Ignites me
9 Centelha IX
Notas iniciais
Sua mente desanuviava lentamente, Sakura abriu os olhos sem pressa, ela tinha uma suave impressão de que dormira bastante, mas não descansara. Estava de alguma forma exausta demais, completamente esgotada, tanto que não conseguia nem sentir medo de onde estava e fazia vaga ideia do porquê.
Ela tentou recordar das mãos e lentamente moveu uma em direção ao rosto, sentia o tronco pesado como se portasse um peso extra que a fazia afundar no colchão.
Sentiu sob os dedos uma superfície lisa e fria que emoldurava sua boca e nariz soprando um ar frio e um pouco desagradável. Puxou sentindo que estava presa em torno de sua cabeça.
Só então soube que era uma máscara, e que estava no hospital, na posição que tanto detestava. A de paciente.
Respirou o ar do quarto após afastar a máscara, e vasculhou o entorno como pôde até perceber que havia alguém em volta.
Uma mulher entre trinta e cinco quarenta anos que portava herança nipônica tal como Sakura, a encarou de volta com olhos escuros um tanto perdidos mesmo que sua postura fosse severamente decidida.
Sakura engoliu buscando ter certeza de que podia falar, encarou o entorno mais uma vez e então a mulher.
— Quero ir pra casa, por favor? – A mulher a fitou longamente, pálida como cera, estarrecida.
***
Sakura abriu os olhos novamente, desta vez ela ficaria acordada por um bom tempo. Seus olhos exploraram o ambiente até encontrar o rosto de Sasuke, ele se retesou embora ainda tocasse os dedos dela, que se remexeram. Ficou rubro por ter sido flagrado desta forma, imaginou que deveria estar parecendo um maluco encarando-a assim, enquanto dormia.
E também, ele provavelmente era o último rosto que ela iria querer ver.
Sakura piscou devagar, assimilando a visão dele que havia julgado como alucinação.
Mas era ele ali, perto e corado, sua pele branca, bochechas rosadas, e as cores vivas das chamas em seus braços. O estranho guerreiro de tom roxo era um pouco visível pela gola da camisa.
— Sasuke...- ela ciciou. – É você mesmo?
Sasuke se abaixou ainda dividido entre ir e ficar, temendo encarar seu desprezo. No entanto, era uma batalha perdida, ele não conseguiria deixa-la tão fácil mais.
— Oi...- falou, hesitante. Ela tentou se mover, levantar mas ele segurou seu ombro – Fique deitada, ou vai se machucar.
— Eu me sinto pesada... E como eu fui...? — Sakura indagou, tocando as faixas que envolviam seu tronco por baixo da camisola, no centro de seu peito havia uma elevação que deveria ser um curativo.
Sasuke engoliu angústia pura, tocou seu braço.
— Você precisa se acalmar. – ela o fitou e achou graça.
— Mas estou calma.. Estou confusa... Mas pelo menos você está aqui. – ele a fitou aturdido. Sakura suspirou revelando um olhar suplicante e abandonado – Eu quero ir embora...
— Sakura.
— Eu quero ir pra casa... Quer dizer... é ridículo, eu nem tenho uma casa de verdade – arfou com uma risada sem humor e empurrou uma lágrima deixando um rastro suavemente lustroso na pele pálida – Mas eu quero voltar, nem que seja pra qualquer lugar, só quero uma casa.
Sasuke puxou-a pelo tronco, trouxe para perto da beira onde envolveu mais de seu corpo, abraçou e aninhou ela contra si, tal como quis desde a primeira vez que a viu. Levar e acalentar.
— Eu vou levar você, prometo, e você vai ter uma casa, Sakura, só sua.
Quem sabe, só deles.
***
Passou direto, ignorando a Hyuuga, sabia que qualquer confronto ali, não valeria a pena, e Hinata também. Ela continuaria lhe mandando olhares feios mas ele podia viver com isso.
Também estava acompanhada de uma jovem que parecia ser sua irmã, então concluiu que ela não falaria besteiras para Sakura. A jovem segurava um ursinho cor de rosa dentro de um papel de presentes transparente com flores brancas como estampa. Ela também lhe lançou um olhar afiado e inquisidor.
Ótimo, haviam duas dela.
