Ignites me
7 Centelha VII.
Notas iniciais

Sai desligou a música, o que ajudou Sasuke a conter, por um pouco mais de tempo, a explosão raiva que se formava em seu interior a cada hora que passava.
Cada hora que Gaara estivesse livre o deixaria ainda mais louco pra pegar uma arma e ir resolver as coisas com o maldito. Estava cansado daquele fardo, daquele cara, daquela vida.
Cansado de estar sempre correndo de algo, ou para algo, e sempre parecendo que não sairia do lugar.
Primeiro foi seu avô, que aterrorizou sua mãe por não aceitar que o filho se casasse com uma mulher humilde, filha de imigrantes japoneses. Madara Uchiha era arrogante, pretensioso e não tinha medo de nada. Sasuke se lembrava de quando era bem pequeno e consolava Mikoto em sua tristeza e medo de que algo fosse feito contra seus filhos considerados bastardos pelo avô. Fugaku chegou a se mudar de Konoha com eles. Refez a vida do nada em Suna, deixando de ser o herdeiro de uma boa fábrica de borracha e se tornando um simples administrador de uma loja de móveis.
Um dia Madara morreu de infarto fulminante, e embora não já conservasse qualquer interesse em voltar pra cidade e retomar o que seria seu de direito, Fugaku recebeu a herança e o controle de tudo novamente. Por mais que o velho odiasse sua decisão, também odiava a ideia de deixar tudo o que construiu nas mãos de sócios, gente que não tinha seu maldito sangue Uchiha.
Depois veio a depressão e compulsão que sua mãe desenvolvera, anos de crises de pânico aos quais os dois filhos foram impedidos de presenciar e também de fazer algo que ajudasse, remédios pesados e terapias, até que Mikoto pudesse sorrir novamente para então encarar a perda do marido durante um assalto.
Embora tudo só parecesse uma sucessão de desgraças, nunca foi como se fossem infelizes, foram felizes quando viviam em Suna, foram felizes quando Mikoto estava bem mesmo que precisasse de terapia pra diminuir o excesso de super proteção que desenvolvera para com os filhos. Quando se foi, seu pai os deixou bem assegurados, Itachi já era genial e maduro o bastante pra aprender e tocar os negócios, tinham amigos leais por perto. E embora não fosse um adolescente perfeitamente equilibrado, Sasuke conseguiu uma bolsa como jogador e sabia que orgulharia seu pai, fã de futebol americano.
Ele se metera em algumas besteiras aqui e ali mas nunca fora um desgosto mesmo provocando o senso superprotetor da mãe.
Então agora estava numa merda semelhante ao que Madara fizera seus pais passarem. Gaara estava obcecado por Ino e descontrolado por conta das drogas que consumia. Também traficante, tinha ligações perigosas e Ino estava apavorada depois de fazer de tudo para se livrar dele. Saiu com outros caras, cortou contato, mas foi por conta do lance puramente sexual que tivera com Sasuke no ensino médio, que Gaara pirou.
Ele nem sempre fora assim, era problemático, e desde o colégio tinha uma estranha fixação por ela. E Ino era uma garota um tanto tóxica demais pra se apaixonar. A vida toda ela foi posta em segundo plano pelos pais que davam mais valor a seus pacientes e estudos que para filha, eles nem tinham planos de ter filhos e Ino fora um erro.
Então tudo o que ela queria era atenção, de tudo e todos. Sasuke foi seu amigo e ficante, tinha compaixão e a protegia de tudo, e talvez tivesse refletido o comportamento que sua mãe teve com ele em Ino. A protegeu demais. A livrou de namorados chatos não se importando de ser visto como o cara principal dela porque nunca foi como se lhe importassem as outras garotas. Eles foram pra faculdade e numa última tentativa de agradar os pais, ela escolheu medicina.
Deu em nada.
Na verdade, deu em Gaara reascendendo sua obsessão por ela achando que ela estava no mesmo curso para ficar perto dele. Sasuke o socou no estacionamento quando ele tentou enfiar Ino em seu carro e também droga-la numa festa da fraternidade. Ele machucou outra menina e quase foi quebrado pelos amigos do irmão dela. Os irmãos de Gaara fizeram de tudo pra abafar e ele saiu do curso.
