If I Die Young
18 Geleiras de Diamante
Notas iniciais
A água morna caia sobre a cabeça de Elena, molhando gradativamente o restante de seu corpo, o relaxando aos poucos. Elena não se sentia bem, ainda mais depois da noite nada pacata que teve. Algum tempo após Damon entrar, Elena fez o mesmo, somente para perceber que estava sozinha no quarto. Aparentemente Damon havia pego as chaves do carro que alugou e saiu logo após a pequena discussão que eles tiveram. Elena tentou dormir, mas ter conhecimento de que Damon estava por ai, fazendo sabe-se lá o que, foi o bastante para acabar com o resto de tranquilidade, o que no seu caso já lhe faltava. Se já não bastasse isso, as dores de cabeça, e os enjoos só fizeram aumentar com a preocupação, o que resultou em uma noite andando no meio da escuridão daquele quarto de hotel.
Elena saiu do chuveiro, passando uma toalha ao redor de seu corpo e outra nos cabelos molhados. Assim que colocou os pés para fora do banheiro, ela deu de cara com Damon, adentrando no quarto, ainda vestido com o terno da noite anterior. Ele mantinha seus olhos fixos ao chão, como se houvesse algo que os mantivessem presos ali, impedindo que Elena os fitasse. Ele fechou a porta atrás de si, e quando levantou seu olhar, Elena pode ver a vermelhidão ao redor dos orbes claros e sem vida, fazendo a agonia e aflição queimarem em seu peito com ainda mais intensidade. Damon desviou seu olhar do de Elena, voltando sua atenção para qualquer coisa que não fosse a mulher seminua a sua frente.
_ Você passou a noite fora... – Elena murmurou tristemente, quebrando o silencio incomodo que havia se instalado naquele cômodo – Eu estava preocupada.
_ Sinto muito, eu não estava me sentindo bem, não queria te preocupar... – Damon disse com escárnio enquanto ele repetia suas palavras, um sorriso duro surgiu rapidamente em seus lábios, mas logo desapareceu, assim como a sua vontade de permanecer ali – Eu vou dormir...
_ Espera! – Elena disse mais alto do que planejado, chamando a atenção de Damon antes que ele fosse de fato dormir – Nosso voo sai ao meio dia...
Damon não respondeu, apenas acenou com a cabeça e voltou a fazer seu caminho até o cômodo que era uma espécie de dormitório, batendo a porta do mesmo. Ele estava chateado, isso era obviu. Mas, isso era o que ela queria, não era? Que ele se afastasse dela, que a evitasse, a odiasse, todavia por que diabos era tão doloroso vê-lo agir daquele jeito? Elena respirou profundamente, ignorando as lagrimas que ardiam atrás de seus olhos e concentrando seus pensamentos em outras coisas, como na dor de cabeça que vinha a perturbando desde o dia anterior. Ao menos assim ela mantinha sua cabeça em outra coisa além do moreno transbordando sarcasmo e fúria trancado no quarto. Elena tratou de pegar as roupas que ela mesma havia separado que estavam sobre o pequeno sofá no meio daquela saleta e voltou ao banheiro, batendo a porta quase na mesma força que Damon havia batido.
***
A playlist nada melancólica e um tanto quanto animada que soava pelos fones de ouvido de Elena era responsável por manter seu pensamento longe enquanto ela bebia sua terceira taça de um vinho francês qualquer em uma mesa no bar do hotel. Eram dez da manhã, muitos diriam que era muito cedo para começar a beber, ainda mais sem tomar café da manhã, mas Elena não estava se importando com isso, a única coisa que ela queria era o torpor que se seguia após a ingestão de álcool. Tudo que ela queria era não sentir. Por alguns instantes ela se lembrou de sua serie de vampiros preferida, e como eles conseguiam magicamente desligar sua humanidade. O que ela não daria para conseguir essa dádiva, mesmo que por alguns míseros minutos. Mas assim como na serie, ela acabaria se dando conta de desligar sua humanidade era apenas um atalho temporário, uma forma falha de enganar sua própria mente, da mesma maneira que ela esperava que o vinho agisse sobre ela. O real problema seria quando ela não estivesse mais sobre o efeito. Tudo voltaria, e em uma intensidade muito maior do que antes.
_ Oh merda... – Elena praguejou baixinho, seus lábios curvados em total desagrado – Eu nunca vou poder ver o final da minha serie preferida...
