O hospital geral de Konoha era um dos melhores do estado, no entanto, tratava de casos mais comuns com eficiência e ainda não tinha estrutura para casos como o de Sakura.

O problema estava em esse ser, possivelmente, um caso difícil mesmo para o hospital da capital. Tsunade era especializada na área de traumatologia há anos, ela só precisou olhar a fixa uma única vez pra saber que batalha de Sakura poderia sô estar começando, ela poderia perder.

No entanto, não tinha permissão para se envolver, estava na área de docência tinha muito tempo e por mais indicada que pudesse ser, não deixariam um caso tão delicado em mãos que pudessem falhar por conta da falta de prática.

Até agora, ela contara três motivos para fazer a ligação. Mas já tinha se decidido no primeiro.

***

O corredor estava lotado de gente, a madrugada geralmente silenciosa não abafava o afobamento e o desespero de tanta pessoas.

— Vocês precisam se acalmar, o médico logo vai vir. – pediu a enfermeira.
Uma voz não podia com tantas, mas Tsunade não era o tipo que aceitava sem tentar.

Ela pegou uma prancheta e bateu três vezes contra o balcão da recepção, na segunda, todos já estavam se calando encarando a austera mulher de cerca de cinquenta anos.

— Aqui é um hospital, poderiam por favor, ficar em silêncio e apenas um falar?

— Você é a professora da Sakura...? – Hinata indagou, mas sacudiu a cabeça decidindo que isso não era importante agora – Como ela está? Por favor.

— Ela está passando por uma bateria de exames, foi entubada, seu coração está falhando, e já está na UTI. – Um dos motivos de Tsunade não se adequar tanto ao trabalho no hospital era não saber como lidar com os familiares, ser direto era uma característica comum nos Senju, a mesma frieza que os tornava exímios em lidar e combater a morte dos pacientes, atrapalhava para confortar os familiares.

Um traço de família presente nela e no irmão mais velho, mas que ela notou ter se dissipado um pouco nas gerações depois dela.

Sua resposta desorientou um pouco todos ali, a maioria sentou ou se pôs a caminhar pelo corredor com expressões pálidas.

Uma mulher de cabelo escuro e pele branca se levantou, os olhos avermelhados viajaram para o alto rapaz que estava sentado no banco de espera, ele estava sujo de terra, a coluna encurvada para frente, o queixo apoiado nos punhos e por um momento, Tsunade achou que ele estava rezando. Mas seus olhos escuros estavam apagados e avermelhados, o cabelo escuro e encharcado cobria um rosto perturbado e perdido. Ele provavelmente nem a ouvira.

— Sabe dizer quais são as chances dela? – a mulher lhe indagou, num tom ameno e aflito.

— Ainda é cedo para dizer, eu mesma chamei uma especialista da capital, conhecida minha para avaliar Sakura, mas se ela estabilizar pelo menos essa noite o mais provável é que de manhã, ela seja transferida para a capital.

— Entendo, pode nos manter informados? Não somos a família dela, ela não tem, mas... Como pode ver...
Tsunade assentiu, ligeiramente desconfortável.

— Eu farei o possível.

— Obrigada.

***

— Não tem muito o que se fazer – Chyo, a traumatologista responsável, declarou.

Tsunade suspirou profundamente e encarou o vidro da sala de UTI. As paredes que separavam todos os leitos eram todas de vidro, preservando-se os leitos apenas com cortinas verde claro.

— Você vai esperar a pessoa que chamou? Eu já poderia emitir a transferência. – a mulher declarou.

— Ela está chegando, e vai apenas olhar o caso.

— Claro.

Chyo se retirou, Tsunade não se demorou muito, seguiu para fora da ala e mal havia saído dela, ouviu saltos ecoando numa passada ritmada e ligeira. Ela parou diante de Tsunade, vestia uma saia lápis cinza e uma blusa branca bem passada e abotoada. O jaleco impecável levava as iniciais M.M. e Tsunade notou o ligeiro embaraço dos cabelos curtos que denunciavam alguma agitação em sua figura meticulosa e impenetrável.

— Tsunade. – Ela cumprimentou, séria e educada, inflexibilidade tornando seu rosto mais e mais congelado.

— Mebuki.

