I'll Protect You

21 Capitulo 20: Stupid Girl


No dia seguinte, foi finalmente libertada daqueles fios insuportáveis.

Levou pouco tempo para que arrumasse todos os seus pertences em uma mochila antiga do Domo-kun, com um chaveiro pendurado em um dos zipers. Trocou a roupa lisa do hospital por um par de jeans e um moletom branco. Assina alguns documentos e liga para a mãe e obter a confirmação do reconhecimento de um guardião legal, em seguida, se despede dos médicos e enfermeiros que cuidavam de Kazehaya que tinham um tom de voz melancólico. Como se ela fosse uma filha doente.

Mas a futura guardiã ainda não iria se livrar do hospital tão cedo quanto imaginou, antes tinha que ir para um certo quarto da ala leste.

Porem nem tudo sai como queremos. Ao caminhar por um corredor ela esbarra em Yumi, uma medica de cabelos encaracolados e castanhos que cuidara dela.

— Kazehaya?! — Ela encarou-a por alguns segundos, mas abriu um sorriso. — Meu Deus! Eu esqueci completamente que teve alta hoje! — Exclamou, fazendo os cachos saltarem como molas. — Isso que acontece quando você fica velha como eu! — Sua risada ecoa pelo corredor, quem passa lança um olhar raivoso de desaprovação, a mesma foi morrendo aos poucos. Ate que Yumi abaixa a cabeça e pergunta: — Você sabe o caminho para a saída, não? — Aponta a direção oposta com o polegar. — Precisa de ajuda?

— Na verdade, Yumi-san, eu ainda não estou indo embora do hospital. — Kazehaya diz negando com a cabeça.

— Mas, eu me lembro de você dizendo que não podia esperar para chegar em casa e sair com seus amigos!

— Sim...Mas hoje de noite eu vou ver eles. — Tenta encontrar as palavras certas para se explicar.

Não esperava que algum funcionário do lugar esbarrasse nela. Queria ter sido o mais discreta possível, para que não levantassem suspeitas de que estaria visitando seu paciente mais temido. Sentiu que provavelmente iria do hospital para uma clinica psiquiátrica. Yumi espera a garota terminar seu raciocínio, com seus olhos brilhando de curiosidade. Ela coça a bochecha nervosa.

— Estou...Hn, indo visitar um amigo meu.

— Amigo? — Seu brilho de curiosidade se transforma em uma testa franzida. — Mas o quarto daquele menino, Gokudera, fica do outro lado também. Tem certeza de que você esta no caminho certo?

— Hm, na verdade... — Murmura, olhando para as próprias pernas. Lembra-se da noite anterior, em que pegara o mesmo corredor, sente algo estranho mas ignora. Ele ali, calmo... — Eu vou visitar Hibari, Kyoya. — Ela se espanta consigo mesma ao falar com tanta firmeza.

— Hibari? Não sabia que você tinha qualquer coisa com esse tipo de gente. — Ela ergue uma sobrancelha.

— Honestamente? Nem eu. — Ri, assustando a medica. Uma musica alta veio de seu bolso, ela agarra o celular e le uma mensagem. Então guardou o celular e xingou Dr. Nakahara baixinho,mesmo assim Kazehaya pode ouvir uma serie de palavrões que nem sabia que existiam.

— Maldito Nakahara, passando seu turno para mim por que aconteceu sei lá o que com Fulano. Acho Fulano um bundão que não sabe resolver seus problemas sozinho... — Ela resmungou enquanto caminhava para o outro lado do corredor, antes de desaparecer em uma curva.

Nenhum termômetro poderia marcar a febre que a futura guardiã sentia ao passear pelo hospital. Ela passou pela mesma sala de espera das poltronas preta e viu a enfermeira ruiva que, por milagre tinha um sorriso estampado no rosto, estava ao lado de uma mulher idosa em uma cadeira de rodas que ria junto de duas crianças.

Era como um daqueles sites que te fazem ter uma falsa esperança de que o mundo não é tão cruel assim.

Em frente ao quarto de Hibari, não haviam visitantes ou sorrisos, apenas um corredor vazio e silencioso. A porta fechada, provavelmente com a intenção de não mostrar o demônio. Quando chega perto do lugar, Kazehaya sente uma súbita onda de ansiedade correr por suas veias. Verificou se seu cabelo ficaria melhor solto, ou se era melhor preservar o coque alto. Alisou o moletom largo. Se ele estivesse acordado, talvez tudo isso fizesse algum sentido.

