Idiotas vinculados

2 O Pedido Concedido


Notas iniciais
Eai galera aí está mais uma parte das nossas aventuras. Beijinhos pra quem ler :3

Sabe aqueles dias que você dorme tanto que da vontade de correr quando acorda? É eu estava sentindo isso.

Acordei em uma sala iluminada, com algumas pessoas transitando de um lado para o outro. Reparei que estava numa maca, olhei para a minha direita e vi o professor Felix deitado com o peito enfaixado e tremendo. Ainda bem ele está vivo – fiquei aliviado.

À esquerda da minha maca estava o homem ao qual pertencia a voz sábia. Eu nunca delirei sobre isso, pelo menos: ele realmente era meio homem e meio cavalo.

– Você esta bem, Henry? – preguntou

– Onde eu estou? Onde estão Jessie e Marine? – disse assustado.

– Elas estão se acomodando no chalé 11, aguardando sua recuperação. – disse ele com um sorriso – Já expliquei tudo a elas e elas pareceram aceitar bem.

Respirei fundo.

– Por quanto tempo fiquei desacordado?

– Algumas horas. – disse ele rindo – Você é forte, garoto. Aquele cão infernal devia ter feito vocês em pedaços.

– Eu não sei como é que eu fiz aquilo – disse levantadas as mãos e mexendo a cabeça. – Eu simplesmente segui algo que me mandou entrar em ação.

– Era seu pai – disse o cara serio – seus instintos de batalha te protegeram, porque você é um semideus.

Fiquei em silencio por um momento, então me lembrei das meninas.

– Espera... o que é Chalé 11? – perguntei

– Isso eu vou lhe mostrar agora. Levante-se – ele me ajudou.

Quando me levantei percebi que minhas costas não doíam mais.

– O que houve com minhas costas? – perguntei surpreso

– Os filhos de Apollo te deram néctar e te curaram com as habilidades deles. Eles são de grande ajuda aqui no acampamento – disse ele apontando para algumas das pessoas que estavam na enfermaria.

Saímos da enfermaria e nos deparamos com campos de morango que lançavam uns aromas perfumados por todo acampamento. Olhei para o cara meio homem meio cavalo e me lembrei de uma coisa.

– Você não me disse seu nome.

– Quanta falta de educação, esqueci de me apresentar. – disse ele, dando uma risadinha no final. – Meu nome é Quíron, e eu sou um centauro, diretor do Acampamento Meio-sangue, e este é um acampamento projetado para abrigar e proteger muitos semideuses dos males que o mundo lá fora impõe sobre eles. Sobre vocês.

Acenei com a cabeça, envergonhado de ter pensado que o sátiro era um psicopata. Continuamos andando pelo acampamento e chegamos a um local onde se encontrava vários chalés, alguns maiores e outros menores. Um brilhava e o outro era cheio de plantas, um era cor de rosa e ouviam-se muitos gritinhos de felicidade lá de dentro, o outro era preto com tochas verdes e, quem quer que seja que dormisse ali, não é uma pessoa lá muito fã de luz.

Chegamos perto de um Chalé que era muito normal comparado aos outros, a única extravagância era que acima da porta havia um caduceu com asas contornado por duas cobras.

– E este é o chalé 11, o Chalé de Hermes.

– Cada Chalé é para um deus?

– Não, é para os filhos de cada deus se hospedar – explicou ele – Mas como Hermes é o deus dos viajantes e desabrigados, é para cá que os semideuses que ainda não foram reclamados vêm.

Por dentro o chalé parecia incrivelmente maior do que por fora. Beliches e colchões estavam espalhados por todos os cantos, deixando pouco espaço para móveis extras. Não sei por que, mas me senti confortável assim que entrei ali.

Quíron me desejou uma boa adaptação e saiu do chalé. Fui para o fundo do aposento e vi Jessie e Marine arrumando suas camas no chão junto com um cara que segurava alguns lençóis nos braços. Ele olhou para mim e disse:

– Ah! Aí está você!

Isso alertou Jessie, que se levantou e veio até mim, verificar se estava tudo bem. Disse que estava bem e perguntei quanto à ela. Vi que ela não tinha nenhum ferimento, porém Marine estava com um curativo no braço. Quando percebeu o que eu estava olhando, Jessie disse:

– Eu me machuquei mais feio que ela, mas ela se recusou a comer ambrósia. Não sabe o que está perdendo.

Dei de ombros e virei minha atenção para o rapaz com os lençóis. Ele tinha um sorriso travesso, era magro, alto e moreno, aparentava ter 17 anos.

