If I Had a Gun...
2 I'm holding on and waiting for the moment to find me
Ainda era inverno e há tempos a estação não era tão hostil. O frio castigava meu corpo e minha alma que, mesmo durante a primavera, o verão e o outono que haviam se passado, não havia encontrado maneira de se aquecer: o calor de que precisava era proveniente de uma estrela que não mais brilhava.
Pouco mais de doze meses haviam se passado desde que eu havia sido deixada para trás, vivendo sob minha própria nuvem tempestuosa, dia após dia. Lembranças preenchiam o silêncio das noites passadas em claro em uma cama outrora ocupada por aquela que me trazia felicidade e que, agora. se encontrava constantemente vazia, mesmo que eu estivesse acompanhada.
Esquecê-la havia sido uma opção. Tentei me livrar de objetos, pensamentos e lembranças, colocá-los todos juntos em uma caixa que, com o tempo, se perderia nas esquinas da memória ou de uma cidade qualquer. Passei boas horas, dias, semanas, talvez até mesmo meses, ocupada com a tarefa de me livrar do passado e, finalmente, viver o presente, com a esperança de que os dias futuros se mostrassem melhores do que aqueles sem expectativa que eu estava vivendo. Reuni cartas, presentes, lembranças de beijos, abraços, sorrisos e o desejo de estar novamente junto a ela, separei-os de todo o resto, mas o que havia restado? Como me livrar de parte de mim? Mesmo após tanto tempo, a resposta ainda não me era familiar.
Fosse como fosse, ela ainda estava ali. Minhas lágrimas eram as suas, minha dor era a sua, assim como minhas necessidades e medos. Era ela me olhando de volta sempre que eu me olhava no espelho, ou me dando um beijo de boa noite, mais uma vez, quando meus olhos já haviam se fechado e eu me entregava – ou será que já havia me entregado? — ao cansaço que me consumia após passar mais um dia apenas sobrevivendo.
A certeza de que as coisas não mudariam fazia parte do meu repertório de pensamentos já há algum tempo quando uma possibilidade de mudança veio até mim durante uma tomada súbita de consciência: eu precisava voltar a viver e não podia desistir antes mesmo de tentar.
Os poucos raios de sol que atravessavam o céu nublado eram como uma lembrança de que aqueles dias de inverno chegariam ao fim e, naquele momento, foi como se tivessem me atingido, certeiros: senti meu coração disparar e, por algum tempo, foi verão.
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