Igual
2 Ainda
Notas iniciais
Estava sentando na sua mesa, pensando no Percy, no que fazer em relação a ele. Havia três longos meses que não falava com ele. Arrependia-se amargamente por ter agido com ele daquela forma.
Sabia que ele não ficara fulo pelo fato de tê-lo chamado de gordo, ou feio. Tinha plena certeza de que se alguém chegasse para aquele menino e dissesse: “Você é gordinho!”. Ele responderia: “ E você enxerga!”.
Sabia que P nunca, em sã consciência, ligaria para algo assim, mas foi a forma como o disse. De fato, suas palavras exibiam nojo, mas nunca sentiria isso daquele menino, nunca em sua completa vida.
Nunca. Nunca. Nunca.
Estava ocupado demais esses meses, com tantos problemas em casa, nem dormir estava conseguindo e por isso não ia atrás do menino, mas o mandava milhões de mensagens, implorando perdão, ligava e ele nunca atendia.
Suspirou cansado, encostando as costas na majestosa cadeira. Estava realmente cansado. Ouviu dois toques na porta. “O que seria agora?” Pensou.
– Entre.
– Senhor, o seu pai pede sua presença urgente na sala. – Informou a governanta. Ela aguardou o seu “senhor” passar e fechou a porta.
Quando chegou no andar debaixo encontrou uma cena um tanto inusitada. Os pais do Percy encarando o chão, abraçados, em pé, ao lado do sofá, e seus próprios pais em pé com uma feição de descaso. Provavelmente queriam que eu “me livrasse” dos outros dois, mas eu não o faria. Eram meus sogros, que, ao contrario dos meus pais, sabiam de nós. Cheguei à sala, e olhei interrogativo ao meu pai. Ele foi direto e curto.
– Eles estão aqui para informar sobre o suicídio daquele seu amigo, Percival Clinton.
Você imagine a cena, eu estático, olhando fixamente a janela da minha sala, tentando ver através das cortinas, como se isso fosse me provar que era mentira, quando meu pai nunca mentia, ou brincava. Tudo que eu passei o lado dele passou pela minha mente, seus sorrisos, e vozes, seus gemidos. Tudo. Como um filme de tortura. Senti uma mão no meu ombro e olhei para o lado, olhar de gente que estava drogado. Era a mãe do Percy.
– Ele... Ele me pediu para... lhe entregar isso. – Era difícil para ela falar, e para mim impossível. Esticou a mão e me entregou um pequeno pedaço de papel, dobrado apenas ao meio, pequeno e retangular.
Abri.
“Eu ainda te amo”.
Pus a mão na boca para evitar o gemido estrangulado de dor, e não consegui evitar as lágrimas de sair desesperadas, desenfreadas. Torturantes. Perdi a conta realmente de quantas vezes reli aquela pequena frase, cujo significado ia além. A mãe do P me olhava penosamente. Olhei em seus olhos, e disse:
– Eu só... gostaria de ter dito mais vezes que o amava.
Ela sorriu:
– Eu também.
Nos fitamos condescendentes por segundos incontáveis. Acenei com a cabeça e subi as escadas, atônito, e zumbi. Assim que cheguei ao escritório fechei a porta atrás de mim, e encostei-me a ela sentando no chão e chorando. Como uma criança.
Perdi a janta, o café do outro dia, o almoço. Depois de quase um dia inteiro entre o choro e desespero, me veio a raiva, daquele maldito escritório, daquela maldita empresa. Quebrei tudo ali dentro, com uma fúria de titãs. Joguei mesas, derrubei estantes, queimei livros (sim, livros), e chorei de novo. Mas aí me veio a culpa, a culpa não era só escritório, ou da empresa. Era minha.
Fale com o autor