Ignotus - A lenda do Caçador

1 Capítulo 1 — Sozinho no escuro...


Notas iniciais
Capítulo escrito por Azai.

— Me diz uma coisa: você já lutou com o mar? Forças da natureza são monstros imparáveis, mas só se percebe o quão forte elas são, quando se vê de dentro.

E quando se está sozinho, alí no escuro, é quando você percebe o quão impotente o homem é, fraco, pó. Sem força de reação contra algo tão grandioso do qual não dá para fugir.

Localização desconhecida...

Novamente me vi ali, perdida no meio do nada, procurando por algo que não conseguia compreender o que era.

Nem mesmo conseguia entender como havia chegado lá. Simplesmente estava lá parada no meio do nada, sentindo apenas um estranho incômodo na barriga proporcionado por um profundo corte diagonal começando de baixo do meu seio esquerdo e seguindo até o lado direito do meu quadril.

Do meio da floresta escura surgiu um homem caminhando, a figura estava coberta por um longo capuz verde e uma espécie de manto por baixo desta veste, mesmo não vendo seu rosto eu sentia que o conhecia, de alguma forma sentia certa afeição por ele.

O encapuzado possuía uma imensa barba revelada apenas pela luz da tocha em sua mão esquerda, seus olhos estavam distantes, cansados pelas noites mal dormidas, enquanto que os fios do seu cabelo se estendiam até fora do capuz sobre seu peito.

Um grunhido ensurdecedor surgiu no meio da clareira onde estávamos, e sons de troncos partindo e sendo arrancados provinham da frente do encapuzado.

O homem então avançou caminhando, rajadas de vento vinham contra nós, balançando a vegetação e derrubando o capuz daquele homem.

Automaticamente a mão dele saiu de sob seu manto e tocou uma espada em sua cintura, esta possuía inscrições em ouro em idiomas que não pude reconhecer, no guarda-mão havia um cristal negro com reflexo avermelhado e seu cabo era envolvido por bandagens surradas e sujas.

De nuvens negras e tormentosas, quase apocalípticas no céu veio a queda do orvalho, o homem largou a tocha que trazia em mãos e fechou os olhos.

Com um último suspiro o fogo se apagou ao cair sobre folhas e plantas molhadas, revelando em última instância a imensa queimadura disforme sobre um olho da figura misteriosa.

O homem desembainhou a espada de sua cintura enquanto caminhava lentamente.

Só então ele parou, seus cabelos cacheados estavam totalmente encharcados pela chuva e sua respiração era a única coisa que eu podia ouvir, além dos ventos e dos grunhidos constantes vindos de sua frente.

Ele estava em pé no meio da vegetação, entre mim e algo, naquele instante meu coração se aqueceu, senti-me segura, como se ele me protegesse.

Foi então que senti um calafrio, como se houvesse um ser de presença devastadora, da qual eu necessitava fugir instantaneamente, mas a sombra do homem barbudo, permaneci parada, só então percebi que ambos estávamos de olhos fechados, mas uma físca embaçada e distorcida de um vislumbre turvo me veio à mente: A criatura era imensa, com quase 3 metros de altura, dele exalava um cheiro podre, quase como se mil cadáveres estivessem em decomposição. A criatura não possuía um rosto, apenas um olho grande e vermelho no lugar da face, sobre sua barriga havia uma boca anormalmente alongada e sorridente, como a face de um palhaço macabro e alegre. Seus pelos possuíam uma coloração vermelha e preta, com sangue escorrendo pela imensa boca no abdômen do monstro.

Naquele instante, eu não conseguia discernir… Se era real ou apenas uma fábula fantasiosas descrita para assustar crianças. A criatura estava sedenta por carne, trazendo em sua mão um corpo sem tronco escorrendo o rubro e vivido sangue cintilante sobre a luz gélida da lua cheia.

O espadachim começou a se mover, a lâmina em sua mão cantava enquanto cortava o ar, de forma que a espada não ficava firme em sua mão, pelo contrário, estava sempre girando e trocando de mão, de um lado para o outro, como em uma dança.

— Não importa o que aconteça, fique atrás de mim… — Ouvi a voz do homem, apenas assentindo em resposta.

A criatura grunhiu arrancando em uma corrida veraz contra o espadachim.