***

Se o clima já estava um lixo, alguém sempre poderia piorar.

Izumi tentou tirar Hinata dali nem que fosse por um momento, mas a morena estava irredutivel e enojada.

Haviam um bolo crescente de gente vindo visitar Sasuke como se fosse ele o grande ferrado da história.

Com se fosse ele que estivesse lutando pela vida numa maldita UTI.

Quando Ino resolveu aparecer, empurrando todo mundo para chegar ate um Sasuke imóvel sem reação, o vento agourento de um furacão, pareceu se formar ali, e Hinata era o próprio olho do furacão.

— Que coisa linda não? — Ainda com a bolsa no antebraço ela bateu palmas com um olhar venenoso. – Ela, a grande causadora desse circo de horrores, só teve que ouvir uma bronquinha dos papais.

— Hinata...

— Olha eu nem te conheço, estou aqui pelo Sasuke...- Hinata bateu palmas outra vez aproximando-se dela.

— Claro que está – concordou – Aliás, todo mundo está aqui por causa dele, não é? – indagou para todos, recebendo apenas silêncio em resposta. Seus lábios tremeram e desta vez ela falou alto o bastante, fitando Ino – Enquanto a minha amiga está morrendo numa UTI!

As recepcionistas começaram a chamar a segurança.

— Parece que estamos vivendo numa época em que tudo se inverte! – ela prosseguiu. Izumi a puxou de perto de Ino, lançando um olhar ameaçador para a loira quando esta se inflou para rebater – As vítimas ficam no relento e todo mundo vai consolar o culpado!

— Hinata!

— Por favor, se acalme – Naruto pediu tentando afasta-la e ela o empurrou como se também houvesse sangue da menina que seu amigo amava em suas mãos. Os olhos de lua dela eram como estacas condenando todo mundo. Sabiam da parcela de culpa de Sasuke e de Ino, mas ele tentou proteger Sakura sem alarma-la.

Sasuke nem tinha certeza que Gaara sabia de Sakura ou que ele tinha escondido Ino até que a policia o encontrasse. Jamais poderiam adivinhar que aquele doente já tinha gente seguindo Sasuke e por isso notara seu interesse óbvio em Sakura.

Ninguém podia tomar tanta culpa só para si, era uma mistura de falhas de muitas pessoas, e todas elas culminaram em Sakura entre a vida e a morte.

— Não me toca! — ela foi agressiva como um gato selvagem – Sai da minha frente, essa cadela vai me ouvir. – ela avançou. – Ninguém que te quer aqui, você não pode ser tão burra! Você só está aqui por que quer atenção, mas você deveria estar tão presa quanto seu namoradinho psicopata!

— Cala a boca! Ele era doente! Doente!

— Doente por você! E não é o que você quer? Que todos te amem?! Vá pro colo dele! A culpa é sua! Vá embora! E leve esse maldito daqui, a culpa é de vocês, saiam daqui... seus hipócritas! – Naruto a arrastou agora esgotada ela esfregou o rosto balbuciando aos soluços – Vocês nem a conhecem, nem a conhecem...

Itachi puxou a loira pelo braço, arrastando-a pelo corredor oposto. Mikoto tentou chama-lo mas foi inútil.

Jogou-a contra a parede e se apoiou nesta enquanto tirava um cigarro do bolso. Ino se encolheu dentro do moletom, soluçando baixinho sem encara-lo.

— Eu vou dizer uma vez – ele comentou pondo o cigarro contra a boca e então tateando os bolsos em busca do isqueiro. – Você vai sair desse hospital, e não vai voltar aqui enquanto essa crise não passar nem que te cortem a mão.

— E só queria ver o Sasuke...- ela resmungou.

— Já viu, e quando sair não vai ver mais.

— O que...

— Você vai sair do hospital, vai dar o fora, voltar pra sua casa, pra sua vida de merda, e nunca mais vai aparecer na frente do Sasuke, entendeu?

— Nã-Não pode fazer isso, não pode me expulsar da cidade eu tenho pais..

— E quem disse que estou expulsando? Essa cidade não é tão pequena, sei que pode mover seu rabo por aí sem topar no dele.

— Eu nāo... Fazemos a mesma faculdade!