– Eaí! – desse.

– Prazer em conhecê-lo, Henry! Meu nome é Kyle Ackermann. – disse ele, estendendo a mão.

– Prazer em conhecê-lo. – Aceitei o aperto de mãos.

– Isso. — disser rindo – sou o líder o Chalé de Hermes, cuido da organização e comportamento dos semideuses desse chalé, caso você não tenha percebido aqui é sempre bem lotado — ele foi interrompido por uma garota loira de cabelos cacheados e olhos verdes que tinha o mesmo sorriso travesso que o dele que vestia uma camiseta laranjada escrito “Acampamento Meio-Sangue”. Era a menina com quem Marine conversava quando chegamos ao acampamento.

– Kyle! – disse ela ofegante – Felipe roubou a lança de um filho de Ares e agora eles estão tentando se matar, acho melhor você ir lá.

– Droga, de novo, já é a segunda vez na semana – disse ele irritado. – estou indo, fique aqui com eles e os ajude a se hospedarem — disse ele apontando para nós com o queixo e entregou as colchas que estavam na mão dele para min. — Vejo vocês no jantar pessoal, até mais. – e saiu.

Olhamos todos para a menina que ficou no lugar de Kyle. Ela passou o olho por todos nós, cumprimentou Marine – chamou ela de Mari, na verdade — e decidiu se apresentar:

– Olá... pessoal, sou Katherine Reynolds, substituta do Kyle quando ele não está presente — disse ela envergonhada. Acho que ela é um pouco tímida.

– Prazer um conhece-la Katherine – dissemos eu e Jessie. Ela deu um sorriso. Nos apresentamos também.

Enquanto arrumamos nossas camas no chão, eu e Jessie começamos a conversar sobre o que aconteceu em baixo do monte, ela contou sobre minha espada que brilhava muito, segurei o meu pescoço para checar que meu colar continuava ali – quem pôs de volta a colar no meu pescoço? – pensei, mas decidi deixar esse assunto para lá e continuar conversando. Marine continuava calada, sem dizer nenhuma palavra.

Pouco depois, Katherine nos avisou que era hora do jantar e pediu para que a seguíssemos. Ela nos guiou para um lugar onde havia várias mesas e uma fogueira enorme. Boa parte delas já tinha alguns semideuses. A nossa era a mesa mais lotada, mas algumas não ficavam muito para trás. Outras, entretanto, não tinham uma alma viva, e algumas tinham um ou dois campistas apenas. Perguntei à Katherine a motivo disso, e ela me disse:

– Uma mesa é de Ártemis, a deusa donzela. A outra é de Hera, cuja natureza do matrimônio não permite ter filhos com humanos. As outras duas são de Zeus e Hades, que têm se comportado bastante desde a última vez que tiveram filhos e isso causou um baita alvoroço. Os últimos filhos deles ainda estão vivos, mas não frequentam mais o acampamento. A filha de Zeus virou uma caçadora de Ártemis, e o filho de Hades nunca morou nesse acampamento. Só durante um verão, mas essa é uma longa história. Ele já deve ter cerca de 23 anos agora.

– Tem uma mesa que só tem um menino.

– Sim, aquele é um novato filho de Poseidon. Ele também não teve muita sorte com seu último filho. Um herói famoso entre nós, semideuses. Percy Jackson era o nome dele. Se sacrificou para salvar o mundo do renascimento da titã Gaia. Não faz muito tempo, sabe? Ele era apenas alguns anos mais velho que o último filho de Hades.

– Acho que eu entendi. – Foi quando surgiram de todos os cantos garotas estranhas, porém bonitas, carregando pratos cheios de comida.

Fiquei as observando intrigado, até que Kyle, notando minha confusão, explicou:

– Estas são as ninfas. Elas trazem o que você desejar comer, você só precisa imaginar.

Eu tinha vontade de comer lasanha, e mal o pensamento me ocorreu, uma ninfa de pele esverdeada e cabelos castanhos se aproximou com um prato da minha comida preferida. Sorri para ela e agradeci.

Estava com muita fome, não comia nada desde o café da manhã. Olhei para a minha direita e vi que Jessie havia pedido um prato de macarronada. Ela também devia estar com fome, porque o prato veio bem cheio. Marine, entretanto, só pedira uma fatia de pizza marguerita, e não parecia ter vontade de comer sequer isso. Havia também um copo de suco de uma cor alaranjada intensa.

