Ignotus - A lenda do Caçador
2 Capítulo 2 — O Caçador.
Notas iniciais
Não consigo dormir… De novo…
Mesmo estando imensamente cansado, por horas permaneci encarando o teto da oca de um canto a outro, porém mais uma vez minha mente se recusa a descansar e outra vez sinto um arrepio na espinha.
Talvez o meu corpo não pudesse relaxar pela quantidade de sentimentos ruins que a tempestade me trazia, ou era somente ansiedade… Entretanto, como não pude afastar aquele sentimento, prefiro pensar que é a primeira opção… Como um bafo frio e maligno arrepiando cada centímetro do meu corpo.
Me levantei lentamente afastando as mãos das mulheres em meu leito e me sentei à beira da cama, estava suado e com os músculos doloridos e cicatrizes do corpo expostos.
Em minha visão limitada fixei meu olhar em uma das curvas da velha oca de palha, enquanto ouvia os trovões e pelas frestas pequenas da porta avistar os clarões dos relâmpagos.
Passei a mão na testa respirando fundo e tocando a ponta dos dedos sobre a queimadura em meu rosto, estava ali há tanto tempo que já havia me acostumado, mas ainda me sentia estranho quanto a cada uma delas. Eu nunca fui como o Miguel, ele não se importava, mesmo quando enfiei uma espada quebrada na cara dele e no processo quase arranquei sua língua. Mas nós sempre fomos diferentes mesmo. No fim, não importa.
Tirei o manto do caixote velho e empoeirado e o vesti. Como o clima ali era sempre tropical, arranquei as mangas do meu velho casaco de capuz e o deixei apenas com o comprimento longo que antes tinha. O vesti e sai pela porta, caminhando em direção ao exterior da tribo.
A velha clareira estava cheia de árvores altas, com galhos longos e até retorcidos, causando em mim como sempre um sentimento claustrofóbico, o chão estava brilhando com os reflexos da luz dos raios e pesadamente gotas desciam pelas ocas em redor. Todos os moradores da tribo foram engolidos por medo e estavam cada qual em sua morada, escondidos da tempestade ou esse algo que estes cultuam como deus.
Puxei o capuz e cobri meu rosto, as gotas de água continuavam caindo pesadamente e se assemelhavam a uma sinfonia de tambores no horizonte. Violenta e impetuosamente sobrepujando a terra.
Mais um arrepio surgiu, no topo da minha cabeça, e meu braço direito instantaneamente recebeu um pequeno choque na ponta dos dedos. Eu há muito já conhecia aquela sensação, era um deles, por isso não conseguia dormir, por isso os arrepios e por isso a tempestade…
Estendi o braço direito ao lado do corpo e fechei meus olhos.
Pequenas faíscas saíram da minha mão e o cabo da espada apareceu em minha palma. Conforme as faíscas surgiram em sequência veio o fogo, revelando a arma completamente.
O Cristal vermelho do guarda-mão começou a brilhar intensamente e as chamas desapareceram.
— Vocês não tem mais ninguém para atormentar? — Murmurei sentindo uma presença assassina atrás de mim. Naquele momento comecei a girar a lâmina. — Beleza, bando de desocupados. Eu vou matar vocês e voltar a dormir. — Finalizei o monólogo como um idiota. — Tenho que parar de falar sozinho. — Monologuei uma última vez.
O clarão de um raio veio na minha direção, executei uma acrobacia para a direita e rebati a energia com a lâmina.
Os sons que a criatura emitia atrás de mim se assemelhavam a rugidos de um imenso gorila, e a minha frente pareciam rastejos de uma cobra.
Com um rápido movimento, me arremessei contra a criatura elétrica e rastejante, troquei a espada de mão e com um golpe cortei parte do que deveria ser o rabo da criatura.
Sangue do monstro espirrou em minha mão, por um segundo me senti atordoado, mas meu corpo permanecia se movendo, desviando dos ataques.
