contrário, fazendo piadas preconceituosas, fazendo com que eu acreditasse que ser como eu sou era pecado, que eu ia para o inferno. Viver dentro do armário todos esses anos me deixou sufocada, ainda mais depois que me casei.
Eu nunca trai o Cadu com ninguém, até a Marina aparecer. Eu sofri muito tentando esconder o que eu sou, beijando vários garotos enquanto o que eu queria... O que eu realmente queria era beijar todas as garotas – aquela lembrança antiga e amarelada de anos fez as lágrimas descerem até o meu queixo.
– Você só pode estar ficando louca...
– VOCÊ É QUE ESTÁ ME DEIXANDO LOUCA, MÃE! – explodi num grito arranhado – Pelo amor de Deus, entende uma coisa: Eu sou assim.
– Não... Não! – disse ela andando de um lado para outro com as duas mãos tampando os ouvidos.
– Se você só se livrou de um casamento porque o meu pai morreu, fique sabendo que mesmo que o Carlos Eduardo fosse aquele doce de genro que você acreditava ser, eu não estaria com ele. Eu não seria tão fraca e leviana com meus sentimentos e vontades como você foi – proferi sem filtro e sem medo de qualquer consequência, incluindo a que veio a seguir.
Senti a mão fina e trêmula atingir o meu rosto fazendo-o arder no mesmo instante. Aquele tapa doeu mais do que tudo o que eu havia ouvido antes dele.
Levei minhas mãos ao lado atingido e minhas lágrimas secaram.
– Mãe?
Virei para trás e Ivan já estava de pijama, com os cabelos úmidos e os olhos arregalados.
– Ivan, arruma suas coisas que a gente não fica mais nem um minuto aqui – disse sem tirar os olhos de Chica.
– Você morreu pra mim! – foi a última coisa que ela disse antes de sair deixando a porta da sala escancarada.
– Pra onde a gente vai, mãe? – perguntou Ivan assustado passando a mão no meu rosto que estava vermelho de raiva.
– Não sei – respondi procurando meu celular pela sala.
Voltei para o quarto e peguei meu celular que estava em cima da cama. Só havia um lugar para onde eu poderia ir. E tenho certeza que seria bem vinda.
Marina atendeu a minha chamada com a voz um pouco sonolenta, mas nem por isso menos cordial e doce.
– Tá tudo bem, amor? – perguntou ela bocejando em seguida.
– Desculpa por te acordar, linda. Eu só queria saber se... Se eu posso ficar na sua casa, pelo menos até... Até arranjar um lugar pra mim e para o meu filho. As coisas aqui ficaram um pouco ruins, mas depois eu te conto tudo pessoalmente e fica tranquila, eu estou bem – disse tudo de uma só vez sem pausas.
– Que pergunta, Clarinha! Claro que pode. E não me venha com essa de “até arranjar um lugar...” o seu lugar é ao meu lado ou você ainda não entendeu?
Dei uma risada tímida e ela me acompanhou.
– Acabei de entender – respondi em meio a sorrisos que não conseguia conter – Você é a alegria da minha vida, como eu poderia ficar longe de você?
– Amo você.
Apesar de ter consciência de que já a amei e que eu estava devendo essa frase batida e que é capaz de mudar a vida de alguém pra melhor ou pra pior, eu precisava me sentir segura e certa de que eu poderia amá-la novamente. Mesmo que eu já sentisse e demonstrasse tais sinais, ainda faltava alguma coisa para que essa frase saísse de meus lábios com sinceridade e não por obrigação.
– Bom... Eu vou pegar algumas coisas aqui e já vou passar essa noite mesmo na sua casa – respondi me colocando na realidade novamente – As meninas estão lá?
– Estão sim. Vou avisá-las.
– Obrigada, linda. Dorme bem, viu? Amanhã eu vou ai te ver e te encher de beijos.
– Então vou dormir agora pra que amanhã chegue mais rápido.
Assim que desliguei comecei a reunir tudo que naquele quarto me pertencia. Para minha sorte não eram muitas coisas, o que diminuiu e muito o meu tempo de permanência naquele lugar.
– Clara, você não precisa ir embora, a gente pode...
– Pode o que Helena? – perguntei sem olhar para trás porque sabia quem era a dona da pergunta. Coloquei tudo o que encontrei dentro da mala que estava no chão e fechei o zíper com tanta raiva que ele rompeu, fazendo minha raiva aumentar ainda mais.