Sakura estava bem lúcida e os médicos haviam decidido dizer a ela a natureza de sua internação logo antes que ela ficasse perturbada. Não era algo que se podia esconder facilmente e ela estudava medicina, com certeza já imaginava a gravidade do problema que havia abaixo dos curativos, ou melhor, solução.
Ele voltou para o Hotelzinho que se hospedara, arrumou algumas roupas jogadas na cama, e tomou um banho, seguiu para a cama e ainda de toalha se jogou nela, pegou o telefone programando para despertar dali umas horas, era apenas esse tempo que poderia dormir antes de voltar ao hospital. Não desgrudara de Sakura desde que ela acordou, e ela estava muito sensível para deixa-lo ir. Ela só se preocupava em entender o que havia acontecido e em voltar pra Konoha.
O transplante delicado ainda exigiria que ficasse em recuperação por umas três semanas, mas o esclarecimento sobre o acidente e tudo o que levou a ele, não esperaria tanto.
Isso o angustiava muito, nunca estaria preparado para ser odiado, e não queria que ela se sentisse manipulada ou enganada. Era completamente incapaz de deixa-la, e se ela o odiasse, os dois sofreriam.
Sasuke dormiu mais pesado do que presumira, ainda assim despertou nos primeiros toques do telefone já no automático, procurou uma calça pra vestir.
Percebeu que não era o despertador e sim uma ligação. Pegou aparelho esperando ver a foto de Mikoto mas o que viu foi uma selfie sua com Ino, indicando que era ela.
Sasuke encarou a tela longamente, com um suspiro, ele deslizou o dedo pelo visor fechando a ligação e largou o telefone de volta na cama. Pegou uma camisa e seguiu até o banheiro e depois que saiu pegou o aparelho e deixou o quarto. Já no hospital ele chegou ao quarto estranhando a presença de tanta gente pessoas próximas a porta do quarto de Sakura.
— O que está acontecendo?
Mikoto o fitou condoída.
— Sinto muito querido.
— O quê? Aconteceu alguma coisa? Ela...
— Calma, ela está bem... Acontece que a polícia veio aqui, eles queriam o testemunho de Sakura... Então foi inevitável ela não saber de tudo.- ela inspirou – Agora ela sabe.
— Tudo...?
— Sim, quem é Gaara, sua motivação, sobre Ino e porquê você a levou, enfim, Sakura está cansada agora, ela não quer ver ninguém, sim?
Ele comprimiu os lábios numa linha dolorosa.
— Você quer dizer, eu?
— Querido, despejaram muita coisa sobre ela. O sequestro, também o transplante, ela precisa de um tempo pra assimilar. Tenha um pouco de paciência, sim?
Sasuke observou-a se afastar junto de médicos e policiais, entrou no quarto e fechou a porta suavemente. Sakura estava deitada de lado e encolhida segurando um ursinho rosa que ele reparou que também usava óculos.
Foi até a cama e subiu, deitando-se atrás dela e permanecendo calado apenas observando a opacidade de seus cabelos.
— Quero ficar sozinha. – ela ciciou, num fungado. Sasuke puxou a coberta jogando sobre as pernas também e se aproximou mais, passando o braço em torno dela.
— Não quer não, e nem vai.
Sakura se encolheu mais e chorou apertando o urso entre os dedos.
Porquê a primeira parte era verdade, mas a segunda, parecia que nunca seria.
***
Três semanas depois, Sakura estava num carro retornando para Konoha. Tinha na bagagem algumas roupas, muitos remédios, um ursinho rosa, medo do futuro, e um coração novo.
Embora estudasse medicina e as maravilhas desta a fascinassem, era no mínimo assustador se imaginar passando por um desses milagres. Ela ainda não conseguia acreditar que tinha um pedaço que não era seu dentro de si. Algo pulsando, e mantendo-a viva... Pelo menos por um tempo.
Ainda estava afetada pelo sequestro também, não ter sono tranquilo era algo que já estava acostumada, mas pesadelos, não. Estressava-se com a ideia de sair na rua e deparar-se com Gaara Sabaku novamente. Ou se ver de volta àquela cabana horrível.
Ela sinceramente, não se sentia pronta para voltar pra Konoha, mesmo que deixar o hospital fosse tudo que mais quisesse.
Agora estava com o dobro de problemas que já tinha antes. Voltar pra cidade só a fez lembrar da faculdade interrompida que não poderia retomar tão cedo e da falta de um lugar adequado para sua recuperação que seria longa e cheia de exigências.