Sumiu e agora era um fodido traficante. Logo quando Sasuke estava tentando por as coisas no eixo, cortar a própria mania de não sossegar, a falta de iniciativa para expressar seus sentimentos, fazer Ino parar de se apoiar nele, lidar com sua ânsia de atenção e parar de se encrencar esperando que ele a salve ou que corresponda seus sentimentos.
Merda, e ajeitar as coisas com Sakura.
Se era que já não tinha fodido tudo. Sakura era mil vezes pior que ele pra admitir o que sentia. Ele demorava a ter coragem de expressar. Viveu um ano e meio pensando nela, fantasiando com ela conversas, momentos, olhares, sexo. Tudo com ela, como uma garotinha apaixonada. E por vezes se sentia patético por isso, por sonhar com algo que nem sabia ser real.
Mas aí ele olhava pra foto que pegara no site da universidade, onde a caloura de medicina aparecia entre os colegas com um sorriso acanhado, cabelos suavemente ondulados e aqueles grandes e gentis olhos verdes.
E então ele sentia que ela valia cada segundo de tortura auto imposta. Mas não tinha coragem de chegar até ela. Ela também o intimidava. Ela era um tipo bem diferente dos que já lidara.
Então num fodido esbarrão eles se encontram de vez. O magnetismo foi quente e o impediu de deixa-la ir, ela estava bêbada e isso o deixou protetor com sua segurança, ela chorava como um bebê sem alento e ele não só quis, como fez, levou-a pra um lugar quente e tentou acalenta-la.
Bebeu demais também e agora levava nas costas um erro que não se imaginava arrependido de ter feito. Mesmo quando fora tolo demais e a deixara escapar.
Sakura escondia coisas dele, ele sabia na forma como ela mudava de assunto rápido. Não era intencional. Ela se protegia tanto que nem reparava.
Ele não podia imaginar que era algo como TAG sabia por alto o que era, sua mãe tivera crises mas ele era muito novo e todos o mantinham na ignorância. Então quando Sakura passou mal, ele poderia ter ajudado, mas ele não sabia, ela não confiou. Ele endoidou em vê-la naquele estado e ficou magoado.
Ele ficou magoado por que sonhava e idealizava as coisas com ela a mais de um ano, e queria ter tudo real logo. Culpa da sua pressa desmedida, da sua imaturidade novamente.
Sakura não poderia se abrir tão rápido, ela sequer sabia quem diabos ele era, ela era um ser humano, não algo que ele idealizara. Ela era ainda mais bonita, sensual, gentil e complexa do que almejara.
Mas ele que vivia tentando ajudar todo mundo, se metendo na encrenca de Ino, tentando recompensar o time por tê-los abandonado quando precisavam dele, ajudando Itachi e Jiraya ao mesmo tempo. Desse jeito, nesse ritmo rápido demais ele nunca poderia alcançar Sakura. Ela mudava de ritmo muito rápido, era lenta pra soltar seus sentimentos e rápida para prende-los e seguir em frente.
Ela era alguém solitária, acostumada com o próprio andar, e se movendo apenas pelo bem de si mesma. Ele era o cara que queria ajudar todo mundo, pegando fardos aqui e ali pelo caminho e por isso mesmo correndo, era pesado demais pra seguir alguém que só levava as próprias coisas.
Ela seguiu e o deixou de novo, com medo de ele magoá-la mais, se fechando de novo. E ele não poderia culpa-la. Ela não sabia o que se passava com Ino e fora ele a meter as duas, que já demonstraram claramente terem aversão uma a outra, em posições adversárias.
Nem acreditava que viveram quase dois anos sob o mesmo teto. No entanto, sendo elas tão opostas quanto dia e noite. Não se surpreenderia se mal se falassem.
Deus, ele só queria estar colado com ela, enche-la de mimos, provar que só queria ela. Mas não era capaz de abandonar um amigo. Até mesmo sua família corria risco se Gaara o queria prejudicar. Talvez até soubesse que eles tinham escondido Ino.
Tudo o que esperava agora era que depois das mensagens de ameaça que ele mandara para Ino, a polícia o localizasse logo. Kankuro e Temari eram os irmãos mais velhos de Gaara e queriam interna-lo numa clinica para viciados. Embora fosse um criminoso, Gaara já fora um bom cara, apenas muito excêntrico, alguém que exagerou na paixonite. Ele precisava se tratar. Mas para segurança de Ino, também precisava ser preso e julgado.