— Cursos diferentes, prédios diferentes, nem vão se ver. – Deu de ombros achando o isqueiro no bolso do blazer.

— Temos os mesmos amigos! – Ino protestou.

— Faça outros, sua boceta deve ajudar, sempre ajudou.

— Nó somos amigos! E mesmo que eu me afaste ele vai... – ela começou, pretenciosa e teve o queixo apanhado pela mão dele, sua cabeça forçada contra a parede a fez ficar na ponta dos pés. Itachi a encarou, seus olhos eram indecifráveis e sinistros.

Você vai se afastar dele, você vai correr dele. Você. Por que se eu te pegar rondando ele, sua abutrezinha de merda, eu vou te dar fim. Você é uma cadela tóxica, uma maldita sanguessuga e eu sou o fogo que vai te arrancar da pele dele nem que pra isso eu queime ele também.

Itachi soltou-a, baforadas de fumaça escaparam de suas narinas.

— Eu não gosto de você Ino, e você sabe bem. Eu não brinco de criar ninguém como Sasuke brincou com você. Eu vou te arrancar das costas dele. E se você continuar pulando. Eu vou ser muito pior que o Gaara, o cara que gosta de você, foi. – ele se aproximou novamente, encarando-a de cima e soprando a fumaça direto em seu rosto. Segurando o cigarro perigosamente perto da bochecha dela. – E eu não sou tipo que erra o alvo. Agora some da minha frente.

Ela deslizou pela parede se afastando como se não tivesse força para seguir sozinha. Ele se recostou na parede encarando o teto e depois as chamas do isqueiro que fora de seu pai.

— Algo que queira comentar, Srta. Devine?

Izumi surgiu de onde Ino tinha se ido e o encarou, cruzando os braços.

— Tenho certeza que naquele andado ela ainda pode ser alcançada.

— Você já me parece ter dito tudo que precisava. Essa menina precisa da atenção de um terapeuta. Ela parece uma criança de cinco anos.

— Mas fode como uma meretriz experiente – ele ponderou – Não que eu saiba por experiência própria, claro.

— Você é mesmo um humano? – ela revirou os olhos e se afastou. Ele deu de ombros.

— Talvez não, mas você com certeza é minha, Izumi.

***

— Acha que ela vai dar conta até lá? – Tsunade, indagou observando a linha dos lábios finos da outra, crisparem. Ela engoliu discretamente antes de responder e se afastar.

— Não sei.

Tsunade a observou sumir entre as portas e suspirou. Tinha que informar aos amigos de Sakura, antes que os ânimos se agitassem outra vez e mais gente fosse expulsa do hospital.

Ela se aproximou suavemente acenando com a cabeça, a mesma mulher com quem falara mais cedo se levantou discretamente tentando não chamar a atenção do resto agora meio grogues e exaustos de sono e tensão.

— E então? – Mikoto indagou, receosa.
— Ela vai ser transferida para a capital, só podemos torcer que sobreviva.

— Meu deus... Entendo, mas qual exatamente é o quadro dela? – Tsunade viu todo o resto nota-los e se sentiu quase acuada. Mebuki se aproximou lançando um olhar avaliativo e muito intimidante, algo que nunca foi boa em evitar.

— Você quer falar? – perguntou-a. Mebuki piscou, surpresa, mas lhe mandou um olhar severo por um momento antes de encara-los com uma máscara indecifrável.
Ela era alta, esguia, o quadril largo e busto mediano, sua face era preenchida por traços asiáticos óbvios. Olhos escuros e puxados um tanto afiados, parecia bem mais jovem do que sua expressão denunciava com tanta seriedade, o cabelo de um rosa bem escuro quase púrpura, estava preso num coque elegante, e os lábios eram finos não pareciam habituados a sorrisos.

— Claro...

— Ela é a Dra. Mebuki Manabu, é a especialista que eu chamei para avaliar Sakura, ela é especialista em cardiologia que é onde Sakura está tendo graves dificuldades.

— O que houve com o coração dela? Ela sempre foi forte. – Hinata disse. – Ela tinha crises mas é por causa do TAG.

— Realmente não tem haver com o TAG, mas tudo consequência do acidente – Mebuki começou.