Sakura estava com a imunidade baixíssima, mais baixa do que já lhe era habitual, graças ao uso de imunossupressores, medicamentos que auxiliariam seu corpo a não rejeitar seu novo coração, mas em troca, diminuiriam suas defesas contra doenças comuns. Além dos cuidados contra infecções que envolveriam antibióticos, e os com alimentação que só permitia, absolutamente, alimentos cozidos.
Maravilha.
— Estamos chegando. – Mikoto disse, muito alegre. Ela era uma ótima motorista também. Sakura entendeu porquê Itachi e Sasuke não se incomodaram nem um pouco de deixar a chave com ela. Havia só as duas no carro para evitar que muita gente em volta pudesse transmitir qualquer coisa para Sakura e ela usava até mesmo uma máscara cirúrgica agora. Era incômodo e constrangedor. Ella sentia como se ela é quem postasse algo contagioso.
Ela olhou para as janelas, as ruas pacatas da cidade começando a se revelar. Mikoto foi toda cuidadosa em evitar as ruas mais movimentadas do centro e Sakura sentiu que toda gentileza do mundo estava guardada nela, depois de tudo que a mulher que mal conhecia, se propunha a fazer.
Ainda sonolenta e um pouco dolorida, ela só queria deitar de novo em qualquer lugar que não cheirasse a éter. A ansiedade de sair logo do hospital praticamente a impediu de descansar devidamente. Tinha plena certeza de que se viesse a deitar numa cama normal, dormiria por semanas até.
A Sra. Uchiha, fez uma curva suave num bairro com casas tradicionais de cercas brancas, e parou diante de uma, pintada de um azul suave e extremidades em branco. Sakura observou uma grande árvore seca perto do portão, graças ao inverno. E ao contrário do resto das casas, não havia qualquer enfeite natalino em sua faixada e jardim.
— Parece que vamos ter outra nevasca – Mikoto comentou, abrindo o cinto.
— Onde estamos? – Sakura indagou, receosa de soltar o cinto. Mikoto saiu e ela viu Sasuke, Izumi, e a professora Carrasco deixarem a casa.
Sakura entendia o interesse médico e acadêmico da Dra. Tsunade, só achava um pouco... estranho.
Ficou realmente surpresa de ela se envolver em seu caso, embora fosse sua aluna que ela mais elogiava ( e exigia) não era como se fosse uma relação de amizade. Tsunade era uma senhora muito rígida e um tanto fria, alguns a chamavam de Rainha de Gelo...
Izumi chegou primeiro, as roupas grossas e quentes, um cachecol enrolado no pescoço e as bochechas coradas. Ela bateu no vidro da janela, rindo, antes de abrir a porta e a abraçar.
— Oi?! Tudo bem? A viajem foi bem?
— Oi, foi ótima sim, hum, desculpe a demora.
— Vamos recuperar o tempo, hahaha.
— E vai ser aqui...? Onde é que estamos?
— Vamos entrar primeiro? Está muito frio. – Mikoto pediu. Sakura suspirou, desistindo.
E desceu do carro, Sasuke a envolveu num casaco quente o dele mesmo e ela tentou fingir que só estava corando por causa do frio.
Afasta-lo fora uma tarefa inútil, pelo menos no momento, onde ela se via incapaz de se negar a ter qualquer assistência.
Ela havia quase morrido e de repente, havia se sentido como algo tão dispensável, que não faria falta, que qualquer um que demonstrasse o contrário era bem vindo.
E ele estava dando-lhe espaço, do estranho jeito dele, mas estava. Mesmo colado nela, chegando até a ser chato com sua recuperação, Sasuke não mencionou ou pressionou em nada relacionado ao lance entre eles.
Sakura sabia que não havia acabado, embora uma parte sua quisesse. E que agora sabia o porquê da escolha dele, ela não se sentia mal por tê-lo chutado e exigido total atenção.
Ela havia percebido bem logo após se conhecerem, que ele era um cara de coração amável, que se preocupava com todos, o tipo que se um amigo sumia, logo perguntava o porquê, e o que não deixaria uma namorada desamparada de qualquer maneira.
Mas ele era bom demais, não sabia quando devia ser firme, por isso deixou crescer perto de si, alguém como Ino, abusada, mimada, insensível e egoísta. Ela se tornou um mal que sugava Sasuke completamente, se aproveitava da benevolência dele para saciar e amenizar os próprios traumas.