Percebi que alguns dos campistas que terminavam de comer se levantavam e formavam uma fila em frente à fogueira. Fechavam os olhos e atiravam o que restou de comida no fogo. A comida sumia em um instante, e em alguns casos havia uma alteração na cor das chamas e no aroma da fumaça.

– Ah. — Começou Katherine. – Quando vocês querem pedir ou agradecer alguma coisa a algum dos deuses, vocês deixam um pouco de comida para servir como oferenda à fogueira na hora da prece.

Eu tinha que agradecer a Apolo pelos meus ferimentos curados, assim como Jessie. Nos levantamos e chamamos a Mari para ir conosco. Ela simplesmente deu de ombros e disse:

– Não tenho nada a agradecer.

Jessie imitou seu gesto e seguimos em direção à fogueira. Enquanto estávamos na fila, observei que atrás da fogueira havia uma grande mesa com três pessoas sentadas. Reconheci Quíron ao centro, utilizando agora uma roupa esportiva ao invés de uma armadura. À sua direita, um senhor de aparência desgastada com uma camisa extravagantemente estampada de coral com verde limão. À esquerda de Quíron, se sentava uma garota loira de olhos esverdeados que aparentava ter cerca de 16 anos.

Chegou a vez de Jessie, ela fechou os olhos, fez sua prece e jogou o alimento no fogo. O aroma que exalou do fogo era maravilhoso. Agora era a minha vez.

De última hora, troquei meu agradecimento à Apolo por um pedido a meu pai – seja lá quem fosse. Não sabia se era assim que as coisas funcionavam, nem muito bem o que pedir, então foi na base da improvisação.

Pai? Hum... se você estiver me ouvindo, me olhando ou algo do tipo, me dê um sinal de que você existe, pra que eu possa saber que isso não é tudo parte de um delírio de minha mente?

Joguei a lasanha no fogo e estava me preparando para sair da fila quando vi que Jessie estava apontando para a minha cabeça com os olhos brilhando. Olhei pra cima, mas não vi nada.

– Tem um super tridente reluzente aí em cima, véi. – Jessie constatou, com toda sua sabedoria. Do outro lado da fogueira, Quíron se levantou sorrindo, e disse:

– Celebrem mais um semideus reclamado! Henry Clawd, filho de Poseidon.

Ao meu redor as pessoas começaram a se levantar para bater palmas, até que, aí que eu entendi o “garfo” em minha corrente, não era um garfo era um tridente representando Poseidon, meu pai – fiquei pensativo – depois de alguns segundos as pessoas pararam de bater palmas e o brilho sumiu. As pessoas se sentaram novamente.

Durante o caminho de volta para a mesa, recebi olhares de admiração e raiva. Estava quase me sentando quando Kyle disse que eu não deveria me sentar ali, na mesa do chalé 11. Perguntei o porquê e ele respondeu:

– Você foi reclamado, deve ir se sentar na mesa do seu novo chalé. – Ele apontou para a mesa que tinha apenas um garoto. A mesa de Poseidon.

Desanimado, sentei-me de frente ao campista da mesa de Poseidon. Ele me olhou sorrindo e disse:

– Bem vindo ao chalé 3, irmão. Meu nome é Brandon, – Ele estendeu a mão – Brandon Kirchner. Cheguei aqui há menos de uma semana. Espero que eu possa te ajudar. – Ele tinha cabelos castanho-claros e olhos verdes. Era um pouco mais alto que eu e não conseguia ficar dois segundos sem sorrir.

Também me apresentei – apesar dele já saber meu nome – e conversamos um pouco sobre como funcionava o acampamento. Ele me indicou o local do chalé e eu expliquei como vim parar aqui. Ele ficou super curioso para conhecer a Jessie e a Marine. Assim que o jantar terminou, levei-o para conhecê-las.

Ele se apresentou às meninas e vice-versa, conversou bastante com a Jessie sobre tudo isso de ser semideus e tal. Até mesmo conseguiu arrancar algumas palavras da Marine. Esse cara devia ter algum superpoder de simpatia, só pode.

Alguns minutos mais tarde, ele se despediu das meninas e me puxou pelo braço, dizendo para irmos pro chalé.

– Se as Harpias te pegarem depois do toque de recolher, você ta ferrado. – Ele disse.