— Porque desligou a música?! – Ino protestou. Sai lhe mandara um olhar entediado.
— Porque isso aqui não é balada.
— Que droga, eu só quero relaxar! Sasuke, fala...
— Relaxa em silêncio, Ino. – Sasuke cortou, esfregando as têmporas, irritado consigo mesmo.
— É porque você é mimada assim que está nessa encrenca. – Sai jogou, sem dó e deu as costas seguindo para as escadas. Ele era e sempre seria um babaca que exagerava na sinceridade, e quando se tratava de competição, era ainda mais idiota. Mas não negou acolhê-los em seu flat até que Gaara fosse preso.
Ino o observou sumir no topo, com as bochechas infladas de raiva. Ainda estava um caco desde que Gaara mandara as mensagens a ameaçando e tentara arrombar o apartamento de Itachi onde ela estava inicialmente escondida dele.
Sasuke deu graças a deus por ter decidido aquilo, tira-la da república onde ela dormia logo com Sakura foi o melhor para as duas. Embora Sakura também tenha saído de lá por motivos errados e diferentes, ela estar longe, o aliviava. Itachi e os outros a estavam vigiando.
— Sasuke, vai deixar ele...
— Olha, ele é um idiota, mas você não se importou quando transaram. Eu não me importo e você já devia saber que peça ele é.
— Você nunca se importa – ela resmungou, ressentida.
— Não Ino, não me importo, quão mais claro eu tenho que deixar isso?
— É que eu posso ser tão perfeita pra você. — ele a fitou com complacência.
— Eu nunca pedi alguém perfeito, Ino. – e diante do olhar abismado dela, completou – Eu só quero alguém... E ela não é você. Isso não te faz imperfeita, só te faz ser boa pra pessoa que for boa pra você.
Ele só queria ser bom para Sakura e ter sido mais consciente de que ela não era sua visão perfeita antes, ela era ainda melhor por ser tão complexa e tão adorável
Ino se encolheu contra o sofá, se recusando a dar continuidade àquela conversa como sempre fazia, sempre tentando evitar que ele desse o ultimato e a pusesse no único lugar que ela teria em sua vida. Agora ele percebia isso.
Ino não estava disposta a deixa-lo ter seus ombros livres, mesmo com muito medo de Gaara, fora ela que causara parte disso, o alimentando com falsas esperanças e até dormindo com ele, pois sabia que Sasuke desaprovava por notar a inclinação perigosa que Gaara tinha. Ela faria disso uma chance pra ter sua atenção e tira-lo da mira de outras, de Sakura. E quando isso acabasse ela procuraria outra forma de precisar dele, ocupar ele.
“- Eu não aceito restos, nem metades”.
Então não haveria lugar para as duas, nem importando quais posições tivessem. Era uma ou a outra.
E ele não precisava escolher, nunca precisou, as circunstâncias era que exigiam isso, mas ele já tinha sua decisão final.
Não haveria absolutamente mais nada que o impediria depois que isso acabasse.
Só esperava que ainda houvesse uma chance.
Sasuke se levantou e seguiu para a cozinha, abriu a geladeira e pegava uma lata de refrigerante quando o telefone em seu bolso vibrou, estava nesse modo por que cada vez que um tocava, Ino se assustava achando que era outra ligação medonha de Gaara.
Sasuke atendeu, ansiando que fosse a notícia que precisava para voltar pra casa.
— Adivinha quem agora tem o botão de cerejeira mais bonito de Konoha?
— Gaara...
— Eu!
Ele desligou, Ino gritou como se tivesse o visto só de ouvir Sasuke pronunciar seu nome, ou talvez tenha sido a expressão dele, Sai desceu as escadas voando com uma pistola na mão e também o encarou, assustado.
E Sasuke foi ao inferno e voltou naqueles poucos segundos enquanto o batuque da chamada encerrada ainda ressoava em seus ouvidos.
Quando voltou, ele trouxe mil demônios dentro de si, alimentou-os com sua ira acumulada, a primeira vítima dela foi o telefone que explodiu contra a parede.
A próxima tinha o nome escorrendo com o gosto do sangue que veio de sua língua ao mordê-la.
Gaara.
Tinha que sair dali.
Tinha que ir mata-lo.
***
Lágrimas encheram seus olhos no primeiro momento em que se abriram, horror despontou em sua boca na forma de um choro baixo e abafado.