E não só ele, aquele tal Gaara, todos os outros caras que saíram com ela, os que foram tolos de gostar realmente dela, foram usados para ela se sentir menos dispensável. Sakura não sabia o que era ter pais, então não podia entender como era ter pais ausentes e insensíveis, mas sabia que nada justificava se escorar em terceiros e prejudica-los por capricho.
Ela não perdoaria Ino, direta ou indiretamente que fosse sua participação.
Ela perdeu um coração, quase perdeu o futuro que tanto lutara e os poucos laços que conseguira criar. Ela não queria alguém tão destrutivo sequer nas extremidades mais distantes de sua vida, então, seu ultimato permanecia firme.
Era ela, ou Ino.
Se Sasuke já sabia disso, se estava relevando por ela ser a mais frágil do momento, não sabia ainda. Só que não haveria qualquer avanço entre eles enquanto ela não soubesse que era dona do terreno.
A casa era como toda casa comum ou familiar, a lareira acesa deixou-a aconchegada, sentiu vontade de tomar chocolate quente, e quase choramingou pelo não que badalou em sua mente.
— Como está se sentindo? Nenhum enjoo? – Tsunade pronunciou.
— Estou bem, obrigada, acho que apenas... Curiosa?
— Essa é a antiga casa em que vivemos, Sakura – Mikoto disse – Quando Sasuke era menor, tivemos que nos mudar para Suna por um tempo. Enfim, eu geralmente alugo ela, mas como não tinha ninguém usando, decidi que seria um bom lugar para você ficar e se recuperar.
— O quê? E-eu não poderia, eu nem posso trabalhar pra pagar, e a senhora já ajudou bastante.
— Você não tem que pagar nada – Sasuke disse, as mãos esfregando seus ombros – Você precisa de um lugar seguro, Sakura.
— Seguro de qualquer agravante ao seu estado de saúde -Tsunade proferiu, como se desse aula – Você está com baixa imunidade, não pode trabalhar ou mesmo ir pra aula, sua alimentação e medicação são rígidas, e você ainda tem diversas alergias no seu histórico, e o TAG pra lidar, sinceramente, não sei como sobreviveu a um dormitório de república por dois anos.
Isso foi simples, ela só teve que se tornar “maníaca por limpeza” como Ino dizia, limpava o quarto toda semana, evitava ao máximo o acúmulo de sujeira, ácaros, insetos e afins. Ela tinha esses cuidados desde pequena, estava mais que acostumada.
Também entendia que, embora fosse sua primeira parada, não poderia ficar com Hinata, ela estava com a irmã agora e o apartamento era pequeno e meio abafado.
Mesmo que pudesse estar limpando, sempre haveria o risco de pegar alguma coisa.
Sakura decidiu que o prêmio de azarada do ano deveria ser dela.
— Tudo bem. – anuiu, se encolhendo.
— Hey, assim parece que vai ser torturada – Izumi reclamou – Vamos lá, que eu vou mostrar seu quarto. – avisou, puxando Sakura ela se sentiu um pouco zonza mas a seguiu, curiosa.
— Meu?
As duas subiram, as escadas e Tsunade se pôs a dar outra expedição pelo ambiente, mais uma vez procurando verificar qualquer foco de problema. Mikoto lançou um olhar de dó ao filho, percebendo como ficara emburrado. Mas ela o conhecia bem o bastante pra saber que ele não ansiava apenas mostrar o quarto para Sakura.
Achou melhor assim, era muito cedo para Sakura lidar com uma cama e Sasuke mais do que disposto.
***
Izumi não fez muito mistério, não sabia fazer suspense. Abriu a porta e empurrou Sakura pra dentro.
Ela caminhou meio incerta. Deparou-se com um recinto muito claro, mesmo as cortinas fechadas. As paredes eram de um azul tão claro que parecia branco, a cama fofa recoberta de edredons, travesseiros e almofadas. O piso acarpetado e liso. Havia uma cômoda, penteadeira, cadeira e uma estante brancas. As cortinas eram de um tecido fluído e com barra de babado, pareceriam vindas da casa da Barbie caso fossem cor de rosa.
— Então?
— Hã? Quer dizer... Nossa, é muito bonito... Mas Izumi, não me diga que fizeram tudo isso, eu não poderia...
