If I Die Young
16 Lapís-Lazúli
Notas iniciais
Elena se olhou no espelho, centralizando pela milésima vez o relicário de lápis-lazúli em seu colo e alisando nervosamente o tecido leve do vestido branco imaculado. O vestido era perfeito, o colar era magnífico, e com um pouco de trabalho, Elena havia conseguido transformar seus castanhos e lisos fios em cachos pesados e bem delineados, uma maquiagem leve foi capaz de esconder os vestígios que o choro deixou sob seus olhos e o batom vermelho escarlate dava um toque mais exuberante a todo o conjunto. Elena forçou um sorriso, enquanto tentava enganar sua própria consciência que teimava em repetir varias vezes sua conversa com Jeremy. Ela havia assumido que o amava, porém por mais que seu irmão dissesse e Elena soubesse que era certo contar a verdade para Damon, Elena não tinha a coragem necessária para fazer tal coisa.
_ Eu vou contar, eu tenho que contar... – Elena disse decidida fitando a si mesma no espelho – Esse é o certo, eu devo isso a ele...
O barulho do seu toque de mensagem chamou sua atenção. Era uma mensagem de Damon, dizendo que ele já estava esperando por ela na entrada do hotel. Quase que imediatamente ela pode sentir as batidas de seu coração latejar em seus ouvidos e seu estômago reclamar e se revirar em suas entranhas. Ainda de frente para o espelho, ela pode ver a cor oliva de seu rosto se tornar pálida enquanto um bolo surgia em sua garganta. Elena fechou os olhos e respirou profundamente, tentando acalmar seus nervos e o enjoou que lhe acometeu.
_ Oh, droga...
***
Damon caminhava nervosamente de um lado para o outro enquanto checava pela milésima vez o relógio em seu pulso. Já haviam se passado alguns minutos do horário que ele havia estipulado em seu bilhete e até agora nenhum sinal de Elena. Ele sabia que estava exagerando, alias eram míseros vinte e dois minutos, mas a cada minuto que se passava sua angustia aumentava. Aquilo estava o fazendo cogitar a possibilidade de que o vestido, o colar e o convite para o jantar não tenham sido uma boa ideia. Damon checou novamente seu relógio, e voltou a se encostar no capô do carro que ele havia alugado especialmente para a ocasião, com os braços cruzados, bufando impaciente.
_ Excusez-moi, monsieur?– O porteiro do hotel perguntou preocupado e com um olhar perplexo sobre Damon — Tout va bien?
_ Oui, oui... – Damon meneou a cabeça sorrindo, tentando parecer despreocupado – Está tudo bem, só estou esperando alguém...
_ Oh, sur... – o senhor de cabelos e bigodes grisalhos sorriu complacente – Parece que vem planejando essa noite há muito tempo, monsieur...
_ Muito tempo não... – Damon deu de ombros com um falso desdém – Talvez algumas horas, alguns dias... E noite...
_ A mademoiselle que está esperando deve ser muito preciosa para você... – O senhor afirmou, fazendo Damon o fitar com as sobrancelhas arqueadas em perplexidade, procurando entender o porquê parecia haver um ar sugestivo naquela simples afirmação. – Je suis désole, não quis parecer intrometido ou algo do tipo...
_ Não, está tudo bem, você tem razão... Ela é preciosa sim, mas tenho certeza que não são meus olhos... – Damon sorriu de lado, voltando seu olhar para a rua iluminada a sua frente, imaginando o quão bem o termo se adequava a Elena – Ela tem algo... Algo no jeito como ela age, fala, e é como pessoa, que a torna especial... Preciosa!
_ Sem duvida alguma não é somente sobre seus olhos... – O porteiro disse em um murmuro baixo e entrecortado, fazendo Damon voltar a fita-lo estranhamente. Ele mantinha uma expressão extasiada, enquanto fitava algo a sua frente com um brilho nos olhos quando o que levava o sorriso amarelo em seus lábios. – Imagino que sua tão esperada mademoiselle acaba de chegar...