A figura de olhos fechados se moveu para a direita, acertando um corte no peito da besta gigantesca. Partindo desde o maxilar da criatura até o músculo de sua coxa.

O homem se virou, girando a espada e se pôs de frente para a criatura, as gotas de chuva escorriam pelo seu rosto, enquanto ele respirava lentamente.

A criatura avançou novamente e com um giro e um golpe, o homem arrancou o braço esquerdo do monstro, a criatura grunhiu e antes mesmo que pudesse levar uma das mãos ao ferimento, recebeu um corte nas costas fazendo-o tombar.

O monstro rugiu de dor, se levantando novamente, entretanto o espadachim saltou, executando um giro e com um último movimento dividiu a cintura da criatura do resto do tronco, fazendo o monstro cair no chão jorrando sangue por toda a vegetação. O cheiro era horrível, o sangue era arroxeado e se espalhou pelo solo matando as pequenas plantas do chão.

Ele então embainhou a espada, e se aproximando me tocou no rosto.

— Pode abrir os olhos. — Disse ele, seu tom era doce, quase que amável.

Ao encará-lo me deparei com um rapaz de quase 25 anos, pele parda, sobrancelhas arqueadas e com um sorriso nos lábios, a queimadura estava sobre seu olho esquerdo que possuía um tom azul claro e seu olho direito era castanho, possuindo na ponta da sobrancelha uma cicatriz, por mais torto que fosse no formato de um x, enquanto que pela sobrancelha próximo ao x haviam quatro cortes diagonais, sendo um deles próximo ao nariz dele. Na sua testa uma franja não propositalmente caía-lhe sobre a queimadura enquanto que água escorria pelo seu longo cabelo.

E tudo ficou branco.

Sendo tirada daquilo que mais se assemelhava a um vislumbre, levantei-me abruptamente, meus cabelos estavam suados e ensebados. Senti como se tivesse trazido comigo a chuva do sonho de tão encharcada de suor que estava.

Deslizei uma mão sobre a testa limpando o suor que escorria até meus olhos e me sentei a beira da cama, ainda ofegante, no quarto procurei com a vista um ponto de referência no ambiente para me localizar e acalmar minha frequência cardíaca.

Só após alguns instantes pude visualizar o guarda-roupas preto no canto direito do cômodo e o espelho de grande moldura verde pendurado na parede.

Algumas lágrimas escorriam de meus olhos, enquanto eu permanecia estática encarando o reflexo turvo de mim mesma no espelho.

Naquele instante meus olhos pareciam ter uma cor vermelha brilhante, na mesma cor do sangue que escorria da boca da criatura e meus cabelos de pontas esverdeadas se viam luminosos no reflexo. No instante em que avistei a imagem, me movi para trás abruptamente, me afastando da visão no espelho.

— Você 'tá enlouquecendo, Kami… — Murmurei em monólogo, enquanto me arrastava de volta para a beira da cama, cheia de receio.

Pus-me a encarar novamente o espelho, percebendo que a imagem distorcida de mim mesma havia desaparecido.

— 'Tá enlouquecendo Kami… — Repeti, enxugando outra lágrima.

de súbito alguém abriu a porta e a luz branca da lâmpada do corredor inundou o local.

A luz repentina se assemelhava a lâminas se cravando nos meus olhos, graças ao longo período que passei no escuro.

Depois do espanto, apenas pude avistar uma silhueta escura que vestia uma camisola longa e preta.

A garota possuía pele negra, em um tom achocolatado, seus cabelos cacheados estavam desgrenhados, assanhados e amassados em várias direções. Diferente da garota arrumada e maquiada que conheço Ana parecia mais relaxada que o normal, seus olhos estavam gravados com olheiras profundas, as íris castanhas me encaravam da luz enquanto apontava um pequeno relógio branco com alças de couro preta, indicando exatas 3 da manhã.

Sussurrei um pedido baixo de desculpas, enquanto ela se aproximava de mim. A garota tomou minha mão direita e segurando-a, a trouxe para junto de si, descansando as mãos que seguravam as minhas em cima de sua coxa, grossa e torneada pela academia.

— Kami… Pelo amor de Deus… Eu sei que você anda meio perturbada com pesadelos, mas eu tenho prova amanhã… — Ela falou chorosa enquanto me encarava com os olhos semi fechados. — Não quero que pense que eu não me importo com seus sentimentos, mas pessoas normais dormem a noite toda, irmãzinha. — Murmurou ela.