Peguei a mala de qualquer jeito e pedi para Ivan colocar os chinelos.
– Clara, pensa bem? Pra onde você vai?
– E te interessa saber? Você pode não ter dito nada que me fizesse ter certeza da sua opinião quanto a minha escolha de viver a minha vida do meu jeito, mas nem precisou porque seus olhares, suas expressões de nojo ou seja lá o que for disseram por você.
Ela ficou quieta e engoliu em seco, pois com certeza sabia que não havia mentira alguma no que eu havia falado.
Felipe surgiu cheirando a loção pós barba e cabelos penteados.
– Eu vou te levar, Clara – anunciou ele pegando as chaves do carro que tinha jogado em cima da mesa de centro.
– Não, irmão! Você tá cansado, eu pego um táxi, porque aquela... Joça do meu carro parou de funcionar de vez – respondi segurando em suas mãos.
Ele simplesmente pegou minha mala e saiu porta afora. Coube a mim aceitar a carona sem mais protestos.
Quando Felipe parou na porta da mansão eu o enchi de beijos e agradeci muito por tudo que ele tinha feito. Durante o abraço ele me apertou em seus braços e beijou o alto da minha cabeça como fazia quando éramos crianças.
– Se você precisar de alguma coisa é só me avisar, tá? Eu venho correndo, voando... – disse ele com os olhos nos meus.
– Obrigada, muito obrigada. Eu amo você, Fe. Muito! Com você ao meu lado vai ser muito mais fácil passar por isso tudo.
Ele me deu mais um beijo e me ajudou com a mala até a entrada da casa. Vi seu carro sumir horizonte acima e entrei. Quando vi a piscina meu corpo todo gelou e foi como se eu tivesse sido tele-transportada para aquele dia que eu queria esquecer. Infelizmente eu não poderia.
Entrei chamando pelas meninas, mas ninguém me respondeu.
Quem me recebeu foi Anna, que estava na cozinha e veio até mim curiosa a procura da voz que havia rompido com o seu silêncio. Tinha uma sacola de supermercado na mão e então ao passar pela cozinha notei que ela estava reabastecendo a geladeira.
– Oi – disse mordendo meu lábio inferior em seguida – As meninas... Cadê?
– Vanessa está no estúdio e a Flávia está tomando banho – direta, seca. Tão diferente da Anna que eu havia conhecido dias antes.
– Mãe, eu estou com fome – reclamou Ivan.
– Pois eu tenho uma coisa que acho que você vai gostar – disse Anna mudando completamente o tom e o olhar para Ivan – Tem torta de frango e de sobremesa sorvete de chocolate. Você quer?
– Eu amo sorvete de chocolate. Eu quero.
– Você aceita, Clara?
– Não, obrigada. Estou sem fome.
Anna levou Ivan para a cozinha e eu subi para o quarto da Marina.
As roupas de cama continuavam as mesmas. Quando sentei, peguei um travesseiro e aspirei todo o cheiro que deles vinham. O cheiro da Marina invadiu meus pulmões me deixando completamente anestesiada, era como se ela estivesse ali. Mas logo estaria, calma Clara... Calma. Disse para mim mesma tentando manter o controle do tsunami de emoções que estava prestes a vir.
Deitei na cama e continuei aspirando aquele cheiro doce que estava fazendo meu corpo mudar de temperatura, eu tinha arrepios como se sentisse frio, mas era calor que estava emanando da minha pele. Instintivamente uma mão foi para o meu seio que tinha o mamilo intumescido e quando o toquei afundei o rosto no travesseiro tragando ainda mais a essência que nele continha. Agarrei o travesseiro ainda mais forte e sibilei o nome de Marina como se ela estivesse ali, pronta para saciar aquela súbita vontade do toque, do corpo dela.
Minha mão escorregou pelo meu abdômen e passou por baixo do elástico da minha calcinha. Meu sexo estava úmido e então comecei a atender aos pedidos dele. O gozo veio rápido e menos intenso, porém não menos satisfatório.
De uma forma completamente egoísta desejei que Marina estivesse ali para me mostrar se era tão bom quanto eu havia imaginado.
Tomei um banho, troquei de roupa e voltei para a sala. Encontrei Ivan no sofá deitado com a cabeça no colo da Anna. Estava dormindo um sono tranquilo que já não me pertencia naqueles dias.