Damon voltou o seu olhar para o lugar aonde o velho porteiro olhava com tanta admiração, e naquele instante ele sentiu seu queixo cair alguns centímetros. Saindo pela porta giratória de vidro, lá estava Elena. Ela estava tão estonteantemente angelical naquele longo vestido branco e com seus cabelos caindo em perfeitas ondas, que Damon era capaz de ver uma luz logo atrás dela enquanto o coro dos anjos ressoava aos seus ouvidos. Damon se levantou e foi de encontro à magnífica mulher parada na entrada do hotel, sorrindo um pouco desconfortável, pensando que era impossível ela ficar mais bonita.
_ Você está divina! – Damon disse se aproximando com uma expressão atônica.
_ Obrigada... – Damon pode ver o rubor tingir as maças do rosto de Elena, o que fez desconsiderar o seu pensamento anterior sobre ser impossível Elena ficar mais bonita. Elena pigarreou sem graça, enquanto sentia seu rosto queimar sobre o olhar abrasador de Damon. – Posso saber qual o motivo de tudo isso?
_ Tudo isso o que? – Damon perguntou com uma das sobrancelhas arqueadas em um falso desentendimento, fazendo Elena revirar os olhos.
_ O vestido, o colar... O jantar inesperado?
_ Ah, isso? Não é nada demais, somente estamos indo aproveitar uma noite parisiense como se deve... – Damon disse com descaso e logo depois ofereceu o braço em um gesto de cavalheirismo, o qual Elena aceitou de imediato, enroscando o seu braço ao de Damon. – Pronta...
_ Você não me deu outra opção...
Elena deu de ombros, fazendo Damon soltar uma risada baixa. Ele a acompanhou até o lado do passageiro, no qual o velho porteiro já a esperava com a porta aberta e um sorriso cativante em seus lábios parcialmente escondidos pelo bigode grisalho. Elena agradeceu com um olhar um pouco confuso, porém cortês enquanto entrava no carro e se sentava. Damon observou com estranheza porém divertido ao porteiro que olhava admirado para Elena, enquanto o mesmo fechava a porta do carro.
_ Avoir une bonne nuit, monsieur... – O senhor voltou seu olhar para Damon, e lhe referiu uma piscadela, antes de voltar ao seu posto logo na entrada do hotel.
_ Bonne nuit...
Damon disse ao adentrar no lado do motorista e dá a partida, deixando o ‘senhor’ babão para trás. Elena estreitava os lábios pintados por um batom vermelho escarlate em uma linha fina, tentando segurar uma risada, algo que não passou desapercebido por Damon, que dirigia habilidosamente pelas ruas de Paris com um sorriso dominando seu rosto.
_ Por um segundo achei que ele iria me tirar da frente e ir te levar pra jantar no meu lugar... – Damon disse divertido, fazendo Elena soltar a risada que tentava prender. – Estou falando serio...
_ E você deixaria numa boa, não é? – Elena perguntou brincalhona em meu a uma risada.
_ Nem pensar... – Damon falou serio, voltando seu olhar para Elena, a fazendo fitar seus olhos azuis profundos, fazendo a mesma engolir em seco sob o olhar impetuoso de Damon – Esta noite você é somente minha...
***
_ Onde estamos indo? – Elena perguntou curiosa, quebrando o silencio que havia se instalado no interior do Audi Q7 preto que ele havia alugado para ocasião. Damon levou uma das mãos até os lábios e fingiu tranca-los, jogando a ‘chave’ por de trás do ombro.
_ Você sabe que eu odeio surpresas... – Elena cruzou os braços enquanto um bico se instalava em seus lábios.
_ Deixa de ser curiosa... – Damon a fitou por alguns instantes, o suficiente para que ela pudesse fitar sua expressão cínica intensificada pela sobrancelha erguida e o sorriso impetuoso que ele mantinha nos lábios. – Nós nos conhecemos a anos, eu sei que você vai gostar... Confie em mim.
_ Eu sei disso, querido... — Elena lhe sorriu afavelmente – E é justamente por te conhecer como eu te conheço e confiar em você que me preocupo.
