If I Die Young
20 Stop This Train Somewhere in Between
Notas iniciais
O liquido vermelho escuro era sorvido mais uma vez pelos lábios já torporizados pelo álcool de Elena. A garrafa de vinho já estava vazia sobre a mesa de ferro, enquanto Elena, agora um pouco ébria, fitava o céu estrelado que cobria sua cabeça. Aquelas estrelas, tão brilhantes e distantes, pareciam as mesmas de treze anos atrás. Elena não sabia dizer se era a bebida deturpando seus pensamentos, ou se eram apenas lembranças de momentos vividos há muito tempo, que precisavam ser relembradas, e por isso se aproveitavam de sua guarda baixa para resurgirem a mente entorpecida de Elena.
Ali, sentada sob aquele céu escuro cheio de pontos reluzentes, sentindo o vento frio esfriar o rubor em suas bochechas, era como voltar a alguns anos atrás. Era como está deitada novamente no capo do carro de Damon, fitando aqueles mesmos pontos de luz no céu, escutando suas musicas preferidas enquanto ela tentava esconder de si mesma e de Damon a ansiedade que a presença dele ao seu lado lhe trazia ao estômago.
Umas duas horas atrás, Damon a havia lhe beijado de maneira tão doce e adorável, que ela ainda podia sentir o calor envolvente dos lábios deles nos seus. Elena não sabia como reagir, ninguém a havia dito como reagir depois de ter seu primeiro beijo, e isso não estava em nenhum manual, porém a forma normal e costumeira com que Damon a tratava, não era como ela esperava que fosse. ‘No name face’, o segundo álbum de uma das bandas preferidas de Elena, Lifehouse, já estava em suas ultimas músicas, indicando que eles já haviam passado muito tempo deitados ali, apenas olhando as estrelas e conversando sobre coisas relevantes. Elena parou alguns instantes e fechou os olhos, absorvendo os versos ritmados na voz de Jason Wade, para logo depois cantarolar junto com ele o refrão de ‘Somewhere in Between’.
'Cause I'm waiting for tonight
Por que eu estou esperando por hoje
Then waiting for tomorrow
Então esperando pelo amanhã
And I'm somewhere in between
E eu estou preso em algum lugar no meio disso
What is real and just a dream
O que é real e (o que é) somente um sonho?
Naquele momento Elena sentiu um tremor lhe percorrer todo o corpo, mas não fora o vento frio seu causador. E se tudo aquilo não havia passado de um sonho? E se sua expectativa por aquela noite houvesse sido tão grande, que quanto se viu frustrada pela rejeição de Matt, delirou que Damon a beijasse? Elena suspeitava de sua própria sanidade em alguns momentos. No entanto, aquele sabor inebriante, que estava impregnado em seus lábios, era marcante e único demais, para ter sido criando por sua mente.
_ Por que parou de cantar? – A voz de Damon soou em seus ouvidos, chamando sua atenção, porém quando ela o fitou, ele parecia concentrado em fitar no céu acima deles, a fazendo duvidar de seus próprios ouvidos. – Eu gosto quando canta...
_ Ah, hã... Foi mal... – Elena disfarçou o seu alivio ao saber que Damon realmente havia dito alguma coisa – Eu nem percebi que havia parado...
_ No que estava pensando? – Damon ainda mantinha seu olhar para os céus enquanto falava.
_ Eu não sei direito... – Elena voltou seu olhar para as estrelas, pousando suas mãos sobre a barriga,, tentando amenizar aquela sensação de pequenas asas batendo em seu estomago. Ela respirou fundo, antes de voltar a falar, e esclarecer suas duvidas – Eu não consigo distinguir o que é sonho e o que é realidade...
_ Depende, muitas realidades são tidas como sonhos... – Damon deu de ombros, fazendo com que Elena bufasse pelo descaso.
_ Eu estou falando dessa noite... – Elena falou nervosamente, voltando seu olhar para Damon, que fez o mesmo, prestando mais atenção a garota ao seu lado – Foi real ou foi só um sonho?
_ Acho que estamos presos em algum lugar no meio disso...