Peguei Ivan e o levei para o quarto de Marina onde eu dormiria também. Anna não disse nada sobre aquilo, apenas voltou para a cozinha.
Já me sentindo como se aquela fosse a minha casa e não me deixando intimidar pela mulher que estava querendo me trucidar, abri a geladeira e peguei um copo de água. Fiquei encostada à geladeira bebendo a água devagar propositalmente enquanto Anna colocava as últimas louças lavadas no escorredor.
Nunca poderia imaginar que uma mulher tão chique e refinada perderia tempo lavando a louça. Eu estava enganada pelo jeito. Terminei de beber a água e lavei o copo.
– Que horas você vai para o hospital amanhã? – perguntei quebrando o silêncio.
– Não sei – ela respondeu mal me encarando – Vocês vão dormir aqui pelo jeito – constatou ao olhar a camiseta que eu vestia e ia até abaixo dos meus joelhos.
– Achei que as meninas ou a Marina tivessem te falado, mas... Eu vou passar um tempo aqui.
– Aconteceu alguma coisa?
Apesar de o tom dela permanecer distante e frio a pergunta que fez a ficha cair como uma bomba sobre minha cabeça fez também meus olhos encherem.
– Clara... – a ouvi dizer numa postura muito mais maleável, eu diria até compassiva.
Meu queixo tremia e o ar estava chegando com dificuldade aos meus pulmões. Meus ombros também tremiam enquanto eu me apoiava com as mãos na pia. As lágrimas caindo no mármore frio.
Peguei o papel toalha que estava no suporte grudado à parede e enxuguei meus olhos.
– Como foi quando... quando a Marina te contou que é lésbica? Você... Você a acolheu ou sei lá, deu um tapa na cara dela e disse que ela tinha morrido pra você? – perguntei dando um sorriso de puro ressentimento.
– Sua mãe fez isso com você?
Balancei a cabeça respondendo à pergunta dela e completei:
– Por isso liguei pra Marina e perguntei se poderia vir pra cá. Eu estava na casa da minha irmã mais velha, mas ela é outra preconceituosa, de pensamento pequeno... Eu não tinha mais para onde ir – terminei forçada pela garganta que se fechava e as lágrimas que escorriam sem qualquer esforço – Só tenho minha sobrinha e o meu irmão do meio ao meu lado.
Anna respirou fundo e então falou para nos sentarmos na sala. Apagou as luzes da cozinha e da sala de jantar e acendeu algumas outras luzes da sala.
E a conversa que se seguiu foi tão arrebatadora que por um momento duvidei que fosse real. Ela me contou sobre como a Marina havia chegado e dito a ela e ao Diogo – descobri ou redescobri o nome do pai da Marina – que era lésbica e como aquilo repercutiu durante uma semana toda.
Contou também que em momento algum pensou em bater ou colocar Marina para fora de casa, e que embora Diogo tivesse sido um pouco mais resistente, no final acabou aceitando Marina como era e ainda é.
Meu rosto estava lavado e meus olhos já começavam a ficar pesados.
Um silêncio se estabeleceu e por alguns segundos os únicos barulhos que se ouviam era o da minha respiração congestionada.
Anna se ajeitou no sofá flexionando uma perna e sentando-se em cima dela enquanto me olhava.
– Clara, quero te pedir desculpas pelo nosso último encontro – começou ela a dizer então ergui os meus olhos para prestar atenção se aquilo tudo era verdade ou ela só estava fazendo teatro.
– Fui rude, mas a Marina... Ela é a única pessoa importante que eu tenho agora – continuou ela sem desgrudar os olhos dos meus, sua voz estava um pouco embargada – Perdi minha mãe há pouco tempo e a menos tempo ainda quase perdi a minha filha, pode imaginar o quão assustada fiquei?
Aquiesci em silêncio.
– Eu já conversei com a Marina e a maneira como ela falou de vocês não me deixou menos inquieta, mas analisando tudo: como vocês eram antes, tudo o que ela fez por você e você por ela agora... Analisando a coisa como um todo eu só tenho uma coisa pra te pedir: Cuide bem da minha menina, cuide dela como se fosse a sua vida. Ela ama muito você, Clara. Muito.