— Teoricamente a prova já é hoje…

— O que?

— É madrugada, ou seja o seu "amanhã" na verdade é o meu "hoje". — Expliquei, e mais uma vez minha voz saiu tão inexpressiva e sem vida quanto sempre foi.

— Tanto faz… — Ela retrucou.

— Desculpa. — Sussurrei novamente.

— Não precisa se desculpar, mas tenta procurar um terapeuta, um astrólogo, uma médium ou um monge, enfim… Qualquer pessoa que possa realinhar o seu chakara. Porque pelo amor de Deus… Eu não aguento mais…

Meneei a cabeça em negação como resposta ao exagero em seu tom de voz, faziam cerca de 14 meses que eu não conseguia dormir direito, com essas imagens do homem desfigurado pela queimadura no rosto e tudo o que envolvia aqueles seres malignos.

Nem mesmo em minha mente eu conseguia achar uma história que explicasse tudo aquilo, na verdade eu apenas comecei a sonhar, com seres ocultos que jaziam nas sombras em espreita, e a maior parte deles se alimentava de carne humana, a outra parcela desfilava entre os homens como um mal oculto.

Mas sempre que se revelavam todos se assemelhavam a bestas mitológicas e disformes, rostos distorcidos e até mesmo forças da natureza materializadas em forma picturesca proveniente da mente de algum artista com esquizofrenia.

Ana me abraçou e respirou fundo.

— Eu tava brincando sobre o chakara. Mas procura ajuda, 'tá bem? — Questionou ela e eu assenti em resposta.

Ela se levantou lentamente e saiu do quarto encostando a porta atrás de si.

Mal escutei seus passos desaparecendo no corredor e logo retornei para a cama.

Quatro horas depois…

Parada ali, eu sentia que estava sentada há horas naquele velho acolchoado, enquanto ouvia um som semelhante ao de chuva e um arrastado marulhento. Era como estar cercada pelo mar e a sensação ali naquele ambiente era o mesmo, senti-me flutuando, com um incômodo na barriga, que irradiava do abdômen e circulava o corpo todo: dando voltas e voltas.

— Então… Quando pretende começar a falar? — O doutor quebrou o silêncio, ele estava sentado na minha frente e deslizava os dedos sobre as pálpebras escuras e cansadas.

No colo ele mantinha uma prancheta com papéis, e uma caneta apoiada no prendedor de metal junto ao óculos. — Faltam 15 minutos pro fim da consulta. — Advertiu.

— Só não sei por onde começar… — Respondi em tom áspero.

— Nossa! — Exclamou. — Essa é a primeira vez que ouço sua voz fora de um "bom dia" quando entra na sala. — Ele recolocou o óculos no rosto e suspirou fundo umedecendo os lábios. — Olha Kamila. Não estou aqui pra te julgar, meu trabalho é ajudar os pacientes a se reorganizar mentalmente. Pode me dizer o que for, desde que não seja algo que viole a lei, estará protegido pelo sigilo de médico/paciente.

Por alguns instantes olhei para o chão de cerâmica branca, enquanto tentava arrumar coragem para falar sobre os sonhos, logo notei a impaciência do doutor, que balançava a perna verazmente.

Ele era um homem negro, com a pele deveras escura, quase que azulada, possuía cabelos curtos e bem cortados de forma que nenhum fio saia do alinhamento do corte.

Por alguns instantes pensei em levantar e sair como sempre fazia, mas pela primeira vez me senti presa no banco, quase que amarrada a ele. O doutor Rafael se inclinou apoiando os cotovelos sobre os joelhos, amarrotando o tecido da calça azul que vestia.

Ele direcionou um olhar calmo para mim, umedeci os lábios por alguns instantes, e abri a boca duas ou três vezes na tentativa frustrada de começar uma frase, depois de um ou dois minutos graças a uma fagulha de vontade finalmente falei:

— Eu tenho tido uns sonhos estranhos. Começou há alguns meses, acho que uns 14 p'ra 15 meses pra ser exata. Eu sonhei inicialmente com um homem encapuzado, ele usava um manto vermelho, o rosto dele ficava escondido pelo capuz e ao mesmo tempo parecia brilhar em uma cor azul forte… Tipo algas bioluminescente.