Izumi fechou a porta e a puxou até a cama, onde as duas praticamente afundaram e se entreolharam impressionadas.
— Uau...
— É como sentar num marshmellow...
— Enfim, olha, vou te mandar a real, isso aqui não era esse quarto dos sonhos não...
— Meu deus...
— Mas é melhor desistir de reclamar, a Sra. Uchiha está muito empenhada em cuidar de você e não vai te deixar escapar. – Sakura suspirou.
— Nós bem sabemos porque...
— Sakura, claro que ela gosta de você, não dá pra negar que também quer ver o filhinho feliz...
— Os filhinhos – Sakura corrigiu e a morena bufou.
— Que seja, ela gosta sim de você, e menina, você precisa disso, Sakura, foi um transplante de coração. Não dá pra trocar o curativo e agir como fosse só um corte no pé. Você precisa de cuidados, precisa de gente cuidando de você.
Sakura tocou o curativo sob a camisa que usava. Agora havia um corte transversal em seu colo entre os seios, não tinha mais pontos mas ainda precisava cicatrizar.
Havia o coração de um menino chamado Justin batendo dentro dela, e tudo o que sabia dele era que gostava de baseball, e que queria ser Cardiologista.
— É muito estranho? – Izumi indagou. Sakura se deitou e encarou o dossel da cama.
— Eu li uma vez, sobre transplantados que passaram a gostar de coisas que as pessoas que doaram os órgãos apreciavam em vida... Como se esse pedaço que ficou... Transmitisse um pouco da pessoa a quem pertenceu... Mas eu nem sei quem ele foi... Só posso estranhar se começar a gostar de Baseball...- Izumi se deitou ao lado dela e também encarou a mais coisa.
— Minha mãe morreu de aneurisma, foi muito rápido, mas tenho certeza que se tivesse pensado nisso, ela teria pedido pra doar. Ela era aquele tipo que dava tudo pras pessoas, o problema estava eram que nunca retribuírem...
— Sinto muito.
— Eu era bem nova. Enfim, sobre o baseball, nós podemos testar essa teoria quando você estiver em forma! Vai ser hilário você se tornar uma louca por baseball enquanto o grandão ali fora prefere futebol.
— Engraçadinha. Mas me diz, como vão as coisas com o outro gigante? – Izumi deu de ombros.
— Aquele cara... Ele está mudando a tática ou sei lá. Primeiro ficava enchendo o saco com aquele papinho de conquistador barato mas todo respeitador, agora age como se fossemos amigos.
— Isso é ruim?
— Amigos coloridos, Sakura.
— O quê?!
— Ele me abraçou dizendo que ia ficar tudo bem... então apertou meus peitos e disse “Vou cuidar bem deles também” Acredita? Na maior naturalidade! Pelo amor de deus!
Embora estivesse bem longe de apreciar, Sakura entendia o lado de Itachi, Izumi podia se orgulhar do busto que tinha, não chegava a ser impressionante como Hinata, mas os homens com certeza apreciavam.
— Ele parece mesmo bem direto...
Bem mais que Sasuke, que embora tivesse se feito bem claro quando se conheceram, levou muito tempo parado.
Ela duvidava que Itachi esperaria um ano para paquerar Izumi, não ser que ela mesma se negasse, como estava fazendo.
Até sentiu certa inveja. Talvez se Sasuke tivesse vindo um pouco antes, toda bagunça a que chegaram tivesse sido evitada.
— Humpf, aquele idiota...- Izumi resmungou, embora já não com tanta raiva como antes quando foram “coincidentemente” contratadas.
Elas se sentaram quando ouviram batidas e Mikoto entrou sorrindo.
— Desculpem atrapalhar, Sakura, tudo bem? Gostou?
— Ah, é mais do que eu poderia pedir, obrigada, senhora.
— Bobagem, esse lugar precisava de uma arrumada mesmo, e eu espero que você fique bem aqui. Não pode sair muito, tem que evitar sujeira e tudo mais. Ah, ali você pode guardar seus remédios, Hinata vai trazer suas roupas, e suas coisas, tudo bem higienizado...E já viu o banheiro? Eu adorei como ficou..
Ela andava de um lado para o outro muito empolgada. Izumi fitou Sakura e esta admitiu que não tinha mais como fugir.
Mikoto praticamente a adotou.
***
Um mês, quatorze dias, dezessete horas.
