If I Die Young
15 Por Paris...
Notas iniciais
Elena andava sem rumo pelas ruas da cidade das luzes. Seus olhos inchados e as lagrimas que desciam por seu rosto incansavelmente já não a incomodavam, e nem os possíveis olhares que atrairia para si andando por ai desse jeito. A questão era que Elena já estava tão inerte em seu próprio pranto, que nada exterior parecia ter importância naquele momento.
Ela se sentou em um dos bancos comunitários em meio a um parque, se aconchegou mais em seu casaco e por ali ficou, sentindo a brisa fria seca a umidade de seu rosto, enquanto tentava não se afundar mais em sua mente, que fazia questão de reviver cada momento importante vivido por ela, e o que é realmente estranho, mas não perturbador, era que em que todos eles, Damon estava. Ele sempre esteve presente em minha vida, e agora ele está presente em minha morte... Um tanto quanto Shakespeariano não? Elena sorriu cinicamente ao próprio pensamento, mas não pode evitar sentir o quão martirizante e atormentador foi o mesmo, o que fez com que novas lagrimas se acumulassem em seus olhos.
Seu telefone tocou novamente dentro do bolso de seu grosso casaco. Ele já havia tocado inúmeras vezes desde que havia decidido sair do quarto de hotel antes que Damon chegasse e a visse no estado em que se encontrava. Aparentemente ele havia chegado, as várias ligações e mensagens de Damon em seu celular era a prova disso, mas ela não o atendeu ou sequer retornou uma das ligações dele. Ela sabia que isso o deixaria preocupado, mas ela não estava em condições de lhe dirigir a palavra. Por mais que ela quisesse esquecer e deixar pra trás, seus pensamentos, dúvidas e sentimentos a atormentavam demais para poder encara-lo ou falar com ele. Damon a conhecia bem demais para deixar qualquer coisa passar por seu olhar minucioso, e ele acabaria descobrindo que havia algo estava acontecendo, e ela não sabia como lidar ainda com essa possibilidade.
_ Elena?
Uma voz conhecida soou aos ouvidos de Elena, a tirando de seus pensamentos de um jeito abrupto e violento. Sua garganta fechou e um arrepio temeroso lhe subiu pelas costas enquanto Elena subia seu olhar, rezando para que tenha apenas sido algo vindo de sua imaginação. Seus olhos se arregalaram em aflição no mesmo instante em que seus olhos focaram no rosto da pessoa que estava parada a sua frente, com uma jaqueta preta, cabelos lisos e castanhos escuros jogados despojadamente para trás e um sorriso perplexo no rosto tão familiar.
_ Jeremy... – Elena sussurrou depois de engolir o bolo que havia se formado em sua garganta. – O que faz aqui?
_ Eu que te pergunto!
O irmão de Elena deu alguns poucos e largos passos, diminuindo a pequena distancia que havia entre eles. Elena se pós de pé no mesmo instante e com dificuldades em enxergar seu irmão, o pirralho que a irritou durante anos, naquele homem alto e forte a sua frente. Em um movimento rápido, Jeremy a puxou para um abraço apertado e cheio de saudades, que Elena retribuiu com vontade.
– O que você está fazendo em Paris? Não me avisou que viria pra cá, achei que estava em Nova York... – Ele perguntou assim que a soltou de seus braços.
_ E eu estava... Quer dizer, eu estava uma semana atrás... Vim fazer um pequeno tour pela Europa, antes que... – Elena pigarreou enquanto desviava o olhar, tentando escolher bem as palavras antes de dizer algo precipitadamente ao seu irmão.
_ Vem, vamos tomar alguma coisa e conversar...
Antes que Elena pudesse sequer pensar no que dizer ao irmão, Jeremy passou o braço pelo ombro de sua irmã, assim como ela fazia quando eles eram crianças, e a levou rumo a um das muitas cafeterias que existiam ali. O clima era ótimo, e o cheiro de café que se espalhava pelo ambiente e o som do acordeão tocando uma melodia suave dava um ar mais aconchegante e francês a tudo. Eles se sentaram em uma das mesas dispostas no local, um pouco mais isolada do que as outras, rapidamente uma garçonete os atenderam. Jeremy, em seu francês polido e charmoso, fez os pedidos e a mesma se retirou, os deixando a sós.
_ Então... – Jeremy começou a falar – O que você veio fazer em Paris?
_ Bem, eu... eu me demiti do jornal, e em seguida vim pra Europa...