Balancei a cabeça concordando porque eu não conseguia dizer nada naquele momento. Deixei minhas lágrimas cessarem por si só, mas elas pareciam dispostas a continuar jorrando.
– Quero que saiba que agora você tem a sua sobrinha, seu irmão e a mim, além da Marina, ok?
Aquilo fez meu choro aumentar ainda mais.
– Você não vai parar de chorar, não?
Rimos juntas e Anna veio até mim passando os braços ao meu redor. Deixei ser abraçada porque era aquilo que eu precisava naquele momento, ser protegida e me sentir protegida, amparada. E o abraço da Anna era o que estava fazendo com que eu me sentisse assim.
Uma semana depois.
Catete – Rio de Janeiro
“A renomada fotógrafa Marina Meirelles deixa hospital”
“Marina Meirelles recebe alta”
“Ao lado de morena misteriosa a fotógrafa Marina Meirelles deixa hospital”
O homem andava lentamente pelo quarto alugado olhando as manchetes do jornal e revistas que havia comprado na banca próximo ao edifício onde residia por ora.
Então essa vagabunda conseguiu sair viva da brincadeira, pensava ele enquanto olhava as fotos.
Junto à manchete onde se lia “morena misteriosa” ele não pôde deixar de notar a foto que lhe fez tacar o copo com cerveja longe.
Marina Meirelles e a morena misteriosa estavam de mãos dadas e não pareciam temer nada nem ninguém. A morena misteriosa e a fotógrafa estavam tão próximas que pareciam uma só.
Desgraçadas, praguejava quando ouviu a porta do quarto se abrir.
– E ai, qual o seu plano agora? – perguntou a loira que estava deitada na cama coberta apenas pelo lençol que deixava a curva dos seus seios em evidência.
Ele tirou do bolso de sua calça um pedaço de papel que estava amassado. Abriu e o mostrou para Rita que agora estava sentada na cama.
– Antes eu vou dar um aviso pra Marina, depois a brincadeira vai começar – avisou entregando o papel para a loira.
– Giselle, Vanessa, Clara... – leu Rita sem entender – Essa lista é pra...?
– Organizar melhor qual a sequência das minhas próximas vítimas. Nada melhor que destruir quem me destruiu antes de acabar com ela de uma vez, não? – questionou com um sorriso torto enquanto coçava a barba que já estava grande. E ele pretendia deixá-la daquele jeito.
Um pouco assustada, Rita enrolou-se no lençol e ajoelhada a cama olhou para Carlos Eduardo que mancava até a janela.
– Você não acha que... está indo longe demais?
– Ninguém mandou aquela fotografazinha aparecer no meu caminho e roubar a minha mulher! Agora ela vai ter o que merece. Me passa o telefone.
Rita entregou o celular para ele que discou rapidamente uns números. Precisava encomendar algumas flores.
– Quero o arranjo de flores mais bonito que vocês tiverem. Passo ai em meia hora para buscar.
Santa Teresa
Anna passou pelos portões abertos da grande mansão e de longe avistou Ivan e as fieis escudeiras da filha: Flávia e Vanessa. Parou o carro e puxou o freio de mão olhando a filha e a nora pelo retrovisor.
– Bem vinda de volta, bebê – disse a mãe com um sorriso tranquilo.
Clara entrelaçou os dedos com os de Marina e a olhou sorrindo.
– Vamos? – perguntou Clara abrindo a porta ao seu lado enquanto Anna fazia o mesmo com a porta do outro lado.
Clara desceu e deu meia volta quando notou que a fotógrafa não estava a seu lado. Deu a volta no carro e parou ao lado de Anna.
Elas não puderam ver, pois Marina estava com os olhos cobertos pelas lentes escuras dos óculos. Mas os olhos da fotógrafa estavam parados no ar. Voltar àquela casa depois de tudo que havia acontecido não trazia tranquilidade ou felicidade, trazia terror. E Marina sentiu-se paralisada por um breve momento, que pareceu eterno.
– Marina? Vai ficar aqui pra sempre? – foi a voz de Clara que puxou Marina para o momento real.
A fotógrafa olhou para o lado e esboçou uma tentativa de sorriso. Aceitou a mão estendida de Clara e passou o braço pelo ombro dela. Ainda sentia um incômodo nas costelas e tanto tempo deitada numa cama parecia ter afetado sua coordenação motora.
