Ignites me
3 Centelha III.
Notas iniciais

Fazia tempo que ela não saia tão moída de uma aula. Mas talvez foi saber que tinha trabalho depois dela que a deixou ainda mais acabada.
Sakura fora novamente chamada para trabalhar no pub, e embora tenha apreciado de verdade, acabou que a oportunidade a pegou num momento chato do semestre.
Ela ajeitou a bolsa sobre o ombro e seguiu caminho pela calçada enquanto lia as últimas mensagens que recebeu.
Colegas do grupo da aula choramingando com a aula recém terminada; adicionaram ela (outra bendita vez) num grupo de troca e venda, e, mensagens de Sasuke.
Ela havia respondido no intervalo que não poderia vê-lo hoje, mas a resposta chegou agora.
“Nos vemos mais tarde então.”
Ela estreitou a vista para a mensagem, embora ele não fosse mais alguém que a assustasse, não deixava de ficar receosa com ele. Sasuke era muito... atraente para deixar passar.
Nunca havia ouvido falar dele, mas não duvidava que fosse apenas porque os assuntos em que o nome dele circulava jamais fizessem parte dos assuntos que a interessavam na faculdade, sendo que também conversava pouco.
Ela não conseguiu deixar de indagar de volta.
“Mais tarde? Mas quando?”
Ele havia lhe enviado uma mão acenando e um emoji de carinha de bebê. O que ela entendeu como um “Tchau, neném” e presumiu que não teria resposta.
Suspirou e logo ao anoitecer estava chegando no pub.
Entrou no pequeno vestiário e se trocou, o pub era um lugar mais despojado, tranquilo, mas o dono, sabendo o tipo de clientela que tinha, fazia toda questão de conservar a atenção desta. E nada melhor para chamar a atenção de um bando de universitários loucos por álcool e umas horinhas fora do inferno das aulas, que garotas servindo com saias curtas e uma blusa mais sugestiva.
Era um tanto humilhante para ser apenas um bico, mas ela não era alguém que podia reclamar.
A saia era preta, plissada, exatamente colegial, a cintura alta, e a blusa era cropped top, com estampa quadriculada. Sakura lembrou que era ideia da tal filha do dono, que gostava de bancar a estilista. Mas se perguntava mesmo era se ela não sentia a mínima empatia em ver outras garotas sendo levadas a isso.
Esperar de um homem era até normal, mas de outras garotas, chegava a ser revoltante.
Ela então, esperava que fosse só um boato gerado pela língua longa das outras colegas, e seu total desgosto pela tal moça.
Ajeitou a saia, o mais baixo possível, mas não havia muita opção sem parecer que estava usando a peça errado. Ela soltou o cabelo, a temperatura hoje estava bem baixa, indicando o comecinho do inverno, e poderia andar para lá e para cá sem sentir muito calor com os cabelos soltos. Apenas improvisou uma trança envolvendo-os para evitar que se espalhassem em qualquer lugar.
Limpou os óculos e saiu do quartinho seguindo até o bar e se sentando num dos bancos vazios ao lado de Hinata.
— E então?
— Argh, idiotas à vista, caras de Suna vieram encher o saco aqui hoje – ela ciciou baixinho, indicando um grupo de rapazes alguns ainda em uniformes azul e branco de futebol americano. Havia uma verdadeira roda em torno deles, falando besteiras, bebendo e contando vantagem.
— Suna? Isso quer dizer...
— Sim, inimigos de Konoha, ou seja, se alguém da faculdade vier, isso pode dar em uma briga feia...
Sakura assentiu, lentamente. Sabia bem da rivalidade entre as duas universidades, que incluía desde apostas como pegar garotas da universidade inimiga, brigas, sequestrar o mascote do time, e claro, vir procurar briga no território alheio.
Entre eles havia um cara bastante branco, cabelo escuro, e com ele havia uma garota, em seu colo. Sakura sentiu o coração saltar na boca ao reconhecer.
— Ai, meu deus, não acredito.
— O quê?
— Ino está com eles, o que ela está pensando?!
— Ino? Você quer dizer a Barbie Corrimão com quem divide o quarto?
Sakura assentiu, nunca xingou Ino, mas este foi o nome conclusivo que Hinata propôs ao saber um pouco dela.
Hinata era mais velha, já formada em advocacia, mas apenas estagiando, o dinheiro não era o bastante e seu chefe, um babaca.
— O que ela tá pensando? Praticamente confraternizando com o inimigo?!
— Eu não sei, porque ela faria isso? A faculdade inteira vai ficar contra ela, sem falar do time masculino...
— Ah, ela já deve ter dado pra todos, por isso tá trocando de time...
— Que trocasse de faculdade também, não?!
— Sakura, Hinata, vão servir as mesas, nada de conversa – O patrão ordenou e elas saltaram dos bancos, pegando as bandejas e cadernetas.
Pelo olhar de Chris, seu chefe, ela não duvidou que ele também estivesse receoso com a presença dos caras ali. Eles eram barulhentos de propósito, pareciam comemorar sabe-se lá o quê.
Depois de uma hora ou mais, Hinata se aproximou dela e a cutucou.
— A merda tá feita – Sakura olhou para a porta e deu com praticamente o grupo inteiro do time de futebol da escola entrando no pub. Eles vieram acompanhados até mesmo das líderes de torcida e outras garotas que os seguiam em busca de alguma atenção.
Não estavam uniformizados para jogar, as vestiam camisas do time, vermelho e branco, para se identificarem de cara.
Houve um pouco de silêncio enquanto eles sentavam em uma mesa noutro canto do bar e então toda a tensão terminou, no que se tornou agora, uma competição pra saber quem mais fazia barulho.
Sakura entregou algumas contas, percebia nas expressões dos outros clientes que estavam saindo porque não pretendiam correr o risco de presenciar uma briga de universitários.
A tensão ali formada estava começando a enerva-la, ela sabia no que isso poderia dar e tentou ignorar completamente, aquelas conversas altas, indiretas ridículas, burburinhos maldosos, Hinata a encarando toda receosa também.
Era como estar perto de uma panela de pressão, ela estava tão quente que estava a ponto de explodir, podiam sentir o calor, o som do vapor saindo eram os gritos e gargalhadas dele, todo forçado. Tudo aumentando a pressão, estavam claramente trocando farpas sob conversas jogadas com descaso.
Uma hora ou outra um deles soltaria a farpa principal e todo mundo estouraria.