Sakura se encolheu com as duas mãos acima da cabeça, algo amarrava seus pulsos, em seus pés também, tão apertado que ela já os sentia dormentes, o colchonete abaixo dela era fino e fedia a mofo, seu nariz obstruiu um pouco e sua pele ardia. Ela tinha alergia á mofo, poeira, picada de alguns insetos e alguns alimentos, o que tornara sua infância ainda mais lamentável.
Seu coração pulsava e ela suava, seus dedos tremiam, e ela tentou respirar pausadamente ou teria um ataque de ansiedade.
Temerosa, vasculhou o entorno com os olhos entreabertos temendo que houvesse alguém no recinto. Era um ambiente lúgubre e úmido, o chão e paredes apresentavam infiltração, muito escuro e sujo, grande e onde só havia ela e uma cadeira velha recostada numa parede do outro lado. Sakura viu que quase no topo tinha uma janela minúscula, e uma luz fria e azulada denunciava que estava amanhecendo. Ou anoitecendo?
Ela sentiu algo mordiscar o pé que estava descalço, chutou e ouviu um guinchado estridente, um rato que poderia comer um gato correu para dentro de um buraco na parede e Sakura chorou e se retorceu ainda mais. Sua garganta não era capaz de gritar por socorro, sabia que onde quer que estivesse, era longe demais para ouvirem seus gritos.
***
— Ele quer troca-la por Ino – Kakashi declarou, exasperado.
— Filho...- Mikoto suplicou mas Itachi a impediu de chegar até o mais novo. Sasuke quebrou a primeira coisa que encontrou pela frente e seguiu em busca de mais.
Ele era um fodido hiperativo, imperativo, e com problemas de controle da raiva. Desde pequeno brigava muito, se zangava e atirava tudo no chão, na maioria das vezes ele nem sabia porque estava zangado, o sentimento só vinha por qualquer motivo, era forte demais e ele terminava esgotado e aflito, com medo de ter magoado alguém. Sua cabeça era uma panela de pressão ambulante, mas seu coração sempre fora gentil.
Então aconselharam atividades para que ele liberasse toda a energia e raiva acumuladas, ele fazia um monte de coisas, e depois foi ficando ocupado demais. O futebol era bom pra liberar sua força e o deixar mais próximo do pai deles mas não era sua grande aspiração. A faculdade deveria ocupa-lo totalmente mas mais uma vez ele se mostrou uma pilha humana, tinha energia para estudar, transar toda noite com uma garota diferente e estar nos treinos sempre na hora.
E ainda se meteu com tatuagens e no fim a faculdade perdeu a graça, ele focou em ser dono do próprio nariz e se enrabichou por uma maldita e única boceta, ficou tão caído que sua velocidade reduziu e ele se freou completamente. Não tinha coragem de ir até ela.
Itachi geralmente não se meteria, e esperou que a garota pudesse enfiar juízo em Sasuke e fazê-lo voltar para faculdade, ou que ele fosse apenas pela boceta dela. Mas o fodido era tão frouxo que ficou se remoendo sem nem tentar.
Hidan se meter com ela foi um azar que deveria ter ajudado. Itachi permitiu a garota entre eles pra saber mais dela e quem sabe, forçar o irmão a tomar atitude ou parar de se iludir. Mas a pequena filha da mãe não fora uma desgraçada, não montou nos rapazes, nem se enrolou em torno de Hidan como uma garotinha apaixonada.
Até mesmo Konan que não gostava nem do namorado, gostou dela. Mas Itachi não poderia enfia-la no grupo com Sasuke, a fodida bom relógio, em torno, sem que ela sequer o conhecesse de vista.
Uma fodida trombada deveria ter resolvido. Mas Sasuke era mestre em ser seu próprio inimigo, a garota um estranho paradoxo, ciumenta mas autossuficiente, e agora ela estava encrencada por conta da mania de Sasuke de se meter nas brigas alheias e proteger rabos que nem queria comer.
Itachi nunca gostou da Yamanaka e de como se pendurava no irmãozinho tolo, mas como sempre preferia ficar de fora para não irritar o idiota, que já era bem fácil de irritar por si só. Ficara de olho em Gaara por um tempo, mas agora o bastardo sumiu com Sakura, provavelmente estava mais alto que um balão de gás, e Sasuke poria tudo abaixo atrás dele.