Elena disse dando de ombros. Jeremy apenas a fitou confuso, e assim que ele ia falar alguma coisa, a garçonete trouxe os pedidos o ocupando mais um pouco. Elena fitou o irmão com admiração, enquanto ele estava falando algo em francês com a moça loira que os atenderam inicialmente. Ele já estava crescido, e em seu semblante não havia nenhum vestígio do pequenino de cabelos castanhos e bochechas rosadas, as quais ela adorava apertar para irrita-lo. Elena sorriu com nostalgia, e suspirou pesadamente, dizendo a si mesma, que com Jeremy ela não conseguiria protelar, ela teria que ser honesta com ele.
_ Como assim se demitiu do jornal? – Jeremy perguntou perplexo, passando a ela a xícara de café que a garçonete deixou sobre a mesa – Achei que gostasse de lá...
_ Inicialmente sim, mas isso não tem a ver com o motivo... – Elena desviou seu olhar para a xícara fumegante de café em suas mãos, e Jeremy ficou esperando que ela continuasse. Elena respirou profundamente antes de continuar – Jeremy, eu tenho que te contar uma coisa, mas ela tem que ficar entre nós, pelo menos por enquanto... Eu me demiti, e em seguida vim fazer um tour pela Europa, pois eu estou doente.
_ Doente? – Jeremy perguntou um pouco extasiado, com rosto um pouco pálido.
_ Sim, eu estou doente... Eu tenho uma síndrome, de um nome muito estranho, mas em resumo... – Elena engoliu nervosamente o bolo em sua garganta que impedia que sua voz saísse normalmente e voltou a falar – Eu vou... Eu estou com uma doença incurável, e letal... O que me dá alguns poucos dias.
Jeremy permaneceu estático, com seu olhar perdido sobre o rosto de Elena. Ela pode ver os olhos castanhos de seu irmão se encherem de lagrimas, e o mesmo morder a parte interna das bochechas pra impedir que as lágrimas escapassem. Ele pigarreou, uma ou duas vezes, até que pudesse novamente encontrar a própria voz.
_ Vo-cê. Você vai morrer? – a voz de Jeremy saiu esganiçada.
_ Acho que é isso o que ‘letal’ quer dizer... – Elena disse ironicamente, assim como sempre fazia com ele, mas recebeu um olhar de reprovação do irmão – Desculpa.
_ Você contou pra mamãe? Pro Damon? – Ele perguntou preocupado.
_ Não, pra nenhum dos dois... – Elena meneou a cabeça – É pra isso que estou aqui, quer dizer, na Europa... Eu acho que dizer uma coisa dessas por telefone não é muito saudável, por isso eu estava indo até a Espanha, pra ficar com vocês durante... um tempo.
_ Ok, mas e o Damon? Ele sabe que você está aqui?
_ Ele veio comigo... – Elena murmurou envergonhada pela sua fraqueza – Mas não consigo falar á ele... Eu consigo ver o quanto ele vai sofrer tentando me salvar, e mais ainda quando não conseguir...
_ Mas ele tem que saber Elena! – Jeremy disse nervoso – Ele tem o dever! Damon sempre esteve ao seu lado, nada mais justo do que ser verdadeira com ele, assim como você está sendo comigo...
_ Eu sei que é injusto com ele, mas eu não quero que ele sofra... – Elena sentia as lagrimas queimando por detrás dos olhos, e o choro subindo pela sua garganta. Era um peso enorme para carregar sozinha, e muito tempo escondendo. – Está sendo horrível pra eu ter que fingir algo assim, eu não consigo pensar direito, e meu coração parece que vai explodir dentro do meu peito, e toda vez que Damon me olha, eu me sinto horrível. E depois do que aconteceu em Amsterdam, tudo se tornou pior...
_Se acalma Elena! O que aconteceu em Amsterdam? — Jeremy perguntou confuso com a enxurrada de palavras que sua irmã estava derramando diante dele.
_ Nos bebemos demais, e acabamos dormindo junto... – Elena disse nervosa enquanto apoiava a cabeça sobre as mãos, escondendo o seu rosto – Depois disso tudo ficou pior... Por mais que eu tente esquecer que tudo aquilo aconteceu, ele está sempre lá pra lembrar... E eu me lembro muito bem de tudo que senti naquela noite, e de tudo que eu senti durante toda a minha vida. Tudo que eu mais quero agora, é esconder, não só dele, mas de mim mesma tudo isso, pra que quando eu me for não seja mais doloroso pra ele...
_ Você o ama.
Jeremy disse conclusivamente, fazendo Elena tirar as mãos que lhe cobria o rosto e fitasse seu irmão. Ele havia resumido tudo que ela tinha dito em uma única oração, com um único verbo. Um verbo que Elena vinha evitando durante anos avidamente, principalmente nessa ultima semana que passou com Damon, mas aquela era a verdade... Ela realmente o amava, sempre o amou, e se a situação não tivesse mudado tão drasticamente como mudou, ela continuaria guardando esse segredo consigo mesma até o dia em que de fato deixasse esse plano. No entanto, a noite que passou com Damon em Amsterdam, fez com que os sentimentos dormentes e guardados durante anos afinco, acordassem e com a força de todos esses anos de reclusão.
