Ilha do Medo
4 Capítulo três - Caverna do Medo
Notas iniciais
Já era manhã na ilha, e os sobreviventes acordavam. Muitos deles tinham esperanças de que acordariam em suas casas, e aquilo tudo não passava de um pesadelo.
A realidade era amarga, porém.
O primeiro que acordou foi Morgan, e também foi o primeiro que reparou no círculo enorme no chão.
Se tratava de um círculo enorme, de pedras, envolta de todo o acampamento.
Rose se espreguiça e levanta, olhando aquele círculo. Logo todos os sobreviventes estavam de pé, vendo as pedras.
— O que é isso?
— Quem fez isso?
— Isso é alguma brincadeira?
Todos falavam juntos, assustados. Estavam lidando com o desconhecido ali.
— Se acalmem. — Derek fala, tentando colocar ordem ali.
— Ele tem razão. Ficarmos nervosos e assustados não vai adiantar em nada. — Morgan concorda.
— Então não somos os únicos nessa ilha? Porque alguém fez isso… — Uma senhora murmura.
— Talvez não sejamos os únicos. — Derek concorda. — Mas não vimos ninguém até agora…
Ele olha de soslaio para Camille. Ela o encara de volta. Sabia o que aquele olhar significava. Quando ela viu aquela coisa, e contou a eles, Derek teve a ideia de não espalhar a história. Não queriam causar pânico.
— Estão nos marcando. — Um homem fala. — Igual fazem com o gado antes de abater.
— E o que te leva a pensar isso? — Derek pergunta.
O homem anda até ele. Era alto e forte, careca. Não tinha uma cara muito amigável.
— Somos forasteiros aqui. Essa ilha não recebe visitas a muito tempo, pelo visto. Os moradores daqui devem nos ver como inimigos…
As pessoas começam a murmurar, voltando a ficarem assustadas.
Derek respira fundo, pronto para falar algo, quando Rose é mais rápida.
— Moradores? — A garota retruca. — Não ouviu o que falamos? Ainda não encontramos ninguém. Então por que você esta fazendo especulações? Dizendo que nos veem como inimigos? Você é vidente por acaso?
O homem ri.
— Garota, não sou vidente, mas sei como as coisas funcionam. E se for para fazer especulações, eu diria que você vai ser uma das primeiras a ser morta. Depois da sua irmãzinha…
Rose corre na direção do homem. Não importava se ele fosse maior e mais forte do que ela, só queria lhe acertar um soco bem dado.
Derek segura Rose antes que ela pudesse concluir seu plano.
— Me solta, Derek! — Ela se debate. O homem careca ri.
— Se acalme. Não vê? É isso que ele quer. Caos. — Derek responde.
Rose suspira e para de se debater. Derek finalmente a solta. A garota aponta o dedo na direção do homem.
— Se falar da minha irmã de novo, eu te mato. — Ela ameaça. O outro apenas ri, achando graça.
— O que vamos fazer sobre essas pedras? — Dalila pergunta.
— Vamos tira-las dai. Essa é uma brincadeira de mal gosto, devem estar querendo nos assustar. — Derek fala. Mas ele sabia que não era bem assim. Ele sabia que havia algo de errado com o lugar. Sabia que Camille viu uma coisa inexplicável. E que Rose também tinha visto algo. Mas se contassem para aquelas pessoas, todas iriam entrar em pânico. Não se pode prever o movimento de uma pessoa assustada, ainda mais de um grupo inteiro. Tinham que investigar primeiro, descobrir com o que estavam lidando.
— Dylan. — Derek chama o garoto, que se aproxima. — Você tem uma lanterna ai, não é?
Dylan assenti com a cabeça.
— Vamos precisar dela. — Derek fala, e depois se vira para o restante do grupo. — Quem tiver lanternas, celulares que funcionem, qualquer coisa que ilumine, dê para mim. Nós vamos fazer uma busca.
Rose se aproxima.
— Vai entrar na passagem? Eu vou junto. — Ela fala decidida.
— Se ela vai, eu também vou. — Brian fala.
Rose o encara sem entender.
Camille também se aproxima.
— Eu também vou. — Ela murmura, se lembrando que aquela criatura havia entrado na passagem. Mas se até aquela garota sem graça da Rose iria, ela também tinha que ir. Não queria ficar para trás. Não queria que Derek achasse que ela era uma covarde.
— Nós vamos também. — Morgan diz, de mãos dadas com sua mulher.
— Eu também vou. Talvez possa ajudar… — Dylan murmura.
— Mas que time bonitinho. — O homem careca caçoa.- Quem quiser esquecer essa bobeira de exploração e quiser se juntar a mim, irei tentar arranjar comida.
— Vamos com você Diogo. — Um homem se junta ao careca.