Mikoto observava condoída, e embora Sasuke não fosse realmente agressivo com pessoas, entrar em seu caminho durante um acesso de raiva não era algo inteligente.
Ele quebrou cadeiras, os computadores, telefone, TV e chutou tanto a mesa de Izumi que já estava se desfazendo. Itachi esperava que Devine não fosse o tipo apegada a essas coisas. Daria-lhe uma mesa nova e uma foda sobre ela pra compensar.
E ainda diziam que ele era um chefe ruim...
— O que a polícia está fazendo? – ele indagou, apagando, no momento, qualquer preocupação em relação à Devine. Ela estava segura agora. Hidan vacilara por minutos em ter assegurado Sakura mas Sasori e Deidara não falhariam com Izumi.
Konan, Nagato e Yahiko estavam pela cidade vasculhando qualquer lugar suspeito que pudesse esconder Sakura. Kisame, Kakuzu e seu primo Tobi, estavam chutando a merda fora de qualquer bandidinho que pudesse saber onde Gaara se enfiou.
Mas não negariam obter ajuda da polícia por mais que quisessem encontrar Gaara sem eles. Ele poderia estar precisando de tratamento, mas começaria por uma boa surra, no que dependesse deles.
A Akatsuki era falada como um clube de crime ou mesmo uma gangue, mas ele só podia dizer que, toda lenda tinha seu fundo de verdade.
— Emitiram um mandado de busca, e querem Ino na delegacia pra prestar depoimento, acham que ela pode ajudar.
— A tiramos da cidade pra não correr risco.
— Não é como se fossem fazer a troca. Eles querem averiguar tudo.
Os dois se calaram ao notarem o silêncio tomar o ambiente, Sasuke finalmente parara de dar prejuízo e encarava a parede, arquejando, coberto de suor.
— Vou busca-la. – decretou, antes de marchar em direção a saída.
***
Alguém veio e deixou alguma comida e água por perto. Sakura preferiu fingir que dormia mesmo que sua respiração talvez a entregasse.
Ela esperou o silêncio preencher o ambiente, e quando o rato enorme veio e subiu no prato, cogitou se não deveria ao menos ter perguntado por que estava ali. Mas a parte dolorida em seu queixo a fazia lembrar toda hora que não deveria haver alguém ali que se importasse de machuca-la.
Quando o rato foi embora, ela se forçou a se sentar, parecia que o ar era mais pesado, ela coçou o rosto sentindo a pele empolada e sensível por conta da alergia. Mexeu as pernas buscando reanima-las, sabia que não podia deixar a circulação de seu sangue cessar. Também não podia se cortar, sabe-se lá quanto tempo a manteriam ali, poderia contrair uma infecção.
Sakura encarou a bandeja, o prato com cereais mergulhados em leite estava agora pela metade, o rato mergulhara ali para comer e ainda virou o copo de água, ela estava com sede mas não conseguiria beber algo de qualquer maneira.
Seu olhar se focou na colher deixada e ela a agarrou. Era de inox, e ela notou que o chão era de concreto. Esfregou a borda da colher na superfície áspera. Com muito mais força que cuidado, o som ecoou pelo recinto e ela fez mais rápido temendo que viessem verificar.
A colher ganhou uma borda mais fina e afiada. E ela flexionou as pernas como podia, alcançando a fina corda apertada e em várias voltas sufocando seus tornozelos. Esticou até onde podia e esfregou a concha da colher na corda, atritando com tanta força quanto podia, chorando e repetindo “corta” como uma oração. As linhas da corda eram resistentes. Ela encarou ao pequena janela e fungou, não sairia dali tão cedo de um jeito ou de outro.
***
— Entramos logo ou não? – Konan indagou. Nagato vasculhou o entorno mais uma vez com os binóculos. Estava a cerca de um quilômetro de onde deixaram o carro. Em frente a velha porteira de um antigo sítio.
A propriedade estava abandonada, e ficava bem para além da estrada de terra ligada á via principal de quem visitava o interior de Konoha.
Escondidos atrás de algumas árvores, observavam um casebre acabado quase engolido pela neve e floresta escura. Não tinham visto Gaara, mas um cara saiu para fumar e Kisame e os outros confirmaram que ele estava com Sabaku na empreitada.