Sua vida não tem lugar para essas coisas logicas, tampouco normais. Sua mão segura a alça da porta de correr. Uma voz profunda e familiar a interrompe.

— Saitou-san?

Olha para tras e encontra um par de ombros largos vestidos com uma jaqueta nanquim, um destaque em vermelho no braço. Ergue seus olhos um pouco mais acima, observando a altura do Vice-presidente da Comissão Disciplinar, Kusakabe.

— Quanto tempo, não? — Ela sorri e se afasta da porta, mais depressa do que planejou.Ele assentiu, o cabelo em forma de torpedo acompanhou o movimento.

— Veio aqui visitar Hibari?

Suas bochechas queimam com a pergunta, ela começa a alisar a franja com a mão, seus olhos tomando um súbito interesse nas paredes brancas. Ele deve estar pensando o mesmo que Yumi, que ela era apenas uma garota louca que precisa de um tratamento.

Uma risada quebra o silencio do lugar. Kusakabe tenta encobrir a boca com a mão, mas ainda é possível ver a palha entre seus dentes.

— Desculpe, Saitou-san. — Acrescenta por educação. — Mas foi só uma pergunta e você realmente ficou nervosa.

Ela responde com um sorriso nervoso, ignorando o rubor envergonhado que morre aos poucos. O Vice- presidente se aproxima da porta e a puxa para o lado.

— Obrigada. — Entra, com o armário seguindo logo depois.

Senta na cadeira mais próxima da cama. Em vez de luar, o quarto é aquecido pelo sol da manhã. E Kazehaya podia vê-lo melhor, sem sombras abstraindo a vista.

— É impressionante que pareça que ele está apenas tirando um cochilo. — Kusakabe comenta, fechando os olhos e inclina-se para trás em sua cadeira.

Kazehaya concorda sem dizer nenhuma palavra. Se fosse como outro dia normal, ele provavelmente estaria no telhado saboreando sua escola em vez do cheiro de esterilizador flutuando. Contra o cimento como se fosse um colchão confortável. E em breve, estaria observando o sol da tarde.

— Acha que ele acordaria se eu pichasse a escola de tinta spray rosa? — Pergunta sorrindo.

— A não ser que queria dormir por mais alguns dias. Não posso permitir que nada aconteça enquanto Hibari dorme. — Sua mandíbula se apertou fazendo tensão na grama entre os dentes. — É minha responsabilidade.

— O que você faz, Kusakabe-san?

— Resolvo problemas que surgem na cidade para que Hibari possa se mover livremente e fazer o que gosta. — Ele abre as pálpebras até a metade.

Uma mão em seu colo começa a esfregar cuidadosamente seu pulso, tiras de gaze amarradas ao redor. Sente sua própria bandagem exposta pelas mãos, estava se esquecendo delas como se fossem apenas uma blusa por baixo da roupa. A pele abaixo marcada por linhas vermelhas que, felizmente, não são permanentes. Mesmo assim a Kokuyo Gang deixou sua marca: Uma linha fina e bronzeada envolta do pescoço de Kazehaya, na mesma região onde Mukuro a sufocou com o tridente.

Lealdade é uma coisa incrível. Kusakabe estava gastando um dia lindo para cuidar de seu chefe, ele sabe que a escola é muito importante para Hibari. E mesmo assim, fora do trabalho, tem intensificado suas rondas e certificar que esta tudo em ordem. Kusakabe também estava no ranking, e agora se recupera do ataque.

Tira seus dedos de suas ataduras, banindo as imagens constantes daquele dia ruim e focando nas respirações de Hibari.

Inspira... Expira

O mantra se estendeu para o começo da noite. Kazehaya sozinha no quarto com o demônio, acompanhando sua respiração.

Inspira...Expira...

Ainda empoleirada na mesma cadeira dura desde hoje de manhã, com um copo de isopor quase vazio de café segurado contra o peito. Os joelhos dobrados e a mochila infantil descansando em outra cadeira. Kusakabe tinha de ir checar a escola, enquanto Kazehaya ficava no hospital.

Os enfermeiros que passam de hora em hora, obviamente, se depararam com sua presença. Suspirando após um rápido check-up no demônio e saindo à porta relatando a visão “romântica” da garota esperando-o despertar, sempre ao seu lado. Isso lembrou-a das meninas da escola, que comentavam tudo o que pensavam que viam, sem se preocupar com a historia real. A verdade nunca é tão divertida quanto a ficção.