Assim, os três grupos se separaram. Derek e os outros foram até a passagem. Diogo levaria alguns para arranjarem comida, enquanto que outros decidiram ficar ali mesmo, no acampamento.
— Aquele Diogo é um idiota. — Morgan comenta, enquanto andavam até a passagem.
— Desde que tragam comida, não me importo que ele seja o maior babaca da terra. — Camille murmura.
— Ele só quer causar confusão. — Dylan fala. — Sempre existem caras assim... Não importa o lugar. Até mesmo aqui.
— E sempre tem alguém para enfrenta-los. — Derek olha para Rose e sorri- Não é?
— Ele falou sobre minha irmã. — Rose suspira. Ela olha para longe, onde via a passagem. O que os aguardava ali?
Todos estavam com medo, mas ninguém como Camille. Aquela coisa entrou ali. E se ainda estivesse lá? E se existissem milhares delas, ali embaixo, na passagem?
Finalmente eles chegam. Todos param e se olham, ansiosos e amedrontados.
— Vamos todos ficar juntos. — Derek fala. — Não importa o que tiver lá dentro.
Rose respira fundo. Encontraria Mary ali? Não conseguia parar de pensar na irmã, se ela estava bem. Se estava viva. A garota volta a olhar para frente, onde um por um, entravam na passagem. Ela entra depois de Brian, ligando a lanterna.
A passagem se abre, revelando ser uma caverna. Era fria e silenciosa. Nas paredes haviam mais símbolos como os das ruinas.
Todos continuam em frente, olhando tudo em volta, mas não havia nada ali.
É quando escutam som de algo se quebrando. Derek imediatamente para de andar, fazendo o restante parar também. Ele ilumina com a lanterna na onde havia pisado. Ossos.
— Que nojo. — Camille murmura.
— Vamos em frente. — Derek fala. Eles voltam a andar, quando repentinamente param.
— Isso não esta acontecendo… — Dylan fala, surpreso, ao ver centenas de ossos ali. Estavam todos juntos, como se fossem ficar juntos até a morte.
— Esses ossos são bem antigos. — Dalila diz, examinando os ossos. — Até mais do que os da viagem no México, se lembra, querido?
Dalila se vira, ao não escutar a resposta de seu marido.
— Onde esta o Ed? — Ela pergunta. Todos olham em volta, reparando que o homem havia sumido.
— Ele estava atrás de nós. — Brian comenta.
— Será que se perdeu? — Dylan pergunta.
— Vamos voltar. Talvez ele esteja lá fora. — Derek sugere.
— Ele não se separaria de nós. — Dalila murmura.
— Essa caverna tem várias passagens. É possível que tenha mesmo se perdido. — Derek fala tentando acalmar a mulher.
— Vamos acha-lo. — Rose sorri.
Dalila tenta retribuir o sorriso.
No fundo ela sabia que seu Ed estava encrencado.
Morgan andava pela caverna, procurando os outros. Havia se confundido e se perdido. O que era estranho, pois ele podia jurar que ouviu Dalila lhe chamando para uma das passagens do lugar.
O homem continua andando, iluminando seu caminho com a lanterna. Ele olhava os símbolos nas paredes, queria muito entender tudo aquilo. Talvez lhe mostrasse a saída.
É quando ele escuta um grunhido.
— Dalila? — Ele chama. Sua lanterna começa a falhar.
Tudo fica escuro. Morgan da tapas na lanterna, enquanto andava para frente sem rumo, quando ela volta a funcionar.
Ele olha para onde a lanterna iluminava e solta um grito.
Havia corpos ali. Corpos em decomposição. E em cima deles tinha alguém. Não que aquela coisa pudesse ser chamada de pessoa. Era magro e incrivelmente alto. Comia parte do corpo. A criatura o encara e abre a boca, revelando dentes afiados. Sangue pingava de seus lábios.
A coisa aponta o dedo para ele,soltando um grunhido.
Morgan arregala os olhos e corre.
O homem corria o máximo que conseguia. Estava desesperado, não sabia para onde ir. A lanterna iluminava o caminho e ele continuava correndo. Sua vida dependia disso.
Ele sabia que aquela criatura o perseguia, porque escutava os passos. Eram passos leves e suaves, mas ainda sim os ouvia.
Morgan para de correr assim que vê que chegou em um beco sem saída. Havia pedras que cobriam a passagem. Ele estava encurralado.
Morgan escuta os passos mais perto, e ilumina o rosto daquela coisa.
Ela quase sorria.
A criatura para e o encara. Então, subitamente, corre na direção do homem, pulando em cima dele. Rapidamente morde seu pescoço, jorrando sangue por todo o lugar.
Morgan grita pela última vez, deixando a lanterna cair.
Derek, Rose, Camille, Brian, Dylan e Dalila procuravam por Morgan quando escutam gritos.
Dalila segura forte a mão de Rose.
— É ele. É o meu Ed. — Ela fala chorosa.