Com certeza não era muito inteligente, mas podia ser um risco para Sakura. Não ouviram qualquer som que pudesse ser dela, e esperavam que fosse por estar desacordada ou por sua personalidade amena que não ameaçaria uma mosca.
— Melhor não, vai anoitecer em algumas horas, esperamos ele ligar pra pedir a troca.
— Ele acha mesmo que tem cabimento pedir uma troca de pessoas? – Yahiko resmungou.
— Ele está completamente louco, não sabemos como a garota está, ele pode ter uma arma na cabeça dela agora mesmo.
— Entrar na porrada pode foder tudo, esperamos estar escuro, fica mais fácil se aproximar da casa. Ver onde e como ela está.
— Vamos embora. – Nagato ordenou. – Quando voltarmos, esse filho da puta vai ter o que merece.
— Eu vou ficar. – Yahiko disse – Caso algo aconteça, eu ligo.
Os outros dois se entreolharam relutantes, mas Yahiko não era alguém que dobrava, uma vez decidido.
— Se cuida.
***
— Arrumem tudo. – Itachi ordenou, depois de desligar o telefone. – A polícia vai manter Ino segura. Gaara acha que vão entrega-la. E Yahiko está de guarda no buraco onde ele se enfiou.
Sasuke se levantou o encarando.
— E Sakura?!
— O policial que falou com ele disse que estava tão delirante que só ouvir que trocariam Ino o fez esquecer de todo o resto, até o trato. O maldito vai bater no ponto de encontro sozinho.
— Filho da puta!
— Não quebre as coisas ainda, ele esquecer de Sakura é bom, vai se afastar dela, só o outro idiota vai estar lá, nó sabemos onde é e poderemos pega-lo de surpresa.
— Mas...
— Ele tem razão, Gaara é pior perigo para Sakura, ele está instável demais. Se ele for pra longe dela, melhor.- Jiraya declarou, seriamente.
Sasuke anuiu com relutância. Mesmo que quisesse arrancar o couro de Gaara, ele não pensaria duas vezes entre o bastardo e ter Sakura de volta.
— Mas eu também vou.
Nada o impediria.
***
— Seu idiota de merda! A porra da droga corroeu seu cérebro?! É obvio que é uma armadilha!
— Não é! Eles vão me entregar Ino, aposto que ela mesma quer vir e...
— Seu retardado de merda! Escravoceta do caralho!
As vozes deles retumbavam nos ouvidos de Sakura como pancadas, seu desespero aumentou, a crise ameaçou tomar seus sentidos e seus olhos molhados e inchados mal enxergavam as cordas, ela apenas cortava desesperadamente. Eles estavam gritando um com o outro, talvez se agredindo, ela só sabia que estavam próximos demais.
Estava anoitecendo de novo e ela quase berrou quando algo quebrou entre eles e as cordas cederam. Se levantou tropegamente, o formigamento em suas pernas deixava-a mais lenta do que tudo. Cambaleou até a cadeira subiu nela ouvindo-a ranger e choramingou soluçando pelo silêncio, tateou a janelinha e empurrou o vidro sujo, suas mãos alcançaram terra fria e neve e ela segurou as bordas tentando se içar para cima.
Seu tronco passou com um arrastado dolorido, estalando como um galho seco, ela soluçava e por pouco não gritou de novo quando seu quadril emperrou na abertura. Sakura chorou e bateu no solo fofo, ela implorou por ajuda, por Deus, por não entrar em crise de pânico.
Por favor, só não agora.
Ela inspirou como pôde, tateou o chão buscando algo pra segurar, encontro uma raiz escapando da terra e agarrou, só uma mão alcançava.
Esvaziou os pulmões e puxou o corpo para fora. Conseguiu alcançar a raiz com a outra mão e teve mais apoio para se içar. O tecido da saia ajudou seu traseiro e pernas a passarem e ela escorregou para fora da abertura, seu único sapato caiu na beirada da janela e não houve qualquer soluço de alívio, ela se ergueu e se afastou da casa. A perigosa adrenalina bombeando em seu sangue a fez correr para longe. A casa ficava dentro de uma clareira ela ouviu vozes se exteriorizando e se jogou atrás de uma árvore. Espiou por trás e notou um jipe e uma van estacionados perto de uma estreita passagem entre o bosque fechado, uma estrada.
Voltou-se para a casa e viu dois homens saírem aos socos e chutes. Reconheceu o ruivo, de cabelo castanho escuro, não o conhecia e ele parecia irado.