Sakura sentiu que iria enlouquecer.
Amargou que Mikoto fosse tão delicada e preferira deixar o quarto branco, posto que não sabia que cor Sakura gostava. Além das roupas dela, do ursinho que Hanabi deu, e os livros.
Ficar parada nunca fora algo muito recorrente pra ela, as crianças no orfanato, ajudavam nas tarefas e a cuidar dos mais novos, a experiência ajudou no primeiro emprego de babá, embora infelizmente não pudesse puxar as orelhas dos filhos dos clientes como puxava dos bebês birrões carente como dia ela foi.
Tudo o que ela podia fazer era estudar matéria acumulada, ver alguma TV e acessar a internet pelo celular. Mikoto sequer a deixava ajudar na limpeza embora tivesse a ajuda de uma empregada.
Ela só não aguentava ficar parada.
Suspirou largando o telefone, e rolando pela cama. Não podia negar que fora a melhor cama em que já dormira e dormira mais naquele mês que na vida inteira...
Sentiu o telefone vibrar e o puxou de debaixo do travesseiro. Ver o nome de Sasuke a deixou empolgada. Tentou desfazer o sorriso que fez, mas admitiu ser inútil e até um pouco injusto.
Se não fosse Sasuke, ela provavelmente teria morrido no ócio.
Ela ele que trazia anotações dos colegas dela, que trazia filmes para ela ver no computador, até mesmo jogos de tabuleiro e traficava alguma besteira sem Mikoto ver, quando Sakura queria se jogar da janela do segundo andar pra não ter que comer outro cozido.
Mikoto era ótima cozinheira mas nem suas mãos de fada mas era difícil comer a mesma coisa sempre em todas as refeições.
“Acordada?”
“Sim, por enquanto, hahaha”
“Que inveja”
“Eu que te invejo, ao menos vai pra aula”
“Sério, garota? Estou quase acertando cadeiras em todo mundo nessa porra de aula de Economia, Naruto não para de falar que está quase conseguindo sair com aquela maluca da Hyuuga. E as calouras não param de vir pedir minhas coisas pras essas drogas de trotes”.
Sakura podia imaginar bem todas as cenas, principalmente a última. Se viu sentindo falta do campus em começo de ano, aquilo fervilhava. Recordava de Ino e suas seguidoras usando o quarto delas como uma espécie de QG onde planejavam os próximos trotes, e já decidiam que garotas podiam ser boas pro grupo, e quais seriam problema.
Sakura colocava os fones e tentava ignorar.
Agora só esperava que a próxima colega de Ino pudesse suporta-la bem.
“E você não deu? Que malvado, elas só querem se enturmar”
“Eu dei uma camisa velha, um boné ( que na verdade é do Naruto, segredo, sim? ;) ) Mas parei quando vieram pras minhas cuecas, fala sério, daqui a pouco pediriam mechas do meu cabelo ‘-‘ “
Sakura já imaginou elas pedindo o que ele guardava na cueca. E agora suspeitava haver mão de Ino nisso, fazia bem a cara dela.
Sasuke mandou outra mensagem.
“Isso me lembra, você não participou de nenhum trote? Não quis se enturmar? :o “
Ela bem tentara, mas na época Ino queria que ela fosse seu clone asiático. Não deixou-a em paz e Sakura estava na fraternidade do curso de Medicina graças a isso.
“Fiz sim, faço parte da fraternidade, só não participo muito...”
“Sério? E o que fez?”
Isso ainda era meio vergonhoso...
“Promete que não diz nada?”
“...”
“Tá booom. Eu tive que pedir uma coisa.”
“O quê? Anda que estou indo pra outra aula, um porre porque ela não deixa tocar no celular”
“Argh. Eu tive que pedir uma camisa, para o Kiba, na época ele ainda estava no time de basquete, agora ele está na residência por isso ele não joga mais."
Sakura rolou pela cama, esperando resposta. Ele ainda estava online então talvez a professora não o tivesse pego.
“Filho
Da
Puta”
Ou não.
“O quê? Foi só uma camisa, ele foi super legal...”
“Por isso o filho da puta estava todo serelepe com você na festa”
“O quê? Claro que não!”
“Estava SIM, e teve um dia que ele perguntou com aquela cara de viralata se você gostava das minhas camisas”
“Oi?”
“Você disse que gostava da camisa dele?”