Então, de repente foi como se o fogo se extinguisse de uma vez e o vapor desaparecesse.
Todos deram atenção para a porta.
Sakura viu quatro pessoas entrarem, o primeiro era ruivo e esguio, o cabelo escorria pela face pálida, as roupas escuras o faziam parecer um vampiro punk, puxava uma garota pela mão, ela era alta e de pele clara, olhos dourados e cabelo tingido de azul. Ela usava uma saia de couro bem apertada, e uma blusa solta para dentro. Botas de cano alto.
Atrás dela veio outro cara ruivo, mas corpulento, e o tom do cabelo era mais para laranja.
E então um homem alto e forte, cabelos escuros e longos em contraste com a pele alva. Ele usava calça jeans preta, uma camisa branca sob um blazer escuro, nos pulsos haviam pulseiras de spikes e um anel, assim como brincos por toda uma orelha. Sua face era marcada abaixo dos olhos conferindo-lhe uma expressão impenetrável e intimidante.
Os quatro já haviam cruzando o bar e ido até a mesa mais próxima do balcão quando Hidan entrou também, seguido de Sasori, Deidara, Kisame, Zetsu e Kakuzu.
Sakura não soube bem o que a Akatsuki fazia ali, logo hoje, mas não os viu como um bom ingrediente. Não era como se eles fossem universitários, mas torciam, obviamente para o time da cidade.
Ela já podia os ver se metendo na briga, Hidan seria o primeiro.
Ele vinha com bastante frequência, e Sakura quase sempre atendia ele e os meninos, mas, antes que cedesse ao costume, lembrou que havia cortado completamente as coisas com ele, e, por conseguinte, com a Akatsuki.
Deu as costas e se afastou, indo para o fundo, Hinata e outra garota foram atende-los e de esguelha, ela viu ele e outros se sentarem na mesma mesa em que os quatro estranhos haviam sentado.
Seriam novos na cidade?
Bom, não era mais da conta dela.
Pelo menos foi o que achou, ao ver, de repente, Sasuke entrar e se sentar entre a garota de cabelo azul e o outro homem de cabelo negro e olhos inexpressivos.
Ele estava tão bonito que ela quase tropeçou ao se afastar de uma das mesas.
Sua calça era preta e surrada, a camisa de mangas curtas, branca mas aberta o bastante para mostrar um pouco de pele e tatuagens.
Sakura podia sentir o ar puxa-la na direção dele, era aquela atração reverberando em torno deles e os empurrando um para o outro. Mas agora haviam questões demais para ela se deixar levar, e antes que ele pudesse perceber os imãs agindo, ela girou sobre os calcanhares e seguiu para fora do salão. Precisava de ar e o procurou na porta dos fundos.
O que Sasuke fazia na mesma mesa de Hidan e os Akatsukis? Era conhecido deles como aqueles quatro?
O que ele fazia lá? Nunca o havia visto por lá, obviamente.
Ele sabia que ela estava lá? Por um momento sentiu-se energizada pela sensação, mas noutro, se encolheu com desgosto. Não precisava se olhar no espelho para saber com o que parecia. Uma garota em roupas curtas afim de algumas gorjetas, e aceitando também companhia depois do trabalho.
Ela geralmente não se importava, detestava as olhadelas maldosas, e convites cheios de segundas intenções, mas, sempre pusera a necessidade de se prover da melhor maneira possível, à frente.
Agora, por algum motivo não queria ser julgada assim, nem ser vista assim, não por ele. E nem sabia o porquê, nem o conhecia.
Talvez porque já o havia julgado mal o bastante, e ele lhe provado quão diferente e maravilhoso era. Talvez porque no fim, soubesse que não seria igual com ela. Ela estava fazendo “tudo” por dinheiro, e isso não era algo que se aplaudia.
— Hey, você precisa voltar – Hinata a chamou da porta.
— Desculpe...
— Tudo bem? Se sente mal?
— Com certeza, mas tem jeito? – ela sorriu, voltando a entrar.
— Ai, nem me fale, aquele tal runningback de Konoha resolveu colar no meu pé, quer que eu ajude em sei lá o que, mereço.
— Nossa, ele foi atrevido?
— Ele bem tenta, mal sabe ele que já sei desses esquemas de garanhões da faculdade há mais tempo que ele, mané.
Sakura riu, Hinata estava sempre esnobando os caras da faculdade que davam em cima dela, ela era formada há três anos e embora não fosse uma grande diferença, ela dava aquela fase de pegação universitária completamente por encerrada. Só desejava ter estabilidade total, tanto profissionalmente, quanto num relacionamento.
— Eles só devem estar querendo marcar território...
— Sim, claro, e estão quase indo atear fogo na sua coleguinha loira, ela está fodida, acho melhor você não dormir no mesmo quarto que ela hoje...
— Credo, não fala assim, não tenho onde ficar!
— Fica na minha casa, hahaha.
— Acho que vou aceitar...- as duas já estavam de volta ao balcão, esperando o barman lhes encher as bandejas.
— Hey Sakura, vai lá ver o que seus coleguinhas querem – ele disse, ela entendeu bem e suspirou, não era como se pudesse dizer que não se misturava mais com eles.
— Tudo bem...
Ela pegou a bandeja e o caderninho, se dirigiu até a tal mesa. Como havia previsto, as outras duas mesas com inimigos declarados logo voltaram a sua “batalha” de escândalo
e algazarra, no entanto, ela percebeu-os um pouco mais contidos e desconfiados em relação a presença da Akatsuki.
Até Suna conhecia a fama deles?
Ela se pôs entre as cadeiras de Deidara e Sasori, relanceou um olhar rápido por todos na mesa, se arrependeu de ter feito isso, era como ser encarada por um bando de águias.
Não queria encarar Hidan tão cedo, e Sasuke se empertigou na cadeira, dando atenção exclusiva a ela, o que a fez começar a sentir o rosto esquentar.
Céus, ele poderia ao menos disfarçar um pouco.
— Já decidiram o que querem?
— Hey, Sakuraaaaa – cantarolou Deidara — Noite boa?
Ela sorriu um pouco. Também estava magoada com eles, eles também fizeram parte daquela aposta idiota. Mas tinham o talento e beleza que faziam com que fosse difícil ficar zangada com eles. Ou talvez ela só estivesse muito apegada com a amizade que achou que tinham.
— Está boa sim, obrigada.
— Uma rodada de cerveja pra todo mundo, eu pago – disse Sasori.