— O que você sentiu quando viu essa figura? — Ele questionou anotando algo na prancheta.

— Medo. — Respondi hesitante e incerta quanto aquilo. — Até porque os braços dele ficavam visíveis debaixo da roupa escarlate e eles eram queimados e deformados, com dedos longos e esguios. Depois de algum tempo comecei a sonhar com um homem… Também encapuzado, mas ele parecia ser mais humano… Tinha cabelos longos e barba desgrenhada, com um capuz verde na cabeça, a diferença é que esse homem tem uma espada, tipo uma katana de lâmina reta com uma pedra negra meio avermelhada no guarda mão. Normalmente esse homem com a espada fica entre mim e o monstro de vermelho…

— Qual foi o sonho mais recente que teve?

— Sonhei com uma criatura gigante, semelhante a um primata coberto de sangue. Toda vez que sonho com isso, as imagens se repetem da mesma forma: O monstro vem até mim carregando um corpo sem tronco na mão. Eu ouço rugidos atrás da vegetação de uma clareira enquanto a criatura se aproxima, e logo em seguida eu vejo o espadachim, normalmente ele carrega uma tocha na mão esquerda, e sempre se põe entre mim e o monstro, ele me fala coisas que eu nunca consigo lembrar quando acordo. Então… Ele solta a tocha no chão e tira a espada de debaixo do manto…

Respirei fundo me recordando de cada fragmento do sonho enquanto o narrava.

— O que mais? — Questionou o homem me encarando. — Prossiga.

— O homem com a espada mata o monstro e se aproxima de mim, o sonho normalmente acaba com ele tocando o meu rosto e falando algo p'ra mim.

O doutor tirou o óculos de armação fina mais uma vez, deixando-o no braço do sofá vermelho onde estava sentado.

— Como era o rosto do espadachim? Pode descrevê-lo?

— Por volta de uns 20 ou 30 anos, pele parda, barba suja e cabelos cumpridos, ele tem um olho azul e outro castanho… E tem uma queimadura enorme no olho esquerdo descendo pela sobrancelha até a maçã do rosto.

Em um instante água começou a inundar o lugar, gotas começaram a cair do teto e uma névoa turva e espessa cobriu o lugar de forma que eu não podia mais ver o doutor ou mesmo o próprio ambiente.

Naquele momento pude ouvir uma gargalhada, enquanto flashes de luz piscavam na névoa e em um momento tudo escureceu.

Senti a água afagar violentamente o meu corpo, no instante em que prendi a respiração.

As luzes sumiram e qualquer percepção de som também, senti algumas bolhas subindo em meu redor, e ao abrir os olhos me deparei com o escuro. Rapidamente olhei para baixo e vi uma imensa bola de fogo, juntamente a destroços e um corpo subindo com a explosão. A luz me permitia ver apenas um contorno incerto e turvo, mas se assemelhava a um garoto, que vestia uma bermuda alaranjada e tinha bandagens nos braços e pernas, na mão direita ele segurava uma pequena pedra vermelha reluzente e sangue escorria daquele estranho cristal.

Um clarão de luz no meu rosto me despertou, de relance pude ver a porta de meu quarto aberta. E ao me levantar avistei o corredor vazio. Esgueirei-me até o lado de fora, e caminhando pelo corredor não encontrei nada. retornei até a porta do meu quarto a passos lentos e passado o medo pude ouvir a chuva do lado de fora.

Eu gostava daquele som, sempre me acalmava nos momentos mais assustadores. Mesmo quando estava irritada ou triste. Aquele som sempre me acalmava de alguma forma.

Cheguei-me ao imenso janelão de frente para o corredor que ligava os quartos, a escada e a pequena sala de espera onde jazia o imenso painel de vidro.

Os céus estavam escuros e nenhuma luz parecia passar pelas nuvens, as gotas caíam pesadamente por sobre as telhas da casa enquanto molhavam do lado de fora as plantas no jardim e a grama que cercava a casa até o muro.

Enquanto respirava fundo. Me livrando da respiração ofegante que tive ao despertar do sonho, não consegui parar de pensar naquela figura… Naquele garoto que estava sozinho no escuro.