Caminharam lentamente pelo jardim, o sol ainda estava ameno não eram nem dez horas da manhã. Passaram pela lateral da piscina e como um burro que empaca no meio da estrada, Marina parou e puxou todo ar que conseguia.
– Ei, calma! – pediu Clara – Eu e as meninas eliminamos tudo que... tudo que foi usado aquele dia pra te torturar, linda.
Clara também sabia, tanto quanto Marina que jogar fora as roupas que Marina usou, o edredom a qual foi embrulhada... Não adiantaria muito pois a casa havia sido o palco principal para aquele show de terror.
A fotógrafa apenas balançou a cabeça concordando e continuou caminhando.
Ivan não aguentou esperar Marina chegar nos degraus e saiu correndo.
– Mocinho! Calma, assim você vai acabar machucando! – alertou Clara quando Ivan ainda estava no meio do caminho.
O menino continuou correndo e só parou quando quase trombou com as pernas de Marina.
Ela abriu um sorriso grande e deixou-se ser abraçada por Ivan.
Marina
Ivan me abraçou pela cintura e um pouco daquela angústia que eu sentia foi embora. Mas não o suficiente para eu conter as lágrimas.
– Eu estava com saudade de você – ouvi ele dizer me apertando um pouco mais.
– Eu também, meu anjo... Eu também – disse afagando seus cabelos loiros.
Clara intuiu perfeitamente pelo menos um pouco do que estava acontecendo e pediu para Ivan ir com as meninas que estavam me esperando lá em cima.
– Tudo bem? – ela perguntou com os lábios colados ao meu ouvido. Eu só consegui menear a cabeça fingindo concordância.
Flavinha e Vanessa me abraçaram eu desabei nos braços de ambas. E pedi pra Clara me levar direto para o quarto.
Passei pela sala com o olhar reto, aquele lugar inteiro estava me causando arrepios. Era como se tudo que eu tivesse passado fosse acontecer no minuto seguinte.
– Vou ver se a sua mãe precisa de alguma coisa, já volto – anunciou Clara afofando os travesseiros e me dando um beijo nos cabelos em seguida.
Quando senti o calor de seu corpo se afastando peguei firme em seu braço e supliquei:
– Não! Fica comigo, não me deixa sozinha.
Ela estava tão assustada quanto eu. Segurou minha mão entre as dela e me olhou como se quisesse adentrar meu interior e descobrir o que estava acontecendo. Mas ela seria incapaz de conseguir descobrir, pois eu mesma não entendia o que estava sucedendo em meus pensamentos.
– Eu não vou embora não. Só vou lá embaixo, é rápido.
Mesmo com aquela garantia eu a puxei para perto de mim. Soluçando em seus braços. Suas mãos afagaram o meu cabelo e ela me pedia calma. Clara acabou ficando comigo no quarto enquanto eu a apertava mais em meus braços, eu não queria ficar sozinha. Nem um minuto.
Marina adormeceu e com muita dificuldade Clara conseguiu se desvencilhar dos braços da fotógrafa. Fechou a porta do quarto com cuidado e foi para o estúdio.
Ivan ajudava Flávia a organizar uns papeis enquanto Vanessa respondia alguns e-mails. A morena sentou-se numa poltrona e seus olhos se perderam no vazio.
– Tá tudo bem, Clara? – perguntou Flávia quando viu que a morena estava quieta demais.
– Filho, vai brincar lá fora um pouco – pediu Clara indo até Flávia.
O menino não reclamou, apenas beijou a mãe e saiu porta afora.
– A Marina... – começou a dizer Clara num sussurro – Ela está muito assustada. Chorou até pegar no sono, quando sai ela estava tremendo um pouco, estava suada... Não sei, isso não parece normal.
– Acho que é normal sim, depois de tudo que ela passou voltar para o local do acontecimento... – disse Vanessa tentando esconder a própria preocupação.
– É, pode ser. Eu tenho retorno médico hoje, vou contar a ele e ver o que ele me fala sobre isso. Vocês me avisem qualquer coisa, mas espero que seja só esse primeiro impacto mesmo.
– Tudo bem, Clara. Pode ficar tranquila – assegurou Flávia.
O celular de Clara começou a vibrar em seu bolso e ao olhar para tela não soube quem era. ID não identificada. Optou por atender, não custaria nada.
– Só liguei pra avisar que estou de olho em você e na sua namoradinha. Que bom saber que ela está bem, assim ela pode assistir a eu destruir cada uma das pessoas que ela tanto ama.