— Olha quem está cheio da grana, huh? – provocou Zetsu.
— Eu pago, desde que, Sakura sente aqui com a gente – ele completou, ela baixou a caderneta e lhe de um olhar professoral.
— Boa tentativa, mas não.
— Ah, qual é...
— Estou trabalhando, você sabe, até mais.
— Deixe-a em paz, sua mala. – Kisame remendou — Eu vou querer Jack com gelo, você sabe como eu gosto, Sakura. – ele ofertou, e ela revirou os olhos, entendendo seu jogo.
— Como você gosta não é novidade pra ninguém, Kisame – revidou enquanto se afastava da mesa que se encheu de gargalhadas e provocações contra ele que riu, aceitando a rebatida.
Sakura voltou ao balcão com os pedidos e soltou o ar.
Nem fora tão ruim, afinal.
Ela foi até a mesa de Suna sem muita escolha.
— Mais alguma coisa?
— Você está no cardápio? – disse um deles, e todo mundo riu como se fosse a maior piada já contada.
— Isso é uma piada? Perdão, enfim, mais algum pedido?
— Oh, não precisa ficar de mal humor, gatinha – ronronou outro cara, e ela ignorou, jogando um olhar interrogativo ao resto inclusive Ino.
— Que saia curta, Sakura, nem parece com as que usa na faculdade. – Ino disse-lhe.
— Existe algo chamado coerência, não se pode usar qualquer tipo de roupa em qualquer tipo de lugar sabe? – ela olhou para o vestido vermelho e apertado dela, as cochas completamente a vista — Não sabe – concluiu — Afinal, não foi esse o vestido que usou pra apresentar o trabalho de semana passada?
Ino se empertigou para dar uma resposta, mas parou quando o cara cujo colo estava riu e esfregou a mão em seu joelho.
— Deve ter tirado a maior nota hein? – maliciou e ela sorriu de volta, nem negando nem confirmando.
Havia ganhando uma nota entre o regular e o medíocre e uma advertência para aprender a se vestir em apresentações de seminário.
— Alguém vai pedir? – Sakura insistiu uma última vez e então se afastou, sendo contida pela mão do cara branco demais.
— Hey, calma princesa, porque não senta com a gente? Você é de Konoha também? Pode vir, não temos preconceito.
— Não, obrigada, estou trabalhando, então poderia me soltar? – sua voz saiu esganiçada, e infelizmente, frágil. Ela sentiu como se um cerco fechasse a sua volta e o ar pareceu ficar rarefeito. Torceu pela primeira vez que Ino dissesse alguma coisa maldosa que fizesse aquela gente perder o interesse nela, como sempre fazia quando tinha chance.
— Ah, que isso, eu insisto.
— Eu insisto pra você me soltar – pediu, girando o pulso na tentativa de se afastar, e ele sorriu achando graça.
Então seu pulso branco foi pego por uma mão quase tão branca quanto a dele, grande e de dedos longos e apertada de forma que ela sentiu o aperto no próprio pulso diminuir quase totalmente.
— Você não a ouviu? Ela não quer perder tempo aqui – Sakura tremeu com a voz de Sasuke acima de si. Ela soava como aqueles trovões suaves, aqueles burburinhos que antecediam os brados dos trovões que faziam as casas tremerem em dias de tempestade.
— Hey cara, quem é você mesmo? – disse outro, ela olhou pra cima e viu Sasuke, ele tinha uma mão no bolso e a outra segurava o estranho, mas seu olhar era profundamente entediado.
Ino saltou do colo do jogador de Suna que mandou o mesmo olhar para Sasuke.
— Hey, Sasuke, como vai, primo?
— Hey, Sai, pare de amolar, e solte a garota.
— Wow, fazia tempo que não nos víamos hã? – ele brincou, um sorriso quase convincente de alegria estampado no rosto.
Mas ele apertou e puxou o pulso de Sakura, e Sasuke apertou o pulso dele impedindo-o de puxa-la mais. Ela sentia o pulso tremer entre as mãos deles dada a força que cada um empregava e não duvidava que seu pulso estaria roxo mais tarde.
Jogou um olhar em volta, para o bar, implorando ajuda dos barmans e de Chris.
Sua respiração já estava descompassada e ela girou o pulso nervosamente tentando se livrar de Sai.
— Solte-a, Sai, já brincou o bastante, nem sei o que ainda faz aqui. – Sasuke recomeçou.
— Hey, primo, poderia perguntar o mesmo, afinal você não saiu do time deixando todo mundo na mão?
— Isso não é da sua conta, você é da Suna, e mesmo que não fosse, estou cagando e andando para o que você pensa. Agora solte a garota, certo?
— Hey, Sasuke, você sumiu. – Ino o chamou, ansiosamente.
— Oi, Ino, espero que saiba o que está fazendo, eu estou realmente fora dessa, então não espere que eu ajude como da outra vez. – Ele avisou, sem encara-la e Sakura percebeu a loira ficar meio branca e perdida.
— Mas Sasuke...
— Fora mesmo? Ouvi boatos de que você estava voltando – Sai jogou.
— Não totalmente, você tricota tanto assim por aí? Agora entendo o porquê desse último resultado medíocre contra Iwa. – Sasuke rebateu, e em seguida deu um sorriso de lado que não foi como os que Sakrua vira até então, foi pura provocação, não sexual, mas um desafio eminente.
Sai o fulminou com o olhar e a soltou, finalmente, se levantando de uma vez ao mesmo tempo que todo o time de Suna se rebelava também, se levantando e encarando Sasuke como se fossem lincha-lo ali mesmo.
— O que você sabe sobre resultados, e o que pode falar? Largou seu time ano passado quando estavam pra conquistar a taça, seu banana.
— Como eu disse, estou cagando e andando para o que você pensa sobre isso, nem é seu timezinho afinal, porque te ofende? Deveria estar feliz, minha saída aparentemente foi o que garantiu sua vitória ano passado.
— É o quê, filho da puta?! – irritou-se um dos caras praticamente indo pra cima dele. Sasuke se limitou a puxar Sakura pelo quadril e ela teria gritado pela segunda vez, tal como quase gritou quando o cara quase pulou nele, se não estivesse com cada vez mais falta de ar.
Sai permaneceu como uma estátua de cera encarando Sasuke como se pudesse mata-lo a garrafadas.
