Ilha do Medo
3 Capítulo dois- Primeira noite na ilha
Notas iniciais
A noite não demorou para chegar. O céu nunca foi tão bonito, cheio de estrelas e uma lua que sorria para os sobreviventes. Eles haviam juntado tudo de útil que encontraram, trabalhando como equipe. Derek sabia como juntar as pessoas. Acharam um kit médico, algumas malas com roupas, pouquíssima comida consumível. O que não era útil juntaram em um canto, para depois ser usado como lenha para a fogueira. No começo Derek não se lembrava como fazer uma fogueira a partir do zero, sem fósforo, isqueiro ou fogo. Já fazia muito tempo que foi escoteiro. Se lembrava de algumas coisas, claro, mas sua forte foi um garoto chamado Dylan.
A pele do rapaz era tão branca quanto leite, mas agora estava vermelha por causa do sol. Seus cabelos loiros como palha. Parecia mais um playboyzinho, quando se aproximou de Derek e o cutucou.
— Acho que posso ajudar a fazer uma fogueira. — Ele fala. — Fui escoteiro.
— Ótimo. — Derek sorri. — Qual seu nome?
— Dylan Decker. — O rapaz responde. Sem perder tempo, Dylan se agaicha, pegando duas pedras e esfregando uma na outra, perto da onde os outros haviam montado a fogueira. Não demorou para pegar fogo.
Logo todos se aproximaram, pois a noite na ilha era fria. Eles dividem o alimento, mas todos sabiam que não iam durar. Em breve alguém teria que se aventurar atrás de comida.
"Viver como selvagens." — Camille pensava, sentada em cima de uma blusa, na areia, perto da fogueira. Seu irmão estava ao seu lado, comia um salgadinho.
"Se não sairmos daqui vamos todos vivermos como selvagens. Isso se sobrevivemos a essa ilha idiota."
Ela se vira para olhar para o lado, afim de desviar o olhar de Derek e Rose. Os dois conversavam, e pareciam bastante a vontade um com o outro. Aquela Rose estava se aproveitando demais, se fingindo demais com aquela historinha da irmã.
De repente algo lhe chama a atenção, entre as árvores. Uma garotinha. Ela era magra e pálida, e estava nua. Segurava uma espécie de boneco de palha na mão. Havia sangue em seu corpo. Ela sorria.
Camille arregala os olhos, pegando forte no braço de seu irmão.
Brian derruba metade do salgadinho no chão.
— Puta merda, Camille! Não podemos desperdiçar comida, sabia? Puta burra.
— Como é que é? Puta burra é a sua mãe. — Ela responde.
— É a sua também. — Brian retruca.
Camille revira os olhos.
— Mas é verdade. — A garota responde, e os dois irmãos trocam um sorriso.
— Por que fez isso, afinal? Aquele salgadinho estava bom.
— Eu… — Camille se volta para onde viu a garotinha, mas vê somente as arvores. Talvez estivesse vendo coisas, afinal, tudo aquilo era muito estressante.
— Pensei ter visto algo. — Ela completa.
— Deve estar vendo coisas. Esse lugar pode confundir a cabeça da gente. — Brian murmura.
Camille suspira.
— Não aguento isso. — A morena reclama. — Vou apenas dormir. Tentar estar em um lugar longe daqui. Vou sonhar com a Austrália.
— Faça isso. — Brian sorri.
Camille puxa sua "cama" improvisada um pouco mais para longe de onde todos estavam, mas sem realmente se afastar.
Austrália era realmente magnifica. Mais magnifica ainda, vista do andar mais alto do escritório mais luxuoso. Ela e Brian estavam sentados em um sofá confortável, e o advogado do vovô lhes entregava o dinheiro.
De repente uma criança começa a rir.
Criança rindo?
Camille abre os olhos, despertando do sono.
Ela se senta, olhando ao redor. Todos estavam dormindo.
De repente estava tudo silencioso, nem mesmo Brian roncava. Camille olha na direção do mato, quando escuta outra risada. A criança estava lá, e ria. Ria dela? Para ela? Realmente Camille não sabia, e não queria saber. Estava morrendo de medo. De repente Camille escuta a menininha cantar uma canção, uma voz doce que ela conhecia muito bem. Era a voz de sua mãe, costumava cantar antes de tudo. Antes de adoecer e morrer.
Foi difícil ver a mãe morrer lentamente por anorexia. Agora a menina se transformava. Seu corpo esticava, se moldando. Se transformando em sua mãe. Mas não era a Caroline amável que ela conhecia. Era a Caroline magra, magra como um esqueleto. Seus cabelos eram poucos. A pele estava envelhecida. Ela se aproximava, abrindo a boca em um grande "O". De repente sorri, e por um minuto Camille enxerga sua mãe saudável. Sã. Talvez ela ainda estivesse lá.