_ Auch! Essa doeu... – Damon fez uma cara de dor enquanto tocava sentido o peito, como se tivesse acabado de levar um soco no local, fazendo Elena soltar uma risada baixa – Tudo bem, eu posso deixar você tentar adivinhar... Pra onde você acha que estamos indo?
_ Hm... Levando em consideração nossas roupas, o carro, e o fato de estarmos em Paris... – Elena arqueou as sobrancelhas enquanto ponderava por alguns instantes – Uma peça de teatro, ou uma opera, talvez algum evento sofisticado em um museu ou galeria...
_ Je suis désolé, mademoiselle... – Damon disse em um francês impecável – Mas você errou, e acabaram as suas chances, então agora você vai ter que se contentar em descobrir somente quando chegarmos!
Elena voltou a cruzar os braços, fingindo está emburrada enquanto escutava a risada rouca de Damon soar pelo carro. Ela olhou para Damon de canto de olho, para que ele não percebesse que o observava minuciosamente. Damon estava impecavelmente bonito. Em verdade, Damon era maldosamente bonito, e isso era algo que ele tinha total conhecimento e que adorava usar ao seu favor. Mas naquela ocasião ele estava magnífico em seu terno preto bem cortado, de um jeito que Elena jamais viu na vida.
Seus olhos involuntariamente percorreram o corpo de Damon, e ao chegar a seu rosto, ela pode ver que ele também a observava e enquanto tentava esconder o sorriso. Rapidamente Elena voltou seu olhar para a janela ao seu lado, bufando nervosamente ao ouvir a risada nasalada de Damon. Ela se agarrou ao relicário em seu pescoço enquanto mantinha seu olhar na paisagem escura pela noite através do vidro fumê do carro. Seu estomago ainda estava inquieto, e a todo o momento ela se lembrava da sua conversa com Jeremy, e de que tinha que contar a Damon sobre sua doença. Mas como se conta ao seu melhor amigo que você está morrendo, que inicialmente você teria apenas duas semanas de vida, no entanto agora é um pouco mais que uma semana, pois ela passou metade desse tempo escondendo isso dele?
_ Lápis-lazúli é a minha pedra favorita... – Damon disse com um sorrio afável no rosto.
_ É uma pedra muito bonita... – Elena disse enquanto fitava o pingente em seu pescoço.
_ Não é pela estética... – Damon meneou a cabeça negativamente – Apesar de ser de origem italiana, eu desde pequeno sempre me interessei pela cultura egípcia, e no Egito, a lápis-lazúli tem um lugar de destaque. Os faraós as usavam na meditação, dizendo que a pedra era capaz de fazê-los adentrar em seus mistérios e estabelecer contato com os deuses, e quando um deles morria, eles pulverizavam a pedra e jogavam nos olhos dos faraós para que eles fossem capazes de encontrar a luz e ascender. Eles também achavam que ela era capaz de curar qualquer enfermo.
Elena fixou seu olhar na pedra em seu relicário, analisando com minúcia as variadas nuances e tonalidades existentes naquela única peça. E por um momento ela teve o vislumbre de um fino fio dourado de esperança, simplesmente por ter aquela pedra pendurada em seu pescoço, mas logo um sorriso irônico surgiu em seus lábios, o qual ela tratou de esconder quando voltou seu olhar para Damon.
_ Interessante, mas posso saber o porquê você escolheu me dar essa pedra?
_ Bom, não eram somente os egípcios que acreditavam na mitologia por trás do lápis-lazúli... – Damon a olhou com um brilho nos olhos azuis, e um sorriso astuto nos lábios – Os gregos, romanos e indianos a utilizavam como proteção, e eles diziam que ela era capaz de trazer força, amor e alegria pra quem a usa...
_ Então basicamente você me deu um amuleto da sorte?– Elena perguntou com uma das sobrancelhas arqueadas. — Pra me proteger e me trazer coisas boas?
_ Não exatamente... – Damon revirou os olhos para o termo usado por Elena – Nas civilizações antigas quando se presenteava alguém com uma pedra como essa, era sinal de afeto... E como se fosse um lembrete de tudo que eu sinto por você, e como eu te estimo e quero seu bem... Entendeu?