— Mas não se preocupe, esse ano não vai ter toda essa sorte, nos vemos no final do campeonato, primo. – Sasuke declarou, a provocação explícita em seu tom ao mesmo tempo que puxava Sakura pela cintura e com a outra mão, segurava a dela. Ele parou num meio giro antes de finalmente dar as costas para eles — Mais uma coisa – avisou, seu tom se tornando aqueles trovões, prelúdios de tempestade — Não a toque só porque é bonita.
Sakura só percebeu que ele se referia a ela quando todos os olhares em volta recaíram sobre si.
Seu rosto deveria ter chamado ainda mais atenção porquê ficara vermelho e ela tentou não olhar e nenhuma direção real enquanto ele a puxava para fora do bar.
— Você está bem? – e de repente ele era aquele Sasuke que ela conhecera, gentil e cuidadoso ao segurar seu pulso e examinar com todo apreço. — Aquele filho de mamãe, eu deveria ter enfiado uma garrafa no rabo dele.
Gentil, cuidadoso, e um pouco rude.
— E-eu estou bem... Quem é ele?
— Meu primo...
— Eu percebi... Mas vocês não se dão bem? Eu estou completamente perdida...
— Não importa, você está bem? Está pálida e não está respirando direito, acho que é melhor irmos ao hospital.
— Não, tudo bem, só fiquei nervosa, aquela gente toda...
— Eles só vieram provocar o time, estão três pontos à frente graças a derrotinha sem graça que deram em Iwa ontem.
— Entendo... Você era o do time? Estudava em Konoha? Como pode? Nunca te vi...
— Eu...
— Sakura?! Você está bem? – Hinata veio desvairada pela porta — Está bem? Eu estava quase metendo uma cadeirada naquele cara, e no Chris também!
— Eu poderia fazer isso – Sasuke disse.
— E você é?!
— Hinata, Sasuke é um... um... bem, ele ajudou sim, nada de cadeiradas nas pessoas, certo?
— Aquele bando de animais... Pirralhos, ugh, ah, mais Chris vai me ouvir – e soltando fogo pelas ventas ela se pôs a entrar.
— Hinata! – Sakura chamou, querendo segui-la, mas Sasuke a puxou pelo quadril, trazendo-a para frente de seu corpo.
— O que eu sou?
— He-hein?
— O que eu sou pra você? Nem mesmo disse pra sua amiga...- ele indagou, encarando-a profundamente. Ela se calou, ela havia tentado responder algo, mas não fazia ideia.
Eles mal se conheciam e ela tinha o nome dele tatuado na parte inferior das costas, mal se falaram mas tinham uma boa amizade, no entanto, houve aquela coisa no quarto dela aquela tarde, e não era algo que amigos faziam, mas também não transaram, então não era algo de ficantes ou namorados, certo?
— E-eu não sei... Só não sei, está tudo tão confuso...
— Hn... Bom, é melhor que uma porra de friendzone...- ele admitiu, suas mãos trazendo-a mais perto, apertando-a contra o peito.
— Eu não sei de poderia fazer isso.
Deixa-lo na zona da amizade poderia ser o mais seguro, mas era impossível com a atração que tinham. Sakura não tinha dúvidas que cedo ou tarde estariam na cama.
Seu estomago retorcia com a ideia, uma ânsia primitiva era a culpada, primitiva, poderosa e perigosa como Sasuke, além de escaldante.
— Você está linda – ele ronronou.
— Eu? Como... É só uma roupa curta, detestável... Eu pareço uma...
— Eu realmente quero arrancar isso de você, essa saia está me deixando fodido da cabeça, mas não mais que a vontade de comer o fígado de cada cara que te olha com desejo.
— Sasuke...
— Eu não estou te culpando, sei o que é ter de ralar pra uma grana, e eles sempre fazem isso mais humilhante pras garotas... Mas eu não posso apenas te arrancar daqui e te levar?
Ela suspirou, contra sua camisa.
— Eu acho que não seria tão ruim... Mas...
— Eu sei. — ele suspirou, ainda contrariado, beijando sua cabeça.
— Eu tenho que voltar, vai se comportar?
— Não vou prometer, já prometi não bolinar você quando passasse perto de mim.
— Sa-Sasuke?!
— E não posso fazer duas promessas tão fodidas numa só noite, então se alguém fizer ou falar merda pra você, vai ter meu punho jogando seus dentes naquele piso, sim?
Sakura não podia discordar, ou concordar, então como ele não mudaria de todo jeito, apenas se deixou afastar-se e dar a volta, ele a seguiu com um sorriso bastante vitorioso até.
— Hum, me fale mais sobre essa coisa de time... – pediu — Eu acho que preciso me situar...
— Respondo se puder te bolinar – ele brincou, e ela bufou um pouco.
— Já notou como suas propostas só beneficiam você? Já que não vai facilitar essa, responda, você conhece a Akatsuki?
Sasuke riu puxando sua mão e a fazendo girar, seus olhos percorreram o corpo dela, e apreciaram o movimento da saia. Fazendo-a se perguntar se não tinha dado pra ver algo que não devia.
— Isso vai valer uns amassos.
— Ora, qual a diferença entre amassos e bolinar?
— Por que só eu te bolino, e você pode me bolinar também durante os amassos.
Ela avermelhou com a ideia de tocar seu tronco esculpido, redesenhar suas tatuagens com os dedos, ou mesmo, apertar seu traseiro firme.
— A-ainda soa injusto...- Sasuke a trouxe para perto, abraçando seu quadril e encarando-a com um sorriso maroto.
— Que danadinha você é, então o que te satisfaria mais, neném?
Sakura fez um bico, desistindo de tentar pega-lo, ele parecia ser uma armadilha completa. Então apenas riu e recuou, dando um peteleco no queixo dele.
— Eu escolho não dizer! — rebateu, entrando no bar.
— Hey...- ele chamou.
Ela seguiu direto para o balcão, sentindo-se mais leve mesmo com a panela de pressão ainda em seu entorno.
— Hum, que sorrisinho é esse? – Hinata lhe indagou, toda sugestiva, o que a fez rir.
— Para.
— Não, não, não, você vai me passar isso e vai ser ainda hoje.
— Hina...
— Nem pense em escapar, ou juro que quebro seus bonequinhos de anime. – ela avisou, se afastando. Sakura revirou os olhos.
— São Action figures, e eu nem os tenho.
— Se não tivesse não saberia o nome.
Sakura bufou, desistindo.