Elena fez um muxoxo, nada satisfeita com o que havia acabado de perceber. Mas logo um riso irônico surgiu em seus lábios, enquanto o quão aquilo havia sido engraçado e sombrio ao mesmo tempo. Lá estava seu humor negro novamente. Elena sorveu mais um gole do líquido vermelho em sua taça, e voltou sua atenção para o celular em sua mão. As horas estavam passando rápido, como se soubessem que o tempo havia se tornado algo valioso para ela, e agora quisessem brincar com sua cara.
Logo eles Damon e ela iriam para o aeroporto, e em breve partiriam para Itália, onde eles finalmente teriam que seguir seus próprios caminhos, separados. Elena tinha certeza que jamais veria Damon, não pessoalmente. Ela nunca teria a chance de dizer tudo que ela vinha escondendo há anos, e talvez ele nunca saiba de sua doença ou de que um dia ela o amou e como doeu esconder tudo isso dele durante tanto tempo. Talvez assim ele não sinta falta dela, quem sabe ele ignore sua existência por ser a garota que destroçou seu coração. Ela preferia assim, preferia ser a garota que o abandonou, do que ser a garota covarde e medrosa que nunca encarou seus sentimentos e mentia pra única pessoa que um dia chegou a amar em toda sua vida.
Por mais que ela preferisse jamais vê-lo sofrer por nunca terem tido a oportunidade de viverem um romance juntos, a certeza de que aquele sentimento seria esquecido e enterrado junto consigo era algo que a perturbava imensamente. Assim que chegassem à Itália tudo estaria perdido, e ele jamais saberia a verdade, e por mais que isso lhe tirasse o sossego, ela não tinha coragem de encara-lo. Mas ele merecia saber a verdade, talvez não agora, mais quem sabe um dia.
_ Excusez-moi... – Elena chamou uma garçonete que passava perto de sua mesa - Pouvez-vous me prêter un stylo et une feuille de papier?*
_ Oui,juste un moment...
A garota miúda de cabelos loiros escuros e olhos azuis esverdeados lhe sorriu e foi em direção ao balcão, para logo em seguida entregar a Elena duas canetas pretas, um bloco de folhas cor de creme com o timbre do hotel e, como se adivinhasse sua vontade, um envelope branco. Elena agradeceu com um sorriso e com um aceno de cabeça a garçonete voltou ao trabalho, deixando Elena sozinha novamente. Ela olhou para o bloco de papel, e respirou fundo. Aquela era sua chance de um dia se explicar para Damon seus sentimentos, seus pensamentos, suas vontades e suas atitudes. Elena pegou uma das canetas e a apoiou no topo da pagina, e com em uma letra cursiva um pouco tremida pelo nervosismo, mas ainda sim, muito bem desenhada, começou: Querido Damon...
***
_ Senhores passageiros, voltem aos seus devidos acentos, em questão de minutos estaremos pousando no Aeroporto San Salvatore. Agradecemos por voar conosco da AirItalian, esperamos que todos tenham uma ótima estadia, e benvenuti a Roma.
A voz calma e um tanto robotizada da comissária de bordo soou pelos autofalantes espalhados pelo avião, anunciando a chegada deles na Itália. Elena suspirou aliviada por aquelas quase duas horas de silencio torturante e desconfortável terem finalmente acabado. Damon não havia dito sequer uma palavra desde que se encontraram no bar do hotel para seguirem para o aeroporto. Ele apareceu alguns minutos antes do meio dia, e apenas jogou algumas notas de euro sobre a mesa que Elena estava sentada, e gesticulou para que ela o seguisse em direção a saída do hotel. Nada, nenhum ‘oi’, ou ‘vamos’, nem um sorriso duro e forçado, ou gentileza, apenas frieza e um aceno de cabeça nada afável.
_ Eu não sabia que sua família era dona de um aeroporto... – Elena disse descontraída com um sorriso brincalhão nos lábios enquanto ela tentava quebrar o gelo com uma piada leve e totalmente sem graça.
_ Salvatore é um nome muito comum, principalmente aqui na Itália. Não vá pensando que todo Salvatore é meu parente...
Damon respondeu grossamente e sem tirar os olhos do livro que ele havia comprado em uma das lojas do aeroporto. Rapidamente ar brincalhão de Elena desapareceu de seu rosto assim como seu sorriso, dando lugar a uma expressão confusa e até um pouco assustada, onde suas sobrancelhas estavam arqueadas e sua boca entreaberta. Desconfortavelmente Elena voltou seu olhar para a paisagem do lado de fora da janela. Damon sempre era grosso com Elena quando estava chateado com algo que ela havia feito, mas logo ele a puxava para um abraço e pedia desculpas pelos seus modos. Aquilo havia sido diferente, as palavras de Damon foram duras e frias assim como geleiras, no entanto até as geleiras derretiam, naquele caso, elas se tornaram diamantes, inquebráveis e extremamente rígidas. Se ele já estava assim somente pelo acontecido na noite anterior, imagine depois que ele descobrir os planos de Elena para Itália.