Elena voltou seu olhar para a rua a sua frente e permaneceu em silencio durante um tempo. Em sua cabeça, seu racional e seu coração se enfrentavam em mais uma batalha, onde seu pobre e bobo coração teimava em suspirar por Damon e suas palavras cheias de afeto, enquanto seu razão lhe segurava pelos ombros e gritava em seu ouvido que ela estava morrendo, que deveria se afastar e não incentivar esse tipo de sentimento. Elena centralizou o relicário em seu colo, o deixando em seu devido lugar, tentando esquecer o peso que seu significado agora fazia em seu pescoço, e ficou a fitar calada a paisagem do lado de fora, borrada pela velocidade do carro.
***
_ Chegamos...
Damon disse entusiasmado enquanto estacionava rente ao meio fio, quebrando o silencio que havia se instalado no interior do carro. Sem dizer nenhuma palavra, Elena pegou sua bolsa de mão e abriu a porta, saindo em seguida do carro. Ela se pós a observa o lugar onde Damon a havia trago, era um restaurante cinco estrelas, muito bem conceituado e conhecido em todo o mundo. Elena olhou confusa para Damon, sem saber como ele havia conseguido uma reserva naquele restaurante tão em cima da hora, ou por que ele a havia trago ali. Damon a segurou delicadamente pelo braço, e a guiou para parte de dentro do restaurante, mas não sem antes jogar as chaves do automóvel para o valet que estava na entrada. Ele falou algo em seu francês impecável com a recepcionista, e com um sorriso receptivo ela os guiou entre as mesas dispostas pelo lugar até a que seria deles de fato, entregou a carta de vinhos para Damon e os deixou a sós.
_ Posso saber por que você me trouxe aqui? – Elena perguntou perplexa, recebendo um olhar um pouco chateado de Damon.
_ Eu achei que você fosse gostar...
_ Não é isso, Damon... – Elena suspirou audivelmente, enquanto sentia uma fina e incomoda dor transpassar sua cabeça – Eu só não imagino o porquê você me trouxe aqui... Sem tirar que é tudo muito caro, e conseguir uma reserva aqui deve ter lhe custado os olhos da cara...
_ Não se preocupe com isso, Elena... – Damon revirou os olhos diante das preocupações de Elena – Alias, já que quer tanto saber, eu não te trouxe aqui sem motivos.
_ Será que posso saber qual são?
_ Talvez eu possa... – Damon disse com seu rotineiro tom de ironia, mas ele voltou o seu olhar para o cardápio em suas mãos. – Mas antes me ajude a escolher um vinho...
_ Damon... – Elena o olhou com reprovação, o fazendo bufar – Eu odeio quando você faz isso!
_ Quando eu faço o que especificamente? – Damon continuou a usar de sua ironia exarcebada.
_ Odeio quando é irônico comigo! – Elena murmurou entre dentes enquanto olhava para os lados, se certificando de não ter chamado a atenção de ninguém para ambos – Odeio quando me esconde as coisas...
_ Não estou escondendo nada. Estou omitindo alguns fatos, somente isso!
_ Omitir é esconder! – Elena disse nervosamente, recendo novamente um revirar de olhos de Damon, mas o que realmente a incomodou foi o desconforto que surgiu em seu estomago e a sua dor de cabeça que pareceu aumentar em um nível quase que insuportável – Dá pra você me dizer logo o por que de ter me trago aqui?
_ Tá, tudo bem, sua estraga prazeres... – Damon bufou, largando a carta de vinhos na mesa – Eu te trouxe aqui, pois eu quero tratar de negócios com você...
_ Negócios? – Elena o fitou confusa sem entende o que ele queria dizer – Como assim? Que tipo de negócios?
_ Bom, há algumas semanas eu recebi uma proposta do hospital central de Londres. Eles me ofereceram uma vaga como clinico geral...
_ Nossa, isso é ótimo! – Elena disse contente por seu amigo.
_ Sim, é ótimo, mas eu não aceitei.