Me despedi das meninas com um pouco de preocupação – será que elas não iam se matar se ficassem sem alguém vigiando? – e segui Brandon em direção ao Chalé 3. O chalé era comprido, baixo e sólido. As paredes externas eram de pedras cinzentas rústicas salpicadas de pedaços de conchas e coral, como se as pedras tivessem sido cortadas diretamente do fundo do oceano. O número 3 de latão estava pregado acima da porta.

– Bem-vindo ao seu novo lar de verão – Brandon disse, abrindo a porta.

Por dentro consegui sentir o odor salgado do mar. As paredes internas brilhavam como madrepérola. Haviam seis beliches prontas para abrigarem semideuses. Em um canto da parede havia uma fonte com algumas moedas douradas ao lado. Comecei a me questionar o motivo das moedas ali, até que Brandon percebeu minha dúvida e se pronunciou:

– Estes são os dracmas. Estão aí para as mensagens de Íris.

– Mensagens de que?

– De Íris... Tem alguém com quem você deseja falar?

– Bom, tem minha mãe, mas...

– Como é o nome dela e aonde ela mora?

– Lucy Clawd, no Brooklyn

Brandon pegou uma das moedas, observou um ângulo de luz na fonte e jogou a moeda, dizendo:

– Ó, Íris, deusa do arco-íris, aceite essa oferenda. Mostre-me Lucy Clawd, Brooklyn.

Uma imagem se formou no ar, e minha mãe estava bem no centro.

– WOW! Que gata! – Brandon disse. O encarei feio e ele bateu na própria testa. – Opa, desculpa cara. Eu... eu vou deixar vocês sozinhos. É.

Minha mãe estava com lágrimas nos olhos, mas quando me viu, sorriu.

– Oh meus deuses, Henry, você está vivo. – Ela sorriu. Mas logo depois o sorriso desapareceu. – Isso é uma mensagem de Íris? Henry, o que... como... onde você está? O que aconteceu?

– Calma, mãe! Eu to bem, estou no acampamento meio-sangue, isso é uma mensagem de Íris e eu já sei quem é meu pai. – Disse tudo de uma vez, sem enrolação.

– Ah, eu devia ter previsto que logo isso iria acontecer.

– Como você sabia sobre a mensagem de Íris?

– Seu pai costumava me enviar algumas para perguntar sobre você, quando você era criança. – Fiquei surpreso com isso. – Mas como você foi parar aí?

Contei para ela sobre o zoológico e o professor Felix, mas pulei a parte do cão infernal para não deixa-la preocupada.

– Ah, meu filho, olha o perigo que você estava correndo! Seu pai me disse que o último filho dele morreu para salvar seus amigos, e olha só aonde você foi parar. – Por um instante me senti culpado por não ter obedecido Jessie e ter lutado contra o cão infernal. E se eu tivesse morrido, como ficaria minha mãe?

– Calma, mãe. Eu estou seguro agora, não se preocupe comigo. Eu vou ter que ir, meu meio-irmão está do lado de fora e já é quase hora do toque de recolher. Só queria te acalmar mesmo.

– E não conseguiu, mocinho. Temo que algo ruim aconteça a você. Mas vá, beijos. Tenha uma boa noite e se cuida, hein? – Ela disse, com a voz embargada, e a próxima coisa que eu vi foi a mão dela limpando o ar à sua frente, e a imagem se extinguiu.

Avisei a Brandon que ele podia entrar no chalé e fui direto a porta do Chalé para sair, mas Brandon me impediu.

– Eí! Onde é que você vai a essa hora? – Perguntou ele com um sorriso travesso – O toque de recolher vai soar a qualquer momento!

– Eu sei, eu só preciso de um tempo pra digerir tudo o que eu passei hoje – Disse tentando passar por baixo do braço dele – Hora que eu ouvi o toque eu volto. Prometo!

Ele me olhou de lado e depois ele riu.

– Tudo bem, mas cuidado com as Harpias, tá bom?

– Tudo bem, irmão mais velho! – Disse ironicamente enquanto eu passava pela porta.

– É isso aí. – Concordou ele com um sorrindo. E fechou a porta.

Do lado de fora estava bem iluminado, por causa da enorme fogueira que ficava na área do centro dos chalés.

Comecei a caminhar até sair da área dos chalés, não tinha mais ninguém nos campos pertos, agora estava muito escuro, só com o brilho das tochas e algumas partes do acampamento.

Decidi ir até o lago, porque era água né, e meu pai era deus do mar, quem sabe pudesse me ajudar a raciocinar.

Notas finais
Comentem se gostaram e se não gostaram também, é legal ouvir opiniões e eu não to fazendo nada mesmo :3