— Sakura bateu de frete e estava sem cinto, o peito dela... – Tsunade continuou – O peito dela foi completamente comprimido...

— O coração dela foi esmagado, ele terminou de falecer há poucas horas, Sakura precisa ir pra capital, os aparelhos estão mantendo seu sangue circulando, mas ela precisa imediatamente de um coração novo, ela vai precisar de um transplante.

Tsunade mandou-lhe um olhar repreensivo. Mebuki não entendeu po fizera tudo para ser o mais direta possivel, como sempre.

Mas não demorou pra entender o problema. Após o silêncio sepulcral que tomou o lugar, uma torrente violenta de discussões encheu o corredor. Gritos e acusações. Choro e paredes esmurradas.
— Eu achava que era ruim – Tsunade suspirou. Mebuki se limitou a dar as costas.

— Irei pedir para a Dra. Akasuna preparar a saída.

***

— Então é isso...? – ele indagou. Tsunade assentiu vendo seu desgosto se ampliar.

— Infelizmente não é um caso em que vocês possam ajudar, não é um fígado ou rim. Ela precisa de um coração...

— E ela tem chance? De conseguir um com tempo? – ela encolheu os ombros um pouco.

— Ela é jovem, Kizashi, o mais difícil é ela sobreviver até lá, hoje em dia a fila de espera já não está tão longa, pode demorar em média trinta dias e Sakura não tem um perfil tão exigente, ainda bem. Mas tudo ainda depende dela. O cérebro ainda está inchado e estamos fazendo de tudo pra que os pulmões não se percam também...

— Meu deus... – ele voltou a encarar a vidraça, Chyo e uma equipe organizavam a retirada de Sakura do quarto. Ela tinha que ir para o aeroporto e de lá pegar um avião direto para onde pudesse esperar um coração novo. – Talvez se eu tivesse...

— Não adianta, Kizashi, o que importa agora é o futuro.

***

Havia um mural perto da entrada do prédio de biológicas. Nele havia uma foto de Sakura usando jaleco para uma das aulas práticas e sorrindo ao lado de uma réplica do corpo humano.

Sasuke iria querer ter visto, em outra ocasião. Ele não suportaria ver agora, num mural rodeado de velas, flores e mensagens.

Ele nem queria ter voltado pra faculdade. Mas todo mundo o forçou.

Ele nem sequer pode ver ela. Ele nem sequer tinha acordado do pesadelo auto imposto por sua mente. Tinha sempre todo aquele sangue. Aqueles gritos. Tinha sempre que voltar e receber um golpe pior da realidade.

O coraçãozinho dela foi estraçalhado, Sasuke olhava para os lados e só via espelhos. Ele em evidência, a culpa era dele.

Agora ela estava em outro leito, morbidamente tendo que esperar outro ser humano se perder para ter uma chance.

Era tão injusto e cruel, logo ela, alguém tão independente, que caminhava com as próprias pernas e não se escorava em ninguém. Logo ela, sua vida ao preço de outra.

E ele não era capaz de sequer poder oferecer o próprio em troca, era inútil, os dois eram incompatíveis.

Naruto afagou suas costas e nuca, mas ele não levantou a cabeça, havia peso demais para isso.

A aula passou como um borrão, sua mente alternava entre curtos intervalos de sonolência, lembranças e pesadelos.

Não dormia uma noite inteira desde o acidente e desde que não havia o que fazer no hospital, lhe restava vagar pelo quarto em volta do telefone.

Mikoto havia se oferecido prontamente para ser acompanhante de Sakura na capital. A última notícia que tivera foi que Sakura ainda aguardava pelo coração.

Que talvez nunca viesse ou quando chegasse, seria tarde.

Sasuke saiu antes do fim das aulas. Seguiu direto para casa ignorando completamente os pedidos de Naruto para que fossem treinar.

Jogou uma mochila vazia sobre a cama e catou roupas jogando-as dentro.

— Naruto falou como se você fosse pendurar uma corda em volta do pescoço. – Itachi comentou, colocando o telefone de volta no bolso.

— Como se fosse fazer diferença. – Sasuke desdenhou. Fechou a mochila e pegou um boné dirigindo-se para a porta. – Estou saindo.

— E a faculdade?

— Foda-se.