_ Como assim? – Elena perguntou exaltada, porém logo se lembrou de onde estava, e voltou a falar educadamente – Como assim não aceitou? Você mesmo disse que o sistema de saúde da Inglaterra era o melhor do mundo, e que era seu sonho trabalhar em um hospital em Londres...
_ Sim, eu ainda quero, mas eu simplesmente não poderia deixar você pra trás... – Damon segurou a mão de Elena que estava sobre a mesa, acariciando os nós dos dedos esguios de Elena enquanto ele lhe sorria afetuoso – Eu não iria te deixar em Nova York e ir pra Londres sem mais nem menos! Mas então você foi demitida, e depois você quis fazer um tour pela Europa, o que fez uma pequena lâmpada acender em minha cabeça...
_ Que ideia, Damon? – Elena olhou preocupada para a expressão marota no rosto de Damon. Ela sentiu seu estomago se revirar antecipadamente a resposta de Damon. – O que você fez?
_ Eu não fiz nada, eu simplesmente pensei um pouquinho... Você estava livre de qualquer compromisso, e o hospital de Londres disse que manteria a proposta de pé durante alguns dias caso eu mudasse de ideia... – Damon deu de ombros ponderando – Na nossa primeira noite em Londres, antes de você acordar assustada, eu peguei seu laptop e enviei aquela sua matéria, a mesma que o Mason disse que estava mal formulada e enviei para The Guardian...
_ Você o que? – Elena tirou abruptamente sua mão da de Damon enquanto o fitava com os olhos arregalados. – Como você envia minha matéria pra um dos mais importantes jornais de todo o mundo sem a minha autorização?
_ Elena, você sempre quis trabalhar em um jornal que fosse bem conceituado, eu só te fiz um favor! – Damon disse na defensiva – E como eu disse, eu não ia te deixar sozinha em Nova York, então se eu fosse aceitar o emprego, eu tinha que te arrastar comigo de algum jeito...
_ Isso foi totalmente idiota da sua parte, Damon! Você não tinha autorização pra fazer isso! – Elena murmurou entre os dentes, recendo um olhar confuso de Damon – Eu não acredito que você fez isso... Você já pensou no que eu quero? E se eu não quiser vim morar na Inglaterra? E se eu não quiser deixar Nova York? Já passou pela sua cabeça que talvez eu não quisesse isso?
_ Bom, talvez eu tenha me precipitado um pouco, mas agora já é um pouco tarde demais... – Damon disse com um dar de ombros – Eles responderam o meu e-mail quase que imediatamente, dizendo que estavam muito interessados em conhecer a jornalista que fez a matéria, e agora, Rose Marie Cohan, a correspondente do jornal aqui em Paris está vindo nos encontrar...
_ O que? – Elena perguntou estática. – Damon...
_ Me agradeça depois... – Damon se levantou com um sorriso afável nos lábios enquanto murmurava para Elena — ela está vindo pra cá...
Elena virou se em sua cadeira, olhando para a direção que Damon mantinha seu olhar, encontrando uma majestosa mulher de cabelos curtos e expressão marcante andando graciosamente até eles. Elena se levantou com um sorriso no rosto, porém a única coisa que ela conseguia pensar naquele momento era na dor em sua cabeça e as contrações que assolavam seu estômago, misturada com a vontade louca de enforcar Damon em meio a todos aqueles parisienses bem trajados.
_ Bonjour, você deve ser Monsieur Salvatore... – a mulher de cabelos curtos disse em um forte sotaque francês enquanto estendia sua mão coberta por uma luva vermelha vinho para Damon, o cumprimentando.
– Enchanté... – Damon disse com um sorriso sedutor nos lábios enquanto levava os lábios lentamente até a mão de Rose e a beijava. – Muito obrigado por vir...
_ Eu que agradeço. – Rose lhe sorriu retribuindo em dobro a sedução por alguns segundos, mas que para Elena pareceu à eternidade. Elena pigarreou incomodada chamando a atenção de Rose e Damon, que olhava estranhamente para a mulher vestida com um vestido de veludo vinho extremamente decotado nas costas. – Hm... Essa deve ser a mademoiselle Gilbert, a escritora daquela incrível matéria!