A voz grave e rouca. Inconfundível.
Clara não teve tempo de responder, a ligação se encerrou e ela abaixou o celular aos poucos.
– Que cara é essa mulher? – perguntou Vanessa.
– O Cadu... – ela respondeu baixo os olhos vidrados em Vanessa – Ele... Ele disse que está de olho na Marina e em mim e... Ele disse que vai destruir cada pessoa que ela ama.
Vanessa fechou as mãos em punho e respirou fundo. Flávia trombou nas próprias pernas e encostou a coluna na parede.
Clara tirou a capinha do celular, a bateria e alcançou o chip. Retirou-o e o jogou no chão pisando em seguida.
– Eu vou ficar com o celular pessoal da Marina, acho que ele não deve ter o número dela. Vou ligar para a polícia, mais uma vez. A gente não pode se render. Preciso ir – disse olhando no relógio – Não comenta nada com a Anna, muito menos com a Marina sobre essa ligação.
Vanessa e Flávia assentiram. A morena alta passando a mão no pescoço e respirando fundo.
Clara entrou no quarto e viu que Marina ainda dormia apesar dos espasmos que a faziam tremer vez ou outra e o suor que brotava de sua testa como orvalho. A morena diminuiu a temperatura do ar condicionado e deu um beijo suave nos lábios da fotógrafa prometendo, mesmo que Marina não ouvisse, que voltava logo.
Marina
Acordei ofegante e minha blusa estava molhada de suor. Olhei para os lados e não vi ninguém. Sai da cama como um gato e meus olhos desconfiados percorriam todo o caminho. Ouvi um barulho e dei um salto, o coração galopando. Mas não era nada demais.
– Clara? – chamei sem sucesso – Clara? – tentei novamente. E novamente sem sucesso. Sai do corredor às pressas gritando pela Clara que não me respondia, onde será que ela estava?
Parei na porta do estúdio e senti uma falta de ar típica de maratonistas, mas eu nem tinha corrido tanto assim. A porta abriu e eu joguei meu corpo pra trás, a mão no coração, meus olhos apavorados.
– Marina? O que você está fazendo aqui embaixo? Você está toda... suada – disse Flavinha vindo ao meu encontro.
– Eu chamei a Clara, mas ela... Ela não está aqui, cadê ela? Porque ela me deixou sozinha? – perguntei como uma criança assustada.
– Ela foi ao médico – informou Flavinha me colocando sentada no banco prateado. Ela fez menção de sair, mas eu fui mais rápida e fiz com que ela sentasse ao meu lado, eu não queria ficar sozinha e se acontecesse alguma coisa?
– Não me deixa sozinha, por favor... – pedi num sopro de voz angustiada.
O que estava acontecendo comigo?
Flávia atendeu ao meu pedido como se soubesse de todo medo que eu estava sentindo. Ouvi a porta ranger e me agarrei ainda mais a ela.
– É só a Vanessa, calma!
– O que foi? – perguntou a ruiva me olhando com compaixão – Você já comeu? Quer que eu peça pra fazer alguma coisa pra você?
– Eu só não quero ficar sozinha – disse.
– Olha o que vieram te entregar – Vanessa estendeu pra mim um buquê de rosas vermelhas onde havia um pequeno envelope.
Minhas lágrimas cessaram por um momento.
– A Clara está toda romântica, hein? – disse Flávia se soltando de mim pra que eu pegasse o buquê com as duas mãos.
Abri meu primeiro sorriso depois de ter saído do hospital. Fiquei tão envolvida com as flores que Vanessa pegou o envelope e o abriu.
Vi que seu corpo ganhou uma postura tensa e entre suas sobrancelhas apareceram alguns vincos.
– Que foi, Van? – perguntei colocando as flores no meu colo – Leia o que a Clarinha escreveu.
Vanessa franziu os lábios e respirou fundo.
– Dá isso aqui – pedi tomando o cartão da mão dela e então eu entendi o porquê dos vincos na testa da Vanessa e o porquê de ela ter parecido parar de respirar por um segundo.
“Que bom saber que você saiu do hospital. Espero que esteja pronta pra outra. Não vejo a hora de ver o seu sangue que acho que é tão vermelho quanto essas rosas que lhe entrego”
Ass.: Carlos Eduardo.
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