Foi bom em alguns pontos. Sempre que uma enfermeira vinha ver Kyoya trazia algo do refeitório para Kazehaya. Variando de café com alto teor de açúcar e diabetes, à um pacote de biscoitos geralmente dado para pessoas que doam sangue. Uma delas entregou uma toalha e um shampoo, dizendo que a futura guardiã poderia usar os chuveiros da empresa.

Traz o copo de isopor aos lábios, bebendo o que sobrou do café gelado, camadas de açúcar vinham junto. O café doce a mantinha acordada, junto da diabetes potável. Ela tentava fazer o efeito do café mais duradouro, mas não tinha muito sucesso. Olha de novo para Hibari, na esperança de que acordasse, acaba o café e o coloca de lado, com mais uma dúzia de copos de isopor iguais empilhados na cabeceira.

Kyoya ainda dormia, e a garota tentava fazer o inverso: Ficar acordada. A cada gole fica mais despreocupada com a saúde. Ignora o peso constante dos olhos, recusa fecha-los por um minuto sequer. A medicação contra a dor traz muita sonolência, e a bebida esta começando à ficar velha. Seu corpo cansado demais para preocupar-se com qualquer outra coisa.

Não parecia que estava ali por algumas horas, pareciam dias. E pela centésima vez naquela noite, boceja cobrindo a boca com mão.

— D-d-droga… — Murmurou a garota

Uma batida chamou sua atenção, esperando uma enfermeira trazendo outro copo de isopor e talvez alguns biscoitos. Mas ela estava encostada na porta com um sorriso educado, sua testa franzida ligeiramente e o mesmo olhar assustado de Yumi.

— Desculpe. — Faz uma reverência. — Mas estamos prestes a apagar as luzes para os pacientes.

—Sério? São sete e meia ainda. — verifica o relógio na parede.

— Às sextas-feiras cortamos a luz cedo. Obrigatório para economizar energia. — Ela deu outro sorrisinho, e olhou de relance para o demônio. — Saitou-san, não? Melhor aproveitar e ir para casa descansar.

— Tudo bem. Não precisa se preocupar. — Fala balançando a cabeça.

Ela deu outra franzida na testa, e murmurou um “boa noite”, e sumiu no corredor para contar os detalhes as outras enfermeiras.

— Ela vai passar a noite toda aqui! — exclamou. Outra voz feminina da um longo suspiro, reclamando que esse tipo de coisa nunca acontece na vida real. Kazehaya bufa de irritação.

Poucos minutos depois, as luzes piscam e se apagam. O quarto sendo novamente iluminado pela lua, através das janelas com as cortinas fechadas pela metade. O lugar parece mais frio com a pequena diferença. Olha pela janela, fita a luz da cidade, vinda de alguns prédios maiores e carros que passavam pelo breu noturno que fazem companhia a lua crescente. Da outro longo suspiro. Kyoya parecia apenas uma mera criança cochilando sobre a luz do luar, faz uma parte da futura guardiã se sentir doente.

"E se ele não acordar?"— Brinca uma voz em sua mente.

— Ele vai. — Luta contra seu lado pessimista com um sussurro. Parece tão assustadora quanto o tom de voz de Mukuro, imaginando tudo sendo pronunciado com o mesmo sorriso sarcástico.

"Como pode ter tanta certeza~? Mukuro-kun brincou só um pouquinho com você, como poderia ser capaz de imaginar a dor que ele sente~?"

Mas não era o Ilusionista outra vez domando seus pensamentos, era sua própria voz, fazendo seu interior se retorcer. Tornou a lembrar daquele dia horrível, sentindo-se inútil. O que mais poderia ter feito?

Seus olhos começam a se confundir, descansando a cabeça no colchão e deixando a mão cair com um baque suave. Sente algo se enrolando entre os dedos, mas ignora. Kazehaya é emocional demais com esse tipo de coisa, e sabe muito bem disso.

Ela fecha os olhos, com algumas lagrimas em torno das pálpebras. Sua mao estava apertada ate o ultimo segundo antes de adormecer. Mas também ouve uma voz enquanto dorme, imagina ser apenas uma lembrança de um de seus vários dias de detenção.

— Garota estúpida.