Depois das palavras enigmáticas de Damon, eles entraram no carro e voltaram cada um para sua casa. No dia seguinte nada havia deixado de ser como era, nem mesmo a amizade entre eles dois. Era como se realmente tudo aquilo não tivesse passado de um sonho. No entanto, algo de real ficou guardado no peito de Elena naquela noite. Algo que ela demorou a descobrir e definir, mas que depois disso ela veio escondendo de todos, e até de si mesma. O motivo? Naquele momento, quase que totalmente adormecida pelo vinho tinto, nada lhe passava. Medo? De ser rejeitada, magoada, não correspondida? Medo das mudanças que aquilo acarretaria? Medo de sentir? Nem ela sabia mais dizer o que era, mas de todo jeito era tarde demais pra isso.
Elena virou o resto do liquido em sua taça, e voltou-se para a garrafa sobre a mesa a fim de enchê-la novamente, porém a garrafa estava vazia, o que a fez exclamar baixinho um xingamento. Ela tombou sua cabeça para trás, frustrada, não só pela garrafa vazia, mais também pelas lembranças que teimavam em assola-la.
_ Ei, acho que está precisando disso... – Elena levantou a cabeça exaltada, a tempo de ver Rebekah depositar outra garrafa de vinho, já aberta, sobre a mesa – Me desculpa se te assustei... Stefan me disse que você quis ficar aqui mais um tempo...
_ O que mais ele te contou? – Elena perguntou em um tom de brincadeira meio sombrio, enquanto se servia do vinho recém-chegado.
_ Bem, ele me contou que você havia brigado com Damon... – Rebekah deu de ombros com um sorriso amarelo nos lábios, enquanto se sentava na cadeira que antes Stefan ocupava – Por isso trouxe mais vinho, achei que fosse precisar...
_ Obrigada... – Elena retribuiu o gesto de Rebekah com um sorriso, um pouco sôfrego, e depois sorveu um pouco do vinho, dessa vez, branco e seco. – Não precisava vir até aqui, você não está em condições pra isso...
_ Eu vim aqui por que sou sua amiga, também por que quando eu precisei de um amigo, você esteve lá... – Rebekah sorriu amavelmente para a garota ao seu lado – Eu me sinto como se te devesse uma...
_ Você não me deve nada...
_ Como não? – Rebekah a olhou, incrédula, como se Elena estivesse a insultando de algum jeito – Eu passei momentos difíceis quando me vi amando o irmão mais novo do meu namorado. Eu estava perdida, e não sabia o que fazer. Como você era melhor amiga do Damon, eu achava que você acabaria exagerando as coisas, foi por isso que eu te tratava mal, e te afastava de mim... E por isso eu sinto muito, pois você foi a única pessoa que conseguiu me escutar e me ajudar naquele momento...
_ Ei, não me coloca como responsável, eu só disse pra você seguir seu coração e ir com calma, e não pra assumir um relacionamento com o Stefan logo depois de terminar com o Damon, e ainda fugir com ele pra Itália...
_ É, eu posso ter levado as coisas um pouco na correria... – Rebekah deu de ombros, culpada, mas ainda assim com um sorriso largo no rosto – Mas mesmo assim, não tenho arrependimentos, pois tudo que eu fiz me trouxe até aqui...
_ Fico feliz em saber... – Elena sorriu afavelmente para a loira ao seu lado. – E também fico feliz em ter sido sua cúmplice...
_ Bem, agora é minha vez te ajudar...
_ Não acho que posso ser ajudada na minha situação... – Elena fitava o liquido claro em sua taça com um sorriso sôfrego nos lábios. – Mas tudo bem, eu sobrevivo...
– Eu sei que o assunto é o Damon, você deveria ligar pra ele... – Rebekah falava tranquilamente, como se fosse algo simples.
_ Talvez, quando meu sangue estiver embebido em álcool! – Elena disse com escárnio, virando novamente a taça de vinho e se servindo de outra.
_ Isso é impossível! Esse tempo todo e vocês ainda não conseguem assumir um para o outro que se amam? – Rebekah disse exaltada, recebendo um olhar confuso da morena ao seu lado – Não me olhe desse jeito, vocês não enganam ninguém! Mesmo na época em que eu namorava Damon, eu já sabia que ele sentia alguma coisa por você. E você... Nossa, estava na cara que estava caidinha por ele, mas mesmo assim não falava nada! Isso sempre me deu nos nervos! Dez anos, e ainda fico nervosa com isso...
_ Eu acho melhor você ir pra dentro, não pode ficar pegando friagem no seu estado...