_ Sim, eu o amo... – Ela assumiu com um sorriso sôfrego dominando seus lábios, agora úmidos pelas lágrimas – Mas isso não muda nada...
_ Como assim não muda? – Jeremy perguntou exaltado – Muda tudo! Você o ama, e eu não tenho nenhuma duvida da reciprocidade! Damon daria a vida por você...
_ Não, você não está entendendo... – Elena disse nervosamente, interrompendo Jeremy — Eu não quero que ele dê a vida por mim, só quero que ele fique comigo só mais um pouco, para que eu me sinta viva por uns míseros dias...
_ Elena...
_ Você realmente não entende... — Elena chegou um pouco mais perto de seu irmão, se inclinando sobre a mesa redonda entre eles – Se eu contar ao Damon tudo que eu tenho guardado durante tanto tempo, só vai fazer com que ele sofra muito mais quando eu me for, e isso é algo que eu não quero... Não quero que ele sofra, não quero que ele fique triste por sentir falta de algo que não pode acontecer. Eu vou morrer antes que ele sequer tenha conhecimento disso, e ele nunca vai precisar saber... Ele não vai precisar ficar triste ou sentir minha falta...
_ Elena, você sabe que o que você quer é impossível... – Jeremy disse calmamente, fazendo sua irmã olha-lo um pouco – Ele vai sentir sua falta, não importa pra onde você vá, ou o que diga pra ele...
_ Ele não vai sentir, eu vou me certificar de que ele não irá sentir... – Elena sorriu forçada e sofregamente enquanto se levantava – Eu tenho que ir, por favor não diga nada a mamãe, eu mesma a direi pessoalmente...
_ Elena... – Jeremy se levantou e segurou sua irmã pelo braço antes que ela saísse correndo daquele lugar como era a vontade dela – Eu não vou contar á mamãe, acho certo você dizer... Mas quanto ao Damon, eu espero realmente que você consiga resolver essa situação antes que ela se torne complicada demais pra isso... Você pode até não querer assumir o que realmente sente, mas isso não impede que ele sinta. E não é mentindo pra si mesma e para Damon que as coisas vão se resolver...
_ Achei que eu fosse a mais velha... – Elena sorriu amavelmente enquanto passava o braço pela cintura de Jeremy e o abraçava com ardor. – Eu te amo Jer, obrigada pelo café...
_ Eu também te amo, Lena... – Jeremy tinha a voz chorosa enquanto escondia seu rosto nos cabelos soltos de sua irmã – Obrigada por tudo, eu sinto muito mesmo...
_ Eu também sinto Jer... – Elena se afastou, e sorrindo, limpou uma lágrima que escorria no rosto de seu irmão – Nós nos vemos em casa, ok...
_ Ok...
***
_ Damon, eu cheguei...
Elena gritou assim que adentrou no pequeno apartamento onde ela e Damon estavam hospedados. Ela olhou seu reflexo em um espelho localizado sobre o aparador de mogno que combinada com a moldura do mesmo e com a decoração da pequena saleta que precedia a entrada do quarto em si. A curta caminhada até ali tinha sido o bastante para que Elena recobrasse sua postura, e a expressão de quem havia passado um bom tempo chorando, se suavizasse.
_ Damon?
Ela chamou confusa pelo silencio que dominava o quarto. Elena o chamou novamente, mas sem resposta, ela saiu em busca dele pelo apartamento, que era pequeno, então sua busca se resumia em abrir a porta do quarto e procurar por ele lá dentro. Assim que abriu a porta do quarto, Elena estacou diante do que a esperava. Um vestido longo e absolutamente perfeito, estava pendurado em um suporte de frente para a porta. Elena ficou extasiada com a beleza da peça e todos os detalhes delicados que davam àquele vestido um ar angelical. Sobre a cama havia uma caixa preta aveludada, que estava entre aberta. Elena pegou a mesma, sentindo a textura macia do veludo que a envolvia, e a abriu. Seus olhos brilharam ao ver o relicário de lápis-lazúli e ouro envelhecido, o reconhecendo de uma as vitrines da feira na rua Portobello, em Notting Hill. Dentro da caixa havia um pequeno bilhete, escrito em uma bela e conhecida letra cursiva, dizendo:
“Tome um banho relaxante, se vista com calma
e depois me encontre às 18h na entrada do hotel...
Estarei te esperando,
Damon”
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