“Não!
Quer dizer
Talvez, eu não lembro, tava super com vergonha”
“Maldito cão”
“Eu tinha que dizer algo pra ele me dar, talvez eu tenha elogiado. Eu nem lembro que camisa era, só fiquei feliz por não ser a CUECA, eu morreria de vergonha”
“Não fale como se eu tivesse dado! Foi um saco, elas pareciam formigas”
“Seeeeeei”
“Mas pra você eu daria”
“Olha, nem começa. É sério, nem lembro de como foi com Kiba. Ele só estava te zoando”
“Vou chutar a merda fora dele”
— Ai não...
“Você nem começa”
“E você mandou uma foto linda pra aquela tal de Hanabi, aquela pirralha é igual aquela outra doida. Ficou se gabando e não mostrou”
Hinata estava de novo fazendo da irmã uma mensageira do inferno pra atazanar Sasuke na faculdade.
“Foi só uma foto boba. Eu estava entediada. Como sabe que é linda se nem viu?”
“...”
Ela socou o travesseiro, sempre que ele mandava aquelas reticências elas continuavam enquanto não lhe desse a resposta que ele queria.
Sasuke sabia se aproveitar da necessidade de se comunicar com o mundo que ela estava desenvolvendo.
Foi na galeria e pegou a foto que tirara na janela sob a luz da manhã e sem óculos.
“Wow
Que sorriso lindo”
Sakura riu, encarando a mensagem mais tempo do que deveria. E então digitando algo que sabia que deveria conter por mais um tempo, mas que era verdade.
“Seria mais bonito se você estivesse aqui”
Ela torceu pra que ele já estivesse em sala. Que considerasse que ela estava mais burra de frágil. Qualquer coisa.
“Se eu estivesse aí, você não estaria sorrindo
Estaria gemendo”
Sakura sentiu o corpo queimar mesmo sob o ar frio. Um estremecimento desceu por sua coluna até o estomago e mais abaixo.
Ela poderia imagina-lo falar isso.
Bem demais. E se arrependeu de ter começado aquilo. Sasuke havia sido gentil e paciente. Turrão também e muito cuidadoso. Mas sobretudo, ele a respeitou. Quando estava no hospital, a acolheu mesmo quando ela não queria contato, ou estava com medo de ter. Não a deixou se isolar e agora ela agradecia por isso, ou não teria conseguido lidar com a situação bem como estava lidando.
Cuidou dela, e ela estava morando sob o teto da família dele, apenas trazendo despesas. Sabia que isso não importava, mas sabia que ele queria retomar algo com ela, que ainda não estava pronta pra ter.
O desejo e o calor, o magnetismo ainda estavam lá, puxando os dois, aquecendo, sempre que conversavam seja pessoalmente ou por mensagens. Quando se tocavam e os olhares perduravam tal como rubor.
Mas ela precisava de mais, de mais firmeza para pisar nesse terreno, e também de mais força nas pernas, agora que tudo estava tão bagunçado.
Ela queria que ele estivesse agora com ela. E sabia que se desse a resposta, ele viria. Ele simplesmente viria, pois da vontade que ele tinha dela, não duvidava.
“Sasuke
Me desculpe”
Ele demorou, justo quando ela não queria.
“Sem problema, neném.
Eu sou bom em esperar”
Sakura escondeu o rosto no travesseiro por alguns momentos.
“Até demais...”
“Vai jogar na cara?
Pois agora quero recompensa. “
“Desculpeeee”
“Sem essa.
Você me humilhou, porra”
“Eu só disse a verdade...”
“...”
“Argh, o que você quer?”
“Neném, você me lê tão bem, que excitante”
“Anda logo, preciso voltar a dormir”
“Preguiçosa”
“ZzzzzzzzzZzz”
“Me manda um nude”
Sakura nem respondeu, era melhor dormir mesmo.
***
— Sakuraaa, eu vou ao mercado e ver como Izumi está indo, volto logo.
— Claro, eu vou ficar bem, manda um beijo pra Izumi. – Mikoto aquiesceu alegremente e se foi. Sakura reorganizava os livros na estante se sentindo meio melancólica.
Seu exílio a condenou a passar o Natal e Ano novo em casa. E mesmo que tenha havido uma comemoração legal na casa. Ela não pode ver um monte de gente que tinha viajado ou simplesmente não foi pois a casa ficaria cheia demais. Também se sentira mal por de certa forma ter limitado Sasuke, Izumi, Hinata e os outros de saírem.