Saltei contra uma das criaturas e rasguei seu abdômen com um golpe, a lâmina de minha espada se cravou no corpo da besta e sangue da abertura me cobriu.
Sem hesitação, sem tempo para pensar, meu corpo começou a queimar e uma energia estranha começou a percorrer meu corpo, um clarão iluminou minha visão e assim perdi meus sentidos, até que me vi em um lugar totalmente escuro, levantei meus olhos com a espada suja do sangue roxo do Folk-Fear em mãos, e logo avistei uma garota, em pé numa sacada de vidro fumê. Eu sabia que ainda estava com os olhos fechados, eu sabia que ainda estava lutando, mas mesmo assim no instante em que meus sentidos foram cortados senti estar no meio de um jardim, parado com o frescor da chuva esfoliando a minha pele.
Era diferente da ilha, refrescante e calmo, como se não houvessem preocupações, sentindo a chuva apenas para acalmar qualquer tempestade que pudesse surgir em minha mente.
A garota era linda, ela possuía pele morena de tom marrom claro e cabelos cacheados presos por uma presilha no topo da cabeça, seus olhos eram esticados, nem mesmo pareciam estar abertos. No canto direito da testa lhe caiam fios negros e cacheados de seus longos cabelos escondendo um dos olhos. Na bochecha esquerda ela possuía um band aid tapando alguma ferida. Seu nariz era gorducho e ao mesmo tempo afilado, enquanto que sua boca possuía o lábio superior carnudo e escuro, formando par com o lábio inferior que era mais fino e rosado. No canto direito da boca, ela possuía sobre o lábio inferior uma pequena cicatriz e mais abaixo debaixo da elevação da boca ela possuía outra cicatriz pequena, quase imperceptível.
Parada ali ela mantinha os braços cruzados sobre os seios, formando rugas na camisa branca que usava. Em contrapartida a garota vestia um short folgado e preto que desenhava suas coxas grossas e volumosas. Mas um detalhe me chamou a atenção, sua perna esquerda possuía uma leve anomalia, o tornozelo dela era voltado para dentro e seu pé era apontado para a direita. A roupa que ela vestia estava amassada, assim como a pele de sua barriga como se estivesse deitada de bruços por muito tempo, isso era visível pelas vestes marcas e a sua pele levemente arrepiada pelo frio.
Por um instante senti como se ela me encarasse, enquanto murmurava algo para o aparelho celular que estava entre seu ombro e a bochecha.
Naquele instante senti minha consciência se esvair aos poucos até que tudo ficou escuro…
Estendia minha mão contra uma das criaturas e com um gesto de dedo arremessei fogo contra a besta elétrica.
A imagem da garota havia sumido, no instante em que o fiz.
Lançando faíscas por todos os lados.
Girei a espada em meu entorno com a movimentação criando rajadas de ar circulares ao meu redor que rasgaram as criaturas como lâminas de vento.
Infelizmente não antes de uma das bestas me atingir no instante em que foi fatiada, me arremessando dentro do rio.
Senti minha mente se perder, a pancada foi tão forte quanto a batida de um caminhão de carga, foi pesada repentina e arrancou minha consciência.
Mesmo com o enevoado em minha mente, ouvi uma voz de mulher e em minha frente estava ela, a garota da sacada, me sacolejando e gritando:
— Arthur, acorda agora!
Abri meus olhos, e em um salto me levantei, cada célula do meu corpo doía naquele instante, eu mal conseguia me mexer, ao levantar os olhos avistei uma pequena multidão, com pouco mais de 17 pessoas, me cercando com seus celulares, e todos se afastaram ao verem que me mexi.
Sentei-me no chão, enquanto tateava meu rosto dolorido enquanto tentava me localizar em meio aos flashes de luz, eu podia ouvir carros, conseguia sentir cheiro de alguma comida assada, senti também o cheiro da terra molhada, e o menos agradável deles, o fedor do suor daquelas pessoas.
Foi quando duas figuras passaram pelo meio das pessoa, ambos estavam com distintivos e utilizando-se apenas de algumas palavras dissiparam os civis.