Assim que o avião pousou, Damon se levantou pegando as bagagens de mão que ele havia guardado no gabinete logo acima de suas cabeças, colocou as de Elena sobre seu banco, e novamente sem sequer dirigir a palavra a Elena ele foi em direção a saída sem ela em seu encalço. Quando Elena deu por si, Damon já passava pela porta. Ela engoliu em seco sua magoa, do que ela tinha que reclamar, aliás, aquelas eram as consequências de seus próprios e conscientes atos. Elena desceu do avião tentando não deixar que as lágrimas que embaçavam sua visão caíssem livres por seu rosto. Ela se dirigiu para o portão de desembarque, e para sua surpresa lá estava Damon a esperando. Ele sorriu sem graça quando seu olhar encontrou com o dela, mas Elena não parou apenas seguiu seu caminho, passando direto por Damon.
_ Ei, Elena... – Damon a chamou depois de bufar pesaroso. Ele deu alguns passos largos e logo estava ao seu lado – Desculpa por antes...
_ Não tem problema...
Elena respondeu indiferente, sem sequer voltar seu olhar para Damon, e continuou seu caminho até o portão de desembarque 21051. Seus olhos buscavam a cabeleira castanha característica do outro lado, mais um pouco e estaria tudo acabado. Elena mostrou o passaporte para o segurança ao lado do portal de saída, que assim que conferiu seus dados lhe entregou seus documentos e lhe sorriu dizendo um ‘bem vindo’ em um italiano perfeito. Antes que Elena pudesse seguir Damon a segurou pelo braço e a virou fazendo com ela ficasse de frente pra ele.
_ Elena eu não... – Damon começou a dizer, mas algo, ou melhor, alguém atrás de Elena o fez parar, e apertar o braço de Elena com mais força, enquanto seu olhar se tornava vermelho de raiva – O que você está fazendo aqui?
Elena se soltou seu braço do aperto de Damon, e voltou seu olhar para onde Damon olhava com tanta fúria. Ela não precisava olhar para saber do que se tratava, ela mesma havia o chamado ali. A sua frente, estava Stefan Salvatore divinamente vestido em um casaco grosso de lã azul marinho e calças jeans de lavagem escura, seu cabelo castanho estava perfeitamente penteado, assim como ele costumava usar durante os anos de ensino médio. Ele segurava uma plaquinha, escrito ‘Gilbert’ e uma carinha formada por um sinal de dois pontos e um ‘D’ maiúsculo. Stefan havia estacado no lugar, seu rosto havia se tornado pálido e seus olhos demonstravam o resentimento de praticamente dez anos.
_ Oi Stefan... – Elena respondeu com um sorriso cálido nos lábios.
_ Você sabia que ele viria até aqui? – a voz de Damon saiu agressiva pelos lábios rígidos e os dentes trincados enquanto ele ainda dirigia um olhar faiscante para seu irmão a sua frente.
_ Eu o chamei... – Elena virou-se para encarar o olhar de Damon se tornar confuso e incrédulo – Já se vão 10 anos de rancor Damon, não acha que está na hora de deixar tudo àquilo pra trás?
_ Damon...
Stefan deu um passo pra frente, seu olhar marejado implorava pela afeição de seu irmão, mas infelizmente Damon voltou a fita-lo com raiva no olhar, o que fez com que Stefan se refreasse. Damon voltou-se para Elena a fitando com repulsa, seus lábios tremiam relutantes em dizer algo. Elena o fitou com expectativa, esperando pela enxurrada de insultos e xingamentos, no entanto, para contrariar seu pensamento, Damon apenas meneou sua cabeça com raiva no olhar, e se virou, tomando um caminho oposto ao que eles estavam.
_ Você deveria ir atrás dele... – Stefan disse com sua voz embargada.
_ Está tudo bem... – Elena engoliu o choro que havia se formado em sua garganta, e voltou a fitar Stefan atrás de si, forçando um sorriso. Stefan a fitou confuso, mas antes que ele pudesse retrucar, Elena o interrompeu – Vem, tenho que pegar minha mala... No caminho nós conversamos.
[continua]
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