Os dois rolaram no chão da entrada e, dando um chute no estomago dele, Gaara se levantou e correu para o jipe, enquanto o outro tossia e amaldiçoava, ele praticamente voou pela estrada e sumiu.
O outro se levantou, marchou para a casa e Sakura soube que não tinha outra opção. Esperou segundos, seu corpo não queria se arriscar mais, parte sua queria se esconder ali até que alguém viesse ajudar. Mas não poderia esperar tanto.
Ela encarou a casa e o veículo, e então correu em sua direção, olhando apenas a casa e a van a cada passo.
Lá dentro o outro homem desceu para o porão ainda decidindo o que fazer para não afundar de vez. O drogado idiota estragou o plano e nem sequer o pagara, ele seria preso logo. Mas tendo a garota, poderia recuperar o prejuízo trocando-a por alguma quantia.
Ficou branco ao encontrar o porão vazio, encarou a janela e correu até ela, apanhou apenas o calçado e viu apenas o vulto da garota correndo lá fora.
— Hey?! – rugiu, ela o fitou e gritou ainda mais desesperada. Ela ia em direção á sua van e ele disparou para fora do porão. A porra da chave estava na ignição e a maldita o deixaria pra polícia vir apanhar, naquele fim de mundo.
Sakura não agradeceu pela chave estar na ignição, ela ainda precisava de tempo para ligar o carro e ele estava vindo.
Girou a chave, e gritou socando o volante. Seus óculos estavam acabados, rachados, sujos e ela enxergava precariamente.
— Pega, pega, pega, pega— essa era sua nova oração.
A van parecia ter escolhido seu lado.
— Volta aqui, sua putinha!
A van pegou, ela acelerou na ré e o homem se jogou contra a janela, segurando volante e Sakura pelos cabelos, ela berrou, ele também, ela mudou a marcha e acelerou, só conseguiu fazer isso. Ele parecia que arrancaria sua cabeça.
Algo, um vulto vermelho saltou sobre o homem, ele soltou volante e caiu levando mechas e talvez um pedaço da nuca de Sakura.
Pra ela não importou, segurou o volante, a van seguiu em frente. Depois o mesmo vulto vermelho tentou segui-la após deixar o homem imóvel no chão.
Seu pé estava afundado demais no acelerador, ela só via chão de terra á frente, árvores escuras, neve. O motor parecia uma besta, o som se misturava ao de seu coração. Seus olhos pesaram, ela ouviu sirenes ou algo parecido, manchas ainda bem longe surgiram vindo em sua direção.
Sua consciência falhou, o coração falhou, o freio falhou. Seu corpo vacilou para frente, o volante girou para o lado e a van seguiu atravessando o bosque, parecia imparável, Sakura já não sabia, já estava dopada pela proximidade com a morte.
A van só parou quando se esmagou contra um tronco firmado contra uma roxa, a união dos dois parou a máquina, o preço foi o corpo de Sakura afundado no volante.
Yahiko era corredor da equipe de maratona quando na escola. Ele conseguiu chegar onde a van abandonara a estrada primeiro que os carros da polícia ou de Itachi. Ele caminhou arquejante pela ferida que a van abrira na mata fechada, onde destroçara arvores e pedras.
Ele parou vendo a van esmagando-se contra uma rocha e árvore frondosas. Viu a cabeça rósea deitada contra o painel quase fora da janela. Viu sangue gotejar da van para o chão e caiu sobre os joelhos.
A polícia se aproximou rendendo-o por segurança e ele não relutou em ficar no chão.
Itachi saiu do carro, rapidamente pegou a cena e voltou para trás, tinha que impedir Sasuke de ver ao menos aquilo.
Mas Sasuke largou a arma, ele fugiu de seu braço, lutou contra Kakashi e Jiraya. Contra policiais e paramédicos, ele chegou perto o bastante para ver sangue e sua pequena Sakura afundada entre ferragens.
Ele caiu sobre joelhos, arrancou os cabelos entre os dedos, socou o solo fofo e berrou. Os paramédicos removeram ela, levaram horas temendo mais alguma fratura e ele permaneceu no chão gritando até ficar sem voz e Itachi permaneceu sobre ele, impedindo-o de se erguer e enlouquecer mais ainda.
Porque louco, ele já estava.
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