Um dos homens tinha o cabelo em “v” na testa, fios negros penteados para trás, pele incrivelmente clara e uma cicatriz enorme e disforme sobre o olho direito, ela era tão grande que engolia sua sobrancelha e se estendia desde a testa até próximo ao maxilar do indivíduo, contrastando com os olhos castanhos, tão escuros quanto a noite.
A figura vestia uma camisa social vermelha e xadrez, com listras brancas padronizadas, acompanhada de uma calça jeans com tênis Nike preto.
Ele era mais baixo do que a figura emburrada a seu lado, possuía um porte forte e um olhar centrado, frio, quase que sem vida.
O outro que o acompanhava tinha cabelos lisos e arrepiados sobre a testa, com fios desgrenhados e objetivamente despenteados e arrepiados, ele possuía pele parda e um olhar sério, quase que irritado, olhar esse que eu conhecia muito bem. Seus olhos eram castanhos e sobre a sobrancelha direita possuía duas cicatrizes curtas e paralelas que desciam na diagonal pelo canto de seu rosto bem em cima de sua têmpora, a figura também tinha uma barba volumosa bem penteada, a barba era tão cheia que chegava a quase engolir-lhe todo o seu rosto, sob a barba no maxilar esquerdo ele tinha uma imensa cicatriz que se estendia até pouco abaixo da olheira que contornava seu olho.
O homem vestia uma camisa verde pólo que deixava as cicatrizes em seus braços expostas, chegava a ser intimidador. Ele também vestia calça jeans, mas não o jeans azul convencional, como seu parceiro, ele vestia um jeans preto e tênis branco da Adidas.
Quando os flashes pararam e eles entraram em minha frente eu entendi o que havia acontecido, havia um imensa árvore caída no meio da pista, algumas autoridades do corpo de bombeiros estavam no local, cortando o tronco com machados e pequenos veículos de carga.
Ao me dar conta disso, notei que eu estava sentado sobre o pedaço do tronco, a base da árvore estava chamuscada e o tronco que estava caído na pista fôra dividido ao meio. — Sei que não parece relevante, mas eu estava deitado bem em cima do tronco, devem ter pensado que eu tava morto.
— Arthur? — o barbudo se agachou me olhando nos olhos.
— Miguel… — Respondi-o e direcionei meu olhar a ele.
Minhas pernas estavam doloridas, eu sabia que se tentasse não conseguiria levantar naquele momento, já que, não só elas, mas meu corpo todo estava doendo, permaneci sentado no chão e respirei fundo, sentindo as pontas de minhas costelas quebradas acariciando meus pulmões enquanto respirava.
— Tudo bem?
— Sim e não… 'To me sentindo um cadáver ambulante…
— ArthurAndrade? — Se pronunciou o de camisa vermelha. — Seu irmão... vocês são exatamente iguais.
— Você me conhece?
Voltei-me para o homem de cicatriz enorme e sotaque britânico.
— A bem da verdade, em momentos de tédio li alguns arquivos sigilosos do SNI, alguns deles... Ou melhor em sua maioria eram sobre sua família.
— Arthur, Esse é meu novo parceiro, Isaac Bryer.
O homem assentiu assim que foi apresentado por Miguel.
— Isaac, esse é Arthur Andrade, meu irmão gêmeo, um dos... — Ele finalizou e a figura que estava com as mãos nos bolsos, estendeu uma mão me cumprimentando.
Assim que finalizamos o cumprimento, me levantei com dificuldade e respirei fundo, ainda sentindo a dor irradiada em meus ossos.
— Nunca me falaste dele. — Comentou Isaac, se voltando para Miguel.
— Tem muita coisa que você não sabe sobre mim, Isaac. Além do mais, achei que o Arthur estivesse morto, já fazem anos que não nos vemos, e as últimas vezes que nos vimos quase nos matamos.