Ela só sabia por que por ser meio asiática e nerd, todo mundo achava que ela curtia cultura otaku ou gamer, quando sequer sabia algo de japonês, e muito menos usar um joystiker.
Talvez se ela tivesse tido uma família, pudesse ter sido influenciada sobre essas coisas, quem sabe aqueles que foram seus pais, gostassem.
Ela nunca se sentiu atraída para isso, não queria ser uma criança estranha que preferia viver entre bonecos de animes, games ou coisas assim. Queria ser a criança perfeita, bonita, inteligente, educada e extrovertida.
Mas uma coisa acabou interferindo na outra. Ela era mais inteligente e educada do que bonita e extrovertida. E sua saúde ainda ficou ruim.
Não dava mesmo pra ser perfeito, e ninguém a quis como ela era.
Ao fim do expediente. Suna foi embora não tão cheia de si, ainda houve uma discussão acalorada no estacionamento, mas ela nem mesmo estava perto, preferiu correr para o quartinho e se trocar.
Sasuke fora embora junto com o pessoal da Akatsuki, mas tinha mandando uma mensagem antes, perguntando se queria que ele a esperasse para leva-la.
Ela sabia no que ir com ele poderia resultar, era mais que certo. E embora boa parte sua quisesse. Ela sabia que estava meio cedo.
Queria conhece-lo mais, e ele não estava tão disposto a falar agora. Deixou isso claro mesmo que por meio das brincadeiras.
Então ela descobriria sozinha.
****
Decidiu aceitar o convite de Hinata, posto que, como Ino a encarou mortalmente o resto da noite, seria mais seguro mesmo.
Matou pelo menos uns três coelhos só com essa cajadada, mas ainda pagaria tendo que falar com Hinata sobre Sasuke, e talvez, sobre a tatuagem...
— Meu. Deus – Hinata ciciou, o olhos cor de pérola saltando das órbitas enquanto corria por cada letra marcada na pele clara de Sakura. Ela suspirou com angústia e baixou a blusa, voltando-se para ela.
— É enorme né? Eu nunca mais vou usar biquíni e eu já nem usava antes... – choramingou, sentando-se ao lado dela. Hinata piscou sacudindo a cabeça.
— Não é tão grande!
— Hinata...
— Sério, basta não usar nada com um cós muito baixo, você sabe como chamam as tatuagens nesse lugar?
— Sei... “Tatuagem de vadia”, meu deus eu devia estar louca.
— Muito louca... Mas ficou boa...
— Hinata!
— É sério, alguém poderia ter feito coisa pior, como ter escrito Sasuke errado, ou desenhando um pinto, ou uma frase sacana!
— Ughh...
— Já pensou ter algo como: “Use com moderação”?
— Credo!
— Eu tenho uma conhecida que fez, por vontade própria, claro...
— Meu deus.
— Enfim! Veja, nem é tão ruim, você pode remover a laser, talvez doa, mas me preocupo mais é com a grana que vai custar...
— Remover?! – Sakura exclamou, espantada — E-eu não sabia.
— Claro que dá, mas depende do desenho, da tinta e tudo mais, essa é pequena, tinta preta, deve dar sim.
— Mas remover...?
Hinata arqueou as sobrancelhas escuras, e cruzou os braços sob os seios fartos na camiseta dos Ninjas de Konoha.
— O que? Vai me dizer que nem pensa nisso? Talvez lembrar de quem é o dono desse nome aí no seu traseiro te faça amarelar, é?
Sakura saltou no lugar, indignada.
— Claro que não! Foi um acidente, uma tragédia! Sasuke também tem uma, e-e-e tenho certeza que ele pensou no mesmo.
— Tem mesmo?
“— Eu gosto de você”
Sakura se calou. E se sentou de novo, atordoada.
Ela viu que estava apenas se enganando. Sasuke nem sequer cogitava tal coisa, pelo menos não agora. E talvez ela pudesse fazê-lo cogitar, se não estivesse tão atraída para ele também.
Afinal, ninguém iria querer ter o nome de uma megera estampado nas costas.
Mas ela sequer sabia ser querida, muito menos odiada, embora sempre tivesse alguém pra dar ódio gratuito.
— E-eu não sei...
— Você gosta desse cara?
— Eu não sei, ele é... um cara muito legal, mas do jeito que nos conhecemos... Bem, eu ainda mal o conheço...
— Você tem que parar de ser tão medrosa, mesmo que ele seja assustador, não é má pessoa...
— Ora...
— Veja – Hinata a puxou de volta — Telefonei pra uns conhecidos que ainda estão na faculdade e fiz umas perguntinhas, acho que posso te ajudar a se situar com o Sasuke, mesmo que devesse fazer isso depois de uma boa foda.
— Hina...
— Que é? Você reparou aquele macho? No meu tempo não tinha, aff.
— Então? O que conseguiu? Você parece uma agente do governo – Hinata piscou para ela, bem humorada.
— Eu soube que o seu gato das tatoos, estudava Administração em Konoha, um ano e meio antes de você entrar.
— Administração?! – Sakura se espantou — Mas isso não parece com ele... Por isso ele...
— Ele não largou o curso, ele apenas trancou.
— Ah...
— Ele trancou na época em que você entrou na faculdade, Sah.
— Sério?!
— Sim, sim, ele trancou e também vendeu o carro que tinha antes, usou o dinheiro pra comprar aquele prédio onde funciona o estúdio de tatoo dele e do padrinho do cara que estava me enchendo o saco ontem no bar...- A Hyuuga revirou os olhos com essa última parte.
— O tal Jiraya... Que fez as tatuagens...
— É, pelo o que eu soube, ele quis investir nisso porque foi o que lhe pareceu mais haver com ele. Não estava se identificando tanto com o curso, mas só trancou por via das dúvidas.
— Entendi... Ele queria um tempo...
Sakura nunca teve dúvidas de que queria ser médica, mas entendia que muita gente chegava perdido naquela fase da vida. E imaginava que era muito mais frustrante seguir em frente com algo que não se sabia querer para si do que jogar pro alto e arriscar.
Não que ela fosse de arriscar...
— Pois é, mas a coisa pega bem aí.
— Pega?
— Sasuke era Quarterback do time de futebol da faculdade, Sah, e ele desistiu bem quando o time estava chegando na final, o que acabou fazendo todo mundo se frustrar, se desesperar e por isso, eles perderam.
— Oh, meu deus... Por isso, Por isso aquele cara...