— A sua sorte é que não estamos pagando por ela ou te acorrentaria numa daquelas cadeiras até que te enfiassem um diploma na goela.

— Tsc, você não tem que ir correr atrás da Devine?

Itachi deu de ombros enquanto desciam as escadas.

— Eu tenho tudo sob controle – Sasuke chegou á calçada ajeitou a alça da mochila sobre os ombros e parou, vendo Izumi encostada na porta do carro de seu irmão. Ela o fitou meio entediada meio rancorosa e também mandou um olhar desconfiado para Itachi. Sasuke o encarou e conhecia bem o bastante aquela cara estoica pra saber quando ocultava se gabando.

— Vamos, não gosto de dirigir de noite. – o mais velho ordenou pegando as chaves.

Sasuke anuiu exaurido e entrou, ocupando o banco traseiro.

De Konoha até a capital, eram quatro horas de viajem. Ele tomou uma água com remédio e apagou imediatamente. Esperando que assim a viagem acabasse logo, e estivesse mais disposto.

***

Nos últimos dias o que mais havia feito era enfiar para os fundos da mente todo tipo de alusão ao passado que lhe era atirada no rosto.

Mebuki só lembrava de se sentir tão orgulhosa de si quando finalmente havia se formado e conseguido a primeira vaga numa clínica. No entanto, naquela época, ela havia tido a vitória em parte obliterada pelas contas que havia feito em prol de seguir aquele caminho. A consciência fora arrebatada pelos fantasmas das dívidas que fizera.

Uma delas estava na sala a sua frente, a outra, ao seu lado, também observando, com uma tranquilidade invejável que nenhum dois tivera capacidade de ter.

— O que estão fazendo? Parece tão incômodo... – Kizashi indagou com uma expressão emburrada.

Ela teria revirado os olhos como tinha vontade de fazer sempre que se deparava com gente leiga demais.

— Trocando os cateteres, também vão limpa-la, praxe...

— Hum... Me falaram lá fora que ela podia conseguir até o fim da semana.
Mebuki suspirou o pensamento: “Se ela sobreviver até lá” veio até a ponta de sua língua, mas ela procurou se conter.

— Tem dois garotos, um em Atlanta e uma menina em Denver que podem ser doadores, mas ainda não...

— Morreram...

— Exatamente, a família da garota já está de acordo, ela já era doadora, já doou um rim, parte do fígado, até mesmo medula.

— Uau.

— A do garoto ainda tem esperanças mas de qualquer jeito, a menina é bem mais adequada, mesma idade, saudável. O menino só tem dezessete anos.

— Claro. Eu tenho que ir, sei que ela vai conseguir de qualquer jeito.- ele declarou dando as costas.

Mebuki estava muito bem, obstinada a ignorá-lo ao máximo, não que ele parecesse interessado em atenção, ele sempre fora difícil de ignorar essa característica, havia apenas se acentuado com o tempo.

— Como tem tanta certeza? – Kizashi lhe mandou um olhar que dizia com certa ironia: “E você duvida?”

Mas ele suspirou e girou sobre os calcanhares, seguindo em frente.

— Ela é uma vitória, Mebuki, é a vitória que nossos fracassos criaram.

Mebuki observou suas costas largas desaparecerem pelas portas da Unidade Intensiva e se voltou para frente vendo os enfermeiros finalmente deixarem o quarto.
Ela inspirou a percepção de que sua dívida continuava aumentando mesmo agora, a deixou desconfortável, precisou sair de lá, o ar ficou desagradável até rarefeito, o cheiro hospitalar ao qual estava tão acostumada, pareceu revirar seu estomago.

Ela não sabia dizer se negava ou concordava das palavras de Kizashi. Mas sentia que não estava preparada para saber.

Estava nervosa.

Estava com medo.

Estava com remorso.

***

O hospital era enorme, bem sofisticado e movimentado, mas não havia algo como gente de aparência duvidosa entrando ensanguentado, ou médicos correndo de um lado para o outro com macas e pacientes a beira da morte como se via em séries e filmes.


Sasuke seguiu em frente praticamente se deixando guiar por instinto, procurando sentir qualquer coisa que pudesse o atrair até Sakura, leu rapidamente as placas, subiu escadas seguiu em frente, esbarrou em pessoas, foi empurrado, Mikoto apareceu, entrou em sua frente.