_ Prazer em conhecê-la, me chame de Elena... – Elena estendeu a mão em um cumprimento, o qual Rose retribuiu com vontade – Sinto muito que tenha que ter lido a minha matéria... Na verdade, ela estava ainda muito crua, e minha vontade é de enforcar meu amigo por enviar algo assim a um dos maiores jornais de todo o mundo!
_ Que isso! Sua matéria estava tudo menos crua! – Rose disse com animação enquanto ocupava a cadeira vaga ao lado de Damon e gesticulava para que os outros dois voltassem a se sentar – Eu li, e particularmente amei sua ousadia... Você não tem medo de denunciar o errado, não omitiu nada, nem deturpou nenhum fato, o que muitos jornalistas têm medo de fazer, tirando aqueles, é claro, que são corrompidos pelo poder...
_ Essa é uma das muitas qualidades da Senhorita Gilbert aqui... – Damon disse com um sorriso amável dirigido para Elena ao seu lado – Eu a conheço há anos, e eu coloco minha mão no fogo por ela... Ela é incapaz de dizer uma mentira, ou de omitir ou deturpar algo crucial e importante...
Damon não reparou, mas enquanto referia elogios exacerbados à morena ao seu lado, Elena engolia em seco empurrando a bile que teimava em subir por seu esôfago enquanto ela sentia cada palavra de Damon apunhala-la como uma faca. Damon a olhava admirado, mas ele não fazia ideia que pela primeira vez em sua vida ela havia ido contra seus princípios e escondido a verdade da pessoa mais importante de sua curta vida. As palavras de Jer e os elogios de Damon ressoavam aos seus ouvidos enquanto ela via a culpa crescer e inundar seu peito.
_ Elena... – Rose a chamou um pouco impaciente, chamando a atenção de Elena – Está tudo bem?
_ Sim, desculpa... – Elena meneou a cabeça tentando afastar de si aquele sentimento que aos poucos ia a consumindo – Eu estava um pouco distraída, o que dizia?
_ Disse que é uma sorte ter um amigo como Monsieur Salvatore... – Rose voltou seu olhar sedutor para Damon, enquanto Elena pensava ter escutado Rose dar um pouco mais de ênfase na palavra ‘amigo’ do que necessário.
_ É o que eu digo todos os dias pra Elena, mas quem disse que ela me escuta... – Damon deu de ombro desdenhoso, para logo voltar seus olhos azuis profundos para Rose, chegando um pouco mais perto dela e sussurrando próximo ao seu rosto – Finalmente algum que me compreende...
O que ele pensa que está fazendo? Elena pensou enquanto analisava toda aquela cena perplexa. Damon debruçado sobre a mesa, olhando profundamente nos olhos de Rose como se fosse capaz de hipnotiza-la com aqueles olhos extremamente azuis. Suas sobrancelhas arqueadas e o sorriso de lado eram o bastante para que Elena deduzisse o que estava se passando ali. Damon estava flertando com Rose Marie, na sua frente, sem nenhum escrúpulo ou respeito pela sua presença. Ele está flertando com Rose... Elena pensou, sentindo a dor em sua cabeça aumentar relativamente enquanto seu estomago voltava a se contorcer em suas entranhas, e seu coração pensar em seu peito, batendo tão forte e desesperadamente que Elena era capaz de escuta-lo bater em seus ouvidos.
Elena praguejou mentalmente enquanto tomava em um só gole do vinho que o garçom havia acabado de servir nas taças dispostas à mesa. Quem havia pedido vinho? Elena se perguntou, mas logo abandonou seus questionamentos, tudo que ela queria era amenizar aquele incomodo que a assolava. Ela não tinha certeza se conseguiria disfarçar tempo suficiente, e tinha medo que Damon percebesse sua dor. Elena simplesmente não conseguia entender por que aquele incomodo a estava dominando. Há alguns dias ela estava bem, e agora esse enjoou e dores de cabeça a haviam tomado quase que completamente, mas então ela se lembrou de algo. Algo que ela jamais poderia desconsiderar... Ela estava doente, e como qualquer doença ou síndrome, existiam sintomas, e foi quando ela se deu conta. Retardados ou não, os sintomas de sua condição uma hora iriam encontra-la e fazê-la se sentir mal e derruba-la.