— O tal do Sai, sim ele é primo do Sasuke, estuda em Suna, ele se transferiu pra lá, boatos de que ele sabia que não se destacaria com o Sasuke no mesmo time, então se mandou também deixando o time na mão, mas isso foi no comecinho, de toda forma, ele não é o cara mais adorado.
— Imagino que o Sasuke também não...
— Ah, soube que eles se reconciliaram depois, afinal, um time inteiro não poderia depender só de um cara, então a culpa da derrota foi dividida como se deve.
— Oh, que bom!
— Nem tanto, eles passaram esse ano todo enchendo o Sasuke pra voltar pro time, e parece que agora ele vai...
— Depois de um ano e meio... Por que será?
— Hm, por que não usa sua bundinha redonda pra perguntar?
— Para!
— Apenas sugestão, hahaha. Mas você deve perguntar pra ele, ué. Talvez ele voltou pra ficar perto de você? – Hinata cantarolou.
— Bobagem...
— Pode não ser, também pedi a ficha dele com as garotas, pegador de uma noite, calado e muito, muito habilidoso...
— Como você consegue essas coisas?
— Sobre ele não foi difícil, ele era e vai voltar a ser a estrela do time, então todas caem matando né? A fixa dele corre a faculdade toda. Mas ele nunca namorou sério, ah, e tem aquela vadia da Ino, fique longe dela.
— Mais ainda?
— Sakura, Ino é uma das fãs mais loucas do Sasuke e bem, eles tem uma história...- Sakura a fitou atentamente, sentindo um estranho aperto, um incômodo interno que a perturbou.
Havia notado o interesse de Ino nele, mas não os havia enxergado juntos de qualquer maneira.
Ino era escandalosa demais, muito fácil e Sasuke parecia apreciar calma e era bastante soturno, andar por aí com uma loira vulgar e fofoqueira a tiracolo não parecia coisa dele.
Mas vê-lo no papel de quarterback e ela de chefe das lideres de torcida, era outra coisa.
Os dois dariam o casal perfeito da faculdade, ela era a rainha perfeita para um rei como ele seria.
— Eles estudaram o colegial juntos, você sabe, ela foi o buraco de foda mais longo...- Hinata foi meio cautelosa e isso a incomodou mais — Ela é insistente nada mais, agora entendi porque ela queria que você a colocasse na Akatsuki, o irmão do Sasuke é um dos manda-chuvas de lá.
— O que?!
— Lembra do gostosão de cabelo escuro e longo?
— Aquela pessoa assustadora? Como você pode saber isso?! Ninguém sabe quem são os fundadores! – Hinata apenas revirou os olhos.
— Bobagem de criança, eles só não saem se identificando, e ninguém os vê muito como Hidan e o resto.
— Não brinca... Mas irmão dele...?
— Ele mesmo, o mais velho. Dizem que ele e Sasuke tiveram uma briga feia quando ele largou a faculdade, mas hoje estão bem, a vadia loira só queria entrar na Akatsuki porque era o único lugar em que o Sasuke era visto com mais frequência depois que saiu do curso.
— Eu nunca vi ele lá!
— Hidan é peixe pequeno, lembra? Sasuke é irmão do “fundador” então ele só deve aparecer em festas grandes ou nas reuniões “secretas” do clubinho deles.
— Meu deus, isso é tudo loucura, eu só bebi demais e fui me enrolar assim?!
— Hahaha, desculpa te encher com isso, mas você precisa saber em que campo está pisando.
— Não, obrigada, eu não ia saber perguntar a ele, Sasuke é amigável e tudo mais, mas ele parece que se desvia...
— Mas ele está interessado em você, certo? Você só precisa ver até onde.
— Sei...
— E cuidado com a Ino, ela é sobra criada e não vai desistir do Sasuke agora que ele está de volta. Ela está bem queimada por ter ido bancar a vadia traidora e se alguém pode limpar o couro dela é o Sasuke como rei do time, ele só precisa ganhar um jogo pra cair nas graças de todos, e então ela vai se jogar no colo dele...
***
— TOUCHDOWN!! – O público de vermelho e branco berrou nas arquibancadas depois que como um jato, Sasuke cruzou a endzone nos últimos segundos de jogo.
Os jogadores de Kumo abandonaram o gramado, largando os capacetes e protetores pelo caminho, enquanto a plateia que os prestigiava também abandonava as arquibancadas.
Sakura se limitou a congelar no lugar e encarar o enorme placar eletrônico. Sasuke havia feito tantos pontos e contribuído tanto que ele já estava em destaque como nome do jogo.
E até onde sabia, ele só tinha treinado com o time por no máximo uma semana e meia. Como ele se sairia em plena forma física? Não que ele lhe parecesse ruim, mas qualquer um perdia a prática depois de mais de um ano fora.
O que ele era, uma máquina?
Ela não se atreveu a sair de onde estava, não estava sentada em lugar de grande destaque, e achou melhor assim, todo mundo parecia focar em Sasuke agora e ela não lidava muito com o aquele aperto todo.
Teve que comemorar internamento que Hinata não aceitara vir ver o jogo, ou a estaria encarando com seus enormes olhos espertos e dizendo: “Tsc, tsc, eu te avisei”.
Sakura esperou a balburdia diminuir ao máximo, Sasuke era algo que sumiu de sua visão agora. Ela desceu a arquibancada com cuidado, haviam copos de refrigerante, latinhas, pipoca e comida e ela não precisava roubar a atenção rolando por ali.
Já chegava aos últimos degraus quando viu Ino cruzar a lateral do campo, em seu uniforme apertado e curto, ainda segurando os pompons.
Não era difícil acha-la, ela era o tipo que todo mundo reparava. Ela estava toda sorridente como uma garotinha, e, gargalhando correu e saltou nos braços de Sasuke, mal ele havia tirando o capacete.
Ele a segurou firme pelas cochas, a força com que ela veio não foi capaz de fazê-lo trepidar. Sacudiu a cabeça afastando os fios molhados do rosto suado e a encarou com um sorriso leve.
— Tsc, a vadia ataca novamente – Sakura se empertigou ao ouvir tal resmungo, talvez achando até que viesse dela mesma. Mas era só uma dupla de líderes se afastando ali com olhares irritados sobre a loira.
Elas também deveriam estar se sentindo frustradas. Sakura também estava, mesmo quando não tentara alimentar qualquer coisa.