— Sasuke, filho, por favor, não pode fazer escândalo aqui.

— Onde ela está? Eu posso ver ela?

— Ela está na UTI, ainda esperando... – Sasuke não conseguiu ignorar aquilo. Também era culpa dele.

— E... Tem algum...? – proferiu, hesitante.

A mãe lhe deu um olhar doce e compreensivo.

— Existem dois possíveis doadores, só o que podemos fazer é, esperar.

Ele assentiu lentamente, era simplesmente difícil demais saber como se sentir sobre isso. Mikoto entendia seu infortúnio. Por fora, Sasuke era bom em ignorar qualquer estranho, mesmo que fosse gentil ao tratar da dor de qualquer ser humano, sua própria aura e ar intimidantes já afastavam e impediam que fosse um tipo em que se confiasse fácil. Mas quando se tratava de um amigo, qualquer um por quem tivesse algum apego, ele ficava totalmente absorvido em ajudar e sua gentileza o invocava a ânsia se fazer o possível para ajudar.

Agora ele estava perdido sem saber como deveria sentir, ele sabia como era perder alguém que se ama, a forma bruta como Fugaku fora levado, deixou e ampliou marcas neles todos. Itachi não dispensava ter o controle de tudo, cada passo que dava dentro ou fora dos negócios, na vida pessoal, era meticuloso, ele não admitia erros, nem perder. No fundo, ele se sentia culpado por não ter conseguido abastecer o carro e assim, ido buscar Fugaku e seguir com ele ao banco

Fugaku foi sozinho, e fora assaltado na porta da agência portando uma parte do que iria ao fundo bancário feito para Sasuke, uma poupança para seus estudos ou qualquer outra eventualidade.

Itachi ainda achava que deveria ter estado lá, não importa se Mikoto agradecia e sabia que tanto ela quanto Fugaku estariam mais que satisfeitos em não ter corrido o risco de perder um dos filhos. Ela não pode estar com ele nesses últimos momentos, mas os dois sabiam o que era mais precioso que a vida deles e seu amor.
Ela havia recaído em sua compulsão por segurança, parecia que a cada vez que saíssem de casa haveria alguém esperando pra tirar a vida de seus filhos.

E Sasuke, ele provavelmente transmitira seus traumas para fora do círculo familiar, não havia nada que ele não fizesse por amigo em dificuldade. Ultrapassava as próprias dificuldades.

Ajudava além do necessário.

E nem sempre um amigo merecia ajuda apenas por ser um amigo.

Por isso, agora, ele não sabia como poderia desejar tanto um coração novo para Sakura, a menina de seus olhos, sabendo que era desejar que uma família sofresse uma perda como a da dele.

Mikoto não poderia se dar ao luxo de dizer o que era certo. Apenas puxou seu caçula de coração grande e se sentou com ele no banco.

Ela orou um pouco, segurando sua mão. Ela decidia sempre deixar a resposta nas mãos daquele que tinha todas.

— Eu nem posso vê-la? – ele ciciou, inconformado.

— Vamos tentar no horário de visitas, uma resposta ou mesmo o coração podem chegar a qualquer hora e não é bom ficar muito no caminho.

— Ela nem acorda?

Mikoto suspirou, afagando seus cabelos.

— Ela acordou sim... Mas decidiram que seria muito para ela lidar no momento, disseram apenas que estava segura, ela estava muito sonolenta, talvez nem recorde.

— Hn.

— Vamos ter fé. O coração dela é forte, ele é mais do que aquele músculo. Ela é mais do que uma frágil flor de Sakura.


***

— Ela era tão bonita, que eu tropecei nos pés. – Sasuke ciciou, sua mãe era a única que o ouviria sem zoações.

— Oh, sim? Ela é desconcertante mesmo, não que ela pareça fazer ideia disto.- Ele sorriu ligeiramente recordando como Sakura corava quando dizia que ela era linda, ela provavelmente não fazia ideia do primor que era, chamava atenção onde passava, também intimidava bastante. Ela o tipo que parecia ser um gênio, mas não um tipo esnobe ou arrogante, ela exalava inteligência e até sabedoria, as pessoas ficavam um pouco receosa de falar com ela de primeira.

