If I Had a Gun...
3 My eyes have always followed you around the room
O salão — um local que ostentava uma riqueza exagerada para a ocasião e comportava mais pessoas do que o necessário — parecia menor visto do segundo piso. Vistas de cima, todas aquelas pessoas pareciam iguais com seus vestidos e trajes formais que manifestavam a necessidade por atenção, uma tentativa quase desesperada de demonstrar status. Eram todos convidados daquele que eu desprezava; aquele que dentre os vários defeitos – ou vícios – que lhe eram atribuídos, tinha como o mais desprezado por mim sua necessidade de se vangloriar de tudo o que possuía: seus carros, casas, riquezas e sua esposa, que tinha mais valor do que qualquer pedra rara, mas que era tratada como um pedregulho qualquer.
De onde eu estava, podia observá-los juntos. Ele sorria, feliz por ter tudo o que tinha e segurava o braço de uma de suas posses – um toque visivelmente bruto -, mantendo-a perto, exibindo-a como exibiria um troféu. Ela sorria um sorriso forçado, não era o sol que tanto me encantava, era agora um eclipse — a lua insistia em sobrepor e esconder a intensa luz que era antes constante. Era infeliz. Possuía as mais belas jóias, o mais belo vestido e as mais belas feições, mas a felicidade lhe fora negada quando, por sua família, fora obrigada a casar-se, há pouco mais de um ano.
Deixei meu posto de observadora, contrariando a força dentro de mim que me impedia de tirar os olhos daquela que meu coração nunca esquecera, aquela de quem meus olhos sentiram falta, a que fazia minha existência valer a pena, a que me mostrara ser possível ouvir o som tão alto do silêncio, que entre nós, sempre tinha o que dizer; sempre havia o que ser dito, mesmo que não em palavras. Afastei-me até já não poder vê-la, meu coração pareceu se contrair, apreensivo; meus olhos já sentiam falta de apreciar a beleza da mais bela criatura que já haviam visto, mas o mal que me faria deixar de olhá-la por alguns instantes era menor do que o medo de não poder tê-la pelo resto da vida.
Desci os largos degraus acarpetados com lentidão dos que têm pressa, a pressa dos que têm medo de que esta possa por tudo a perder. Caminhei de modo a parecer parte daquele cenário tão fútil. Eu — com meus sapatos altos e vestido longo preto; os lábios discretamente pintados e os cabelos curtos penteados — esperava me camuflar em meio a todas aquelas mulheres tão vulgarmente diferentes de mim.
Pessoas vinham de todas as direções, pareciam ter escolhido aquele momento específico para cruzar o salão como se quisessem ser, deliberadamente, barreiras que me impedissem de concluir meu objetivo. Entretanto, eu estava certa de que nada poderia me deter naquele momento em que tudo parecia tão certo. Desviei de todos os homens e mulheres que passavam deixando para trás nuvens de finos odores que se misturavam, perdendo suas valiosas identidades. Avancei mais alguns passos e, finalmente, ali estava ela. Meu coração disparou e me mover se tornou tarefa impossível durante aqueles poucos segundos em que estávamos mais próximas do que havíamos estado em um ano inteiro. Ela ainda não havia se dado conta de minha presença, mas eu a olhava atentamente. Seu rosto ainda era o mesmo, apesar de parecer estar encoberto pela sombra de sua infelicidade e, mesmo de longe, eu sabia que sua pele continuava tão macia quanto havia sido quando eu podia tocá-la. Usando um vestido longo tão alvo quanto sua pele, ela se assemelhava a um anjo. Cachos de seus cabelos ruivos, agora mais compridos, tocavam a pele de seu ombro e colo. Parecia fazer parte de uma bela e triste pintura.
E então ela me viu. Seus olhos, antes estrelas sem vida, agora brilhavam, renascidos, e iluminavam tudo ao redor, como uma supernova. Seus lábios, pintados de vermelho, separaram-se para que um sorriso – o mais lindo dos sorrisos – pudesse se formar e, finalmente, iluminar meu mundo.
Foi então que, mais rápido do que eu pudera imaginar, seu sorriso desapareceu, ela se voltou em direção ao homem ao seu lado, disse-lhe algumas palavras, virou as costas e, sem sequer me olhar mais uma vez, se foi.
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