— Vamos. — Derek fala, andando apressadamente na direção do som. Todos se esforçam para acompanhar. Estavam com medo, mas não podiam deixar um deles para trás.
Os gritos rapidamente param. Eles se aproximam de uma pilha de corpos em decomposição, que pareciam ter sidos comidos. Algumas partes faltavam.
Camille põe a mão na boca, tentando não vomitar. É quando ela vê as pegadas no chão.
— Olhem. — Ela ilumina com a lanterna. Eram pegadas estranhas, maiores e mais longas que o normal. Tinha um rastro.
— Vamos seguir as pegadas. — Derem decide. Todos concordam, cada um fazendo suas orações secretamente.
Eles seguem as pegadas, que ficavam cada vez mais fracas.
Viram em uma passagem, e notam uma luz incomum. Eles se aproximam.
— Meu Deus! — Dalila exclama, vendo seu marido caído ao chão. — Ed!
Camille cobre seu rosto. Rose abraça Dalila forte, que chorava.
— Algo o mordeu. — Brian fala, se aproximando do corpo.
— Algo o matou! — Dalila grita. — Mataram meu Ed!
— Temos que sair daqui. — Derek murmura, olhando em volta. — Agora.
— O que esta pensando? — Rose indaga.
— Que isso pode ser algo como uma casa. Um ninho. Ou talvez uma prisão.
— Nós libertamos essas coisas? — Rose pergunta novamente.
— Acho que sim. — Derek responde.
— Temos que ir, Dalila. — Camille fala. Dalila estava debruçada, abraçando o corpo do marido, enquanto chorava.
— Não posso deixa-lo aqui. — Ela chora.
Derek se aproxima da mulher.
— Não é ele. Não mais. O Ed não esta mais aqui. Isso que você abraça é só uma casca. Ele se foi. — Derek diz.
— Tudo bem. — Dalila murmura. Ela encara o marido e se levanta.
Todos seguem para longe dali. Dalila olha uma ultima vez para o que um dia foi seu amado Morgan. Ela suspira e da de ombros, seguindo os outros.
Não demora para saírem da caverna.
— Talvez seja melhor manter isso fechado? — Dylan pergunta.
— Pode não fazer diferença, se já tivermos libertado essas coisas. — Derek responde.
— Apenas vamos embora. — Rose fala mal humorada. Ela saiu andando, sem esperar os outros.
— O que deu nela? — Brian pergunta. Derek segue a garota com o olhar. Ela seguia para onde havia a cachoeira, e não para o acampamento.
— Brian leve os outros de volta para a praia. Vou falar com a Rose. — Derek murmura. Brian o encara. Por que ele que tinha que ajudar a garota bonita?
Aquele Derek podia ser furada. Ele era muito melhor que aquele cara. Ele era um jogador. Bonito. Rico.
— Brian? — Camille chama. — Vamos?
Brian suspira.
— Tá. — Ele encara Derek com raiva, depois da de ombros e anda com os outros de volta para o acampamento.
Derek os vê sumindo e vai atrás de Rose. Ele encontra a garota sentada na beira do rio, com os pés na água. Ela segurava um colar e o olhava fixamente.
Não notou o homem chegando, de modo que a garota deu um pulo quando este se sentou ao seu lado.
— Mary? — Ele pergunta.
Ela suspira, se controlando para não chorar. Odiava chorar na frente das pessoas.
— Se ela estava naquela caverna… Se ela foi levada… — Rose murmura.
— Não vimos nada que parecesse com a sua irmã. Ela não estava lá, Rose. — Derek responde.
— Mas ela esta aqui em algum lugar, nessa ilha idiota. Nem sei mais se esta viva. Com essas coisas andando por aqui…
— Você tem que acreditar que ela esta viva. — Ele fala, pegando a mão dela. — Não desista dela.
— Jamais vou desistir. — Rose sorri amargamente. — Eu sempre cuidei dela. Nossa mãe… Nossa mãe é uma viciada. Ela nunca fez nada por nós. Nosso pai se separou dela e foi para a Austrália, fazer a pesquisa dele. Ele nos deixou com ela. Mas prometeu que iriamos morar com ele. Desde então tem sido só eu e Mary. E agora ela esta sozinha.
— Nós vamos acha-la. — Derek diz, acariciando a mão da garota. Os dois se encaram em silêncio.
— Melhor voltarmos para o acampamento. — Rose quebra o clima. Ela solta a mão do rapaz, envergonhada, e se levanta.
Derek faz o mesmo.
Os dois saem dali e caminham de volta para o acampamento.
A água do rio começa a borbulhar. De repente algo emerge, uma criatura careca, de olhos vermelhos, magra e de corpo longo. Ela range os dentes, olhando para a direção que os dois sobreviventes haviam ido.
A carne era fresca, o banquete, grande.
O bom jantar em breve seria servido.
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