Ele mais do que ninguém sabia disso, tinha medo de ela ser tão diferente que parecesse que falava outra língua, e também temeu que ela o desprezasse ou corresse.

Bem, ela correu. E ele viu que ela era um neném assustado que não entendia o quão fofo era e porque todos queriam aperta-la, chegando a se sentir desconfortável.

Sasuke suspirou novamente melancólico.

— Eu só quero vê-la, parece que faz tanto tempo...

Mikoto olhou o relógio, não era exatamente horário, mas nem mesmo sabia se Sasuke poderia vê-la, Mikoto a via pois era sua responsável.

— Vamos tentar, sim?

***

Ás onze horas do dia trinta de Novembro, a ligação mais importante da vida de Sakura e que a manteria viva, chegou.

O jovem Justin McGuire, dezessete anos, estudante e residente em Atlanta falecera uma hora atrás em consequência do tiro que levou em uma briga de gangues, Justin não fazia parte de nenhum dos grupos, ele só estava passando.

O tiro atingiu sua cabeça, ele teve morte cerebral.
A família foi relutante, entregar qualquer parte do filho parecia o mesmo que admitir de uma vez que ele não viveria mais.

A situação de Sakura foi explanada, ela era um pouco mais velha e cursava o mesmo curso que Justin queria ingressar. Ela não tinha familiar algum, não sabiam dizer por qual dos dois motivos a família cedeu mais.

O coração estava vindo para Sakura, era o que importava, Mebuki decidiu.
Entre Atlanta e Colúmbia seriam três horas e pouco de viajem, Sakura já deveria estar pronta para a cirurgia quando ele chegasse.
Por isso Mebuki seguiu direto para a UTI, ao se aproximar, notou a Sra. Uchiha dentro do quarto, ela estava parada perto da cama, Mebuki chegou á porta notando uma segunda pessoa, sentado na cadeira á beira da cama. Ela parou diante da entrada, achando que reconhecia aquelas costas largas, mas vendo que não.

Entrou e parou, encarando fixamente o homem que segurava a mão de Sakura de uma forma que exalava cuidado.

— Dra. Manabu – Mikoto exclamou, alegremente e ansiosa.

— Com licença... – Ela cumprimentou ainda observando aquela mão grande, estampada com tatuagens com a de Sakura, pálida e miúda sobre ela.

— Ah, é meu filho, Sasuke. – Mikoto disse. A médica enfim o reconheceu, não pode dizer que ele era a melhor opção que poderia estar ali também, segundo o que havia chego aos seus ouvidos. – Ele não conseguiu ficar esperando, creio que mais gente deve aparecer no fim de semana.

Mebuki piscou recordando o porquê de estar ali.

— Entendo, tenho novidades.
Os olhos pretos de Mikoto se acenderam.

— Sim...? Sasuke, querido, ouça – ela pediu tocando seu ombro, ele finalmente prestou atenção, encarou a mãe e ao ver Mebuki, ele se levantou com um olhar ansioso.

Mebuki inspirou.

— Temos que remover ela para o centro cirúrgico, agora.

— O que aconteceu? – Sasuke se agitou, seu olhar transtornado se tornando ameaçador ao ver Chyo entrar acompanhada de mais três subordinados.

— O coração está vindo, ela vai ter o transplante. – Mebuki declarou logo. Mãe e filho estagnaram por um momento, Chyo mandou um olhar confortador enquanto Mebuki se remexeu, inquieta e desconfortável.

— E-Então ela vai conseguir?

— O transplante sim, o coração está vindo de Atlanta, a família de um garoto doou, agora vamos prepara-la para recebê-lo enquanto ele chega.

— Graças a deus! – Ela exclamou, abraçando o filho – Ouviu, querido? Ela vai conseguir, vai conseguir.

Ele parecia muito atordoado para entender ainda.

— Mas pra isso, precisa solta-la – Chyo cantarolou, bem humorada, Sasuke não soltou a jovem, se curvou e beijou sua cabeça. E então se afastou quando a cama foi afastada, e Sakura foi levada.

— Vai ficar tudo bem agora, tudo bem – Mikoto garantiu. – Vai ficar tudo bem.