Agora vendo a neve derreter lembrou que também logo passaria seu aniversário presa. Não que fizesse grandes festas, mas foi meio desestimulante.
Ela ainda não conseguia evitar também, sempre lembrar que fora deixada logo depois que nasceu, numa caixa de papelão em frente o orfanato. Que só não morreu de frio porque conseguiu chorar alto o bastante e uma das madres a ouviu.
Que desde aquela noite em que o inverno ainda predominava mesmo sem neve, ela só estava vivendo graças a si mesma.
Talvez nunca fosse capaz de esquecer isso.
Ouviu a campainha tocar e desceu as escadas, Mikoto teria esquecido a chave ou seria alguma visita.
Puxou a maçaneta e deparou-se primeiro com um par de saltos vermelhos.
Ino ajeitou a bolsa sobre o ombro, usava uma calça justa e um top vermelho.
Sakura cruzou os braços enquanto a outra a fitou emburrada.
— Sasuke está?
— Não, não está, o que você quer?
— Quero falar com ele, mas... Acho que com você também.
— E o que é?
— Sasuke... Ele não me responde mais, sei que é por sua causa, mas eu não mereço isso! Eu não tenho culpa.
Sakura inspirou empurrando os óculos e resmungou com descaso.
— Pelo menos não diretamente, né? — a loira lhe mandou um olhar indignado – Direi que esteve aqui.
— Não, sério. Não é justo, eu o conheço desde a escola. Aí você aparece e... e suga ele...!
— Sugar? Sugar? Sério que estou ouvindo isso de você? Que eu saiba é você que suga ele desde sempre! Sempre o atazanando com seus problemas, sempre sendo a vítima e enfiando ele nos seus caprichos!
— Sasuke é bondoso!
— E você adora se aproveitar disso!
— Quer falar de mim? É você que está na casa dele agora. Aliás, eu vinha muito aqui, sabe? A parte de sugar é mais verdade do que imagina...- ela afirmou com cinismo.
— Não é atoa que reformaram, né? – Sakura devolveu – Sra. Mikoto bem disse que precisava mudar pra evitar os mesmos problemas de sempre.
Ino engoliu duro fazendo um bico infantil.
— Não é como se eu quisesse que você se ferrasse.
— Me ferrar? Eu perdi meu coração, quase morri. Você... você é uma droga de uma bomba que só sabe explodir e causar danos. Eu quero distância de você. E se Sasuke quer o mesmo é porque já percebeu isso.
— Não é como se eu o quisesse só pra mim. Você venceu tá? Eu só quero ele de volta na minha vida!
— Sinto informar, mas não vai ter espaço pra você, eu e ele.- a loira a encarou atonita. Sakura arrumou os óculos mais uma vez. – Sou eu ou você, Ino, nada mais. E como está vendo, ele já escolheu, agora vá embora.
Ino a encarou longamente como se procurasse algo, uma brecha. Mas por fim deu um sorriso cínico e amargo e arrumou a bolsa sobre o ombro.
— Sempre soube que você estava escondendo o jogo.
Sakura bufou já impaciente.
— Agora estou vendo qual é, huh? Achei que fosse só um pardalzinho que caiu do ninho. Mas estava era só esperando pra se revelar – a outra desdenhou – Na verdade é uma Harpia.- acusou. – E com ótimos olhos hein? Foi no melhor cara...
Sakura meneou a cabeça, desistindo de ser o mais madura o possível. Achou que poderia lidar caso visse Ino. Mas percebeu mais ainda que nunca a perdoaria. Também que nem fazia diferença pra ela. Sequer era capaz de pedir desculpas ou mensurar o tamanho do estrago que fez.
Mandou-lhe um olhar selvagem e girou, dando lhe as costas e puxando a camiseta que vestia pra cima. Ino a encarou com estranheza mas não foi difícil grudar os olhos na base da coluna de Sakura.
As bagas azuis se esbugalharam e a face ficou pálida.
Agora ela nunca esqueceria desta Harpia. Sakura baixou a blusa e se virou puxando a porta e a encarando com cinismo redobrado.
— Sasuke é meu, inteirinho. – Avisou – Harpia? É porquê ainda não viu as garras.
E bateu a porta com todo gosto.
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