— Bem, se ele tiver metade da sua teimosia, meu amigo, consigo entender o motivo. — O homem finalizou, olhando Miguel com um sorriso de canto.
— Na real é um pouco mais complicado do que isso.
Miguel não parecia nem um pouco desconfortável quanto aquela conversa, era igual a morte dos nossos pais, para ele não tinha diferença alguma. Sobre mim acho que ele deve pensar algo como "ele 'tá vivo? OK". — Com certeza devem estar pensando que é a clássica história clichê dos pais mortos, mas devo avisar, é bem diferente disso… Porém vou deixar isso pra outra hora, só tenha em mente que não há nada convencional nisso tudo.
— Deixa isso p'ra outro hora, mas se quer mesmo saber “Britânico”, são só negócios da família.
Miguel concordou com um aceno de cabeça. Naquele momento Isaac deu as costas com um sorriso de canto e acenou com a cabeça para que fôssemos embora dali.
Estávamos no meio de uma BR e os carros que deveriam estar em alta velocidade, estavam parados na pista esperando a remoção da árvore.
Ao dar o primeiro passo, tombei para frente e caí de joelhos, sendo amparado por Miguel. Ele me sustentou e passou meu braço por cima de seus ombros me apoiando.
Apesar das nuvens nubladas no céu, eu me sentia quente, e não, não era por causa do casaco, ele estava todo queimado e chamuscado, o calor que eu sentia era sangue escorrendo por todo meu corpo.
— O que aconteceu contigo, cara? Eu até consigo ouvir seus ossos rangendo.
Minha respiração se tornou instável, com curtas arfadas tomando o lugar das inspiradas e expiradas sutis.
— Lutei com dois monstros, uma serpente elétrica e uma espécie de gorila gigante.
— Já vi quem levou a pior… Vou te levar lá pra casa, tenho algumas coisas pra cuidar desses ferimentos, devem ser o suficiente p'ra te ajudar a curar mais rápido.
— E as manas? Estão bem?
— A Alissa estava nos Estados Unidos semana passada, deve estar voltando em um mês e meio, e a Malia foi em missão p'ra Austrália… Não falo com ambas há algum tempo, — Ele me olhou de soslaio enquanto falava. — antes que pergunte, a Ana está bem, nós acabamos namorando e chegamos até a casar...
— Não consigo te imaginar casado, ainda mais com essa cara estragada. — Debochei.
— Acredite quando digo, sua cara tá pior do que a minha... — Retrucou. — Enfim... Nós tivemos uma filhinha e nos divorciamos há um mês.
Assenti com a cabeça enquanto fazia um bico de espanto.
— Como isso mudou de um reencontro p'ra um divórcio?
— O divórcio foi mais da parte dela do que da minha.
— Eu imagino… Homem sempre é o idiota da relação, principalmente quando é chutado. — Sorri com dificuldade. — Mas ainda assim é uma mudança bem radical em pouco tempo...
— Eu… Não te vejo há 9 anos. — Ele justificou.
Por um segundo não consegui crer que tanto tempo já havia se passado, fala sério… logo pensei: "eu não me sinto velho", mas aí lembrei da barba, acho que já passei da puberdade… E nem percebi. — Que alívio!
— E antes que pergunte, ela tem o nome da nossa mãe.
— Credo… Não acredito que pôs aquele nome horrível na minha sobrinha, até a mãe odiava o próprio nome. — Miguel sorriu com minha afirmação.
— Eu só queria manter a memória dela viva, não quero ter que… esquecer ela totalmente...
Assenti com a cabeça, enquanto nos aproximamos de um Jeep prateado parado no acostamento.
Naquele instante senti um pequeno calafrio na minha espinha, minha frequência cardíaca por um segundo se descompassou e um bafo frio saiu da minha boca.
— Tudo bem? — Isaac questionou me encarando, ele abriu a porta de trás do carro e logo me sentei no banco.
— Tem alguma coisa errada...
Isaac e Miguel se entreolharam e o Britânico fechou a porta.
Continua...
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