De repente ela se sentiu fora do lugar, aquilo ali não era pra ela. Ela não era o tipo de garota que ficava pra festa do time. Não era líder e definitivamente, não era popular o bastante para ser convidada.
Sabia que quem ainda estava por ali, só esperava a carona ou o endereço certo pra onde a festa seria realizada, provavelmente na rica casa de algum dos jogadores ou líderes.
O lugar dela era no quarto da república lutando pra vencer cada dia dos três anos e meio que tinha pela frente.
— Hey japonesa, que tal irmos brincar de “sensei” e “senpai” lá em casa? – um cara cutucou-a na cintura e ela se afastou, cruzando os braços e indo embora.
Ainda haviam idiotas alimentando esse boato ridículo vez ou outra, e talvez já tivessem notado que ela não andava mais por aí com Hidan e a Akatsuki.
Na primeira vez foi incômodo, e ela sentiu muita vergonha, mas agora se isso voltasse, sinceramente, não sabia como lidaria.
Chegou ao estacionamento, haviam carros o deixando, já tocando música alta e gritos e brados do time soavam alto.
Sakura se encolheu dentro do suéter de lã, flocos de neve começavam a cair, tão pesados, languidamente, como seu estado de espirito.
Caminhando pela calçada ela assistiu os veículos se afastarem rapidamente, a algazarra se desfazendo aos poucos para ir se se concentrar em outro lugar.
— Sakura – ela se virou de perfil, para encontrar quem a chamava.
— Hidan.
Ele parou alguns metros dela, e suspirou, encarando-a com calma e um pouco de humor, o ar quente escapava de suas narinas.
— Hey, não sabia que assistia aos jogos – ele disse, não havia maldade em sua língua, por isso ela se permitiu afrouxar a rédea com ele.
— Eu só estava dando uma olhada, eu só entendo quando todo mundo grita o ponto, e eu não sou boa pra lidar com a euforia.
— Claro, está indo pra casa? Você trabalha no Chris hoje?
— Não, não... Eu estou indo pra casa mesmo.
— Num fim de semana? Qual é...
— Eu tenho um monte de coisa pra estudar, e você, o que faz por aqui?
— Vim ver o jogo, estava pensando em ir ao bar, veja, eu quero me desculpar, de verdade, eu fui um idiota com você, e eu joguei fora nosso lance, e principalmente, nossa amizade.
— Hidan...
— Eu não estou tentando retomar tudo, veja, mas eu quero ser seu amigo, certo? Eu sei que deve pensar que todos só estavam te zoando pelas costas, mas eles gostavam de você sim, você foi a única que se juntou ao grupo, não encheu o saco por detalhes, nem tentou subir montando no pau dos caras.
— Eu...Ah... isso é um elogio mesmo? – Porque pelo o que ela conheceu deles, nenhum se importaria de compartilhar uma menina, ou deixa-la achar que se tornaria uma rainha da Akatsuki. Hidan riu, divertido.
— Juro que é.
— Então porque fizeram a aposta?
— Porque somos um bando de babacas quando bêbados, e Kisame começou a coisa, então pode chutar as bolas dele com vontade.
— Confesso que já tenho alguma acumulada...
Kisame sabia ser bem irritante quando queria, embora ela soubesse que ele gostava dela tal como os outros, ele provavelmente esperava que ela fosse uma montadora de paus em busca de ascensão. Quando ela o chutou fora, ele permaneceu meio mordido. Então sempre pegava pesado nas brincadeiras.
— Eu já estava putamente alto quando resolvi levar a aposta a sério, e você pela primeira vez acabou indo na vibe, acredite, Little cherry, eu fiquei aliviado por você não ter ido na minha merda, sim?
Ela riu um pouco, do apelido ridículo pra uma hora tão séria. Mas sentiu que ele era sincero, e só pôde lamentar que tivesse ficado tão bêbada e irada com ele.
Agora tinha o nome de outro cara ali, e ela não iria fazer questão de que ele ou mais alguém soubesse.
— Tudo bem...
— Não vai me chutar as bolas?
— Te faria sentir melhor? – ele arqueou as sobrancelhas — Sua consciência?
— Minha consciência sim, mas sou um fodido muito covarde pra querer sentir sua ira nas minhas bolotas.
— Meu deus... – ela revirou os olhos quase cuspindo uma risada se não tivesse ficado mais frio.
— Está congelando, vamos dar o fora – ele ofertou. Ela não estava afim de sair com ele essa noite, mas já queria sair daquela calçada.
Iam atravessar a rua quando Hidan foi puxado para trás e se desvencilhou da mão de Sasuke, justamente.
Ele usava camisa preta e sua jaqueta preta, mas parecia encharcado, ela não sabia se era de suor ou um bom banho no vestiário.
Ino com certeza teria adorado ofertar companhia para o jogador destaque. Sakura só não sabia por que estava pensando nisso.
— Onde pensa que está indo com as mãos nela? – ele indagou, tão ameaçador como uma arma, na fuça de Hidan.
— Bom, isso não é da sua conta, desde que ela não está indo obrigada, certo? – Hidan rebateu, calmamente.
Os dois voltaram-se para ela que quase entalou.
— E-eu só estava indo pra casa!
— Com ele?
— Não!
— Não que seja da sua conta – Hidan atiçou, e Sasuke lhe mandou outro tiro com o olhar.
— Hidan, não começa.
— Eu te chamei pro bar.
— Eu não disse que ia, ora bolas, eu só quero sair desse frio.
— Então eu levo você – Sasuke cortou. Ela lhe lançou um olhar questionador, havia dois carros mais atrás, cheios de gente, e estavam esperando por ele.
— Você não tem que ir pra festa?
Sasuke piscou, quase constrangido, o rubor tomou suas bochechas e ele ficou sem graça.
— Eu esperava que você fosse comigo.
— Oh?
— Oh, cara, eu não fui feito pra isso – Hidan resmungou, dando as costas, ele encarou o céu escuro e soltou, como se reclamasse para ele — Que coisa mais melosa!
— Vai se foder – Sasuke cuspiu fazendo o outro rir.
— Você ao menos sabe? Bebezão! Eu estou indo, boa sorte com o Romeu aí, certo, Little cherry?
— Ah?
— Do que porra a chamou? – Sasuke grunhiu, dando um passo, mas Hidan já estava longe acenando despreocupado como sempre fora. Sakura segurou o braço de Sasuke.
— É só um apelido bobo, ele está só provocando.
— Tch, ainda vou chutar a bunda dele.