_ Dio mio! Você está parecendo o Stefan agora! Não faça isso, não faça aquilo! Você está grávida, mulher! – Rebekah falava com deboche enquanto fazia uma imitação muito ruim da voz de seu marido. Mesmo contrariada, ela se levantou da cadeira, mas antes de ir voltou a falar – Eu posso até ir, pois eu estou mesmo com frio, mas eu vou te falar a mesma coisa que você me disse há dez anos... Siga seu coração, independente do que aconteça, esse é único jeito de se encontrar felicidade, e uma vida sem arrependimentos...
Elena assentiu com um sorriso amarelo no rosto, enquanto via Rebekah fazer seu trajeto de volta pra casa. Como ela queria ser capaz de seguir os conselhos de Rebekah e seguir sua vida em pleno jubilo ao lado de Damon. Mas isso ao cabia mais a Elena decidir. Ela não tinha mais o direito de ama-lo, não depois de descobri sobre sua condição.
***
_ Como está a ressaca? – Stefan perguntou com um sorriso divertido nos lábios enquanto mantinha sua visão na estrada a sua frente – Rebekah me disse que você estava depositando as magoas nas garrafas de vinho...
_ Que exagero, só foi duas garrafas, uma deles estava já pela metade, e a outra foi Rebekah mesmo quem trouxe... – Elena disse no mesmo tom brincalhão que Stefan usava, ajeitando os óculos de sol, que impedia que os raios solares aumentassem sua dor de cabeça.
Os primeiros raios de sol haviam chegado muito antes do que Elena imaginava. Logo depois do café, Elena e Stefan adentraram no porsher, e dirigiram em direção à estação ferroviária de Florença, e alguns minutos depois, eles já estavam se despedindo no meio da estação. Stefan não aparentava está tão confortável com a situação quanto ele queria transmitir, e mesmo que sentisse o desconforto vindo dele se misturar ao seu próprio, Elena ainda mantinha um sorriso calmo em seus lábios tentando dizer, mais para si do que para o rapaz a sua frente, de que havia tomado à decisão certa.
_ Você tem certeza de que quer ir de trem? – a voz de Stefan soou preocupada aos ouvidos de Elena – Eu posso te levar até o aeroporto...
_ Não precisa se preocupar, eu vou ficar melhor indo de trem... – Elena deu um sorriso amarelo enquanto tentava manter longe de seus olhos o temor que a assolava. Em verdade, Elena não queria que Stefan soubesse que temia encontrar Damon pelo aeroporto, pois ela sabia que se o visse novamente, sem duvida alguma voltaria atrás com suas decisões – Eu gosto de andar de trem, e faz algum tempo que não ando em um... Quero relembrar algumas coisas...
_ Tudo bem, então... – Stefan assentiu positivamente, aceitando os motivos de Elena.
_ Stefan, antes de ir, tem algo quero te dizer, e talvez não tenha chance de dizer novamente... – Elena fitou suas mãos inquietas e suadas por alguns segundos, respirando profundamente, antes de voltar o seu olhar para Stefan, que esperava ela continuar a falar – Durante todos esses anos, eu nunca fui capaz de perseguir o que eu queria, e depois de um tempo eu me acomodei... E eu percebo agora que eu fui uma imbecil durante todos esses anos, e continuo sendo, pois ainda não consegui superar meus medos... Mas você não, por mais que sentisse medo você não se deixou abalar, você seguiu o que seu coração lhe dizia e é por isso que eu te admiro... Pela sua capacidade de se entregar de corpo e alma as coisas. Por isso me sinto em paz quando penso em você, em Rebekah, em Enzo, e na pequena Nina que vem por ai...
Elena lhe sorriu amavelmente enquanto deixava algumas lagrimas descerem por seu rosto. Damon podia ter o rancor e a raiva que quisesse, mas tinha que admitir que Stefan e Rebekah viviam em um lar cheio de amor, carinho, cumplicidade, dentre muitas outras qualidade, mais principalmente verdadeiro. Stefan a puxou pela manga do seu casaco de frio, e a envolveu em seus braços e apoiando seu queixo no ombro da garota enquanto a abraçava com força.
_ Não se preocupe com nada... – Elena retribuía o abraço com intensidade, enquanto tentava evitar molhar o casaco de Stefan com suas lagrimas — Se mantenha apenas focado na ideia de viver plenamente e se feliz...