Caroline de repente se vira, e começa a andar para a floresta. Camille se levanta imeditamente, quase que hipnotizada, seguindo o que achava ser a mãe.
Talvez ela mesma estivesse perdendo um pouco sua sanidade.
Camille entra na floresta, seguindo a outra, até aquela passagem. Caroline de repente para, virada de costas. A garota se aproxima.
— Mãe? — Ela chama. Se atreve a tocar-lhe no ombro, é quando sua mãe se vira, revelando um aspecto cada vez mais assustador.
— CAMILLE! — Ela escuta uma voz masculina chamar. Derek.
Se atreve a olhar para trás, e quando volta a olhar para frente deu de cara com o que achou ser sua mãe. Agora a garota percebia que nunca foi.
A pele parecia estar apodrecendo.
Então aquela coisa solta um berro.
Camille grita, quando escuta novamente vozes a chamando. Se aproximando.
— Camille! — Brian grita. Ela de repente cai em si, tomando coragem para se mexer e correr.
Camille de repente olha uma ultima vez para trás. Ela vê aquela criatura entrar na passagem.
— Irmã! — Brian corre até ela. Ele segura a irmã, vendo que ela estava tremendo.
— Você esta bem? — Derek pergunta se aproximando.
— Eu… Eu acho que não. — Camille responde, tentando não gaguejar.
— O que aconteceu? — Brian pergunta.
— Eu… Eu vi. — A garota murmura. Seus lábios também tremiam.
— O que você viu? — Brian torna a perguntar, quase sacudindo a irmã.
— Mamãe. Eu vi a mamãe.
Os dois irmãos se encaram. Ninguém ali jamais entenderia o que aqueles olhares significavam, jamais saberiam.
De volta ao acampamento improvisado, Brian tentava acalmar a irmã.
— Não pode ter visto ela, sabe disso não é? — Brian indaga.
Camille apenas continua calada, pensativa, olhando para o nada.
— Camille!
Ela volta a olhar para o irmão.
— Eu não sei dizer exatamente o que vi. — Ela fala.- Mas vi algo. Não acreditei quando Rose disse que tinha visto alguma coisa. Mas o que eu vi deve ter sido bem pior. Talvez existam… Algumas coisas aqui.
— Quer dizer pessoas? — O irmão retruca. Camille revira os olhos, cansada do irmão sempre ser sua sombra. Desde pequenos os dois brigavam muito, mas sempre foram unidos. Competiam muito, principalmente pela atenção dos pais. E agora ela estava presa em uma ilha com ele. Só queria ficar um pouco sozinha, só queria paz.
Camille suspira, olhando em volta. Algumas pessoas ainda dormiam, fora aquelas que acordaram para procura-la.
Queria poder sair um pouco.
Então a garota fita o mar. Óras, por que não? Afinal estava naquela ilha mesmo. Por que não aproveitar o mar?
Camille sorri e se levanta.
— Onde vai? — Brian pergunta.
— Ter meu tempo. — A garota responde.
Camille da de ombros e anda em direção ao mar. Estava a noite, então não se preocupou se alguém a visse nua. A maioria estava dormindo mesmo. Ela tira a roupa, deixando na praia, e corre para o mar.
A água estava fria, e Camille reprime um grito. Mesmo assim aquilo era bom, lavava.
E ela precisava muito lavar a alma.
Camille mergulha. Não tinha medo da água, pois sabia nadar muito bem.
A garota fica um pouco no mar, depois sai e volta a vestir suas roupas.
De volta ao acampamento volta a se sentar ao lado do irmão, que agora dormia. O fogo já havia apagado.
— Deveria tomar cuidado. — Camille se surpreende com uma voz. Ela encara o garoto que havia ascendido a fogueira.
— Como é? — Ela pergunta.
— As probabilidades de alguém se machucar no mar a noite são maiores. — O rapaz fala.
Camille reprime a vontade de rir.
— E as probabilidades de eu não estar nem ai são maiores ainda. — Ela responde.
— O que você viu lá em cima? — Ele pergunta.
— Por que eu te contaria? Nem te conheço. — Camille retruca. Aquele garoto estava folgado demais pro gosto dela.
— Sou o Dylan.
— O escoteiro. Já sei. — Ela sorri ironicamente. — Quer mais alguma coisa ou só encher o saco?
— Por que você é tão grossa? — Dylan pergunta.
— Por que você é tão nerd?
Dylan revira os olhos. Realmente não dava para falar com aquela garota, ela era linda, isso é fato, mas arrogante.
O rapaz da um passo para trás, ainda a olhando, depois se vira e volta para o seu lugar.
Camille encara o lugar onde havia visto aquela "coisa". Não tinha mais nada ali. Mas ela ainda sentia o cheiro de podridão. Ainda escutava o grito que dera, um grito brutal e assustador.
E aquele olhar… Havia algo ali.
Havia algo na ilha toda.
Algo cheirava a morte.
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