Quinta-feira à noite

Connor fez pra mim um jantar incrível. Até roupa nova ele comprou, tanto para mim quanto para ele! Deve ter sido isso que ele foi fazer aquele dia no “mercado”, comprar as coisas pra hoje. Preparou minha comida preferida, encheu a casa de velas, deixou tudo arrumadinho... Aí tem. Nos sentamos e oramos pelo alimento, depois ele me serviu. Conversamos um pouco sobre como foi a semana, contei sobre meus progressos no jornal e ele sobre os desenhos que vem fazendo. Meu bolo de aniversário foi só uma amostra do talento de Connor para desenhar. Ele faz coisas maravilhosas, verdadeiras obras-primas! Todos os meus livros contêm ilustrações dele. Ele costumava trabalhar numa editora, como ilustrador mesmo, mas parou de trabalhar para fazer o tratamento. Por isso ele gosta de fazer as coisas em casa, é um passatempo. Ao terminarmos o jantar, Connor fez questão de tirar a mesa para servir a sobremesa. Retirou nossos pratos e taças e os deixou na pia, indo diretamente à geladeira. Trouxe de lá um refratário. Cubinhos de gelatina de vários sabores misturados com leite condensado. Colocou duas tacinhas e duas colheres ao lado do refratário e depois se sentou. Estava quase me esquecendo da hipótese de haver algo por trás do jantar, quando Connor me tirou essa alegria. Ele foi devagar, tentando enrolar a situação, mas pedi que fosse breve. Enquanto enchia nossas tacinhas de gelatina, ele me contou que havia estado com o médico hoje de manhã. A pior notícia do mundo chegou: ele tinha apenas mais três dias, contando a partir de amanhã. Sexta, sábado e domingo. Meu coração praticamente parou e eu já não sabia mais como respirar. Tentei de todas as formas processar a informação da maneira mais natural, mas foi impossível. Em meio a tentativas de recuperar o fôlego, comecei a chorar desesperadamente e meus olhos foram ficando embaçados. É o fim.

Connor se apavorou ao me ver naquele estado e cogitou a ideia de chamar uma ambulância, mas eu gritei e o impedi, quase matando-o de susto também. Ele então correu na geladeira e pegou a garrafa de água gelada, depois um copo e açúcar. Bebi aquela água doce num gole, mas não resolveu muito. Nada vai resolver agora. São só três dias! Ele me acariciava e tentava me fazer compreender que “tinha chegado sua hora”. Eu nunca vou compreender algo assim. A morte não é algo para se entender e muito menos para se conformar. Olhei em sua direção, pois as lágrimas já não me permitiam ver o seu rosto claramente, e me atirei em seus braços. Fiquei em seu colo até conseguir parar de chorar. Assim que consegui me acalmar, Connor me ergueu e subiu comigo até o quarto. Ele me colocou na cama e, com cuidado, eu o puxei até mim, beijando-o e sentindo mais uma lágrima grossa escorrendo por meu rosto. Nosso beijo foi se tornando mais intenso e eu fui para trás, para dar-lhe espaço, e isso obrigou-nos a partir o beijo. Connor ficou me olhando, perguntando se eu realmente queria isso. Balancei a cabeça em “sim” e então ele subiu na cama ajoelhado. Fui tirando suas peças de cima e ele tirou a única blusa que eu usava. Me beijou outra vez e foi com uma das mãos em direção a minha calça, mas lhe poupei o trabalho de retirá-la, fazendo isso eu mesma. Ele tirou a própria calça e se pôs sobre mim.

– Eu te amo. – falou em meu ouvido.

– Eu também te amo.

Notas finais
Capítulo final...
"- Essa será nossa última viagem, meu amor.
- Mas agora? Ally, não é melhor esperar para viajar amanhã bem cedo?
- A vida não espera! Já esperamos tempo demais aqui, é hora de fazer o que queremos. O mundo não vai acabar, meu bem, mas temos muito pouco tempo e eu não quero ficar aqui vendo-o acabar."