If I Had a Gun...
1 If I had the time, I'd stop the world and make you mine
Seus olhos costumavam brilhar como qualquer pedra preciosa jamais havia brilhado; o sorriso transformava qualquer dia de inverno em um de verão. Seu sorriso era o sol e seus olhos, estrelas. Possuíam sua própria luz, sua própria história, seu próprio encanto. Costumavam me manter próxima como se houvesse um campo gravitacional ao seu redor que me atraísse e impedisse de me afastar, de olhar ou de desejar qualquer coisa que não fosse ela, apesar de tal coisa nunca me ter passado pela cabeça.
Naquele dia, seus olhos estavam tristes. Nos seus lábios era noite – o sol havia se escondido para dar lugar a uma fria escuridão. Era início de inverno, e continuaria a ser até o inicio da primavera, pois eu não teria mais seu sorriso — minha escapatória particular àquele intenso e triste frio. Sem o sol, nuvens carregadas ocuparam seus olhos e choveram lágrimas tão pesadas e salgadas que me fizeram imaginar quantas delas seriam necessárias para que se formasse um pequeno oceano ali mesmo; um oceano de amarguras.
Seus lábios não tocaram os meus, permaneceram distantes como se a distância daquele momento pudesse tornar a que viria a seguir mais facilmente suportável. Tocou-me o rosto com seus dedos e neles pude sentir a maciez de seus lábios, que me foram negados. Minhas lágrimas salgavam sua pele macia e a dor contida nelas – eu sabia –, ela podia sentir, pois ambas compartilhávamos da dor silenciosa oferecida àqueles a quem o amor é negado. Seu toque era uma promessa silenciosa de bem-estar – em longo prazo, eu calculava, visto que o bem-estar nunca me seria pleno, não enquanto outro possuísse o sol e as duas únicas estrelas que compunham meu universo.
Eu já não sentia seu toque quando olhou em meus olhos pela última vez, era ainda o mesmo olhar doce e o mesmo amor disfarçados pela dor de uma despedida, encobertos pelas pesadas lágrimas que ainda insistiam em deixar seus olhos.
Virou as costas antes que eu a pudesse olhar o suficiente por uma última vez, repassar cada detalhe de seu rosto e corpo em minha mente, detalhes que eu já conhecia como se fizessem parte de mim – ela era parte de mim. Antes que eu pudesse pensar em qualquer outra solução, como a chamar de volta para que pudéssemos viver de novo o amor que enchia nossas almas, ela já estava muitos passos distante de mim.
Marchava lentamente com o arrependimento e o pesar de quem deixa pra trás aquilo que sempre desejara pelo resto da vida e se aproximava com receio e amargura daquele por quem tivera que desistir de tudo, aquele que lhe prometeria o amor que nunca seria suficiente e o carinho que nunca preencheria seu vazio, porém, aquele que a chamaria de sua. Aquele que lhe daria uma aliança e possuiria um universo. Meu universo.
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