_ Sinto muito que as coisas sejam assim, Elena... Você foi como uma irmã em todos esses anos, não só pra mim como pra Rebekah. Nós sentiremos sua falta... – A voz de Stefan soou chorosa em seu ouvido, e ela pode sentir o corpo de Stefan tremer graças ao choro que ele tentava esconde. Ele a soltou, e com a cabeça baixa, se pós a limpar rapidamente as lagrimas que lhe escaparam. – Prometa que me ligará assim que chegar na estação de Valência? Assim poderei ficar menos preocupado...
_ Eu ligo sim, prometo. Não se preocupe comigo... – Elena assentiu com um sorriso afável nos lábios. – Cuide bem da Rebekah e do Enzo, e assim que Nina nascer, dê um beijo nela por mim, e entregue o presente que deixei pra ela...
_ Eu entregarei... – Stefan afagou os cabelos lisos da morena a sua frente, os bagunçando um pouco, como um irmão faria com a caçula da família. Elena o olhou, irritada, mas logo voltou a sorrir, tentando ignorar o sofrimento que seu coração teimava em bombear a cada batida — Vai com Deus, Elena...
Ela assentiu em um leve gesto de cabeça e um sorriso afável nos lábios, para logo depois pegar sua bagagem que estava ao seu lado, e ainda sorrindo começou a seguir seu caminho, acenando para Stefan toda vez que se virava e o encontrava a fitando com os olhos vermelhos e os lábios em uma linha fina e rígida. Elena embarcou no trem, e caminhou por entre as poltronas até encontrar a designada a ela, assim como estava escrito no canhoto de sua passagem. Assim que a encontrou, Elena colocou sua bagagem no suporte sobre sua cabeça, e se sentou em sua cadeira de couro azul. Da onde estava sentada, não era possível ver Stefan, o que fez Elena agradecer mentalmente, pois ela não saberia se conseguiria manter sua fachada por muito mais tempo.
Elena escutou uma voz soar pelos alto-falantes, anunciando a todos a ultima chamada para o trem direto para Valência, e logo o restante dos passageiros adentraram e ocuparam seus lugares. Quando todos já estavam acomodados, o comissário anunciou a saída do trem, e discretamente, Elena pode senti-lo começar a se mover lentamente sobre os trilhos, antes de pegar velocidade. Elena pegou seu aparelho celular, e colocou os fones de ouvido, colocando sua playlist no aleatório. Imediatamente a melodia suave começou dominar a sua mente, trazendo lagrimas aos seus olhos. John Mayer embalava seus pensamentos, cantando Stop this train, como se aquela fosse a trilha sonora de sua vida.
Stop this train
Pare esse trem
I want to get off
Eu quero sair
And go home again
E voltar pra casa novamente
I can't take the speed it's moving in
Eu não posso medir a velocidade em que se move
I know I can't
Eu sei que não posso
But honestly won't someone stop this train
Mas honestamente, ninguém irá parar esse trem.
Enquanto escutava a serena e rouca voz ressoar aquelas palavras por sua mente, Elena se via cada vez mais dentro daquele contexto. E naquele momento, tudo que ela mais queria, era que alguém parasse aquele trem e a levasse pra casa, pois ela já não conseguia suportar o rumo que sua vida havia tomado, nem a velocidade com que estava indo em direção ao seu destino. Talvez fosse por isso, que depois de três horas de viagem, Elena desceu aflita, em busca dos braços que tanto conhecia, e que sempre a acalentava. E assim que viu Miranda em meio à multidão, Elena saiu correndo em sua direção, e a abraçou poucos segundos antes de desabar de joelhos no chão, levando sua mãe junto com ela. Elena chorava no ombro de sua mãe, como jamais havia chorado em sua vida. Lagrimas banhavam seu rosto, enquanto seu coração parecia descansar no aconchego dos braços conhecidos de sua mãe.
_ Tudo bem, querida... Pode chorar... – Miranda afagava suas costas enquanto soluços faziam Elena tremer em seus braços – Calma... Tudo vai ficar bem, mamãe vai cuidar de você...
Elena se separou alguns centímetros de sua mãe, percebendo seus orbes castanhos emoldurados pelas olheiras profundas que manchavam seu imaculado rosto. Miranda sabia, é claro, Jeremy jamais omitiria algo assim da própria mãe, ainda mais quando se dizia respeito a sua própria irmã. Elena a fitou confusa, mas antes que ela pudesse sua mãe a abraçou novamente, a envolvendo em seus braços, transmitindo tranquilidade a mente perturbada de Elena.
_ Você está em casa, meu anjo...
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