Elena se lembrou de ler alguma coisa sobre sua síndrome na internet, e se lembrou também de alguns dos sintomas, e agora que ela havia considerado tal coisa, ela pode perceber que tudo se encaixava. Dores de cabeça, enjoos, fraquezas... Tudo isso fazia parte do pacote, mas não era somente isso. Elena se recordava de ter lido algo sobre convulsões, dificuldade na fala e escrita, perda parcial ou total da visão, tudo dependendo da parte do cérebro onde os malditos e intratáveis tumores nasciam. Novamente Elena se viu engolindo em seco enquanto sentia o desespero subir pela sua espinha em forma de um assustador calafrio. Elena escutou ao longe a voz de Rose falando seu nome com entusiasmo. Ela falava algo sobre salário, seguro, plano de saúde, condições de trabalho, função... Elena se viu confusa em meio a tudo aquilo.
_ Então Elena, quando pretende começar no The Guardian? – Rose perguntou sem parecer ter percebido o desconforto de Elena. – Tenho certeza que todos em Londres estão ansiosos pra conhecê-la...
_ Sinto muito... – Elena conseguiu dizer depois de alguns segundos, com sua voz soando entrecortada – Eu não posso aceitar, sinto muito...
_ Excusez-moi? – Rose perguntou estranhando a atitude de Elena. – Foi alguma coisa nos termos que não lhe agradou? Não se preocupe tudo pode ser alterado e adaptado do jeito mais viável para ambas as partes...
_ Olha, eu sinto muito que tenha perdido seu tempo vindo aqui... — Elena disse enquanto ela se colocava de pé, já prestes a sair. – Eu não posso aceitar sua proposta, sinto muitíssimo... Eu preciso sair daqui...
_ Elena? – Damon a olhou incrédulo segurando Elena antes que ela pudesse sair correndo dali. – O que está acontecendo?
_ Me desculpe, Damon... — Elena o fitou com os olhos cheios de lagrimas e culpa antes de se soltar seu braço do aperto de Damon e sair correndo daquele restaurante, deixando um Damon confuso e abismado para trás.
_ Você pode me explicar o que está acontecendo? – Rose perguntou sem entender nada do ocorrido, mas não houve nenhuma resposta. Ela virou-se na direção de Damon, se dando conta de que o mesmo já havia saído correndo atrás de Elena. Rose revirou os olhos, e voltou a solver o liquido vermelho de sua taça.
***
Damon dirigiu por todas as ruas de Paris que Elena poderia está, a procurando. Ele estava preocupado. Mas que preocupado, Damon estava confuso. Elena havia saído correndo daquele restaurante, o deixando para trás, sem mais explicações. Droga... Ele socou o volante de couro, mas não sabia se estava frustrado por não tê-la encontrado ou por ela tê-lo deixado pra trás sem mais nem menos. Elena vinha agindo de um jeito estranho ultimamente, e ele tinha certeza que havia algo que ela estava escondendo, e isso estava tirando as noites de sono de Damon. Ele retirou o celular de seu bolso e discou o numero do hotel onde estavam hospedados, logo no primeiro toque Damon pode ouvir uma voz o saudando em francês, que ele reconheceu como sendo a do porteiro assanhado do hotel.
_ Gastón... Sou eu, Salvatore... – Damon disse o nome que havia visto no crachá do velho senhor da portaria – Por algum acaso a senhorita que saiu comigo retornou ao hotel?
_ Oui, oui, monsieur Salvatore. A mademoiselle acabou de subir, chegou de taxi...
_ Obrigado, Gastón... – Damon desligou sem nem sequer ouvir o que o velho Gastón tinha pra falar, e violenta e abruptadamente girou o volante, fazendo o carro girar na pista, recebendo diversas reclamações e buzinas. Damon não se importou, simples e agilmente engatou a marcha e saiu mais que depressa em direção ao hotel.
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