— Ele é assim mesmo, ugh, que frio – resmungou, esfregando os braços, Sasuke lhe mandou um olhar questionador e meio zangado.
— Achei que estivesse puta com ele.
— Ele pediu desculpas.
— E você deixou passar?
— Bem, apesar das feridas em meu ego, não posso culpa-lo pelas marcas, hum, permanentes que ficaram, eu não estava mais com ele quando fiz a tatuagem.
O olhar dele foi de zangado para magoado.
— Então está puta comigo?
Sakura se deixou rir, para se aquecer um pouco.
— Se estivesse estaria desde o começo, ora, e você também está com sua parcela.
— Eu não me importo.
— Oh, não diga isso, essas coisas são pra sempre, mas as circunstâncias mudam toda hora.
— Então está arrependida?
— Sasuke, não é como se eu tivesse escolhido por vontade própria, estávamos bêbados.
Ele suspirou, mais que emburrado.
— Eu tenho que ir pra casa, está frio demais.
— Eu queria te levar pra festa.
— Mas...
— Não é difícil notar sua cabeça cor de rosa na arquibancada. – ela encolheu os ombros, constrangida. — Mas então você sumiu.
— Eu só fui dar uma olhada, não entendo nada do jogo.
Sasuke puxou sua mão delicadamente, as buzinas e gritos para que ele se apressasse se ampliando. Ela inspirou, constrangida e ele lhe mandou um olhar que renderia uma pedra ou qualquer outra coisa que não usasse calcinha, porque as que usavam...
— Vamos?
— E-eu...
— Só um pouquinho? – ele se aproximou puxando sua cintura — Eu prometo que te levo pra cama cedo, neném.
Sakura não perdeu a ambiguidade em suas palavras, mas o calor dele a seduziu, tentou, e rendeu.
— Só um pouco. – ela o sentiu sorrir em seu cabelo, e suspirou.
Sasuke a puxou pela mão e seguiram até os carros. Ela se encolheu mais perto dele, intimidada com os olhos curiosos e julgadores sobre si.
Ela com certeza não era o tipo que os jogadores convidavam para sair.
— Achei que ia virar uma estátua de gelo lá, mané – o cara que estava no volante do jipe mandou para Sasuke, Sakura o observou lembrando que ele era o runningback que atazanara Hinata na outra noite. Ele devia ter ficado bem surpreso com o chute, porque ele realmente não era de se jogar fora facilmente. Loiro, alto, corpulento e dono de uma pele bronzeada e olhos azul bebê num rosto másculo. Se já não conhecesse o bastante de Hinata, diria que ela deveria ter batido a cabeça.
Mas entendia o que ela procurava, de certa forma, Sakura também procurava o mesmo.
E foi quando ela mais se sentiu estranha ali. Ela não era alguém procurando diversão e popularidade, fazendo de seus dias dourados de faculdade uma fonte de lembranças joviais.
Ela queria a estabilidade que um bom emprego lhe traria ao fim da sua jornada ali, queria conseguir o lugar que almejava para si, um lugar só seu, um lugar em que ela fosse o centro, e se sentisse única e importante.
— Não enche meu saco – Sasuke rebateu bem humorado, e entrou no jipe, sentando ao lado do motorista, e Sakura parou no lugar vendo que o banco de trás estava cheio, haviam dois caras um ruivo e forte, e outro de cabelo colorido num tom branco puxado para o lilás. E ainda haviam mais três garotas com eles, uma estava entre eles, as outras, em seus colos.
— Ainda temos espaço – Sasuke declarou, com um tom divertido, enquanto a içava para dentro, deixando-a sobre seu colo.
— Oh. – ela exclamou, fracamente, e preferindo não encarar ninguém, o amigo ao lado, a encarava fixamente, parecendo muito curioso para esconder.
— Quem está indo pra congelar agora, Naruto? – Sasuke provocou, arrancando risadas dos outros, e o loiro bufou voltando-se para a frente e tocando o carro.
A música alta voltou a tocar, o calor de tanta gente dentro de um espaço pequeno chegou a fazê-la transpirar.
Pelo menos era o que ela queria pensar que fosse o motivo, não que vinha tudo de Sasuke e de como sua saia parecia ter afinado, fazendo-a sentir seu jeans e tudo mais abaixo dele tão bem.
Bem demais.
Se tinha uma coisa que ela precisava mas já não sabia se gostaria de tirar da sua mente, era que o tinha visto nu, com provavelmente uma ereção matinal. Ou talvez não tão provavelmente. Ele já tinha provado que a queria.
Aos poucos, com ninguém tentando arrastar ela ou Sasuke para uma conversa, ela relaxou contra ele. Suas mãos estavam em volta do corpo dela, e Sakura observou a paisagem pela janela enquanto sentia sua respiração perto do ombro.
O jipe finalmente parou diante de uma casa próxima a um dos muitos lagos que constituíam a paisagem natural da cidadezinha. Era grande, moderna como poucas, barulhenta e rodeada de carros. Havia uma lancha ao lado do pequeno cais, assim como cadeiras de sol.
— Uau...
— Os Uzumaki tem do que se gabar – Sasuke comentou.
— Como assim? Achei que você amasse minha beleza, interior e exterior, não meus bens – Naruto se fez de ofendido.
Sasuke riu enquanto delicadamente a colocava fora de seu colo, e do carro e os outros também saiam.
— Que eu saiba seus pais é que são ricos, você é só um encostado, e eu prefiro tetas doces do que este seu pau pequeno.
— Vai se foder, o meu é maior que o seu.
— Se for, é anormal e ninguém vai querer de todo jeito – Sasuke se gabou, puxando Sakura, ela entalou sozinha.
O pior era que ele estava certo, aos olhos dela, que não era uma especialista em pênis. A quem estava querendo enganar?
Sasuke era um Ares, com uma lança e tanto.
Ele apertou sua cintura para mais perto, e ela enrubesceu por um momento achando que ele tinha lido sua mente, mas ele só estava ajudando-a a entrar no meio de uma multidão na sala.
— Nossa... – ela sussurrou, era exatamente como as festas das fraternidades, mas o ambiente em que acontecia era realmente de alto valor, paredes bem brancas, muito iluminado, quadros enormes, vasos caros, e móveis refinados.
Ela nem queria ver como ficaria ao fim da festa, e nem de estar no lugar dos pais de Naruto, ou dele.
Mas principalmente, ela nem queria saber como essa noite terminaria...
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